Antologia de textos com cães dentro.

sábado, 17 de março de 2007

os cães cara a cara, ou o cão no espelho
o pêlo ereto do lombo até o rabo
o focinho frio aquoso o focinho
sem ser parte. as presas de fora
o ronco do fundo dos peitos o ronco
mais forte que a força do cão, o custeio da imagem
a palmilha sob a pata.
a acareação dos cães, o mesmo que a fala de um só
a verdade do cão o pensar esquemático o semafórico o zelo seu
pelo diapositivo a cores, seta / direção / apito

- a sutura, o devir nacional
o dever cumprido

Milton Torres
No Fim das Terras
2005

sexta-feira, 16 de março de 2007

Cama no chão, cama de cão.

Joan Miró, Dog barking at the Moon, 1952
Não me admiro nada por os homens amarem tanto os cães:
Pois um miserável patife é tanto o homem como o cão.

J. W. Goethe
traduzido por João Barrento
Poesia
Círculo de Leitores, 1993

quinta-feira, 15 de março de 2007

OUÇO FALAR

Ouço falar da minha vocação
mendicante, e sorrio. Porque não sei
se tal vocação não é apenas
uma escolha entre riquezas, como Keats
diz ser a poesia.
Desci à rua pensando nisto,
atravessei o jardim, um cão
saltava à minha frente,
louco com as folhas do outono
que principiara, e doiravam
o chão. A música
digamos assim,
a que toda a alma aspira,
quando a alma
aspira a ter do mundo o melhor dele,
corria à minha frente, subia
por certo aos ouvidos de deus
com a ajuda de um cão,
que nem sequer me pertencia.

Eugénio de Andrade
O Sal da Língua
1995

Oferecido por Inês Lourenço.

EM PLENA MONTANHA:

Um esquiador e um bêbedo meteram-se pela montanha acima e foram surpreendidos por uma forte tempestade. Já quase desesperados, vêem ao longe um São Bernardo com a sua barriquinha de whisky pendurada na coleira. Grita, aliviado, o esquiador : Lá vem o melhor amigo do homem! Clama, exultante, o bêbado: E traz um cão!

Oferecido por Inês Lourenço.

terça-feira, 13 de março de 2007

SNOOPY

TERRESTRE

Depois da morte do cão,
os pombos passaram a ser
os seus animais de companhia,
porque não careciam de mãos humanas
nem cuidados de dono. Habitavam
qualquer vão de telha ou côncavo de
ramo. Trelas e coleiras eram
agora uma passada invenção
terrestre, jamais possível
entre um humano e uma ave.

Inês Lourenço
A Enganosa Respiração da Manhã
2002

segunda-feira, 12 de março de 2007

XLII

Aproxima-te, põe o ouvido na minha boca,
vou dizer-te um segredo,
está um homem com a noite deitado
nas areias, separado doutro homem

por um grito, ninguém o ouve,
o sol há tanto tempo apodrecido.
Não sei se espera a manhã
para partir ou vai ficar

com os cardos nas dunas, os olhos cheios
de ignorância e de bondade,
exposto
assim à calúnia, à ventania.

Como se fora um cão, menos ainda.

Eugénio de Andrade
Branco no Branco
1984

CONSTELAÇÕES DO VERÃO

Um corpo
estendido
nu
na iminência de ser música

diz o que penso

O fogo
súbita convulsão da água

sobe
pelas pernas
penetra os lábios

vacilantes do verão

exausto
e branco
porque entardecia

O olhar
cai

errante
cão

lambendo
a chama oscilante dos dedos

escassa língua
sobre flancos desertos

as palavras
tão leves que nem o ar feriam
nem sequer o ar

As palavras
que se levantam para recusar
(quando aprenderão a morder?)
são a nossa herança

E o fogo

Eugénio de Andrade
Véspera da Água
1973

domingo, 11 de março de 2007

COMEMORAR O CÃO

preciso céu azul-seco

abaixo dele
o cão raivoso
amarrado ao poste
da cidade pequena
treme e baba:
grande frio ao sol

a memória morde
quem comemora
desfigura o quem, o que

alheio
aos prados e às bananeiras
espera nada
sofre patibular
petrificado na cena
que me petrifica

Paula Glenadel
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003


Oferecido por Rui Almeida.

BANDO

Homenagem a Ruy Belo

Aperto a renda da cortina
e o vestido do dia.
Minhas unhas estão compridas.
Espero os cães que remexem o lixo.

Recolher justamente o que recusei,
ordenar os restos e a sombra da recusa.
Esses cães que mastigam a polpa da noite,
a fibra de uma verdura vencida,

a embalagem de um rosto.
Esses cães vadios na coleira do instinto.
Sem a censura das pálpebras,
sem nomes que os façam ridículos.

Não perdendo tempo
caçando ratos nas árvores
ou o tempo no corpo.
Hoje os sinto novamente.

Aviso: é a última vez.
Limpo a zoeira da visita, pago a conta,
Encaderno as sobras que foram minhas.
E a raiva só pede que voltem.

Voltem
e me aceitem em seu bando.

Fabrício Carpinejar
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003

Oferecido por Rui Almeida.

sábado, 10 de março de 2007

O CÃO SÁBIO

Certo dia um cão sábio passou por um grupo de gatos. E vendo que os gatos pareciam preocupados falando entre si sem dar pela sua presença, decidiu parar para escutar o que diziam.
Levantou-se um gato, o maior, grave e sisudo, que dirigindo-se aos outros disse: Meus irmãos, rezai, porque se rezardes muitas vezes por certo choverão ratazanas.
Ao escutar estas palavras o cão riu-se com os seus botões e seguiu caminho dizendo: Gatos cegos e insensatos. Por acaso não está escrito, e não é dado adquirido que o que chove quando rezamos não são ratazanas, mas ossos?
Khalil Gibran
Versão de Ana Leal
O Louco
1997

sexta-feira, 9 de março de 2007

Domenico Mangano, Dead Dog, 2006

REQUIEM POR UM CÃO

Cão que matinalmente farejavas a calçada
as ervas os calhaus os seixos e os paralelipípedos
os restos de comida os restos de manhã
a chuva antes caída e convertida numa como que auréola da terra
cão que isso farejavas cão que nada disso já farejas
Foi um segundo súbito e ficaste ensanduichado
esborrachado comprimido e reduzido
debaixo do rodado imperturbável do pesado camião
Que tinhas que não tens diz-mo ou ladra-mo
ou utiliza então qualquer moderno meio de comunicação
diz-me lá cão que faísca fugiu do teu olhar
que falta nesse corpo afinal o mesmo corpo
só que embalado ou liofilizado?
Eras vivo e morreste nada mais teus donos
se é que os tinhas sempre que de ti falavam
falavam no presente falam no passado agora
Mudou alguma coisa de um momento para o outro
coisa sem importância de maior para quem passa
indiferente até ao halo da manhã de pensamento posto
em coisas práticas em coisas próximas
Cão que morreste tão caninamente
cão que morreste e me fazes pensar parar até
que o polícia me diz que siga em frente
Que se passou então? Um simples cão que era e já não é

Ruy Belo
Transporte no Tempo
1973

quarta-feira, 7 de março de 2007

Egon Schiele, Girl Playing with Dog, 1917

QUADRO

Indeciso ressurge do poente
Aureolado de espanto e de desastres
Em busca do seu corpo dividido

Todas as sombras se erguem das esquinas
E o seguem devagar nas ruas verdes
São como cães no rastro dos seus passos

Aberta a porta o quarto grave surge
E os espaços oscilam nas janelas.

Sophia de Mello Breyner Andresen
No Tempo Dividido
1954

terça-feira, 6 de março de 2007

MOONLIGHT SERENADE

E contudo a ordem do mundo
nem é um desejo do fundo
do coração mas

tão só o reclamado
entre o cuidado e cuidado
numa canção

sobre os dias que
passam sobre os rios que correm
sobre as montanhas que estão

sobre mim e os cães que à lua ladramos
sempre da mesma maneira e tudo
por causa do vento

da inquietação

Carlos Leite
O Desflashar dos Espaços
Black Sun, 1987


Nota: Poema oferecido por Rui Almeida.

segunda-feira, 5 de março de 2007

domingo, 4 de março de 2007

AMAR UM CÃO (excerto)


_____ houve uma breve hesitação da parte de quem transportava o recém-nascido _____ o meu cão Jade, há muito tempo; muito, e com grande intensidade, aconteceu durante esse tempo breve em que Jade foi deixado suspenso sobre um medronheiro, sem mãe visível,
num berço nem celeste,
nem terrestre. No lugar que toda a planta acolhe, e que o entregara ao medronheiro,
sentia sobre si uma incidência animal alada, que nem era verdadeiramente pássaro,
nem verdadeiramente quadrúpede.

Era um fio de voz soando à altura do corpo musical que compunha a mata, um choro que coincidia com a convulsão das primeiras gotas de chuva; um sentimento ténue envolvia a cabeça emergindo do verde, e as pequeninas patas, saídas de um pano de baptista, não comoviam a planta lenhosa,
já habituada a palpitações e folhas.

mas o ritmo novo que, pouco a pouco, não se identificava com a chuva, e tornava vermelho de tempo activo a atmosfera, fez erguer o medronheiro sobre si mesmo
«que ser tão frágil mais alto do que eu».

Se o ar não tivesse uma densidade leve, teria quebrado Jade. Jade, que acabara de nascer sobre as bagas purpúreas dos medronhos,
e o ruído dos ramos partidos, já pensava. Um pensamento de leite subia nos sítios pedregosos, fora do local da casa, e da cerca com cerros e penhascos. Ele trazia nos olhos um instrumento azul para medir o diâmetro do sol, e dos astros; lia-se neles uma linguagem que só mais tarde, muito mais tarde, encontraria equivalente na boca:

«o meu Pai não existe fora da descrição do Sol; caminho através da murta, do aderno, a aroeira, e avistei esta serra em que a memória vê primeiro o porto nascer; mal nasci, situei-me, em vida interior, em face do mar; ergo para a minha dona os meus olhos frágeis, opondo-me a uma adversária que, de certeza, me ama: faço-lhe pedidos

luta comigo;
dá-me a sensação de ter saído vencido, mas com rebeldia.»
Maria Gabriela Llansol
Amar um Cão
1990

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