A velhice, aprender-lhe esses primeiros sinais
o cabelo «de prata» caindo agora um tudo nada mais
no lavatório ou simplesmente
ao deitar-se na cama o coração «que salta»
a moleza das pernas
não consolação nisto nenhuma
nem um crédito a favor
quando cotejadas as situações
(velhos nos asilos senhoras de preto à esmola
subindo a Rua Garrett)
a constatação dos anos «feitos
entre si para me perderem»
uma quase também
melancolia matadora
toda a máscara sufoca?
mas não para escapar a isto
usei-as talvez
quando me sento
à mesa e vejo aqui diante
do papel branco as unhas devastadas
como por um ácido
dentro do cesto o cão da casa
também já passa manhãs
à espera do sol quente
Fernando Assis Pacheco
Variações em Sousa
1984
Antologia de textos com cães dentro.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
OS CÃES
Eram loucos. Alguns deles eram loucos,
parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, «está um trapo», uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer somente, cães que somos
dez, vinte, chama-me «Niassa»,
ou «Tejo», vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.
Fernando Assis Pacheco
Catalabanza, Quilolo e Volta
1976
parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, «está um trapo», uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer somente, cães que somos
dez, vinte, chama-me «Niassa»,
ou «Tejo», vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.
Fernando Assis Pacheco
Catalabanza, Quilolo e Volta
1976
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
POESIA-CÃO
Com que então, coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
Alexandre O'Neill
Feira Cabisbaixa
1965
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
Alexandre O'Neill
Feira Cabisbaixa
1965
CÃO
Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Alexandre O'Neill
Abandono Vigiado
1960
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Alexandre O'Neill
Abandono Vigiado
1960
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Etiquetas
- A. M. Pires Cabral
- Abel Neves
- Adalberto Alves
- Adélia Prado
- Adília Lopes
- Adriana Areal Calvet
- Adriana Zapparoli
- Agustina Bessa-Luís
- Aimé Césaire
- Albert Camus
- Alberto Pimenta
- Alberto Soares
- Albino Forjaz de Sampaio
- Alexandre Bonafim
- Alexandre O'Neill
- Alface
- Álvaro de Campos
- Amadeu Baptista
- Ambrose Bierce
- Ana Hatherly
- Anna Swir
- Anne Perrier
- Antonia Pozzi
- António Aleixo
- António Cabrita
- Antonio Gamoneda
- António Gedeão
- António José Forte
- António Manuel Couto Viana
- António Nobre
- António Osório
- Antonio Vivaldi
- Armando Silva Carvalho
- Armindo Rodrigues
- Augusto Baptista
- Azinhal Abelho
- Bernardo Santareno
- Bertolt Brecht
- Boris Vian
- Canção
- Carlos Alberto Machado
- Carlos Bessa
- Carlos de Oliveira
- Carlos Drummond de Andrade
- Carlos Leite
- Carlos Marques Queirós
- Carlos Nejar
- Catarina Santiago Costa
- CÉLINE
- Cesare Pavese
- Charles Baudelaire
- Charles Bukowski
- Charles Fourier
- Cristovam Pavia
- Dalton Trevisan
- Dâmaso Alonso
- Daniel Jonas
- Daniil Harms
- Décio Pignatari
- Dimíter Ánguelov
- Diogo Alcoforado
- Donald Bartheleme
- Eça de Queiroz
- Eduarda Chiote
- Eduardo Galeano
- Eduardo Olímpio
- Eduardo Pitta
- Eduardo White
- Elsa Anahory
- Ensaio
- Eugénio de Andrade
- Fabrício Carpinejar
- Fernando Alves dos Santos
- Fernando Assis Pacheco
- Fernando de Castro Branco
- Fernando Luís Sampaio
- Fernando Machado Silva
- Fernando Pessoa
- Ferreira Gullar
- Fiama Hasse Pais Brandão
- Filipe Guerra
- Francisco Bugalho
- Francisco Duarte Mangas
- Franz Kafka
- Gez Walsh
- Gil de Carvalho
- Goethe
- Gonçalo M. Tavares
- Gottfried Benn
- Guilherme de Azevedo
- Gustave Flaubert
- H. P. Lovecraft
- Hans-Ulrich Treichel
- Heitor Ferraz
- Helder Macedo
- Henrique Manuel Bento Fialho
- Henry David Thoreau
- Herberto Helder
- Hugo Claus
- Hugo Williams
- Imagem
- Inês Lourenço
- Irene Lisboa
- István Örkény
- Jacques Tati
- Javier Tomeo
- Jean Cocteau
- Joan Vergés
- João Almeida
- João Camilo
- João de Deus
- João Habitualmente
- João Miguel Fernandes Jorge
- Joaquim Castro Caldas
- Joaquim Pessoa
- Jonathan Swift
- Jorge de Sena
- Jorge Fallorca
- Jorge Gomes Miranda
- Jorge Roque
- José Agostinho Baptista
- José Alberto Oliveira
- José Ángel Cilleruelo
- José António Almeida
- José Bento
- José Craveirinha
- José Pinto Carneiro
- José Régio
- José Ricardo Nunes
- José Santiago Naud
- José Saramago
- José Sebag
- Juana Castro
- Judith Herzberg
- Júlio Castañon Guimarães
- Júlio Henriques
- Karen Finley
- Khalil Gibran
- León Felipe
- Leonardo Gandolfi
- Liberato
- Livros
- Luís de Camões
- Luís Miguel Nava
- Malcolm Lowry
- manuel a. domingos
- Manuel de Freitas
- Manuel de Seabra
- Manuel de Sousa
- Manuel Moya
- Manuel Resende
- Marcial
- Marcin Sendecki
- Marco Denevi
- Maria da Inquietação Fausto
- Maria Gabriela Llansol
- Maria Velho da Costa
- Marina Tsvetayeva
- Mário Cesariny
- Mário Cláudio
- Mário Contumélias
- Mário-Henrique Leiria
- Mark Twain
- Max Aub
- Miguel Serras Pereira
- Miguel Torga
- Miguel-Manso
- Milton D. Heifetz
- Milton Torres
- Miquel Bauçã
- Miriam Reyes
- Narrativa Estrangeira
- Narrativa Portuguesa
- Natália Correia
- Neil Young
- Nicolau Saião
- Nikolai Gógol
- Nuno Costa Santos
- Nuno Félix da Costa
- Nuno Júdice
- Nuno Moura
- Paolo Buzzi
- Paula Glenadel
- Pedro Homem de Mello
- Pedro Mexia
- Peter Levi
- Pierre Louÿs
- Poesia Estrangeira
- Poesia Portuguesa
- Provérbio
- R. Lino
- Rainer Maria Rilke
- Raul Malaquias Marques
- Raymond Carver
- Rei David
- Renato Suttana
- Repórter X
- Roberto Juarroz
- Rogério Rôla
- Rosa Alice Branco
- Ruben A.
- Rui Baião
- Rui Caeiro
- Rui Carlos Souto
- Rui Costa
- Rui da Costa Lopes
- Rui Knopfli
- Rui Manuel Amaral
- Ruy Belo
- Samuel Beckett
- Sarah Kirsch
- Sergei Yesenin
- Sérgio Godinho
- Silvia Chueire
- Sítios
- Sophia de Mello Breyner Andresen
- Tomas Tranströmer
- Urbino de San-Payo
- valter hugo mãe
- Vasco Costa Marques
- Vergílio Ferreira
- Vídeo
- Vinicius de Moraes
- Vitorino Nemésio
- Vladimir Maiakovski
- Wil Tirion
- Wladimir Saldanha