eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento
tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros
entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada
depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou
ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia
estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar
e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo
o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória
dos lados não ficou nada
Mário Cesariny
burlescas teóricas e sentimentais
1972
Antologia de textos com cães dentro.
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
domingo, 11 de fevereiro de 2007
O CÃO
Exacto oboé de pêlo
por quatro patas contido
humano de não querer sê-lo
pontualmente enternecido
geométrica dose de amor
aos pés do dono rio
cão por fora absoluto
de cão não ser escondido
idioma de nascituro
povo no ovo, o seu latido
por nos seguir é cão.
Mas se seguido?
Natália Correia
O Vinho e a Lira
1966
por quatro patas contido
humano de não querer sê-lo
pontualmente enternecido
geométrica dose de amor
aos pés do dono rio
cão por fora absoluto
de cão não ser escondido
idioma de nascituro
povo no ovo, o seu latido
por nos seguir é cão.
Mas se seguido?
Natália Correia
O Vinho e a Lira
1966
sábado, 10 de fevereiro de 2007
UM POEMA ESQUIMÓ
Vejo aproximarem-se os brancos cães da aurora:
- Alto!, que vos atrelo ao meu trenó de gelo!
Herberto Helder
O Bebedor Nocturno
poemas mudados para português
1968
- Alto!, que vos atrelo ao meu trenó de gelo!
Herberto Helder
O Bebedor Nocturno
poemas mudados para português
1968
DEBAIXO DO VULCÃO
«alguém atirou um cão
morto às profundidades»
Malcolm Lowry
I
Malcolm
Lowry: vivo
mal como Lowry,
bebo
bem como Mal-
colm, como
mal como
Malcolm
come:
álcool
Malcolm, al
coolm,
ó
alcolmalcolm,
II
ó frígida
tequilla
no sopé do vulcão
por onde
o vulnerável cão
do espírito
ladra
e lavra
a essência
recôndita
do álcool:
conte-a
a bebidíssima
exigência
III
do meu
último copo,
sempre o último,
cante-a
o ex-extinto
vulcão
e por instinto
o vulnerável
cão,
ou plante-a
o próprio Lowry,
frágil,
entre lava
e neve:
IV
tépido mescal
para inventar
a mescaligrafia
gémea do som
ou da sombria
pauta musical
onde as notas florescem
em breves,
compactas corolas,
e hastes
que sobem, descem
esguiamente
os degraus
dum jardim,
V
enquanto
os índios passam
depressa
mas de pedra,
ficam
antepondo-se
ao norte
que fabrica
os países
com vidro,
com vinho, com visões
de vidrais vitais
debaixo
do vulcão,
VI
ó tépida tequilla,
existe ainda
o amor
e o vulnerável cão
do espírito
que lavra
cada palavra
oculta
por pudor
e a ladra
inutilmente
dentro
da garganta
vazia,
VII
frígido mescal
como um galope
na floresta
de vinho e vidro,
filtro
litro a litro,
animal,
animais,
e mais e só
o dorido espírito
do álcool
Malcolm,
entre neve
e lava:
VIII
os índios passam,
bebo, ficam
na sombria
pauta musical,
e o vulnerável cão
do amor
sossega pelo menos
um instante,
enquanto
os índios
sobem, descem
esguiamente
os degraus
das pirâmides.
Carlos de Oliveira
Micropaisagem
1968
morto às profundidades»
Malcolm Lowry
I
Malcolm
Lowry: vivo
mal como Lowry,
bebo
bem como Mal-
colm, como
mal como
Malcolm
come:
álcool
Malcolm, al
coolm,
ó
alcolmalcolm,
II
ó frígida
tequilla
no sopé do vulcão
por onde
o vulnerável cão
do espírito
ladra
e lavra
a essência
recôndita
do álcool:
conte-a
a bebidíssima
exigência
III
do meu
último copo,
sempre o último,
cante-a
o ex-extinto
vulcão
e por instinto
o vulnerável
cão,
ou plante-a
o próprio Lowry,
frágil,
entre lava
e neve:
IV
tépido mescal
para inventar
a mescaligrafia
gémea do som
ou da sombria
pauta musical
onde as notas florescem
em breves,
compactas corolas,
e hastes
que sobem, descem
esguiamente
os degraus
dum jardim,
V
enquanto
os índios passam
depressa
mas de pedra,
ficam
antepondo-se
ao norte
que fabrica
os países
com vidro,
com vinho, com visões
de vidrais vitais
debaixo
do vulcão,
VI
ó tépida tequilla,
existe ainda
o amor
e o vulnerável cão
do espírito
que lavra
cada palavra
oculta
por pudor
e a ladra
inutilmente
dentro
da garganta
vazia,
VII
frígido mescal
como um galope
na floresta
de vinho e vidro,
filtro
litro a litro,
animal,
animais,
e mais e só
o dorido espírito
do álcool
Malcolm,
entre neve
e lava:
VIII
os índios passam,
bebo, ficam
na sombria
pauta musical,
e o vulnerável cão
do amor
sossega pelo menos
um instante,
enquanto
os índios
sobem, descem
esguiamente
os degraus
das pirâmides.
Carlos de Oliveira
Micropaisagem
1968
terça-feira, 6 de fevereiro de 2007
EU, QUE PASSEI...
Eram gritos de uma dor humana
e um vento distante nas copas das árvores
embalando o silêncio e a lividez da rua
tortuosa, ambígua, de altos e mesquinhos prédios,
e becos e escadas e água correndo perdida
na beira de um passeio em que de súbito
havia janelas pequeninas, longíncuas, e uma luz enorme
suspensa entre nuvens, a cidade inteira
vista só de um lado como os gritos.
Um cão se esgueira de um caixote voltado.
E um vulto, encolhido no portal de onde o cão saíra,
dorme profundamente a solidão e o frio,
a casa, a cama e a mesa, tantas, tantas,
que mal os gritos se ouvem... tê-los-ia ouvido
eu que passei, que só passei, no sonho
de um vulto adormecido, que nele fui
a mão amiga, o rosto sorridente, a porta entreaberta,
os passos que se perdem no corredor comprido,
ao fundo a claridade, imensa gente, a vida,
a que é dos outros, se adivinha, vozes -
meus passos tristes mais um cão que foge.
23/4/48
Jorge de Sena
Pedra Filosofal
1950
e um vento distante nas copas das árvores
embalando o silêncio e a lividez da rua
tortuosa, ambígua, de altos e mesquinhos prédios,
e becos e escadas e água correndo perdida
na beira de um passeio em que de súbito
havia janelas pequeninas, longíncuas, e uma luz enorme
suspensa entre nuvens, a cidade inteira
vista só de um lado como os gritos.
Um cão se esgueira de um caixote voltado.
E um vulto, encolhido no portal de onde o cão saíra,
dorme profundamente a solidão e o frio,
a casa, a cama e a mesa, tantas, tantas,
que mal os gritos se ouvem... tê-los-ia ouvido
eu que passei, que só passei, no sonho
de um vulto adormecido, que nele fui
a mão amiga, o rosto sorridente, a porta entreaberta,
os passos que se perdem no corredor comprido,
ao fundo a claridade, imensa gente, a vida,
a que é dos outros, se adivinha, vozes -
meus passos tristes mais um cão que foge.
23/4/48
Jorge de Sena
Pedra Filosofal
1950
A MATILHA
As mãos perderam a força,
nunca a tiveram a não ser no descanso,
a que havia não dava por isso e chegava,
mas ao sentir os cães ladrando tão perto,
há pouco, onde fui eu buscar
a nobreza que me dirigiu os passos firmes,
me endireitou tão direito,
me fez olhar à volta com ar tão quotidiano,
e mesmo até me segurou o chapéu na cabeça?
Onde a fui eu buscar para ir ali como se a noite
se tecesse em estrelas
e as ruas em flores de silêncio,
ali, sentindo atrás a baba e os uivos
e o tropel das unhas não retráteis?
E, quando ficaram exibindo-se junto ao candeeiro,
ainda prossegui,
cheguei ao fim e parando ofegante,
vendo a escuridão molhada além dos vidros embaciados
e vendo o deserto e o passado a que tudo pertencia,
vendo à excepção dos lábios futuros que só agora distingo,
tive saudades do tropel...
tive saudades dos latidos...
e do meu ar sereno útil,
que este que ficou não serve para nada;
tive saudades, tenho-as,
e se agora ladrassem debaixo da janela,
não sei o que faria -
talvez lhes desse um osso...
talvez me abandonasse inteiro...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
desse o que desse, equivalia...
pois equivalia!...
mas eu tomei gosto à baba, cães vadios!
6,7/11/39
Jorge de Sena
Perseguição
1942
nunca a tiveram a não ser no descanso,
a que havia não dava por isso e chegava,
mas ao sentir os cães ladrando tão perto,
há pouco, onde fui eu buscar
a nobreza que me dirigiu os passos firmes,
me endireitou tão direito,
me fez olhar à volta com ar tão quotidiano,
e mesmo até me segurou o chapéu na cabeça?
Onde a fui eu buscar para ir ali como se a noite
se tecesse em estrelas
e as ruas em flores de silêncio,
ali, sentindo atrás a baba e os uivos
e o tropel das unhas não retráteis?
E, quando ficaram exibindo-se junto ao candeeiro,
ainda prossegui,
cheguei ao fim e parando ofegante,
vendo a escuridão molhada além dos vidros embaciados
e vendo o deserto e o passado a que tudo pertencia,
vendo à excepção dos lábios futuros que só agora distingo,
tive saudades do tropel...
tive saudades dos latidos...
e do meu ar sereno útil,
que este que ficou não serve para nada;
tive saudades, tenho-as,
e se agora ladrassem debaixo da janela,
não sei o que faria -
talvez lhes desse um osso...
talvez me abandonasse inteiro...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
desse o que desse, equivalia...
pois equivalia!...
mas eu tomei gosto à baba, cães vadios!
6,7/11/39
Jorge de Sena
Perseguição
1942
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
NOCTURNO
Quatro da madrugada.
Vivos,
sob o arco do céu,
eu
e um cão tão magro como eu.
Sem prévia combinação, sem nada,
tivemos este encontro nesta rua
a esta hora marcada
pelo aceno da lua.
E aqui vamos agora,
num amor vagabundo
de quem não se conhece e se namora,
a encher os dois sozinhos este mundo.
Coimbra, 16 de Maio de 1940.
Miguel Torga
Diário I
1941
Vivos,
sob o arco do céu,
eu
e um cão tão magro como eu.
Sem prévia combinação, sem nada,
tivemos este encontro nesta rua
a esta hora marcada
pelo aceno da lua.
E aqui vamos agora,
num amor vagabundo
de quem não se conhece e se namora,
a encher os dois sozinhos este mundo.
Coimbra, 16 de Maio de 1940.
Miguel Torga
Diário I
1941
domingo, 4 de fevereiro de 2007
CÃO ATÓMICO
1.
Este cão tem folhas nas orelhas,
Com quatro talos:
Mas o que este cão devia ter era calos,
E só tem olhos e ossos
E morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
Quase o diria meu irmão:
Parece gente!
2.
Este cão é redondo. Está deitado,
Rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
Mas perdeu a alcateia
Como os homens perderam a Razão,
Que hoje serve de osso ao cão
Escapo ao cogumelo nuclear.
E por essa razão se foi deitar.
Vitorino Nemésio
Limite De Idade
1972
Este cão tem folhas nas orelhas,
Com quatro talos:
Mas o que este cão devia ter era calos,
E só tem olhos e ossos
E morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
Quase o diria meu irmão:
Parece gente!
2.
Este cão é redondo. Está deitado,
Rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
Mas perdeu a alcateia
Como os homens perderam a Razão,
Que hoje serve de osso ao cão
Escapo ao cogumelo nuclear.
E por essa razão se foi deitar.
Vitorino Nemésio
Limite De Idade
1972
O recorte de um cão, na areia, ao luar.
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.
Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vai uivar a tanta eira?
Que longo e liso, o fio da noite!
- E amar, esperar desta maneira!
Numa cidade deserta
(Talvez outra, ou Nínive)
Encontrei um anel, uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.
Mas tudo isso foi vão,
E até nem sei se esse osso tive.
Vitorino Nemésio
Eu, Comovido A Oeste
1940
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.
Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vai uivar a tanta eira?
Que longo e liso, o fio da noite!
- E amar, esperar desta maneira!
Numa cidade deserta
(Talvez outra, ou Nínive)
Encontrei um anel, uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.
Mas tudo isso foi vão,
E até nem sei se esse osso tive.
Vitorino Nemésio
Eu, Comovido A Oeste
1940
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
INTERIOR COM CÃO
A velhice, aprender-lhe esses primeiros sinais
o cabelo «de prata» caindo agora um tudo nada mais
no lavatório ou simplesmente
ao deitar-se na cama o coração «que salta»
a moleza das pernas
não consolação nisto nenhuma
nem um crédito a favor
quando cotejadas as situações
(velhos nos asilos senhoras de preto à esmola
subindo a Rua Garrett)
a constatação dos anos «feitos
entre si para me perderem»
uma quase também
melancolia matadora
toda a máscara sufoca?
mas não para escapar a isto
usei-as talvez
quando me sento
à mesa e vejo aqui diante
do papel branco as unhas devastadas
como por um ácido
dentro do cesto o cão da casa
também já passa manhãs
à espera do sol quente
Fernando Assis Pacheco
Variações em Sousa
1984
o cabelo «de prata» caindo agora um tudo nada mais
no lavatório ou simplesmente
ao deitar-se na cama o coração «que salta»
a moleza das pernas
não consolação nisto nenhuma
nem um crédito a favor
quando cotejadas as situações
(velhos nos asilos senhoras de preto à esmola
subindo a Rua Garrett)
a constatação dos anos «feitos
entre si para me perderem»
uma quase também
melancolia matadora
toda a máscara sufoca?
mas não para escapar a isto
usei-as talvez
quando me sento
à mesa e vejo aqui diante
do papel branco as unhas devastadas
como por um ácido
dentro do cesto o cão da casa
também já passa manhãs
à espera do sol quente
Fernando Assis Pacheco
Variações em Sousa
1984
OS CÃES
Eram loucos. Alguns deles eram loucos,
parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, «está um trapo», uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer somente, cães que somos
dez, vinte, chama-me «Niassa»,
ou «Tejo», vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.
Fernando Assis Pacheco
Catalabanza, Quilolo e Volta
1976
parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, «está um trapo», uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer somente, cães que somos
dez, vinte, chama-me «Niassa»,
ou «Tejo», vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.
Fernando Assis Pacheco
Catalabanza, Quilolo e Volta
1976
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
POESIA-CÃO
Com que então, coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
Alexandre O'Neill
Feira Cabisbaixa
1965
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
Alexandre O'Neill
Feira Cabisbaixa
1965
CÃO
Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Alexandre O'Neill
Abandono Vigiado
1960
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Alexandre O'Neill
Abandono Vigiado
1960
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Etiquetas
- A. M. Pires Cabral
- Abel Neves
- Adalberto Alves
- Adélia Prado
- Adília Lopes
- Adriana Areal Calvet
- Adriana Zapparoli
- Agustina Bessa-Luís
- Aimé Césaire
- Albert Camus
- Alberto Pimenta
- Alberto Soares
- Albino Forjaz de Sampaio
- Alexandre Bonafim
- Alexandre O'Neill
- Alface
- Álvaro de Campos
- Amadeu Baptista
- Ambrose Bierce
- Ana Hatherly
- Anna Swir
- Anne Perrier
- Antonia Pozzi
- António Aleixo
- António Cabrita
- Antonio Gamoneda
- António Gedeão
- António José Forte
- António Manuel Couto Viana
- António Nobre
- António Osório
- Antonio Vivaldi
- Armando Silva Carvalho
- Armindo Rodrigues
- Augusto Baptista
- Azinhal Abelho
- Bernardo Santareno
- Bertolt Brecht
- Boris Vian
- Canção
- Carlos Alberto Machado
- Carlos Bessa
- Carlos de Oliveira
- Carlos Drummond de Andrade
- Carlos Leite
- Carlos Marques Queirós
- Carlos Nejar
- Catarina Santiago Costa
- CÉLINE
- Cesare Pavese
- Charles Baudelaire
- Charles Bukowski
- Charles Fourier
- Cristovam Pavia
- Dalton Trevisan
- Dâmaso Alonso
- Daniel Jonas
- Daniil Harms
- Décio Pignatari
- Dimíter Ánguelov
- Diogo Alcoforado
- Donald Bartheleme
- Eça de Queiroz
- Eduarda Chiote
- Eduardo Galeano
- Eduardo Olímpio
- Eduardo Pitta
- Eduardo White
- Elsa Anahory
- Ensaio
- Eugénio de Andrade
- Fabrício Carpinejar
- Fernando Alves dos Santos
- Fernando Assis Pacheco
- Fernando de Castro Branco
- Fernando Luís Sampaio
- Fernando Machado Silva
- Fernando Pessoa
- Ferreira Gullar
- Fiama Hasse Pais Brandão
- Filipe Guerra
- Francisco Bugalho
- Francisco Duarte Mangas
- Franz Kafka
- Gez Walsh
- Gil de Carvalho
- Goethe
- Gonçalo M. Tavares
- Gottfried Benn
- Guilherme de Azevedo
- Gustave Flaubert
- H. P. Lovecraft
- Hans-Ulrich Treichel
- Heitor Ferraz
- Helder Macedo
- Henrique Manuel Bento Fialho
- Henry David Thoreau
- Herberto Helder
- Hugo Claus
- Hugo Williams
- Imagem
- Inês Lourenço
- Irene Lisboa
- István Örkény
- Jacques Tati
- Javier Tomeo
- Jean Cocteau
- Joan Vergés
- João Almeida
- João Camilo
- João de Deus
- João Habitualmente
- João Miguel Fernandes Jorge
- Joaquim Castro Caldas
- Joaquim Pessoa
- Jonathan Swift
- Jorge de Sena
- Jorge Fallorca
- Jorge Gomes Miranda
- Jorge Roque
- José Agostinho Baptista
- José Alberto Oliveira
- José Ángel Cilleruelo
- José António Almeida
- José Bento
- José Craveirinha
- José Pinto Carneiro
- José Régio
- José Ricardo Nunes
- José Santiago Naud
- José Saramago
- José Sebag
- Juana Castro
- Judith Herzberg
- Júlio Castañon Guimarães
- Júlio Henriques
- Karen Finley
- Khalil Gibran
- León Felipe
- Leonardo Gandolfi
- Liberato
- Livros
- Luís de Camões
- Luís Miguel Nava
- Malcolm Lowry
- manuel a. domingos
- Manuel de Freitas
- Manuel de Seabra
- Manuel de Sousa
- Manuel Moya
- Manuel Resende
- Marcial
- Marcin Sendecki
- Marco Denevi
- Maria da Inquietação Fausto
- Maria Gabriela Llansol
- Maria Velho da Costa
- Marina Tsvetayeva
- Mário Cesariny
- Mário Cláudio
- Mário Contumélias
- Mário-Henrique Leiria
- Mark Twain
- Max Aub
- Miguel Serras Pereira
- Miguel Torga
- Miguel-Manso
- Milton D. Heifetz
- Milton Torres
- Miquel Bauçã
- Miriam Reyes
- Narrativa Estrangeira
- Narrativa Portuguesa
- Natália Correia
- Neil Young
- Nicolau Saião
- Nikolai Gógol
- Nuno Costa Santos
- Nuno Félix da Costa
- Nuno Júdice
- Nuno Moura
- Paolo Buzzi
- Paula Glenadel
- Pedro Homem de Mello
- Pedro Mexia
- Peter Levi
- Pierre Louÿs
- Poesia Estrangeira
- Poesia Portuguesa
- Provérbio
- R. Lino
- Rainer Maria Rilke
- Raul Malaquias Marques
- Raymond Carver
- Rei David
- Renato Suttana
- Repórter X
- Roberto Juarroz
- Rogério Rôla
- Rosa Alice Branco
- Ruben A.
- Rui Baião
- Rui Caeiro
- Rui Carlos Souto
- Rui Costa
- Rui da Costa Lopes
- Rui Knopfli
- Rui Manuel Amaral
- Ruy Belo
- Samuel Beckett
- Sarah Kirsch
- Sergei Yesenin
- Sérgio Godinho
- Silvia Chueire
- Sítios
- Sophia de Mello Breyner Andresen
- Tomas Tranströmer
- Urbino de San-Payo
- valter hugo mãe
- Vasco Costa Marques
- Vergílio Ferreira
- Vídeo
- Vinicius de Moraes
- Vitorino Nemésio
- Vladimir Maiakovski
- Wil Tirion
- Wladimir Saldanha