Antologia de textos com cães dentro.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

100.

Só o cão, esse amante imediato, gania agonicamente toda a malignidade dum reconhecimento tão lento.


Maria Velho da Costa
Da rosa fixa (prosas)
1978


Oferecido por Rui Almeida.

sábado, 12 de maio de 2007

AMORES PERROS

O MEU CÃO TEM TRÊS PERNAS

O meu cão tem três pernas,
porque tiveram de lhe cortar uma.
Perguntei-lhe como é que se sentia,
olhou para mim e disse: "Foleiro!".
Costumava passear muito com ele e o meu pai, à noite,
mas agora ele já não
pode e por isso vamos só até ao parque.
Mas eu gosto à mesma do meu cão,
apesar de ele já não ser o que era.
Sabem, o nome dele era Veloz,
mas agora talvez não lhe ficasse bem:
escolhemos de entre sete ou oito palavras ternas
Stool, que quer dizer banco de três pernas.

Gez Walsh
Trad. Hélder Moura Pereira
aguasfurtadas n.º10
Outubro 2006

INTERRUPÇÃO

Sonhos que se repetem, não continuam.
Figuras levadas em escadas rolantes.
Ninguém sabe quem. Lugares de passagem.
Manequins afogam-se em cabines telefónicas.

Aqui vejo lábios além tornozelos.
Expostos, à venda. Bonecos perigosos.
Misturo-os a objectos que logo se desfazem.
Encontram maneira de não se destruírem.

Aqui vejo lábios, além tornozelos.
O momento fecha a sala de espera.
Não se alugam quartos. Cuidado com o cão.

Lembro. A tua boca é uma sala de espera.
O momento tropeça no momento seguinte.
Repete-se e cai. Não continua.

Rogério Rôla
aguasfurtadas n.º10
Outubro 2006

quinta-feira, 3 de maio de 2007

AFORISMOS DE PASTELARIA

Aforismos de dona Bina
Há cães que têm a personalidade dos donos. E há donos que têm a personalidade dos cães.

Não ouvido na rua
- Como é que tens medo de cães se cresceste rodeado deles?
- Olha, da mesma forma que cresci rodeado de pessoas e não perdi o medo delas.

Januário
Januário tinha bom feitio. O seu cão é que não. Quando se encontravam era Januário que abanava o rabo.

Vida canina
A vida na cidade está cada vez mais canina, diz o homem à esquina, sem saber que os cães que pela trela traz também são responsáveis por isso.

Vestido para matar
Durante o dia era um labrador. À noite transformava-se num rottweiler.

Vingança barata
Dois homens brigavam até à morte num descampado. Os cães, à volta, faziam apostas.

Ainda a obsessão com canídeos
Uma vez por semana, as senhoras da Mexicana juntavam-se num descampado para a luta de caniches.

Nuno Costa Santos
Melancómico
2007

terça-feira, 1 de maio de 2007


Jehsong Baak, Dog at a Beach, Holland, 2004

CÃES, MARINHEIROS

Era um cão que tinha um marinheiro. O cão perguntou à esposa, que se pode fazer de um marinheiro? Põe-se de guarda ao jardim, respondeu ela. - Não se deve deixar um marinheiro à solta no jardim, que fica perto do mar. Um marinheiro é uma criatura derivada por sufixação, e pode recear-se o poder do elemento base: o radical mar. Em vez de guardar o jardim, ele acabaria por fugir para o mar. - Deixá-lo fugir, disse a esposa do cão. Mas ele não estava de acordo. Que um facto deveria ser esse mesmo facto até ao limite do possível: quem possui um marinheiro para guardar o jardim deve procurar mantê-lo a todo o custo, assim como o cão, ou o casal de cães, que não tiver um marinheiro deve não tê-lo até a isso ser absolutamente forçado. - Nesse caso, só nos resta ir para uma terra do interior, longe do mar, disse a cadela. E então foram para o interior, levando pela trela o marinheiro açaimado. Durante o percurso viram muitas paisagens. O marinheiro estava espantado com as paisagens que podem existir longe do mar. Fez diversas observações a esse respeito, provocando o risonho latido dos cães que, pela sua parte, concordavam em que tinham um marinheiro muito inteligente. - Nem todos os cães têm a nossa sorte, disse o cão, pois conheço vários cães que são donos de vários marinheiros estúpidos. Iam por isso bastante contentes e diziam, a outros cães com quem se cruzavam, que possuíam um marinheiro invulgarmente esperto. - Ele tem uma filosofia das paisagens, dizia o cão. Um cão da Estrela, que encontraram naturalmente perto da Serra da Estrela, perguntou-lhes se o marinheiro gostava de sardinhas. - Adora-as, respondeu a cadela. - Isso não me admira nada, disse o indígena. E na verdade não parecia admirado. Quando chegaram ao mais interior possível, alugaram uma casa com um jardim e puseram o marinheiro a guardá-lo. - Guarda-o, disseram. Deixaram-lhe ao lado uma dúzia de latas de sardinhas e foram para dentro de casa. Durante sete dias e sete noites, o marinheiro reflectiu sobre as paisagens do interior e comeu as sardinhas de conserva. Depois foi atacado de esgana, e começou a andar em círculos cada vez mais apertados no meio do jardim. Os cães observavam-no da janela e viam que o seu marinheiro perdia as forças a cada volta. Um dia, ao anoitecer, caiu para o lado resfolegando. - O mar, ouviram-no dizer. Então foram para dentro, e dormiram. De manhã vieram cedo ao jardim e verificaram que o marinheiro estava morto. - Era um marinheiro tão esperto, disse a cadela. - Pois era, disse o cão, foi pena. E enterraram o marinheiro debaixo de uma acácia. Mas como já se haviam habituado à vida do interior, não regressaram ao litoral. Nunca mais tiveram marinheiros. - Para quê?, dizia a cadela, ralações já existem de sobra. E quem se atreve a negar que ela tinha razão?

Herberto Helder
Os Passos em Volta
1963

domingo, 15 de abril de 2007

CARLOTA, ABRIL DE 2000 - ABRIL DE 2007




Causa da morte: envenenamento.


quinta-feira, 12 de abril de 2007

DOM RAFEIRO

O seu latido faz o espaço, ainda, mais largo,
Dá mais distância e fundo a toda esta amplidão.
Solitário, é, da noite e do campo, em letargo,
O feroz e pachorrento guardião.

Os seus olhos, que têm canduras de alvorada,
Têm, às vezes, também, o fulgurar do raio:
- Providência da rês desirmanada,
Lutador fero, heróico e sem desmaio.

Da boca enorme, a baba cristalina,
Pende-lhe, quando sonolento espera,
No escalvado cabeço da colina,
O sol, macio e bom, da Primavera.

Mas nas noites de Inverno desalmado:
- Poços enormes, negros e sem fundo, -
O seu cavo ladrar, no ermo resignado,
É a única voz viva deste Mundo.

Agora, o sol lhe doira a felpa do espinhaço.
O rebanho repasta, plácido, em sossego.
E, aninhado entre as mãos, em ternuras de abraço,
Aconchega-se, débil, um borrego.

Francisco Bugalho
Poesia
1961

quarta-feira, 11 de abril de 2007

CALENDÁRIO RURAL

ABRIL
O «Navarro» é um belo cão de caça, mas muito guloso. Esqueceram-se de o açaimar e entrou na capoeira onde estava um rebanho de pintos e a galinha choca, comendo logo três, porque julgava que faziam parte de um bando de perdigotos. O dono, caçador entusiasta, perdoou-lhe. Mas a mulher ficou desgostosa e jurou castigar o «Navarro». Assim ela o pilhe.
Azinhal Abelho
Os da Orada
1964
Oferta do Rui Almeida.

terça-feira, 10 de abril de 2007

HOMEM COM CÃO

Will Ryman, Man with Dog, 2005.

Walking the dog

Mal me levanto
tomo o café-da-manhã
e penso no cão,
corpo de feltro
largado na estrada
Mal me levanto
e já me sinto
ensanduichado
esborrachado
esprimido
e reduzido
ao olhar do cão fugindo
atravessando a rua
com direito
de cidade
como os de Jude Stefan
- ou seria embalado
liofilizado
como no réquiem de Ruy Belo?
Com os sentimentos atolados
em coisas imediatas
deixo o cão
seja de um
ou de outro
As coisas imediatas
(em conflito permanente)
me levam para o carro

17/09/2003

Heitor Ferraz
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003

Oferta do Rui Almeida.

O SONHO E OS CÃES

para José Amaro Dionísio

Entredentes o sonho
apodrece-o, dos cães,
a baba que supuram.

Dizendo de outro modo,
por um augúrio insistes,
procuras outra fábula,
tu sabes lá se mentem
os astros dessorados
as cartas de tarot
a sina ciganada
as folhinhas de chá
nas chávenas de estilo

Desfocam-se contornos,
ninguém te vê por perto,
não tens perdão, rapaz,
não, não há-de ser nada,
segredos já só mesmo
os que pela mais intacta
deslocação da mágoa
transitem entre uma
e outra lâmina.

Ninguém te vê, dispara,
vá, dispara, rapaz,
não, não há-de ser nada,
nada a fazer, de resto,
a voz assim sangrada,
os cães ainda à espreita.

Raul Malaquias Marques
Traduções da Fala
&etc, 1995

Oferta do
Rui Almeida.

PRADO DE MADRID

*

Goya! – o de la quinta del sordo.
Amanhã é dos loucos de hoje.
Pela quinta vez volto à tua sala
e ouço o anedótico sobre ti.
Anedótico por anedótico,
deixa que te diga.
Para que aquele cão está olhando?
Tu vias, quando pintavas solitário. Pois lá
deixaste o grande imperador, após
tantos massacres, e a caveira da morte,
em cima a criança. E se olhar-se melhor,
à saída, a maja também está
e disfarça, e dança nos três. Tudo
semifundido com o cão. E é esta a explicação
dentro dos olhos do cão que contemplam.
Tudo passa, inexoravelmente
tudo passa, e nenhum poder
pode subsistir à humildade de um cão que contempla.

Agora podem continuar os zumbidos que entornam sobre ti.


José Santiago Naud
Conhecimento a Oeste
Moraes Editores, 1974

Oferta do Rui Almeida.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

UMA TARDE de Agosto. Nuvens altas e secas espalham o calor que sobe das pedras, que cerca as árvores, que trepa pelas paredes da casa e reverbera no coro monótono das cigarras.
A sombra agacha-se; a água parece lodo. O cão sofre, com a língua de fora e o olhar mortiço. Desespera. Está velho, acabado. Pensa que poderá ser o sofrimento do último verão - isso não o consola, nem o perturba.
Pensa que há um Deus que vigia a inclemência do verão e o sofrimento dos cães; agora, deseja o sono, que lhe resiste; cresce a modorra, o estupor do desamparo.

José Alberto Oliveira
Bestiário
2004

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Philip Pearlstein, Model with HMN Dog and Renaissance Bambino, 2006.

O BAIRRO

7.

O cão, aos pinotes
na cozinha onde as latas de chá
cheiram a lixívia,
rosna aos projectos de demolição.

Inútil estabelecer rimas ao «gosto popular».
A subtileza verbal, os jogos de palavras
e o ritmo da poesia feridos
irremediavelmente
no dia em que os recém-nascidos
começaram a aparecer nos contentores.

Jorge Gomes Miranda
Postos de Escuta
2003

O CÃO

Diz-me o meu jardineiro: O cão
É robusto e esperto e foi comprado
Pra guardar hortas. Mas eles
Fizeram dele o amigo do homem. Pra que é
Que lhe dão de comer?

Bertolt Brecht
Tradução de Paulo Quintela
Poemas e Canções
1975

domingo, 1 de abril de 2007


Frank Tenney Johnson, Men and Dog.

O ESTRANGEIRO (excerto)

Ao subir, na escada escura, choquei com o velho Salamano, meu vizinho de andar. Ia com o cão. Há oito anos que não se largam. O rafeiro tem uma doença de pele que lhe faz cair todo o pêlo e o que o cobre de manchas e de crostas. À força de viver com ele, os dois sozinhos num pequeno quarto, o velho Salamano acabou por ficar parecido com o cão. Quanto ao cão, tomou do dono uma espécie de ar curvado, focinho para a frente e pescoço estendido. Parecem da mesma raça, e no entanto detestam-se. Duas vezes por dia, às onze horas e às seis horas, o velho leva o cão a passear. Fazem há oito anos o mesmo itinerário. Seguem ao longo da Rua de Lyon, o cão a puxar pelo homem até o fazer tropeçar. Põe-se então a bater no bicho e a insultá-lo. O cão roja-se cheio de medo e deixa-se arrastar. Nesse momento é o velho que tem de puxar. Quando o cão se esquece, põe-se outra vez a puxar e é outra vez espancado e insultado. Ficam então os dois no passeio e olham-se, o cão com terror, o homem com ódio. É assim todos os dias. Quando o cão quer fazer as suas necessidades, o velho não lhe dá tempo e arrasta-o. Se por caso o cão «faz» no quarto, também lhe bate. Isto dura há oito anos. O Celeste diz que «é uma pena», mas no fundo ninguém quer saber. Quando encontrei o Salamano nas escadas ia a insultar o cão: «Bandido! Cão nojento!» Eu disse: «Boas-noites», mas o velho continuava a insultá-lo. Perguntei-lhe o que é que o cão tinha feito. Não me respondeu. Dizia apenas: «Bandido! Cão Nojento!» Percebi que debruçado sobre o animal, estava a arranjar qualquer coisa na coleira. Falei mais alto. Então, sem se voltar para trás, respondeu-me com uma espécie de raiva reprimida: «Está sempre aqui!» Depois foi-se embora puxando pelo cão, que gania e se deixava arrastar.
Albert Camus
O Estrangeiro
Oferta do Ricardo Jorge.

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