Aproxima-te, põe o ouvido na minha boca,
vou dizer-te um segredo,
está um homem com a noite deitado
nas areias, separado doutro homem
por um grito, ninguém o ouve,
o sol há tanto tempo apodrecido.
Não sei se espera a manhã
para partir ou vai ficar
com os cardos nas dunas, os olhos cheios
de ignorância e de bondade,
exposto
assim à calúnia, à ventania.
Como se fora um cão, menos ainda.
Eugénio de Andrade
Branco no Branco
1984
Antologia de textos com cães dentro.
segunda-feira, 12 de março de 2007
CONSTELAÇÕES DO VERÃO
Um corpo
estendido
nu
na iminência de ser música
diz o que penso
O fogo
súbita convulsão da água
sobe
pelas pernas
penetra os lábios
vacilantes do verão
exausto
e branco
porque entardecia
O olhar
cai
errante
cão
lambendo
a chama oscilante dos dedos
escassa língua
sobre flancos desertos
as palavras
tão leves que nem o ar feriam
nem sequer o ar
As palavras
que se levantam para recusar
(quando aprenderão a morder?)
são a nossa herança
E o fogo
Eugénio de Andrade
Véspera da Água
1973
estendido
nu
na iminência de ser música
diz o que penso
O fogo
súbita convulsão da água
sobe
pelas pernas
penetra os lábios
vacilantes do verão
exausto
e branco
porque entardecia
O olhar
cai
errante
cão
lambendo
a chama oscilante dos dedos
escassa língua
sobre flancos desertos
as palavras
tão leves que nem o ar feriam
nem sequer o ar
As palavras
que se levantam para recusar
(quando aprenderão a morder?)
são a nossa herança
E o fogo
Eugénio de Andrade
Véspera da Água
1973
domingo, 11 de março de 2007
COMEMORAR O CÃO
preciso céu azul-seco
abaixo dele
o cão raivoso
amarrado ao poste
da cidade pequena
treme e baba:
grande frio ao sol
a memória morde
quem comemora
desfigura o quem, o que
alheio
aos prados e às bananeiras
espera nada
sofre patibular
petrificado na cena
que me petrifica
Paula Glenadel
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003
Oferecido por Rui Almeida.
abaixo dele
o cão raivoso
amarrado ao poste
da cidade pequena
treme e baba:
grande frio ao sol
a memória morde
quem comemora
desfigura o quem, o que
alheio
aos prados e às bananeiras
espera nada
sofre patibular
petrificado na cena
que me petrifica
Paula Glenadel
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003
Oferecido por Rui Almeida.
BANDO
Homenagem a Ruy Belo
Aperto a renda da cortina
e o vestido do dia.
Minhas unhas estão compridas.
Espero os cães que remexem o lixo.
Recolher justamente o que recusei,
ordenar os restos e a sombra da recusa.
Esses cães que mastigam a polpa da noite,
a fibra de uma verdura vencida,
a embalagem de um rosto.
Esses cães vadios na coleira do instinto.
Sem a censura das pálpebras,
sem nomes que os façam ridículos.
Não perdendo tempo
caçando ratos nas árvores
ou o tempo no corpo.
Hoje os sinto novamente.
Aviso: é a última vez.
Limpo a zoeira da visita, pago a conta,
Encaderno as sobras que foram minhas.
E a raiva só pede que voltem.
Voltem
e me aceitem em seu bando.
Fabrício Carpinejar
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003
Oferecido por Rui Almeida.
sábado, 10 de março de 2007
O CÃO SÁBIO
Certo dia um cão sábio passou por um grupo de gatos. E vendo que os gatos pareciam preocupados falando entre si sem dar pela sua presença, decidiu parar para escutar o que diziam.
Levantou-se um gato, o maior, grave e sisudo, que dirigindo-se aos outros disse: Meus irmãos, rezai, porque se rezardes muitas vezes por certo choverão ratazanas.
Ao escutar estas palavras o cão riu-se com os seus botões e seguiu caminho dizendo: Gatos cegos e insensatos. Por acaso não está escrito, e não é dado adquirido que o que chove quando rezamos não são ratazanas, mas ossos?
Khalil Gibran
Versão de Ana Leal
O Louco
1997
sexta-feira, 9 de março de 2007
REQUIEM POR UM CÃO
Cão que matinalmente farejavas a calçada
as ervas os calhaus os seixos e os paralelipípedos
os restos de comida os restos de manhã
a chuva antes caída e convertida numa como que auréola da terra
cão que isso farejavas cão que nada disso já farejas
Foi um segundo súbito e ficaste ensanduichado
esborrachado comprimido e reduzido
debaixo do rodado imperturbável do pesado camião
Que tinhas que não tens diz-mo ou ladra-mo
ou utiliza então qualquer moderno meio de comunicação
diz-me lá cão que faísca fugiu do teu olhar
que falta nesse corpo afinal o mesmo corpo
só que embalado ou liofilizado?
Eras vivo e morreste nada mais teus donos
se é que os tinhas sempre que de ti falavam
falavam no presente falam no passado agora
Mudou alguma coisa de um momento para o outro
coisa sem importância de maior para quem passa
indiferente até ao halo da manhã de pensamento posto
em coisas práticas em coisas próximas
Cão que morreste tão caninamente
cão que morreste e me fazes pensar parar até
que o polícia me diz que siga em frente
Que se passou então? Um simples cão que era e já não é
Ruy Belo
Transporte no Tempo
1973
as ervas os calhaus os seixos e os paralelipípedos
os restos de comida os restos de manhã
a chuva antes caída e convertida numa como que auréola da terra
cão que isso farejavas cão que nada disso já farejas
Foi um segundo súbito e ficaste ensanduichado
esborrachado comprimido e reduzido
debaixo do rodado imperturbável do pesado camião
Que tinhas que não tens diz-mo ou ladra-mo
ou utiliza então qualquer moderno meio de comunicação
diz-me lá cão que faísca fugiu do teu olhar
que falta nesse corpo afinal o mesmo corpo
só que embalado ou liofilizado?
Eras vivo e morreste nada mais teus donos
se é que os tinhas sempre que de ti falavam
falavam no presente falam no passado agora
Mudou alguma coisa de um momento para o outro
coisa sem importância de maior para quem passa
indiferente até ao halo da manhã de pensamento posto
em coisas práticas em coisas próximas
Cão que morreste tão caninamente
cão que morreste e me fazes pensar parar até
que o polícia me diz que siga em frente
Que se passou então? Um simples cão que era e já não é
Ruy Belo
Transporte no Tempo
1973
quarta-feira, 7 de março de 2007
QUADRO
Indeciso ressurge do poente
Aureolado de espanto e de desastres
Em busca do seu corpo dividido
Todas as sombras se erguem das esquinas
E o seguem devagar nas ruas verdes
São como cães no rastro dos seus passos
Aberta a porta o quarto grave surge
E os espaços oscilam nas janelas.
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Tempo Dividido
1954
Aureolado de espanto e de desastres
Em busca do seu corpo dividido
Todas as sombras se erguem das esquinas
E o seguem devagar nas ruas verdes
São como cães no rastro dos seus passos
Aberta a porta o quarto grave surge
E os espaços oscilam nas janelas.
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Tempo Dividido
1954
terça-feira, 6 de março de 2007
MOONLIGHT SERENADE
E contudo a ordem do mundo
nem é um desejo do fundo
do coração mas
tão só o reclamado
entre o cuidado e cuidado
numa canção
sobre os dias que
passam sobre os rios que correm
sobre as montanhas que estão
sobre mim e os cães que à lua ladramos
sempre da mesma maneira e tudo
por causa do vento
da inquietação
Carlos Leite
O Desflashar dos Espaços
Black Sun, 1987
Nota: Poema oferecido por Rui Almeida.
nem é um desejo do fundo
do coração mas
tão só o reclamado
entre o cuidado e cuidado
numa canção
sobre os dias que
passam sobre os rios que correm
sobre as montanhas que estão
sobre mim e os cães que à lua ladramos
sempre da mesma maneira e tudo
por causa do vento
da inquietação
Carlos Leite
O Desflashar dos Espaços
Black Sun, 1987
Nota: Poema oferecido por Rui Almeida.
segunda-feira, 5 de março de 2007
domingo, 4 de março de 2007
AMAR UM CÃO (excerto)
_____ houve uma breve hesitação da parte de quem transportava o recém-nascido _____ o meu cão Jade, há muito tempo; muito, e com grande intensidade, aconteceu durante esse tempo breve em que Jade foi deixado suspenso sobre um medronheiro, sem mãe visível,
num berço nem celeste,
nem terrestre. No lugar que toda a planta acolhe, e que o entregara ao medronheiro,
sentia sobre si uma incidência animal alada, que nem era verdadeiramente pássaro,
nem verdadeiramente quadrúpede.
Era um fio de voz soando à altura do corpo musical que compunha a mata, um choro que coincidia com a convulsão das primeiras gotas de chuva; um sentimento ténue envolvia a cabeça emergindo do verde, e as pequeninas patas, saídas de um pano de baptista, não comoviam a planta lenhosa,
já habituada a palpitações e folhas.
mas o ritmo novo que, pouco a pouco, não se identificava com a chuva, e tornava vermelho de tempo activo a atmosfera, fez erguer o medronheiro sobre si mesmo
«que ser tão frágil mais alto do que eu».
Se o ar não tivesse uma densidade leve, teria quebrado Jade. Jade, que acabara de nascer sobre as bagas purpúreas dos medronhos,
e o ruído dos ramos partidos, já pensava. Um pensamento de leite subia nos sítios pedregosos, fora do local da casa, e da cerca com cerros e penhascos. Ele trazia nos olhos um instrumento azul para medir o diâmetro do sol, e dos astros; lia-se neles uma linguagem que só mais tarde, muito mais tarde, encontraria equivalente na boca:
«o meu Pai não existe fora da descrição do Sol; caminho através da murta, do aderno, a aroeira, e avistei esta serra em que a memória vê primeiro o porto nascer; mal nasci, situei-me, em vida interior, em face do mar; ergo para a minha dona os meus olhos frágeis, opondo-me a uma adversária que, de certeza, me ama: faço-lhe pedidos
luta comigo;
dá-me a sensação de ter saído vencido, mas com rebeldia.»
Maria Gabriela Llansol
Amar um Cão
1990
sábado, 3 de março de 2007
sexta-feira, 2 de março de 2007
TEMPO MORTO
Jogávamos pueris jogos de sexo, Xila,
corríamos entre girassóis,
morávamos numa cabana oculta na barreira.
Na lembrança, um cão malhado ladra
entre os arbustos.
Éramos tão crianças!, a vida nem chegava
a ser mistério
e não havia problemas de pão a resolver...
Apesar disso tu eras a mulher,
tu eras a Amante (mais subtil
e experiente de quantas tenho conhecido,
porque eras o grande livro da Inocência).
Eu era Tarzan dos Macacos,
tu, Jane morena.
Havia a inveja de Carlos e o ciúme de Sofia,
mas isso tornava-nos maiores ainda.
Amávamos na lonjura das tardes,
enquanto Foxie dormitava a um canto da cabana.
Sobre folhas verdes de acácia
tu não eras segredo
e, em mim, não morava o mistério.
Eras um duende de tranças pretas e olhos verdes,
eu era um potro selvagem.
Éramos sexo, lábios, mãos, epidermes
sem impureza.
Partiste ao anoitecer num navio amarelo,
levando juras eternas.
Quando voltaste
tinhas crescido e o teu corpo
esboçava outras formas.
Tomaras meneios senhoris,
falavas em pecado e em criancices reprováveis
com ar judicioso.
Eras a mentira, Xila!
A muralha do Impuro interpusera-se
entre mim e ti
e as nossas mãos não se estenderam
mais.
Eu,
fiquei na vida de calção.
E, certa manhã sem sol,
Foxie morreu atropelado.
A minha infância é um cão malhado.
Chama-se Foxie e ladra aos passantes.
Andou por aí
solto nos matos,
dormiu nos bancos ao relento,
olhou as estrelas, sem mistério
e sem as compreender.
Seu olhar langue e sem mágoa
aceitou as carícias e os pontapés
que lhe quiseram dar.
Sabia os recantos da rua
e os segredos do baldio defronte.
Conheceu noites de cio
e dias de vagabundagem.
Foi inconsequente
e - como já se disse
- morreu atropelado
numa escura manhã sem data.
Rui Knopfli
O País dos Outros
1959
corríamos entre girassóis,
morávamos numa cabana oculta na barreira.
Na lembrança, um cão malhado ladra
entre os arbustos.
Éramos tão crianças!, a vida nem chegava
a ser mistério
e não havia problemas de pão a resolver...
Apesar disso tu eras a mulher,
tu eras a Amante (mais subtil
e experiente de quantas tenho conhecido,
porque eras o grande livro da Inocência).
Eu era Tarzan dos Macacos,
tu, Jane morena.
Havia a inveja de Carlos e o ciúme de Sofia,
mas isso tornava-nos maiores ainda.
Amávamos na lonjura das tardes,
enquanto Foxie dormitava a um canto da cabana.
Sobre folhas verdes de acácia
tu não eras segredo
e, em mim, não morava o mistério.
Eras um duende de tranças pretas e olhos verdes,
eu era um potro selvagem.
Éramos sexo, lábios, mãos, epidermes
sem impureza.
Partiste ao anoitecer num navio amarelo,
levando juras eternas.
Quando voltaste
tinhas crescido e o teu corpo
esboçava outras formas.
Tomaras meneios senhoris,
falavas em pecado e em criancices reprováveis
com ar judicioso.
Eras a mentira, Xila!
A muralha do Impuro interpusera-se
entre mim e ti
e as nossas mãos não se estenderam
mais.
Eu,
fiquei na vida de calção.
E, certa manhã sem sol,
Foxie morreu atropelado.
A minha infância é um cão malhado.
Chama-se Foxie e ladra aos passantes.
Andou por aí
solto nos matos,
dormiu nos bancos ao relento,
olhou as estrelas, sem mistério
e sem as compreender.
Seu olhar langue e sem mágoa
aceitou as carícias e os pontapés
que lhe quiseram dar.
Sabia os recantos da rua
e os segredos do baldio defronte.
Conheceu noites de cio
e dias de vagabundagem.
Foi inconsequente
e - como já se disse
- morreu atropelado
numa escura manhã sem data.
Rui Knopfli
O País dos Outros
1959
O CÃO DA ANGÚSTIA
Tem eriçado e ralo o pêlo
como se de animal morto,
dos beiços gomosa baba lhe escorre
em grandes fios de reluzente espuma.
No olhar sangrento e fosco dura-lhe
uma mágoa antiga e resignada.
Mágoa, já não o sonho,
lacerado à sanha das alcateias.
Caminha trôpego e hesitante
sob o triângulo agoniado do focinho,
numa dança lenta e grotesca.
Todo o tempo lhe pertence
e não lhe sobra nenhum, cão
insonoro e furtivo, cão de sombra,
cão tardio e nocturno, ó cão
da nossa esperança lazarenta,
cão durável, cão indestrutível.
Rui Knopfli
Mangas Verdes Com Sal
1969
como se de animal morto,
dos beiços gomosa baba lhe escorre
em grandes fios de reluzente espuma.
No olhar sangrento e fosco dura-lhe
uma mágoa antiga e resignada.
Mágoa, já não o sonho,
lacerado à sanha das alcateias.
Caminha trôpego e hesitante
sob o triângulo agoniado do focinho,
numa dança lenta e grotesca.
Todo o tempo lhe pertence
e não lhe sobra nenhum, cão
insonoro e furtivo, cão de sombra,
cão tardio e nocturno, ó cão
da nossa esperança lazarenta,
cão durável, cão indestrutível.
Rui Knopfli
Mangas Verdes Com Sal
1969
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
I LOVE MY DOG
I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
All he asks from me is the food to give him strength
All he ever needs is love and that he knows hell get
So, I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
All the pay I need comes shining through his eyes
I dont need no cold water to make me realize that
I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
Na, na, na, na, na, na, nana...
I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
Na, na, na, na, na, na, nana...
I love my dog, baby, I love my dog. na, na, na...
I love my dog, baby, I love my dog. na, na, na...
Cat Stevens
Matthew & Son
1966
sábado, 24 de fevereiro de 2007
RETRATO DO ARTISTA EM CÃO JOVEM
Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por trás de lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos
aqui estás tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o cão vadio dos outros dias da semana
o cão de sempre
cada vez que há um cão jovem
neste local da terra
António José Forte
40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes Numa Girândola Implacável e Outros Poemas
1960
por trás de lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos
aqui estás tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o cão vadio dos outros dias da semana
o cão de sempre
cada vez que há um cão jovem
neste local da terra
António José Forte
40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes Numa Girândola Implacável e Outros Poemas
1960
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
TISANAS
1
A criança passeia pelo campo. Pára diante de um portão entreaberto. É o portão de uma grande quinta. A criança entra. Lá dentro está um cão enorme.
57
Teoricamente, se a percepção é finita toda a acção é finalmente fútil e devidamente grátis. Isto é verdade. Quem não reivindica sempre o seu direito ao repouso. Por exemplo agora estou de pé e à minha direita e à minha esquerda estão três cães com fitas brancas ao pescoço. Que quererá isto dizer penso. Os cães cumprem com perfeito conhecimento o solene ritual da espera, dizem-me. Que mais posso desejar. O significado é o que ficou do sinal.
58
Muitas vezes quando passeio à noite pela cidade me interrogo: o que é a solicitação pura e simples? Olho o chão e vejo um pedaço de vidro a brilhar ao mesmo tempo que pela rua abaixo voa um grande pedaço de jornal e a um canto um caixote do lixo ultrapassa em Archimboldo tudo o que há de involuntário nos gestos habituais. Estou considerando tudo isto e reflectindo quando passa por mim um cão. Lança-me um olhar rápido. Tem os olhos raiados de vermelho. Então eu penso quanto em cada acto há de fantástica abstracção.
157
Era uma vez um homem que tinha um cão. Quando passeava no bosque o cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. Um dia o cão morreu. O homem comprou outro cão. Como o anterior o novo cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se do outro cão. Mas um dia também esse cão morreu. De novo o homem comprou outro cão. Como os anteriores também este trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se dos outros cães. Por fim não foi preciso comprar mais nenhum cão. Par aonde fosse uma matilha seguia-o. Mais tarde nem era preciso já ir passear para o bosque.
158
Humilhação e holocausto. Vou a caminho da estação. Surge um cão preto relativamente pequeno. Fareja-me olha-me um instante eu olho para ele. Afasta-se atravessa a estrada. Segundos depois é atropelado por um automóvel. Oiço o estrondo fantástico da cabeça do cão batendo no pára-choques do carro.
159
Venho da estação. Numa esquina cruzo-me com um cão amarelo grande. Olha para mim e vai atravessar a rua quando vem um carro. Desvia-se a tempo e nesse instante preciso os nossos olhos cruzam-se. Nesse instante estabelece-se entre nós um entendimento profundo é um laço fraternal penso. Sem mais nenhuma outra manifestação acompanha-me até eu chegar a casa.
160
Sentada no parque vejo voar no ar um mar de pólen. Grãos de amor e ovo penso enquanto olho os cães que rebolam na relva. Os pássaros cantam furiosamente - gargalhadas ameaças assobios - ruído de fundo sobre um trabalho doméstico penso
179
O meu jardim. Agora é um parque. Passeio. Não há ninguém. Um esquilo corre apressado. As árvores já não têm folhas. Há pouca coisa para os animais comerem. Caminho por uma pequena álea. Oiço pássaros atrás de mim. Olho rapidamente e vejo um rapaz com bastante mau aspecto. Estamos sós. Não há absolutamente ninguém mais. Acelero um pouco até atingir o fim da álea, onde vejo um gradeamento e um cão lá dentro. Quando chego lá paro diante do cão e começo a falar com ele. O cão começa a ladrar furiosamente.
180
Estou no parque. É afastado do meu jardim. Quando estou a atravessar a ponte vejo em baixo uma rapariga que atira para o lago um pau para o seu cão ir buscar. O cão corre para a água mas não avança mais que vinte centímetros. O pau está a dois metros onde é fundo. O cão não avança. Volta atrás, entra de lado, não avança. Começa a ladrar. Sai e entra. Ladra. Está já desesperado. Não aguento mais. Sigo. Minutos depois vejo a mesma rapariga passar a meu lado. O cão vai atrás. Molhado. Cabisbaixo.
318
Os cães do vizinho incomodam-me quando vêm para a rua ladrar agressivamente a tudo e até a nada, só por afirmação territorial. Vou à varanda e mando-os calar. Umas vezes obedecem-me outras não. De qualquer modo incomodam-me mas quando penso neles sinto uma certa vergonha. Afinal eles estão apenas a cumprir o seu programa. Mas eu também.
331
Em Goa à noite. Os cães são muitos. Mas não ladram. Quando andam movem-se sem energia, cansados, desinteressados de tudo. Realmente: qual é o interesse da vida?
380
Pensar o presente conduz necessariamente ao desespero porque a vida não tem outra solução senão perpetuar-se na sua imperfeição. Em frente da minha janela vários cães seguem o rasto de uma cadela com cio que vagueia pela rua. À noite a cadela é fechada em casa. Os cães assentam arraial à sua porta com dignidade e persistência, numa total submissão à tirania do ensejo
424
Candid camera. Estou num restaurante apinhado de gente. É a hora do almoço. De repente entra uma senhora com um cãozinho de luxo pela trela. O cão senta-se diante de mim e fita-me. É branco. Tem os olhos pretos e o nariz também. Parece um amor-perfeito. E é.
Ana Hatherly
A criança passeia pelo campo. Pára diante de um portão entreaberto. É o portão de uma grande quinta. A criança entra. Lá dentro está um cão enorme.
57
Teoricamente, se a percepção é finita toda a acção é finalmente fútil e devidamente grátis. Isto é verdade. Quem não reivindica sempre o seu direito ao repouso. Por exemplo agora estou de pé e à minha direita e à minha esquerda estão três cães com fitas brancas ao pescoço. Que quererá isto dizer penso. Os cães cumprem com perfeito conhecimento o solene ritual da espera, dizem-me. Que mais posso desejar. O significado é o que ficou do sinal.
58
Muitas vezes quando passeio à noite pela cidade me interrogo: o que é a solicitação pura e simples? Olho o chão e vejo um pedaço de vidro a brilhar ao mesmo tempo que pela rua abaixo voa um grande pedaço de jornal e a um canto um caixote do lixo ultrapassa em Archimboldo tudo o que há de involuntário nos gestos habituais. Estou considerando tudo isto e reflectindo quando passa por mim um cão. Lança-me um olhar rápido. Tem os olhos raiados de vermelho. Então eu penso quanto em cada acto há de fantástica abstracção.
157
Era uma vez um homem que tinha um cão. Quando passeava no bosque o cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. Um dia o cão morreu. O homem comprou outro cão. Como o anterior o novo cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se do outro cão. Mas um dia também esse cão morreu. De novo o homem comprou outro cão. Como os anteriores também este trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se dos outros cães. Por fim não foi preciso comprar mais nenhum cão. Par aonde fosse uma matilha seguia-o. Mais tarde nem era preciso já ir passear para o bosque.
158
Humilhação e holocausto. Vou a caminho da estação. Surge um cão preto relativamente pequeno. Fareja-me olha-me um instante eu olho para ele. Afasta-se atravessa a estrada. Segundos depois é atropelado por um automóvel. Oiço o estrondo fantástico da cabeça do cão batendo no pára-choques do carro.
159
Venho da estação. Numa esquina cruzo-me com um cão amarelo grande. Olha para mim e vai atravessar a rua quando vem um carro. Desvia-se a tempo e nesse instante preciso os nossos olhos cruzam-se. Nesse instante estabelece-se entre nós um entendimento profundo é um laço fraternal penso. Sem mais nenhuma outra manifestação acompanha-me até eu chegar a casa.
160
Sentada no parque vejo voar no ar um mar de pólen. Grãos de amor e ovo penso enquanto olho os cães que rebolam na relva. Os pássaros cantam furiosamente - gargalhadas ameaças assobios - ruído de fundo sobre um trabalho doméstico penso
179
O meu jardim. Agora é um parque. Passeio. Não há ninguém. Um esquilo corre apressado. As árvores já não têm folhas. Há pouca coisa para os animais comerem. Caminho por uma pequena álea. Oiço pássaros atrás de mim. Olho rapidamente e vejo um rapaz com bastante mau aspecto. Estamos sós. Não há absolutamente ninguém mais. Acelero um pouco até atingir o fim da álea, onde vejo um gradeamento e um cão lá dentro. Quando chego lá paro diante do cão e começo a falar com ele. O cão começa a ladrar furiosamente.
180
Estou no parque. É afastado do meu jardim. Quando estou a atravessar a ponte vejo em baixo uma rapariga que atira para o lago um pau para o seu cão ir buscar. O cão corre para a água mas não avança mais que vinte centímetros. O pau está a dois metros onde é fundo. O cão não avança. Volta atrás, entra de lado, não avança. Começa a ladrar. Sai e entra. Ladra. Está já desesperado. Não aguento mais. Sigo. Minutos depois vejo a mesma rapariga passar a meu lado. O cão vai atrás. Molhado. Cabisbaixo.
318
Os cães do vizinho incomodam-me quando vêm para a rua ladrar agressivamente a tudo e até a nada, só por afirmação territorial. Vou à varanda e mando-os calar. Umas vezes obedecem-me outras não. De qualquer modo incomodam-me mas quando penso neles sinto uma certa vergonha. Afinal eles estão apenas a cumprir o seu programa. Mas eu também.
331
Em Goa à noite. Os cães são muitos. Mas não ladram. Quando andam movem-se sem energia, cansados, desinteressados de tudo. Realmente: qual é o interesse da vida?
380
Pensar o presente conduz necessariamente ao desespero porque a vida não tem outra solução senão perpetuar-se na sua imperfeição. Em frente da minha janela vários cães seguem o rasto de uma cadela com cio que vagueia pela rua. À noite a cadela é fechada em casa. Os cães assentam arraial à sua porta com dignidade e persistência, numa total submissão à tirania do ensejo
424
Candid camera. Estou num restaurante apinhado de gente. É a hora do almoço. De repente entra uma senhora com um cãozinho de luxo pela trela. O cão senta-se diante de mim e fita-me. É branco. Tem os olhos pretos e o nariz também. Parece um amor-perfeito. E é.
Ana Hatherly
463 Tisanas
1969-2006
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007
Imagens de Tóssan





Imagens de "Cão pên dio", editado pela Portugália, de Tóssan, António dos Santos, artista gráfico, caricaturista, desenhador e actor, enviadas pela Luísa do weblog No Silêncio do Deserto.
UMA CANÇÃO DE BEBER
O que foi Tróia, e o que foi meu cão,
Na mesma terra a mesma coisa são.
Quanto foi é despojos, e o que é hoje
Seus despojos sustenta de ilusão.
A vida viva da palavra dita,
A vida longa da palavra escrita,
A vida das palavras por dizer -
Qual dura? Qual é ser? Qual é...
22-7-1930
Fernando Pessoa
Canções de Beber
2003
Na mesma terra a mesma coisa são.
Quanto foi é despojos, e o que é hoje
Seus despojos sustenta de ilusão.
A vida viva da palavra dita,
A vida longa da palavra escrita,
A vida das palavras por dizer -
Qual dura? Qual é ser? Qual é...
22-7-1930
Fernando Pessoa
Canções de Beber
2003
UMA QUADRA AO GOSTO POPULAR
Toda a noite ouvi cães
P'ra manhã ouvi galos.
Tristeza - vem ter connosco.
Prazeres - é ir achá-los.
Fernando Pessoa
Quadras ao Gosto Popular
1973
P'ra manhã ouvi galos.
Tristeza - vem ter connosco.
Prazeres - é ir achá-los.
Fernando Pessoa
Quadras ao Gosto Popular
1973
domingo, 18 de fevereiro de 2007
PARQUE DE CAMPISMO
Limpei a nódoa e entrei
sorrindo à árvore
perguntei
se era ali que se faziam turistas
e disseram-me que sim
tirei logo o boné com atenção
porque já lá estavam
dois ingleses arm-in-arm
e de labita breve
olarila
com um ar
indubitavelmente marcial
de soldados ao sol
com falta de ar
afastei a perna
para deixar passar
o pássaro com a mala
mas tropecei no cão
que vinha
atrás do pássaro que passara
e que abriu uma enorme goela
tão goela hiante
que parecia
traduzida em alemão antigo
e quis morder-me a perna afastada
disse-lhe salsicha e outros exorcismos
veio logo o dono
dinamarquês muito erudito
que explicou tudo em sueco
como eu não sei sueco nem lapão
nem quem foi Druschken Alvarado
respondi-lhe
com a pronúncia das Vascongadas
e daí concluímos que
o cão com goela em tradução adiantada
era afinal a dona Josefa
proprietária da Pensão Afonso
falámos então com certo gáudio
em vários idiomas excitantes
falámos vasconso
e iogurte
e gargarejo
e sábado à noite
e luxamburger
e lembrámos melancolicamente
a dona Albertina
da ex-Pensão Ernesto
que fora por aí fora
a ver se lá não havia polícia
recordámos ainda
quanta mágoa
o Asdrúbal de Tabasco
e o seu simpático porco industrial
e despedimo-nos
à saída
encontrei de novo
a dona Josefa-cão
que conversava orgulhosa
com um coronel grego
disfarçado em pessoa
o pássaro passou sem a mala
assim vai o turismo
Mário-Henrique Leiria
Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro
1974
sorrindo à árvore
perguntei
se era ali que se faziam turistas
e disseram-me que sim
tirei logo o boné com atenção
porque já lá estavam
dois ingleses arm-in-arm
e de labita breve
olarila
com um ar
indubitavelmente marcial
de soldados ao sol
com falta de ar
afastei a perna
para deixar passar
o pássaro com a mala
mas tropecei no cão
que vinha
atrás do pássaro que passara
e que abriu uma enorme goela
tão goela hiante
que parecia
traduzida em alemão antigo
e quis morder-me a perna afastada
disse-lhe salsicha e outros exorcismos
veio logo o dono
dinamarquês muito erudito
que explicou tudo em sueco
como eu não sei sueco nem lapão
nem quem foi Druschken Alvarado
respondi-lhe
com a pronúncia das Vascongadas
e daí concluímos que
o cão com goela em tradução adiantada
era afinal a dona Josefa
proprietária da Pensão Afonso
falámos então com certo gáudio
em vários idiomas excitantes
falámos vasconso
e iogurte
e gargarejo
e sábado à noite
e luxamburger
e lembrámos melancolicamente
a dona Albertina
da ex-Pensão Ernesto
que fora por aí fora
a ver se lá não havia polícia
recordámos ainda
quanta mágoa
o Asdrúbal de Tabasco
e o seu simpático porco industrial
e despedimo-nos
à saída
encontrei de novo
a dona Josefa-cão
que conversava orgulhosa
com um coronel grego
disfarçado em pessoa
o pássaro passou sem a mala
assim vai o turismo
Mário-Henrique Leiria
Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro
1974
EXPLICAÇÃO RIGOROSA
Esperar
o quê?
uma máquina
de transformar bananas
em governos?
uma porta
que só obedece ao sinal
do ombro respeitável?
o cão profissional
que morde à sexta-feira
a perna que contesta?
o dedo
de unha poluída
que aponta a única direcção?
esperar
o quê?
o riso explosivo
e quente
como um sexo de mulher
aberto em flor
a faca
a granada
o dia
Mário-Henrique Leiria
Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro
1974
o quê?
uma máquina
de transformar bananas
em governos?
uma porta
que só obedece ao sinal
do ombro respeitável?
o cão profissional
que morde à sexta-feira
a perna que contesta?
o dedo
de unha poluída
que aponta a única direcção?
esperar
o quê?
o riso explosivo
e quente
como um sexo de mulher
aberto em flor
a faca
a granada
o dia
Mário-Henrique Leiria
Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro
1974
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
A MINHA SOMBRA VAI CAIR SOBRE O PRIMEIRO CÃO MORTO
A minha sombra vai cair sobre o primeiro cão morto
que uma tarde de esgotamentos funde na realidade
enquanto os braços bálsamo da noite
estendem ao vento um parto desgraçado.
Caminhar da luz para a treva e ver tudo;
vir do mar para a terra
e balançar nos grãos de vento;
beijar-te
e desejar antes ter uso que fazer projectos;
levar a meninice empoleirada no vestuário
e sujar a manhã
com um gesto generoso.
Zenide,
o herói da minha infância,
entra umbrático na minha vida
pelo lado fatal de um triângulo que me toca.
Como uma bala deixo um só dos meus cabelos
para veia do meu sangue.
E quando a névoa me traz uma colina de sargaços,
flor isolada,
num grito atravesso um futuro de limites convulsivos.
As minhas margens,
as minhas alamedas,
o fantasma que comunga comigo todas as madrugadas,
alguns anos de ausência disfarçada de rainha,
uma ardência débil na voz,
a minha folhagem submersa,
espaço e mais espaço a fulgir no meu corpo renovado
eis o átrio-astro da minha milenária profundidade.
Navego o vendaval
e nas minhas asas
música nenhuma me ama tanto
como eu beijo o incêndio dos teus seios.
Nenhuma neve esquecida dos meus passos
pulsa como tu.
Crescem nos meus dedos meiguices
e sempre
um quante mistério de outono
estremece na claridade da minha memória.
De penhasco em penhasco
vives em juventude um beijo que te espera
e que te escolhe
para alargar a solidão das mansões.
É dia nas águas onde a minha sede envolve pensamentos mágicos
e lento
o meu tossir
adivinha a fonte doente
que rasga na neblina os cérebros raros e escuros.
As chamas atravessam placidamente a rua
e vão beber com toda a equipagem do navio de meditações.
Morre num palácio
entre sedas claras
um mártir cavaleiro
que entrou em agonia
quando a catedral abriu os seus amplos claustros ao derradeiro par em lua-de-mel.
Sem cessar
do outro lado da lua cheia
o cão amadurece os seus sonhos de saber morrer.
O bafo do mar
abre-me aos nervos uma porta sobre a vida.
Entrançadas
morte e vida
são uma estrada para o sul da eternidade.
Nos olhos de um palhaço,
nas asas do milhafre,
desponta manso o teu olhar diferente
meu próprio fragmento livre
brotando furioso num gemido
sol no azul do universo.
A estrela descuidada
dá-me o teu cabelo loiro.
Aqui e ali
a paisagem prolonga-se
até aos limites do meu chamamento.
Hoje
bate à vidraça o cavername das ondas
e uma vela veste o meu silêncio
cada vez mais areal solene
mais eu e tu:
-silêncio do meu ser.
Fernando Alves dos Santos
Diário Flagrante
1954
que uma tarde de esgotamentos funde na realidade
enquanto os braços bálsamo da noite
estendem ao vento um parto desgraçado.
Caminhar da luz para a treva e ver tudo;
vir do mar para a terra
e balançar nos grãos de vento;
beijar-te
e desejar antes ter uso que fazer projectos;
levar a meninice empoleirada no vestuário
e sujar a manhã
com um gesto generoso.
Zenide,
o herói da minha infância,
entra umbrático na minha vida
pelo lado fatal de um triângulo que me toca.
Como uma bala deixo um só dos meus cabelos
para veia do meu sangue.
E quando a névoa me traz uma colina de sargaços,
flor isolada,
num grito atravesso um futuro de limites convulsivos.
As minhas margens,
as minhas alamedas,
o fantasma que comunga comigo todas as madrugadas,
alguns anos de ausência disfarçada de rainha,
uma ardência débil na voz,
a minha folhagem submersa,
espaço e mais espaço a fulgir no meu corpo renovado
eis o átrio-astro da minha milenária profundidade.
Navego o vendaval
e nas minhas asas
música nenhuma me ama tanto
como eu beijo o incêndio dos teus seios.
Nenhuma neve esquecida dos meus passos
pulsa como tu.
Crescem nos meus dedos meiguices
e sempre
um quante mistério de outono
estremece na claridade da minha memória.
De penhasco em penhasco
vives em juventude um beijo que te espera
e que te escolhe
para alargar a solidão das mansões.
É dia nas águas onde a minha sede envolve pensamentos mágicos
e lento
o meu tossir
adivinha a fonte doente
que rasga na neblina os cérebros raros e escuros.
As chamas atravessam placidamente a rua
e vão beber com toda a equipagem do navio de meditações.
Morre num palácio
entre sedas claras
um mártir cavaleiro
que entrou em agonia
quando a catedral abriu os seus amplos claustros ao derradeiro par em lua-de-mel.
Sem cessar
do outro lado da lua cheia
o cão amadurece os seus sonhos de saber morrer.
O bafo do mar
abre-me aos nervos uma porta sobre a vida.
Entrançadas
morte e vida
são uma estrada para o sul da eternidade.
Nos olhos de um palhaço,
nas asas do milhafre,
desponta manso o teu olhar diferente
meu próprio fragmento livre
brotando furioso num gemido
sol no azul do universo.
A estrela descuidada
dá-me o teu cabelo loiro.
Aqui e ali
a paisagem prolonga-se
até aos limites do meu chamamento.
Hoje
bate à vidraça o cavername das ondas
e uma vela veste o meu silêncio
cada vez mais areal solene
mais eu e tu:
-silêncio do meu ser.
Fernando Alves dos Santos
Diário Flagrante
1954
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
HISTÓRIA DE CÃO
eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento
tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros
entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada
depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou
ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia
estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar
e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo
o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória
dos lados não ficou nada
Mário Cesariny
burlescas teóricas e sentimentais
1972
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento
tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros
entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada
depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou
ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia
estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar
e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo
o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória
dos lados não ficou nada
Mário Cesariny
burlescas teóricas e sentimentais
1972
domingo, 11 de fevereiro de 2007
O CÃO
Exacto oboé de pêlo
por quatro patas contido
humano de não querer sê-lo
pontualmente enternecido
geométrica dose de amor
aos pés do dono rio
cão por fora absoluto
de cão não ser escondido
idioma de nascituro
povo no ovo, o seu latido
por nos seguir é cão.
Mas se seguido?
Natália Correia
O Vinho e a Lira
1966
por quatro patas contido
humano de não querer sê-lo
pontualmente enternecido
geométrica dose de amor
aos pés do dono rio
cão por fora absoluto
de cão não ser escondido
idioma de nascituro
povo no ovo, o seu latido
por nos seguir é cão.
Mas se seguido?
Natália Correia
O Vinho e a Lira
1966
sábado, 10 de fevereiro de 2007
UM POEMA ESQUIMÓ
Vejo aproximarem-se os brancos cães da aurora:
- Alto!, que vos atrelo ao meu trenó de gelo!
Herberto Helder
O Bebedor Nocturno
poemas mudados para português
1968
- Alto!, que vos atrelo ao meu trenó de gelo!
Herberto Helder
O Bebedor Nocturno
poemas mudados para português
1968
DEBAIXO DO VULCÃO
«alguém atirou um cão
morto às profundidades»
Malcolm Lowry
I
Malcolm
Lowry: vivo
mal como Lowry,
bebo
bem como Mal-
colm, como
mal como
Malcolm
come:
álcool
Malcolm, al
coolm,
ó
alcolmalcolm,
II
ó frígida
tequilla
no sopé do vulcão
por onde
o vulnerável cão
do espírito
ladra
e lavra
a essência
recôndita
do álcool:
conte-a
a bebidíssima
exigência
III
do meu
último copo,
sempre o último,
cante-a
o ex-extinto
vulcão
e por instinto
o vulnerável
cão,
ou plante-a
o próprio Lowry,
frágil,
entre lava
e neve:
IV
tépido mescal
para inventar
a mescaligrafia
gémea do som
ou da sombria
pauta musical
onde as notas florescem
em breves,
compactas corolas,
e hastes
que sobem, descem
esguiamente
os degraus
dum jardim,
V
enquanto
os índios passam
depressa
mas de pedra,
ficam
antepondo-se
ao norte
que fabrica
os países
com vidro,
com vinho, com visões
de vidrais vitais
debaixo
do vulcão,
VI
ó tépida tequilla,
existe ainda
o amor
e o vulnerável cão
do espírito
que lavra
cada palavra
oculta
por pudor
e a ladra
inutilmente
dentro
da garganta
vazia,
VII
frígido mescal
como um galope
na floresta
de vinho e vidro,
filtro
litro a litro,
animal,
animais,
e mais e só
o dorido espírito
do álcool
Malcolm,
entre neve
e lava:
VIII
os índios passam,
bebo, ficam
na sombria
pauta musical,
e o vulnerável cão
do amor
sossega pelo menos
um instante,
enquanto
os índios
sobem, descem
esguiamente
os degraus
das pirâmides.
Carlos de Oliveira
Micropaisagem
1968
morto às profundidades»
Malcolm Lowry
I
Malcolm
Lowry: vivo
mal como Lowry,
bebo
bem como Mal-
colm, como
mal como
Malcolm
come:
álcool
Malcolm, al
coolm,
ó
alcolmalcolm,
II
ó frígida
tequilla
no sopé do vulcão
por onde
o vulnerável cão
do espírito
ladra
e lavra
a essência
recôndita
do álcool:
conte-a
a bebidíssima
exigência
III
do meu
último copo,
sempre o último,
cante-a
o ex-extinto
vulcão
e por instinto
o vulnerável
cão,
ou plante-a
o próprio Lowry,
frágil,
entre lava
e neve:
IV
tépido mescal
para inventar
a mescaligrafia
gémea do som
ou da sombria
pauta musical
onde as notas florescem
em breves,
compactas corolas,
e hastes
que sobem, descem
esguiamente
os degraus
dum jardim,
V
enquanto
os índios passam
depressa
mas de pedra,
ficam
antepondo-se
ao norte
que fabrica
os países
com vidro,
com vinho, com visões
de vidrais vitais
debaixo
do vulcão,
VI
ó tépida tequilla,
existe ainda
o amor
e o vulnerável cão
do espírito
que lavra
cada palavra
oculta
por pudor
e a ladra
inutilmente
dentro
da garganta
vazia,
VII
frígido mescal
como um galope
na floresta
de vinho e vidro,
filtro
litro a litro,
animal,
animais,
e mais e só
o dorido espírito
do álcool
Malcolm,
entre neve
e lava:
VIII
os índios passam,
bebo, ficam
na sombria
pauta musical,
e o vulnerável cão
do amor
sossega pelo menos
um instante,
enquanto
os índios
sobem, descem
esguiamente
os degraus
das pirâmides.
Carlos de Oliveira
Micropaisagem
1968
terça-feira, 6 de fevereiro de 2007
EU, QUE PASSEI...
Eram gritos de uma dor humana
e um vento distante nas copas das árvores
embalando o silêncio e a lividez da rua
tortuosa, ambígua, de altos e mesquinhos prédios,
e becos e escadas e água correndo perdida
na beira de um passeio em que de súbito
havia janelas pequeninas, longíncuas, e uma luz enorme
suspensa entre nuvens, a cidade inteira
vista só de um lado como os gritos.
Um cão se esgueira de um caixote voltado.
E um vulto, encolhido no portal de onde o cão saíra,
dorme profundamente a solidão e o frio,
a casa, a cama e a mesa, tantas, tantas,
que mal os gritos se ouvem... tê-los-ia ouvido
eu que passei, que só passei, no sonho
de um vulto adormecido, que nele fui
a mão amiga, o rosto sorridente, a porta entreaberta,
os passos que se perdem no corredor comprido,
ao fundo a claridade, imensa gente, a vida,
a que é dos outros, se adivinha, vozes -
meus passos tristes mais um cão que foge.
23/4/48
Jorge de Sena
Pedra Filosofal
1950
e um vento distante nas copas das árvores
embalando o silêncio e a lividez da rua
tortuosa, ambígua, de altos e mesquinhos prédios,
e becos e escadas e água correndo perdida
na beira de um passeio em que de súbito
havia janelas pequeninas, longíncuas, e uma luz enorme
suspensa entre nuvens, a cidade inteira
vista só de um lado como os gritos.
Um cão se esgueira de um caixote voltado.
E um vulto, encolhido no portal de onde o cão saíra,
dorme profundamente a solidão e o frio,
a casa, a cama e a mesa, tantas, tantas,
que mal os gritos se ouvem... tê-los-ia ouvido
eu que passei, que só passei, no sonho
de um vulto adormecido, que nele fui
a mão amiga, o rosto sorridente, a porta entreaberta,
os passos que se perdem no corredor comprido,
ao fundo a claridade, imensa gente, a vida,
a que é dos outros, se adivinha, vozes -
meus passos tristes mais um cão que foge.
23/4/48
Jorge de Sena
Pedra Filosofal
1950
A MATILHA
As mãos perderam a força,
nunca a tiveram a não ser no descanso,
a que havia não dava por isso e chegava,
mas ao sentir os cães ladrando tão perto,
há pouco, onde fui eu buscar
a nobreza que me dirigiu os passos firmes,
me endireitou tão direito,
me fez olhar à volta com ar tão quotidiano,
e mesmo até me segurou o chapéu na cabeça?
Onde a fui eu buscar para ir ali como se a noite
se tecesse em estrelas
e as ruas em flores de silêncio,
ali, sentindo atrás a baba e os uivos
e o tropel das unhas não retráteis?
E, quando ficaram exibindo-se junto ao candeeiro,
ainda prossegui,
cheguei ao fim e parando ofegante,
vendo a escuridão molhada além dos vidros embaciados
e vendo o deserto e o passado a que tudo pertencia,
vendo à excepção dos lábios futuros que só agora distingo,
tive saudades do tropel...
tive saudades dos latidos...
e do meu ar sereno útil,
que este que ficou não serve para nada;
tive saudades, tenho-as,
e se agora ladrassem debaixo da janela,
não sei o que faria -
talvez lhes desse um osso...
talvez me abandonasse inteiro...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
desse o que desse, equivalia...
pois equivalia!...
mas eu tomei gosto à baba, cães vadios!
6,7/11/39
Jorge de Sena
Perseguição
1942
nunca a tiveram a não ser no descanso,
a que havia não dava por isso e chegava,
mas ao sentir os cães ladrando tão perto,
há pouco, onde fui eu buscar
a nobreza que me dirigiu os passos firmes,
me endireitou tão direito,
me fez olhar à volta com ar tão quotidiano,
e mesmo até me segurou o chapéu na cabeça?
Onde a fui eu buscar para ir ali como se a noite
se tecesse em estrelas
e as ruas em flores de silêncio,
ali, sentindo atrás a baba e os uivos
e o tropel das unhas não retráteis?
E, quando ficaram exibindo-se junto ao candeeiro,
ainda prossegui,
cheguei ao fim e parando ofegante,
vendo a escuridão molhada além dos vidros embaciados
e vendo o deserto e o passado a que tudo pertencia,
vendo à excepção dos lábios futuros que só agora distingo,
tive saudades do tropel...
tive saudades dos latidos...
e do meu ar sereno útil,
que este que ficou não serve para nada;
tive saudades, tenho-as,
e se agora ladrassem debaixo da janela,
não sei o que faria -
talvez lhes desse um osso...
talvez me abandonasse inteiro...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
desse o que desse, equivalia...
pois equivalia!...
mas eu tomei gosto à baba, cães vadios!
6,7/11/39
Jorge de Sena
Perseguição
1942
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
NOCTURNO
Quatro da madrugada.
Vivos,
sob o arco do céu,
eu
e um cão tão magro como eu.
Sem prévia combinação, sem nada,
tivemos este encontro nesta rua
a esta hora marcada
pelo aceno da lua.
E aqui vamos agora,
num amor vagabundo
de quem não se conhece e se namora,
a encher os dois sozinhos este mundo.
Coimbra, 16 de Maio de 1940.
Miguel Torga
Diário I
1941
Vivos,
sob o arco do céu,
eu
e um cão tão magro como eu.
Sem prévia combinação, sem nada,
tivemos este encontro nesta rua
a esta hora marcada
pelo aceno da lua.
E aqui vamos agora,
num amor vagabundo
de quem não se conhece e se namora,
a encher os dois sozinhos este mundo.
Coimbra, 16 de Maio de 1940.
Miguel Torga
Diário I
1941
domingo, 4 de fevereiro de 2007
CÃO ATÓMICO
1.
Este cão tem folhas nas orelhas,
Com quatro talos:
Mas o que este cão devia ter era calos,
E só tem olhos e ossos
E morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
Quase o diria meu irmão:
Parece gente!
2.
Este cão é redondo. Está deitado,
Rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
Mas perdeu a alcateia
Como os homens perderam a Razão,
Que hoje serve de osso ao cão
Escapo ao cogumelo nuclear.
E por essa razão se foi deitar.
Vitorino Nemésio
Limite De Idade
1972
Este cão tem folhas nas orelhas,
Com quatro talos:
Mas o que este cão devia ter era calos,
E só tem olhos e ossos
E morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
Quase o diria meu irmão:
Parece gente!
2.
Este cão é redondo. Está deitado,
Rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
Mas perdeu a alcateia
Como os homens perderam a Razão,
Que hoje serve de osso ao cão
Escapo ao cogumelo nuclear.
E por essa razão se foi deitar.
Vitorino Nemésio
Limite De Idade
1972
O recorte de um cão, na areia, ao luar.
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.
Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vai uivar a tanta eira?
Que longo e liso, o fio da noite!
- E amar, esperar desta maneira!
Numa cidade deserta
(Talvez outra, ou Nínive)
Encontrei um anel, uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.
Mas tudo isso foi vão,
E até nem sei se esse osso tive.
Vitorino Nemésio
Eu, Comovido A Oeste
1940
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.
Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vai uivar a tanta eira?
Que longo e liso, o fio da noite!
- E amar, esperar desta maneira!
Numa cidade deserta
(Talvez outra, ou Nínive)
Encontrei um anel, uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.
Mas tudo isso foi vão,
E até nem sei se esse osso tive.
Vitorino Nemésio
Eu, Comovido A Oeste
1940
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
INTERIOR COM CÃO
A velhice, aprender-lhe esses primeiros sinais
o cabelo «de prata» caindo agora um tudo nada mais
no lavatório ou simplesmente
ao deitar-se na cama o coração «que salta»
a moleza das pernas
não consolação nisto nenhuma
nem um crédito a favor
quando cotejadas as situações
(velhos nos asilos senhoras de preto à esmola
subindo a Rua Garrett)
a constatação dos anos «feitos
entre si para me perderem»
uma quase também
melancolia matadora
toda a máscara sufoca?
mas não para escapar a isto
usei-as talvez
quando me sento
à mesa e vejo aqui diante
do papel branco as unhas devastadas
como por um ácido
dentro do cesto o cão da casa
também já passa manhãs
à espera do sol quente
Fernando Assis Pacheco
Variações em Sousa
1984
o cabelo «de prata» caindo agora um tudo nada mais
no lavatório ou simplesmente
ao deitar-se na cama o coração «que salta»
a moleza das pernas
não consolação nisto nenhuma
nem um crédito a favor
quando cotejadas as situações
(velhos nos asilos senhoras de preto à esmola
subindo a Rua Garrett)
a constatação dos anos «feitos
entre si para me perderem»
uma quase também
melancolia matadora
toda a máscara sufoca?
mas não para escapar a isto
usei-as talvez
quando me sento
à mesa e vejo aqui diante
do papel branco as unhas devastadas
como por um ácido
dentro do cesto o cão da casa
também já passa manhãs
à espera do sol quente
Fernando Assis Pacheco
Variações em Sousa
1984
OS CÃES
Eram loucos. Alguns deles eram loucos,
parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, «está um trapo», uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer somente, cães que somos
dez, vinte, chama-me «Niassa»,
ou «Tejo», vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.
Fernando Assis Pacheco
Catalabanza, Quilolo e Volta
1976
parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, «está um trapo», uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer somente, cães que somos
dez, vinte, chama-me «Niassa»,
ou «Tejo», vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.
Fernando Assis Pacheco
Catalabanza, Quilolo e Volta
1976
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
POESIA-CÃO
Com que então, coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
Alexandre O'Neill
Feira Cabisbaixa
1965
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
Alexandre O'Neill
Feira Cabisbaixa
1965
CÃO
Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Alexandre O'Neill
Abandono Vigiado
1960
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Alexandre O'Neill
Abandono Vigiado
1960
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