Antologia de textos com cães dentro.

terça-feira, 1 de maio de 2007


Jehsong Baak, Dog at a Beach, Holland, 2004

CÃES, MARINHEIROS

Era um cão que tinha um marinheiro. O cão perguntou à esposa, que se pode fazer de um marinheiro? Põe-se de guarda ao jardim, respondeu ela. - Não se deve deixar um marinheiro à solta no jardim, que fica perto do mar. Um marinheiro é uma criatura derivada por sufixação, e pode recear-se o poder do elemento base: o radical mar. Em vez de guardar o jardim, ele acabaria por fugir para o mar. - Deixá-lo fugir, disse a esposa do cão. Mas ele não estava de acordo. Que um facto deveria ser esse mesmo facto até ao limite do possível: quem possui um marinheiro para guardar o jardim deve procurar mantê-lo a todo o custo, assim como o cão, ou o casal de cães, que não tiver um marinheiro deve não tê-lo até a isso ser absolutamente forçado. - Nesse caso, só nos resta ir para uma terra do interior, longe do mar, disse a cadela. E então foram para o interior, levando pela trela o marinheiro açaimado. Durante o percurso viram muitas paisagens. O marinheiro estava espantado com as paisagens que podem existir longe do mar. Fez diversas observações a esse respeito, provocando o risonho latido dos cães que, pela sua parte, concordavam em que tinham um marinheiro muito inteligente. - Nem todos os cães têm a nossa sorte, disse o cão, pois conheço vários cães que são donos de vários marinheiros estúpidos. Iam por isso bastante contentes e diziam, a outros cães com quem se cruzavam, que possuíam um marinheiro invulgarmente esperto. - Ele tem uma filosofia das paisagens, dizia o cão. Um cão da Estrela, que encontraram naturalmente perto da Serra da Estrela, perguntou-lhes se o marinheiro gostava de sardinhas. - Adora-as, respondeu a cadela. - Isso não me admira nada, disse o indígena. E na verdade não parecia admirado. Quando chegaram ao mais interior possível, alugaram uma casa com um jardim e puseram o marinheiro a guardá-lo. - Guarda-o, disseram. Deixaram-lhe ao lado uma dúzia de latas de sardinhas e foram para dentro de casa. Durante sete dias e sete noites, o marinheiro reflectiu sobre as paisagens do interior e comeu as sardinhas de conserva. Depois foi atacado de esgana, e começou a andar em círculos cada vez mais apertados no meio do jardim. Os cães observavam-no da janela e viam que o seu marinheiro perdia as forças a cada volta. Um dia, ao anoitecer, caiu para o lado resfolegando. - O mar, ouviram-no dizer. Então foram para dentro, e dormiram. De manhã vieram cedo ao jardim e verificaram que o marinheiro estava morto. - Era um marinheiro tão esperto, disse a cadela. - Pois era, disse o cão, foi pena. E enterraram o marinheiro debaixo de uma acácia. Mas como já se haviam habituado à vida do interior, não regressaram ao litoral. Nunca mais tiveram marinheiros. - Para quê?, dizia a cadela, ralações já existem de sobra. E quem se atreve a negar que ela tinha razão?

Herberto Helder
Os Passos em Volta
1963

domingo, 15 de abril de 2007

CARLOTA, ABRIL DE 2000 - ABRIL DE 2007




Causa da morte: envenenamento.


quinta-feira, 12 de abril de 2007

DOM RAFEIRO

O seu latido faz o espaço, ainda, mais largo,
Dá mais distância e fundo a toda esta amplidão.
Solitário, é, da noite e do campo, em letargo,
O feroz e pachorrento guardião.

Os seus olhos, que têm canduras de alvorada,
Têm, às vezes, também, o fulgurar do raio:
- Providência da rês desirmanada,
Lutador fero, heróico e sem desmaio.

Da boca enorme, a baba cristalina,
Pende-lhe, quando sonolento espera,
No escalvado cabeço da colina,
O sol, macio e bom, da Primavera.

Mas nas noites de Inverno desalmado:
- Poços enormes, negros e sem fundo, -
O seu cavo ladrar, no ermo resignado,
É a única voz viva deste Mundo.

Agora, o sol lhe doira a felpa do espinhaço.
O rebanho repasta, plácido, em sossego.
E, aninhado entre as mãos, em ternuras de abraço,
Aconchega-se, débil, um borrego.

Francisco Bugalho
Poesia
1961

quarta-feira, 11 de abril de 2007

CALENDÁRIO RURAL

ABRIL
O «Navarro» é um belo cão de caça, mas muito guloso. Esqueceram-se de o açaimar e entrou na capoeira onde estava um rebanho de pintos e a galinha choca, comendo logo três, porque julgava que faziam parte de um bando de perdigotos. O dono, caçador entusiasta, perdoou-lhe. Mas a mulher ficou desgostosa e jurou castigar o «Navarro». Assim ela o pilhe.
Azinhal Abelho
Os da Orada
1964
Oferta do Rui Almeida.

terça-feira, 10 de abril de 2007

HOMEM COM CÃO

Will Ryman, Man with Dog, 2005.

Walking the dog

Mal me levanto
tomo o café-da-manhã
e penso no cão,
corpo de feltro
largado na estrada
Mal me levanto
e já me sinto
ensanduichado
esborrachado
esprimido
e reduzido
ao olhar do cão fugindo
atravessando a rua
com direito
de cidade
como os de Jude Stefan
- ou seria embalado
liofilizado
como no réquiem de Ruy Belo?
Com os sentimentos atolados
em coisas imediatas
deixo o cão
seja de um
ou de outro
As coisas imediatas
(em conflito permanente)
me levam para o carro

17/09/2003

Heitor Ferraz
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003

Oferta do Rui Almeida.

O SONHO E OS CÃES

para José Amaro Dionísio

Entredentes o sonho
apodrece-o, dos cães,
a baba que supuram.

Dizendo de outro modo,
por um augúrio insistes,
procuras outra fábula,
tu sabes lá se mentem
os astros dessorados
as cartas de tarot
a sina ciganada
as folhinhas de chá
nas chávenas de estilo

Desfocam-se contornos,
ninguém te vê por perto,
não tens perdão, rapaz,
não, não há-de ser nada,
segredos já só mesmo
os que pela mais intacta
deslocação da mágoa
transitem entre uma
e outra lâmina.

Ninguém te vê, dispara,
vá, dispara, rapaz,
não, não há-de ser nada,
nada a fazer, de resto,
a voz assim sangrada,
os cães ainda à espreita.

Raul Malaquias Marques
Traduções da Fala
&etc, 1995

Oferta do
Rui Almeida.

PRADO DE MADRID

*

Goya! – o de la quinta del sordo.
Amanhã é dos loucos de hoje.
Pela quinta vez volto à tua sala
e ouço o anedótico sobre ti.
Anedótico por anedótico,
deixa que te diga.
Para que aquele cão está olhando?
Tu vias, quando pintavas solitário. Pois lá
deixaste o grande imperador, após
tantos massacres, e a caveira da morte,
em cima a criança. E se olhar-se melhor,
à saída, a maja também está
e disfarça, e dança nos três. Tudo
semifundido com o cão. E é esta a explicação
dentro dos olhos do cão que contemplam.
Tudo passa, inexoravelmente
tudo passa, e nenhum poder
pode subsistir à humildade de um cão que contempla.

Agora podem continuar os zumbidos que entornam sobre ti.


José Santiago Naud
Conhecimento a Oeste
Moraes Editores, 1974

Oferta do Rui Almeida.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

UMA TARDE de Agosto. Nuvens altas e secas espalham o calor que sobe das pedras, que cerca as árvores, que trepa pelas paredes da casa e reverbera no coro monótono das cigarras.
A sombra agacha-se; a água parece lodo. O cão sofre, com a língua de fora e o olhar mortiço. Desespera. Está velho, acabado. Pensa que poderá ser o sofrimento do último verão - isso não o consola, nem o perturba.
Pensa que há um Deus que vigia a inclemência do verão e o sofrimento dos cães; agora, deseja o sono, que lhe resiste; cresce a modorra, o estupor do desamparo.

José Alberto Oliveira
Bestiário
2004

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Philip Pearlstein, Model with HMN Dog and Renaissance Bambino, 2006.

O BAIRRO

7.

O cão, aos pinotes
na cozinha onde as latas de chá
cheiram a lixívia,
rosna aos projectos de demolição.

Inútil estabelecer rimas ao «gosto popular».
A subtileza verbal, os jogos de palavras
e o ritmo da poesia feridos
irremediavelmente
no dia em que os recém-nascidos
começaram a aparecer nos contentores.

Jorge Gomes Miranda
Postos de Escuta
2003

O CÃO

Diz-me o meu jardineiro: O cão
É robusto e esperto e foi comprado
Pra guardar hortas. Mas eles
Fizeram dele o amigo do homem. Pra que é
Que lhe dão de comer?

Bertolt Brecht
Tradução de Paulo Quintela
Poemas e Canções
1975

domingo, 1 de abril de 2007


Frank Tenney Johnson, Men and Dog.

O ESTRANGEIRO (excerto)

Ao subir, na escada escura, choquei com o velho Salamano, meu vizinho de andar. Ia com o cão. Há oito anos que não se largam. O rafeiro tem uma doença de pele que lhe faz cair todo o pêlo e o que o cobre de manchas e de crostas. À força de viver com ele, os dois sozinhos num pequeno quarto, o velho Salamano acabou por ficar parecido com o cão. Quanto ao cão, tomou do dono uma espécie de ar curvado, focinho para a frente e pescoço estendido. Parecem da mesma raça, e no entanto detestam-se. Duas vezes por dia, às onze horas e às seis horas, o velho leva o cão a passear. Fazem há oito anos o mesmo itinerário. Seguem ao longo da Rua de Lyon, o cão a puxar pelo homem até o fazer tropeçar. Põe-se então a bater no bicho e a insultá-lo. O cão roja-se cheio de medo e deixa-se arrastar. Nesse momento é o velho que tem de puxar. Quando o cão se esquece, põe-se outra vez a puxar e é outra vez espancado e insultado. Ficam então os dois no passeio e olham-se, o cão com terror, o homem com ódio. É assim todos os dias. Quando o cão quer fazer as suas necessidades, o velho não lhe dá tempo e arrasta-o. Se por caso o cão «faz» no quarto, também lhe bate. Isto dura há oito anos. O Celeste diz que «é uma pena», mas no fundo ninguém quer saber. Quando encontrei o Salamano nas escadas ia a insultar o cão: «Bandido! Cão nojento!» Eu disse: «Boas-noites», mas o velho continuava a insultá-lo. Perguntei-lhe o que é que o cão tinha feito. Não me respondeu. Dizia apenas: «Bandido! Cão Nojento!» Percebi que debruçado sobre o animal, estava a arranjar qualquer coisa na coleira. Falei mais alto. Então, sem se voltar para trás, respondeu-me com uma espécie de raiva reprimida: «Está sempre aqui!» Depois foi-se embora puxando pelo cão, que gania e se deixava arrastar.
Albert Camus
O Estrangeiro
Oferta do Ricardo Jorge.

sábado, 31 de março de 2007

OS CÃES

Os cães, tantos. Sem cuidarem
da torpeza
lambem as nossas mãos.

Misteriosa religião a deles.
O rosto do seu Deus não temem
e contemplam lado a lado.

Nem a Moisés tal foi consentido.

António Osório
A Ignorância da Morte
1978

quarta-feira, 28 de março de 2007


Oswaldo Maciá, The Dog Barks but It Makes No Difference to the Camel – We Are the Dogs, the World Is the Camel, 2006

CONTO

Vai o menino só na estrada grande,
Grande e medonha entre pinhais sombrios,
Entre uivos ruivos, roucos e bravios
Arranhando o silêncio que se expande...

A mãe dissera-lhe: -- «O menino, ande
«Longe das selvas, dos fundões, dos rios...»
E avós, irmãos, amigos, primos, tios:
-- «Menino, vá por onde a gente o mande!»

Mas o menino foi desobediente.
E andou por vias ínvias ou sem gente,
Pela mão de enigmáticos destinos.

Saltar-lhe-ão lobos vis e cães de el-rei...
-- Foi pondo o ouvido em terra, que escutei
Lobos uivar e soluçar meninos.

José Régio
Biografia
1929

quarta-feira, 21 de março de 2007

Enquanto o homem pensar
que vale mais que outro homem,
são como os cães a ladrar,
não deixam comer, nem comem.

É fácil a qualquer cão
Tirar cordeiros da relva.
Tirar a presa ao leão
É difícil nesta selva.

António Aleixo
Quadras Populares

domingo, 18 de março de 2007

CARGO CULT

Não vivo disto
tenho o tempo contado
para escrever um poema
um poema novo que não seja surdo
às minhas preces

há horas felizes
e fico à espera
não serei eu a começar

- toca a comer
ou porque ardeu tudo
ou porque vi coisas
e que as pequenas formigas argentinas
são indestrutíveis, pequenos pontos a bulir
mortos diariamente
para voltarem iguais, concentrados
no dia seguinte

a luta não nos pode salvar da fome
ou dos organismos especializados
eis o que disse o sineiro
não é para gostares e ainda não viste nada

à distância de um barulho
em terra incerta
dois minutos abaixo de cão
assim me cubro
enquanto o sono de todos
se esgota nos quartos de dormir

e agora não digo mais nada
como miséria.

João Almeida
A Formiga Argentina
2005

sábado, 17 de março de 2007

o cão predominante o chefe da matilha,
a sua legítima

o cheiro do cão abatido o chão batido
do butim sem linha de fuga a foto desfocada
o erro de paralaxe. fecho de segurança prende as fezes ao cão

Milton Torres
No Fim das Terras
2005

DIOGO CÃO


os cães cara a cara, ou o cão no espelho
o pêlo ereto do lombo até o rabo
o focinho frio aquoso o focinho
sem ser parte. as presas de fora
o ronco do fundo dos peitos o ronco
mais forte que a força do cão, o custeio da imagem
a palmilha sob a pata.
a acareação dos cães, o mesmo que a fala de um só
a verdade do cão o pensar esquemático o semafórico o zelo seu
pelo diapositivo a cores, seta / direção / apito

- a sutura, o devir nacional
o dever cumprido

Milton Torres
No Fim das Terras
2005

sexta-feira, 16 de março de 2007

Cama no chão, cama de cão.

Joan Miró, Dog barking at the Moon, 1952
Não me admiro nada por os homens amarem tanto os cães:
Pois um miserável patife é tanto o homem como o cão.

J. W. Goethe
traduzido por João Barrento
Poesia
Círculo de Leitores, 1993

quinta-feira, 15 de março de 2007

OUÇO FALAR

Ouço falar da minha vocação
mendicante, e sorrio. Porque não sei
se tal vocação não é apenas
uma escolha entre riquezas, como Keats
diz ser a poesia.
Desci à rua pensando nisto,
atravessei o jardim, um cão
saltava à minha frente,
louco com as folhas do outono
que principiara, e doiravam
o chão. A música
digamos assim,
a que toda a alma aspira,
quando a alma
aspira a ter do mundo o melhor dele,
corria à minha frente, subia
por certo aos ouvidos de deus
com a ajuda de um cão,
que nem sequer me pertencia.

Eugénio de Andrade
O Sal da Língua
1995

Oferecido por Inês Lourenço.

EM PLENA MONTANHA:

Um esquiador e um bêbedo meteram-se pela montanha acima e foram surpreendidos por uma forte tempestade. Já quase desesperados, vêem ao longe um São Bernardo com a sua barriquinha de whisky pendurada na coleira. Grita, aliviado, o esquiador : Lá vem o melhor amigo do homem! Clama, exultante, o bêbado: E traz um cão!

Oferecido por Inês Lourenço.

terça-feira, 13 de março de 2007

SNOOPY

TERRESTRE

Depois da morte do cão,
os pombos passaram a ser
os seus animais de companhia,
porque não careciam de mãos humanas
nem cuidados de dono. Habitavam
qualquer vão de telha ou côncavo de
ramo. Trelas e coleiras eram
agora uma passada invenção
terrestre, jamais possível
entre um humano e uma ave.

Inês Lourenço
A Enganosa Respiração da Manhã
2002

segunda-feira, 12 de março de 2007

XLII

Aproxima-te, põe o ouvido na minha boca,
vou dizer-te um segredo,
está um homem com a noite deitado
nas areias, separado doutro homem

por um grito, ninguém o ouve,
o sol há tanto tempo apodrecido.
Não sei se espera a manhã
para partir ou vai ficar

com os cardos nas dunas, os olhos cheios
de ignorância e de bondade,
exposto
assim à calúnia, à ventania.

Como se fora um cão, menos ainda.

Eugénio de Andrade
Branco no Branco
1984

CONSTELAÇÕES DO VERÃO

Um corpo
estendido
nu
na iminência de ser música

diz o que penso

O fogo
súbita convulsão da água

sobe
pelas pernas
penetra os lábios

vacilantes do verão

exausto
e branco
porque entardecia

O olhar
cai

errante
cão

lambendo
a chama oscilante dos dedos

escassa língua
sobre flancos desertos

as palavras
tão leves que nem o ar feriam
nem sequer o ar

As palavras
que se levantam para recusar
(quando aprenderão a morder?)
são a nossa herança

E o fogo

Eugénio de Andrade
Véspera da Água
1973

domingo, 11 de março de 2007

COMEMORAR O CÃO

preciso céu azul-seco

abaixo dele
o cão raivoso
amarrado ao poste
da cidade pequena
treme e baba:
grande frio ao sol

a memória morde
quem comemora
desfigura o quem, o que

alheio
aos prados e às bananeiras
espera nada
sofre patibular
petrificado na cena
que me petrifica

Paula Glenadel
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003


Oferecido por Rui Almeida.

BANDO

Homenagem a Ruy Belo

Aperto a renda da cortina
e o vestido do dia.
Minhas unhas estão compridas.
Espero os cães que remexem o lixo.

Recolher justamente o que recusei,
ordenar os restos e a sombra da recusa.
Esses cães que mastigam a polpa da noite,
a fibra de uma verdura vencida,

a embalagem de um rosto.
Esses cães vadios na coleira do instinto.
Sem a censura das pálpebras,
sem nomes que os façam ridículos.

Não perdendo tempo
caçando ratos nas árvores
ou o tempo no corpo.
Hoje os sinto novamente.

Aviso: é a última vez.
Limpo a zoeira da visita, pago a conta,
Encaderno as sobras que foram minhas.
E a raiva só pede que voltem.

Voltem
e me aceitem em seu bando.

Fabrício Carpinejar
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003

Oferecido por Rui Almeida.

sábado, 10 de março de 2007

O CÃO SÁBIO

Certo dia um cão sábio passou por um grupo de gatos. E vendo que os gatos pareciam preocupados falando entre si sem dar pela sua presença, decidiu parar para escutar o que diziam.
Levantou-se um gato, o maior, grave e sisudo, que dirigindo-se aos outros disse: Meus irmãos, rezai, porque se rezardes muitas vezes por certo choverão ratazanas.
Ao escutar estas palavras o cão riu-se com os seus botões e seguiu caminho dizendo: Gatos cegos e insensatos. Por acaso não está escrito, e não é dado adquirido que o que chove quando rezamos não são ratazanas, mas ossos?
Khalil Gibran
Versão de Ana Leal
O Louco
1997

sexta-feira, 9 de março de 2007

Domenico Mangano, Dead Dog, 2006

REQUIEM POR UM CÃO

Cão que matinalmente farejavas a calçada
as ervas os calhaus os seixos e os paralelipípedos
os restos de comida os restos de manhã
a chuva antes caída e convertida numa como que auréola da terra
cão que isso farejavas cão que nada disso já farejas
Foi um segundo súbito e ficaste ensanduichado
esborrachado comprimido e reduzido
debaixo do rodado imperturbável do pesado camião
Que tinhas que não tens diz-mo ou ladra-mo
ou utiliza então qualquer moderno meio de comunicação
diz-me lá cão que faísca fugiu do teu olhar
que falta nesse corpo afinal o mesmo corpo
só que embalado ou liofilizado?
Eras vivo e morreste nada mais teus donos
se é que os tinhas sempre que de ti falavam
falavam no presente falam no passado agora
Mudou alguma coisa de um momento para o outro
coisa sem importância de maior para quem passa
indiferente até ao halo da manhã de pensamento posto
em coisas práticas em coisas próximas
Cão que morreste tão caninamente
cão que morreste e me fazes pensar parar até
que o polícia me diz que siga em frente
Que se passou então? Um simples cão que era e já não é

Ruy Belo
Transporte no Tempo
1973

quarta-feira, 7 de março de 2007

Egon Schiele, Girl Playing with Dog, 1917

QUADRO

Indeciso ressurge do poente
Aureolado de espanto e de desastres
Em busca do seu corpo dividido

Todas as sombras se erguem das esquinas
E o seguem devagar nas ruas verdes
São como cães no rastro dos seus passos

Aberta a porta o quarto grave surge
E os espaços oscilam nas janelas.

Sophia de Mello Breyner Andresen
No Tempo Dividido
1954

terça-feira, 6 de março de 2007

MOONLIGHT SERENADE

E contudo a ordem do mundo
nem é um desejo do fundo
do coração mas

tão só o reclamado
entre o cuidado e cuidado
numa canção

sobre os dias que
passam sobre os rios que correm
sobre as montanhas que estão

sobre mim e os cães que à lua ladramos
sempre da mesma maneira e tudo
por causa do vento

da inquietação

Carlos Leite
O Desflashar dos Espaços
Black Sun, 1987


Nota: Poema oferecido por Rui Almeida.

segunda-feira, 5 de março de 2007

domingo, 4 de março de 2007

AMAR UM CÃO (excerto)


_____ houve uma breve hesitação da parte de quem transportava o recém-nascido _____ o meu cão Jade, há muito tempo; muito, e com grande intensidade, aconteceu durante esse tempo breve em que Jade foi deixado suspenso sobre um medronheiro, sem mãe visível,
num berço nem celeste,
nem terrestre. No lugar que toda a planta acolhe, e que o entregara ao medronheiro,
sentia sobre si uma incidência animal alada, que nem era verdadeiramente pássaro,
nem verdadeiramente quadrúpede.

Era um fio de voz soando à altura do corpo musical que compunha a mata, um choro que coincidia com a convulsão das primeiras gotas de chuva; um sentimento ténue envolvia a cabeça emergindo do verde, e as pequeninas patas, saídas de um pano de baptista, não comoviam a planta lenhosa,
já habituada a palpitações e folhas.

mas o ritmo novo que, pouco a pouco, não se identificava com a chuva, e tornava vermelho de tempo activo a atmosfera, fez erguer o medronheiro sobre si mesmo
«que ser tão frágil mais alto do que eu».

Se o ar não tivesse uma densidade leve, teria quebrado Jade. Jade, que acabara de nascer sobre as bagas purpúreas dos medronhos,
e o ruído dos ramos partidos, já pensava. Um pensamento de leite subia nos sítios pedregosos, fora do local da casa, e da cerca com cerros e penhascos. Ele trazia nos olhos um instrumento azul para medir o diâmetro do sol, e dos astros; lia-se neles uma linguagem que só mais tarde, muito mais tarde, encontraria equivalente na boca:

«o meu Pai não existe fora da descrição do Sol; caminho através da murta, do aderno, a aroeira, e avistei esta serra em que a memória vê primeiro o porto nascer; mal nasci, situei-me, em vida interior, em face do mar; ergo para a minha dona os meus olhos frágeis, opondo-me a uma adversária que, de certeza, me ama: faço-lhe pedidos

luta comigo;
dá-me a sensação de ter saído vencido, mas com rebeldia.»
Maria Gabriela Llansol
Amar um Cão
1990

sábado, 3 de março de 2007

O cão com raiva, do seu dono trava.
Francis Bacon, Dog, 1952.

sexta-feira, 2 de março de 2007

TEMPO MORTO

Jogávamos pueris jogos de sexo, Xila,
corríamos entre girassóis,
morávamos numa cabana oculta na barreira.

Na lembrança, um cão malhado ladra
entre os arbustos.

Éramos tão crianças!, a vida nem chegava
a ser mistério
e não havia problemas de pão a resolver...
Apesar disso tu eras a mulher,
tu eras a Amante (mais subtil
e experiente de quantas tenho conhecido,
porque eras o grande livro da Inocência).
Eu era Tarzan dos Macacos,
tu, Jane morena.
Havia a inveja de Carlos e o ciúme de Sofia,
mas isso tornava-nos maiores ainda.
Amávamos na lonjura das tardes,
enquanto Foxie dormitava a um canto da cabana.
Sobre folhas verdes de acácia
tu não eras segredo
e, em mim, não morava o mistério.
Eras um duende de tranças pretas e olhos verdes,
eu era um potro selvagem.
Éramos sexo, lábios, mãos, epidermes
sem impureza.
Partiste ao anoitecer num navio amarelo,
levando juras eternas.

Quando voltaste
tinhas crescido e o teu corpo
esboçava outras formas.
Tomaras meneios senhoris,
falavas em pecado e em criancices reprováveis
com ar judicioso.
Eras a mentira, Xila!
A muralha do Impuro interpusera-se
entre mim e ti
e as nossas mãos não se estenderam
mais.

Eu,
fiquei na vida de calção.
E, certa manhã sem sol,
Foxie morreu atropelado.

A minha infância é um cão malhado.
Chama-se Foxie e ladra aos passantes.
Andou por aí
solto nos matos,
dormiu nos bancos ao relento,
olhou as estrelas, sem mistério
e sem as compreender.
Seu olhar langue e sem mágoa
aceitou as carícias e os pontapés
que lhe quiseram dar.
Sabia os recantos da rua
e os segredos do baldio defronte.

Conheceu noites de cio
e dias de vagabundagem.

Foi inconsequente
e - como já se disse
- morreu atropelado
numa escura manhã sem data.

Rui Knopfli
O País dos Outros
1959

O CÃO DA ANGÚSTIA

Tem eriçado e ralo o pêlo
como se de animal morto,
dos beiços gomosa baba lhe escorre
em grandes fios de reluzente espuma.
No olhar sangrento e fosco dura-lhe
uma mágoa antiga e resignada.
Mágoa, já não o sonho,
lacerado à sanha das alcateias.
Caminha trôpego e hesitante
sob o triângulo agoniado do focinho,
numa dança lenta e grotesca.
Todo o tempo lhe pertence
e não lhe sobra nenhum, cão
insonoro e furtivo, cão de sombra,
cão tardio e nocturno, ó cão
da nossa esperança lazarenta,
cão durável, cão indestrutível.

Rui Knopfli
Mangas Verdes Com Sal
1969

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

I LOVE MY DOG


I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
All he asks from me is the food to give him strength
All he ever needs is love and that he knows hell get
So, I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
All the pay I need comes shining through his eyes
I dont need no cold water to make me realize that
I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
Na, na, na, na, na, na, nana...
I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
Na, na, na, na, na, na, nana...
I love my dog, baby, I love my dog. na, na, na...
I love my dog, baby, I love my dog. na, na, na...

Cat Stevens
Matthew & Son
1966

sábado, 24 de fevereiro de 2007

RETRATO DO ARTISTA EM CÃO JOVEM

Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por trás de lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos

aqui estás tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o cão vadio dos outros dias da semana
o cão de sempre
cada vez que há um cão jovem
neste local da terra

António José Forte
40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes Numa Girândola Implacável e Outros Poemas
1960

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Cão de raça não usa coleira.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

TISANAS

1
A criança passeia pelo campo. Pára diante de um portão entreaberto. É o portão de uma grande quinta. A criança entra. Lá dentro está um cão enorme.

57
Teoricamente, se a percepção é finita toda a acção é finalmente fútil e devidamente grátis. Isto é verdade. Quem não reivindica sempre o seu direito ao repouso. Por exemplo agora estou de pé e à minha direita e à minha esquerda estão três cães com fitas brancas ao pescoço. Que quererá isto dizer penso. Os cães cumprem com perfeito conhecimento o solene ritual da espera, dizem-me. Que mais posso desejar. O significado é o que ficou do sinal.

58
Muitas vezes quando passeio à noite pela cidade me interrogo: o que é a solicitação pura e simples? Olho o chão e vejo um pedaço de vidro a brilhar ao mesmo tempo que pela rua abaixo voa um grande pedaço de jornal e a um canto um caixote do lixo ultrapassa em Archimboldo tudo o que há de involuntário nos gestos habituais. Estou considerando tudo isto e reflectindo quando passa por mim um cão. Lança-me um olhar rápido. Tem os olhos raiados de vermelho. Então eu penso quanto em cada acto há de fantástica abstracção.

157
Era uma vez um homem que tinha um cão. Quando passeava no bosque o cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. Um dia o cão morreu. O homem comprou outro cão. Como o anterior o novo cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se do outro cão. Mas um dia também esse cão morreu. De novo o homem comprou outro cão. Como os anteriores também este trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se dos outros cães. Por fim não foi preciso comprar mais nenhum cão. Par aonde fosse uma matilha seguia-o. Mais tarde nem era preciso já ir passear para o bosque.

158
Humilhação e holocausto. Vou a caminho da estação. Surge um cão preto relativamente pequeno. Fareja-me olha-me um instante eu olho para ele. Afasta-se atravessa a estrada. Segundos depois é atropelado por um automóvel. Oiço o estrondo fantástico da cabeça do cão batendo no pára-choques do carro.

159
Venho da estação. Numa esquina cruzo-me com um cão amarelo grande. Olha para mim e vai atravessar a rua quando vem um carro. Desvia-se a tempo e nesse instante preciso os nossos olhos cruzam-se. Nesse instante estabelece-se entre nós um entendimento profundo é um laço fraternal penso. Sem mais nenhuma outra manifestação acompanha-me até eu chegar a casa.

160
Sentada no parque vejo voar no ar um mar de pólen. Grãos de amor e ovo penso enquanto olho os cães que rebolam na relva. Os pássaros cantam furiosamente - gargalhadas ameaças assobios - ruído de fundo sobre um trabalho doméstico penso

179
O meu jardim. Agora é um parque. Passeio. Não há ninguém. Um esquilo corre apressado. As árvores já não têm folhas. Há pouca coisa para os animais comerem. Caminho por uma pequena álea. Oiço pássaros atrás de mim. Olho rapidamente e vejo um rapaz com bastante mau aspecto. Estamos sós. Não há absolutamente ninguém mais. Acelero um pouco até atingir o fim da álea, onde vejo um gradeamento e um cão lá dentro. Quando chego lá paro diante do cão e começo a falar com ele. O cão começa a ladrar furiosamente.

180
Estou no parque. É afastado do meu jardim. Quando estou a atravessar a ponte vejo em baixo uma rapariga que atira para o lago um pau para o seu cão ir buscar. O cão corre para a água mas não avança mais que vinte centímetros. O pau está a dois metros onde é fundo. O cão não avança. Volta atrás, entra de lado, não avança. Começa a ladrar. Sai e entra. Ladra. Está já desesperado. Não aguento mais. Sigo. Minutos depois vejo a mesma rapariga passar a meu lado. O cão vai atrás. Molhado. Cabisbaixo.

318
Os cães do vizinho incomodam-me quando vêm para a rua ladrar agressivamente a tudo e até a nada, só por afirmação territorial. Vou à varanda e mando-os calar. Umas vezes obedecem-me outras não. De qualquer modo incomodam-me mas quando penso neles sinto uma certa vergonha. Afinal eles estão apenas a cumprir o seu programa. Mas eu também.

331
Em Goa à noite. Os cães são muitos. Mas não ladram. Quando andam movem-se sem energia, cansados, desinteressados de tudo. Realmente: qual é o interesse da vida?

380
Pensar o presente conduz necessariamente ao desespero porque a vida não tem outra solução senão perpetuar-se na sua imperfeição. Em frente da minha janela vários cães seguem o rasto de uma cadela com cio que vagueia pela rua. À noite a cadela é fechada em casa. Os cães assentam arraial à sua porta com dignidade e persistência, numa total submissão à tirania do ensejo

424
Candid camera. Estou num restaurante apinhado de gente. É a hora do almoço. De repente entra uma senhora com um cãozinho de luxo pela trela. O cão senta-se diante de mim e fita-me. É branco. Tem os olhos pretos e o nariz também. Parece um amor-perfeito. E é.

Ana Hatherly
463 Tisanas
1969-2006

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Imagens de Tóssan














Imagens de "Cão pên dio", editado pela Portugália, de Tóssan, António dos Santos, artista gráfico, caricaturista, desenhador e actor, enviadas pela Luísa do weblog No Silêncio do Deserto.

UMA CANÇÃO DE BEBER

O que foi Tróia, e o que foi meu cão,
Na mesma terra a mesma coisa são.
Quanto foi é despojos, e o que é hoje
Seus despojos sustenta de ilusão.

A vida viva da palavra dita,
A vida longa da palavra escrita,
A vida das palavras por dizer -
Qual dura? Qual é ser? Qual é...

22-7-1930

Fernando Pessoa
Canções de Beber
2003

UMA QUADRA AO GOSTO POPULAR

Toda a noite ouvi cães
P'ra manhã ouvi galos.
Tristeza - vem ter connosco.
Prazeres - é ir achá-los.

Fernando Pessoa
Quadras ao Gosto Popular
1973

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Lucian Freud, Girl with a white dog, 1951-52

PARQUE DE CAMPISMO

Limpei a nódoa e entrei
sorrindo à árvore
perguntei
se era ali que se faziam turistas
e disseram-me que sim
tirei logo o boné com atenção
porque já lá estavam
dois ingleses arm-in-arm
e de labita breve
olarila
com um ar
indubitavelmente marcial
de soldados ao sol
com falta de ar
afastei a perna
para deixar passar
o pássaro com a mala
mas tropecei no cão
que vinha
atrás do pássaro que passara
e que abriu uma enorme goela
tão goela hiante
que parecia
traduzida em alemão antigo
e quis morder-me a perna afastada
disse-lhe salsicha e outros exorcismos
veio logo o dono
dinamarquês muito erudito
que explicou tudo em sueco
como eu não sei sueco nem lapão
nem quem foi Druschken Alvarado
respondi-lhe
com a pronúncia das Vascongadas
e daí concluímos que
o cão com goela em tradução adiantada
era afinal a dona Josefa
proprietária da Pensão Afonso
falámos então com certo gáudio
em vários idiomas excitantes
falámos vasconso
e iogurte
e gargarejo
e sábado à noite
e luxamburger
e lembrámos melancolicamente
a dona Albertina
da ex-Pensão Ernesto
que fora por aí fora
a ver se lá não havia polícia
recordámos ainda
quanta mágoa
o Asdrúbal de Tabasco
e o seu simpático porco industrial
e despedimo-nos
à saída
encontrei de novo
a dona Josefa-cão
que conversava orgulhosa
com um coronel grego
disfarçado em pessoa

o pássaro passou sem a mala

assim vai o turismo

Mário-Henrique Leiria
Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro
1974

EXPLICAÇÃO RIGOROSA

Esperar
o quê?
uma máquina
de transformar bananas
em governos?
uma porta
que só obedece ao sinal
do ombro respeitável?
o cão profissional
que morde à sexta-feira
a perna que contesta?
o dedo
de unha poluída
que aponta a única direcção?

esperar
o quê?
o riso explosivo
e quente
como um sexo de mulher
aberto em flor

a faca
a granada
o dia

Mário-Henrique Leiria
Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro
1974

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

A MINHA SOMBRA VAI CAIR SOBRE O PRIMEIRO CÃO MORTO

A minha sombra vai cair sobre o primeiro cão morto
que uma tarde de esgotamentos funde na realidade
enquanto os braços bálsamo da noite
estendem ao vento um parto desgraçado.

Caminhar da luz para a treva e ver tudo;
vir do mar para a terra
e balançar nos grãos de vento;
beijar-te
e desejar antes ter uso que fazer projectos;
levar a meninice empoleirada no vestuário
e sujar a manhã
com um gesto generoso.

Zenide,
o herói da minha infância,
entra umbrático na minha vida
pelo lado fatal de um triângulo que me toca.
Como uma bala deixo um só dos meus cabelos
para veia do meu sangue.
E quando a névoa me traz uma colina de sargaços,
flor isolada,
num grito atravesso um futuro de limites convulsivos.

As minhas margens,
as minhas alamedas,
o fantasma que comunga comigo todas as madrugadas,
alguns anos de ausência disfarçada de rainha,
uma ardência débil na voz,
a minha folhagem submersa,
espaço e mais espaço a fulgir no meu corpo renovado
eis o átrio-astro da minha milenária profundidade.

Navego o vendaval
e nas minhas asas
música nenhuma me ama tanto
como eu beijo o incêndio dos teus seios.
Nenhuma neve esquecida dos meus passos
pulsa como tu.

Crescem nos meus dedos meiguices
e sempre
um quante mistério de outono
estremece na claridade da minha memória.
De penhasco em penhasco
vives em juventude um beijo que te espera
e que te escolhe
para alargar a solidão das mansões.

É dia nas águas onde a minha sede envolve pensamentos mágicos
e lento
o meu tossir
adivinha a fonte doente
que rasga na neblina os cérebros raros e escuros.

As chamas atravessam placidamente a rua
e vão beber com toda a equipagem do navio de meditações.

Morre num palácio
entre sedas claras
um mártir cavaleiro
que entrou em agonia
quando a catedral abriu os seus amplos claustros ao derradeiro par em lua-de-mel.

Sem cessar
do outro lado da lua cheia
o cão amadurece os seus sonhos de saber morrer.
O bafo do mar
abre-me aos nervos uma porta sobre a vida.
Entrançadas
morte e vida
são uma estrada para o sul da eternidade.

Nos olhos de um palhaço,
nas asas do milhafre,
desponta manso o teu olhar diferente
meu próprio fragmento livre
brotando furioso num gemido
sol no azul do universo.

A estrela descuidada
dá-me o teu cabelo loiro.
Aqui e ali
a paisagem prolonga-se
até aos limites do meu chamamento.
Hoje
bate à vidraça o cavername das ondas
e uma vela veste o meu silêncio
cada vez mais areal solene
mais eu e tu:
-silêncio do meu ser.

Fernando Alves dos Santos
Diário Flagrante
1954

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

HISTÓRIA DE CÃO

eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada

Mário Cesariny
burlescas teóricas e sentimentais
1972

domingo, 11 de fevereiro de 2007

O CÃO

Exacto oboé de pêlo
por quatro patas contido
humano de não querer sê-lo
pontualmente enternecido

geométrica dose de amor
aos pés do dono rio
cão por fora absoluto
de cão não ser escondido

idioma de nascituro
povo no ovo, o seu latido
por nos seguir é cão.
Mas se seguido?

Natália Correia
O Vinho e a Lira
1966

sábado, 10 de fevereiro de 2007

UM POEMA ESQUIMÓ

Vejo aproximarem-se os brancos cães da aurora:
- Alto!, que vos atrelo ao meu trenó de gelo!

Herberto Helder
O Bebedor Nocturno
poemas mudados para português
1968

DEBAIXO DO VULCÃO

«alguém atirou um cão
morto às profundidades»
Malcolm Lowry

I

Malcolm
Lowry: vivo
mal como Lowry,
bebo
bem como Mal-
colm, como
mal como
Malcolm
come:
álcool
Malcolm, al
coolm,
ó
alcolmalcolm,

II

ó frígida
tequilla
no sopé do vulcão
por onde
o vulnerável cão
do espírito
ladra
e lavra
a essência
recôndita
do álcool:
conte-a
a bebidíssima
exigência

III

do meu
último copo,
sempre o último,
cante-a
o ex-extinto
vulcão
e por instinto
o vulnerável
cão,
ou plante-a
o próprio Lowry,
frágil,
entre lava
e neve:

IV

tépido mescal
para inventar
a mescaligrafia
gémea do som
ou da sombria
pauta musical
onde as notas florescem
em breves,
compactas corolas,
e hastes
que sobem, descem
esguiamente
os degraus
dum jardim,

V

enquanto
os índios passam
depressa
mas de pedra,
ficam
antepondo-se
ao norte
que fabrica
os países
com vidro,
com vinho, com visões
de vidrais vitais
debaixo
do vulcão,

VI

ó tépida tequilla,
existe ainda
o amor
e o vulnerável cão
do espírito
que lavra
cada palavra
oculta
por pudor
e a ladra
inutilmente
dentro
da garganta
vazia,

VII

frígido mescal
como um galope
na floresta
de vinho e vidro,
filtro
litro a litro,
animal,
animais,
e mais e só
o dorido espírito
do álcool
Malcolm,
entre neve
e lava:

VIII

os índios passam,
bebo, ficam
na sombria
pauta musical,
e o vulnerável cão
do amor
sossega pelo menos
um instante,
enquanto
os índios
sobem, descem
esguiamente
os degraus
das pirâmides.

Carlos de Oliveira
Micropaisagem
1968

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

EU, QUE PASSEI...

Eram gritos de uma dor humana
e um vento distante nas copas das árvores
embalando o silêncio e a lividez da rua
tortuosa, ambígua, de altos e mesquinhos prédios,
e becos e escadas e água correndo perdida
na beira de um passeio em que de súbito
havia janelas pequeninas, longíncuas, e uma luz enorme
suspensa entre nuvens, a cidade inteira
vista só de um lado como os gritos.

Um cão se esgueira de um caixote voltado.
E um vulto, encolhido no portal de onde o cão saíra,
dorme profundamente a solidão e o frio,
a casa, a cama e a mesa, tantas, tantas,
que mal os gritos se ouvem... tê-los-ia ouvido
eu que passei, que só passei, no sonho
de um vulto adormecido, que nele fui
a mão amiga, o rosto sorridente, a porta entreaberta,
os passos que se perdem no corredor comprido,
ao fundo a claridade, imensa gente, a vida,
a que é dos outros, se adivinha, vozes -
meus passos tristes mais um cão que foge.

23/4/48

Jorge de Sena
Pedra Filosofal
1950

A MATILHA

As mãos perderam a força,
nunca a tiveram a não ser no descanso,
a que havia não dava por isso e chegava,
mas ao sentir os cães ladrando tão perto,
há pouco, onde fui eu buscar
a nobreza que me dirigiu os passos firmes,
me endireitou tão direito,
me fez olhar à volta com ar tão quotidiano,
e mesmo até me segurou o chapéu na cabeça?
Onde a fui eu buscar para ir ali como se a noite
se tecesse em estrelas
e as ruas em flores de silêncio,
ali, sentindo atrás a baba e os uivos
e o tropel das unhas não retráteis?
E, quando ficaram exibindo-se junto ao candeeiro,
ainda prossegui,
cheguei ao fim e parando ofegante,
vendo a escuridão molhada além dos vidros embaciados
e vendo o deserto e o passado a que tudo pertencia,
vendo à excepção dos lábios futuros que só agora distingo,
tive saudades do tropel...
tive saudades dos latidos...
e do meu ar sereno útil,
que este que ficou não serve para nada;
tive saudades, tenho-as,
e se agora ladrassem debaixo da janela,
não sei o que faria -
talvez lhes desse um osso...
talvez me abandonasse inteiro...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
desse o que desse, equivalia...
pois equivalia!...
mas eu tomei gosto à baba, cães vadios!

6,7/11/39

Jorge de Sena
Perseguição
1942

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

NOCTURNO

Quatro da madrugada.
Vivos,
sob o arco do céu,
eu
e um cão tão magro como eu.

Sem prévia combinação, sem nada,
tivemos este encontro nesta rua
a esta hora marcada
pelo aceno da lua.

E aqui vamos agora,
num amor vagabundo
de quem não se conhece e se namora,
a encher os dois sozinhos este mundo.

Coimbra, 16 de Maio de 1940.

Miguel Torga
Diário I
1941

domingo, 4 de fevereiro de 2007

CÃO ATÓMICO

1.

Este cão tem folhas nas orelhas,
Com quatro talos:
Mas o que este cão devia ter era calos,
E só tem olhos e ossos
E morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
Quase o diria meu irmão:
Parece gente!

2.

Este cão é redondo. Está deitado,
Rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
Mas perdeu a alcateia
Como os homens perderam a Razão,
Que hoje serve de osso ao cão
Escapo ao cogumelo nuclear.
E por essa razão se foi deitar.

Vitorino Nemésio
Limite De Idade
1972
O recorte de um cão, na areia, ao luar.
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.

Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vai uivar a tanta eira?
Que longo e liso, o fio da noite!
- E amar, esperar desta maneira!

Numa cidade deserta
(Talvez outra, ou Nínive)
Encontrei um anel, uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.

Mas tudo isso foi vão,
E até nem sei se esse osso tive.

Vitorino Nemésio
Eu, Comovido A Oeste
1940

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

INTERIOR COM CÃO

A velhice, aprender-lhe esses primeiros sinais
o cabelo «de prata» caindo agora um tudo nada mais
no lavatório ou simplesmente
ao deitar-se na cama o coração «que salta»
a moleza das pernas

não consolação nisto nenhuma
nem um crédito a favor
quando cotejadas as situações
(velhos nos asilos senhoras de preto à esmola
subindo a Rua Garrett)

a constatação dos anos «feitos
entre si para me perderem»
uma quase também
melancolia matadora

toda a máscara sufoca?

mas não para escapar a isto
usei-as talvez

quando me sento
à mesa e vejo aqui diante
do papel branco as unhas devastadas
como por um ácido

dentro do cesto o cão da casa
também já passa manhãs
à espera do sol quente

Fernando Assis Pacheco
Variações em Sousa
1984

OS CÃES

Eram loucos. Alguns deles eram loucos,
parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, «está um trapo», uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer somente, cães que somos
dez, vinte, chama-me «Niassa»,
ou «Tejo», vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.

Fernando Assis Pacheco
Catalabanza, Quilolo e Volta
1976

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

POESIA-CÃO

Com que então, coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.

Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,

meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.

Alexandre O'Neill
Feira Cabisbaixa
1965

CÃO

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O'Neill
Abandono Vigiado
1960

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