Antologia de textos com cães dentro.

terça-feira, 13 de março de 2007

SNOOPY

TERRESTRE

Depois da morte do cão,
os pombos passaram a ser
os seus animais de companhia,
porque não careciam de mãos humanas
nem cuidados de dono. Habitavam
qualquer vão de telha ou côncavo de
ramo. Trelas e coleiras eram
agora uma passada invenção
terrestre, jamais possível
entre um humano e uma ave.

Inês Lourenço
A Enganosa Respiração da Manhã
2002

segunda-feira, 12 de março de 2007

XLII

Aproxima-te, põe o ouvido na minha boca,
vou dizer-te um segredo,
está um homem com a noite deitado
nas areias, separado doutro homem

por um grito, ninguém o ouve,
o sol há tanto tempo apodrecido.
Não sei se espera a manhã
para partir ou vai ficar

com os cardos nas dunas, os olhos cheios
de ignorância e de bondade,
exposto
assim à calúnia, à ventania.

Como se fora um cão, menos ainda.

Eugénio de Andrade
Branco no Branco
1984

CONSTELAÇÕES DO VERÃO

Um corpo
estendido
nu
na iminência de ser música

diz o que penso

O fogo
súbita convulsão da água

sobe
pelas pernas
penetra os lábios

vacilantes do verão

exausto
e branco
porque entardecia

O olhar
cai

errante
cão

lambendo
a chama oscilante dos dedos

escassa língua
sobre flancos desertos

as palavras
tão leves que nem o ar feriam
nem sequer o ar

As palavras
que se levantam para recusar
(quando aprenderão a morder?)
são a nossa herança

E o fogo

Eugénio de Andrade
Véspera da Água
1973

domingo, 11 de março de 2007

COMEMORAR O CÃO

preciso céu azul-seco

abaixo dele
o cão raivoso
amarrado ao poste
da cidade pequena
treme e baba:
grande frio ao sol

a memória morde
quem comemora
desfigura o quem, o que

alheio
aos prados e às bananeiras
espera nada
sofre patibular
petrificado na cena
que me petrifica

Paula Glenadel
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003


Oferecido por Rui Almeida.

BANDO

Homenagem a Ruy Belo

Aperto a renda da cortina
e o vestido do dia.
Minhas unhas estão compridas.
Espero os cães que remexem o lixo.

Recolher justamente o que recusei,
ordenar os restos e a sombra da recusa.
Esses cães que mastigam a polpa da noite,
a fibra de uma verdura vencida,

a embalagem de um rosto.
Esses cães vadios na coleira do instinto.
Sem a censura das pálpebras,
sem nomes que os façam ridículos.

Não perdendo tempo
caçando ratos nas árvores
ou o tempo no corpo.
Hoje os sinto novamente.

Aviso: é a última vez.
Limpo a zoeira da visita, pago a conta,
Encaderno as sobras que foram minhas.
E a raiva só pede que voltem.

Voltem
e me aceitem em seu bando.

Fabrício Carpinejar
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003

Oferecido por Rui Almeida.

sábado, 10 de março de 2007

O CÃO SÁBIO

Certo dia um cão sábio passou por um grupo de gatos. E vendo que os gatos pareciam preocupados falando entre si sem dar pela sua presença, decidiu parar para escutar o que diziam.
Levantou-se um gato, o maior, grave e sisudo, que dirigindo-se aos outros disse: Meus irmãos, rezai, porque se rezardes muitas vezes por certo choverão ratazanas.
Ao escutar estas palavras o cão riu-se com os seus botões e seguiu caminho dizendo: Gatos cegos e insensatos. Por acaso não está escrito, e não é dado adquirido que o que chove quando rezamos não são ratazanas, mas ossos?
Khalil Gibran
Versão de Ana Leal
O Louco
1997

sexta-feira, 9 de março de 2007

Domenico Mangano, Dead Dog, 2006

REQUIEM POR UM CÃO

Cão que matinalmente farejavas a calçada
as ervas os calhaus os seixos e os paralelipípedos
os restos de comida os restos de manhã
a chuva antes caída e convertida numa como que auréola da terra
cão que isso farejavas cão que nada disso já farejas
Foi um segundo súbito e ficaste ensanduichado
esborrachado comprimido e reduzido
debaixo do rodado imperturbável do pesado camião
Que tinhas que não tens diz-mo ou ladra-mo
ou utiliza então qualquer moderno meio de comunicação
diz-me lá cão que faísca fugiu do teu olhar
que falta nesse corpo afinal o mesmo corpo
só que embalado ou liofilizado?
Eras vivo e morreste nada mais teus donos
se é que os tinhas sempre que de ti falavam
falavam no presente falam no passado agora
Mudou alguma coisa de um momento para o outro
coisa sem importância de maior para quem passa
indiferente até ao halo da manhã de pensamento posto
em coisas práticas em coisas próximas
Cão que morreste tão caninamente
cão que morreste e me fazes pensar parar até
que o polícia me diz que siga em frente
Que se passou então? Um simples cão que era e já não é

Ruy Belo
Transporte no Tempo
1973

quarta-feira, 7 de março de 2007

Egon Schiele, Girl Playing with Dog, 1917

QUADRO

Indeciso ressurge do poente
Aureolado de espanto e de desastres
Em busca do seu corpo dividido

Todas as sombras se erguem das esquinas
E o seguem devagar nas ruas verdes
São como cães no rastro dos seus passos

Aberta a porta o quarto grave surge
E os espaços oscilam nas janelas.

Sophia de Mello Breyner Andresen
No Tempo Dividido
1954

terça-feira, 6 de março de 2007

MOONLIGHT SERENADE

E contudo a ordem do mundo
nem é um desejo do fundo
do coração mas

tão só o reclamado
entre o cuidado e cuidado
numa canção

sobre os dias que
passam sobre os rios que correm
sobre as montanhas que estão

sobre mim e os cães que à lua ladramos
sempre da mesma maneira e tudo
por causa do vento

da inquietação

Carlos Leite
O Desflashar dos Espaços
Black Sun, 1987


Nota: Poema oferecido por Rui Almeida.

segunda-feira, 5 de março de 2007

domingo, 4 de março de 2007

AMAR UM CÃO (excerto)


_____ houve uma breve hesitação da parte de quem transportava o recém-nascido _____ o meu cão Jade, há muito tempo; muito, e com grande intensidade, aconteceu durante esse tempo breve em que Jade foi deixado suspenso sobre um medronheiro, sem mãe visível,
num berço nem celeste,
nem terrestre. No lugar que toda a planta acolhe, e que o entregara ao medronheiro,
sentia sobre si uma incidência animal alada, que nem era verdadeiramente pássaro,
nem verdadeiramente quadrúpede.

Era um fio de voz soando à altura do corpo musical que compunha a mata, um choro que coincidia com a convulsão das primeiras gotas de chuva; um sentimento ténue envolvia a cabeça emergindo do verde, e as pequeninas patas, saídas de um pano de baptista, não comoviam a planta lenhosa,
já habituada a palpitações e folhas.

mas o ritmo novo que, pouco a pouco, não se identificava com a chuva, e tornava vermelho de tempo activo a atmosfera, fez erguer o medronheiro sobre si mesmo
«que ser tão frágil mais alto do que eu».

Se o ar não tivesse uma densidade leve, teria quebrado Jade. Jade, que acabara de nascer sobre as bagas purpúreas dos medronhos,
e o ruído dos ramos partidos, já pensava. Um pensamento de leite subia nos sítios pedregosos, fora do local da casa, e da cerca com cerros e penhascos. Ele trazia nos olhos um instrumento azul para medir o diâmetro do sol, e dos astros; lia-se neles uma linguagem que só mais tarde, muito mais tarde, encontraria equivalente na boca:

«o meu Pai não existe fora da descrição do Sol; caminho através da murta, do aderno, a aroeira, e avistei esta serra em que a memória vê primeiro o porto nascer; mal nasci, situei-me, em vida interior, em face do mar; ergo para a minha dona os meus olhos frágeis, opondo-me a uma adversária que, de certeza, me ama: faço-lhe pedidos

luta comigo;
dá-me a sensação de ter saído vencido, mas com rebeldia.»
Maria Gabriela Llansol
Amar um Cão
1990

sábado, 3 de março de 2007

O cão com raiva, do seu dono trava.
Francis Bacon, Dog, 1952.

sexta-feira, 2 de março de 2007

TEMPO MORTO

Jogávamos pueris jogos de sexo, Xila,
corríamos entre girassóis,
morávamos numa cabana oculta na barreira.

Na lembrança, um cão malhado ladra
entre os arbustos.

Éramos tão crianças!, a vida nem chegava
a ser mistério
e não havia problemas de pão a resolver...
Apesar disso tu eras a mulher,
tu eras a Amante (mais subtil
e experiente de quantas tenho conhecido,
porque eras o grande livro da Inocência).
Eu era Tarzan dos Macacos,
tu, Jane morena.
Havia a inveja de Carlos e o ciúme de Sofia,
mas isso tornava-nos maiores ainda.
Amávamos na lonjura das tardes,
enquanto Foxie dormitava a um canto da cabana.
Sobre folhas verdes de acácia
tu não eras segredo
e, em mim, não morava o mistério.
Eras um duende de tranças pretas e olhos verdes,
eu era um potro selvagem.
Éramos sexo, lábios, mãos, epidermes
sem impureza.
Partiste ao anoitecer num navio amarelo,
levando juras eternas.

Quando voltaste
tinhas crescido e o teu corpo
esboçava outras formas.
Tomaras meneios senhoris,
falavas em pecado e em criancices reprováveis
com ar judicioso.
Eras a mentira, Xila!
A muralha do Impuro interpusera-se
entre mim e ti
e as nossas mãos não se estenderam
mais.

Eu,
fiquei na vida de calção.
E, certa manhã sem sol,
Foxie morreu atropelado.

A minha infância é um cão malhado.
Chama-se Foxie e ladra aos passantes.
Andou por aí
solto nos matos,
dormiu nos bancos ao relento,
olhou as estrelas, sem mistério
e sem as compreender.
Seu olhar langue e sem mágoa
aceitou as carícias e os pontapés
que lhe quiseram dar.
Sabia os recantos da rua
e os segredos do baldio defronte.

Conheceu noites de cio
e dias de vagabundagem.

Foi inconsequente
e - como já se disse
- morreu atropelado
numa escura manhã sem data.

Rui Knopfli
O País dos Outros
1959

O CÃO DA ANGÚSTIA

Tem eriçado e ralo o pêlo
como se de animal morto,
dos beiços gomosa baba lhe escorre
em grandes fios de reluzente espuma.
No olhar sangrento e fosco dura-lhe
uma mágoa antiga e resignada.
Mágoa, já não o sonho,
lacerado à sanha das alcateias.
Caminha trôpego e hesitante
sob o triângulo agoniado do focinho,
numa dança lenta e grotesca.
Todo o tempo lhe pertence
e não lhe sobra nenhum, cão
insonoro e furtivo, cão de sombra,
cão tardio e nocturno, ó cão
da nossa esperança lazarenta,
cão durável, cão indestrutível.

Rui Knopfli
Mangas Verdes Com Sal
1969

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

I LOVE MY DOG


I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
All he asks from me is the food to give him strength
All he ever needs is love and that he knows hell get
So, I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
All the pay I need comes shining through his eyes
I dont need no cold water to make me realize that
I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
Na, na, na, na, na, na, nana...
I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
Na, na, na, na, na, na, nana...
I love my dog, baby, I love my dog. na, na, na...
I love my dog, baby, I love my dog. na, na, na...

Cat Stevens
Matthew & Son
1966

sábado, 24 de fevereiro de 2007

RETRATO DO ARTISTA EM CÃO JOVEM

Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por trás de lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos

aqui estás tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o cão vadio dos outros dias da semana
o cão de sempre
cada vez que há um cão jovem
neste local da terra

António José Forte
40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes Numa Girândola Implacável e Outros Poemas
1960

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Cão de raça não usa coleira.

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