Antologia de textos com cães dentro.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

DOGS OF LUST


The The

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Um cão de angústia progride
na cidadela sitiada

enquanto te demoras
no sorvo
no arquejo largo
no topo da saliva

enquanto te entreabro
as pernas altas
enquanto te humedeço
o musgo tenro

para te ferir com a boca
cheia de vidro moído.

Eduardo Pitta
Um Cão de Angústia Progride
1979

CHESTER

Tenho quatro minutos e alguns segundos para te escrever,
o mesmo tempo das saudades-de-ti.

Tenho um piano para tocar e um cão chamado chester,
tenho tempo e uma toda vida,
uma paixão preta por uma mulher branca.

Aos poucos ficámos a gostar de ti.

Tudo muda, menos tu,
tudo muda, menos o que vou tendo.

Devias viajar mais
sem ligares ao mapa das ruas que esperam que te percas,
como eu,
debaixo da luz daquele candeeiro igual aos outros.

O que são sete anos?
Tenho pelo menos seis para te escrever.

Tudo muda, menos tu.

Devias respirar o ar,
devias fazer parte de um genérico
ou de um agradecimento especial.

Estás mais perto de onde já estás.

Tenho um suor que devias aproveitar melhor.
O teu, lembras-te, apenas me guia.

Devias ir mais ao circo e sentir falta da rede.

Aos poucos, ficámos a amar-te,
aos poucos percebemos os que dormem dontigo,
os que te chateiam, os que tu amas.

Tenho pouco tempo e um piano para tocar,
devias rir mais,
tenho uma cama vazia e tu uma cheia.

Devias olhar menos para o tempo,
não tenho criada mas quero te rum sonho escuro.

Há cidades que não nos ligam,
há um homem que te cola a um ensaio que tu sabes ganhar,
mesmo quando não queres, pedes um beijo e uma boa-noite,
esperas uma gravação e uma carícia para mais tarde.

Tu é que sabes, tem calma,
é isso que queres ouvir, tem calma.

Como é que se luta contra um prazer?
Com outro, vezes e vezes.

Devias cantar mais no duche,
de manhã, quando a força te vem.

Estás mais perto de estares calada,
mas só o vais perceber quando tiveres pouca certeza.

Tenho um suor que devias provar,
se quiseres eu troco.

Os artistas esperam um público,
descalços ainda nos ferimos.
Devias reconhecer o sangue e dançar.

Devias dançar de manhã,
eu não me importo, tenho o sono pesado
e um piano para tocar.

Aind anão sabes as notas, pois não?
Nem eu, graças a deus.

Devias cantar mais, ir à guerra
- é isso não é, é preciso ser teu inimigo.

Tenho um piano para tocar,
talvez não aguente as tuas manhãs,
mas posso tentar adormecer-te com um dó.
Sem grande pena.

Devias dar aulas aos que não te ligam,
devias ir mais com as outras,
tenho um vinho para te acompanhar.
Já notaste como te brindo?

Devias passar uma faca nas minhas mãos
e dizer tão finas.

Tenho um piano para tocar,
devias cantar mais pela manhã.

Tenho pouco mais que quatro anos e alguns dias,
graças a deus,
vou ter um cão melhor que o teu.

Nuno Moura
Soluções do problema anterior
1996

sábado, 2 de junho de 2007

UM BLUES A DOIS



Fingimos muito bem.
Tu enrugas tua face filosófica
e pareces questionar a existência do mundo.
E eu sorrio e converso contigo.

A tristeza não é um espetáculo público,
pertence à nossa intimidade
e nela nos entendemos.
Posso então falar-te à vontade
e choro e te preocupas. Eu sei,
mesmo que nada digas,
afora lamberes-me as mãos
e me olhares com o teu olhar canino
agudamente.

Ambos sabemos o que nos entristece,
o que te preocupas por mim.
Ambos sabemos da tristeza mútua
e nos olhamos com respeito,
Mesmo que eu às vezes insista :
- Diga algo!
E tu me olhes perplexo,
porque querias tanto fazê-lo.

E amas-me e sabes que te amo.
O que não sabemos é que é a nossa questão.
E nós pensamos muito.

A cidade amanhece e estamos insones.
Um blues ia bem,
um dia aprenderás.

Silvia Chueire
(inédito)

sexta-feira, 1 de junho de 2007

HOJE, AS CIDADES

hoje, as cidades
ficaram um pouco mais longe
e eu não sei porquê
só sei que ficaram mais longe
as cidades
à beira-mar, havendo por todo o globo
as duas vidas:
eleanor damortis animada de festas e de estios
ou a rapariga que vive
a mil e quinhentos paus por mês
não sabendo no armário
outros sítios de ser festa ou esperar.
(do outro lado da ribeira o velho cão
guarda o corpo como algas
e compotas de frio às seis da tarde...)
a rapariga do armário
mata-se na cidade
do outro lado de ser diferente o mesmo tempo.

R. Lino
Atlas Paralelo
1984

terça-feira, 29 de maio de 2007

fastio

compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um cão dá-lhe pão caga o cão
revende o cão compra pão caga o pão
compra um pão come pão caga o pão
não compra não come não caga morre

Alberto Pimenta
Os Entes e os Contraentes
1971

NEGRUME

3.
vi os homens no carro celular, os cães fodidos.
por cima de mim estava o ramo,
havia céu, estrelas. mas os cães
ladravam à minha passagem, acossados.

no tempo em que me interrogava,
no tempo em que tinha uma ânfora, azeite e cereal,
fixava a atenção na iridescência. a cristaleira
à minha frente era um espelho.

mas sou agora um homem só. os cães fodidos
ladram na distância, ladram, ladram desabridamente.
e o brilho, assim translúcido,
é agora a minha maior pena, o meu maior desgosto.

vi os homens no carro celular, a neblina cinzenta.
às vezes Deus esmaga-nos o peito, reclama-nos.
o que gela é escuro como uma torrente de gritos.
meu amor, tremo de frio, a noite é vasta.

os cães fodidos. o barco, a viagem. nada espera.
de novo o carro celular volta ao lugar
em que a semente estiola e a boca arde.
não sei de ti, de mim, da nossa sombra.

noutros lugares o aceno é o sinal
da transposição do limite. a nuvem abre-se
ao sulco tracejante, ocre ou grená.
e é possível ver fazer chover.

aqui, assim, na barra da ausência,
só é possível ver as torres altas, os guardas
que vigiam, a arrogância
dos que nos servem o vinho e a abundância.

são desabridos os nossos sentimentos.
o desejo é um cão. os mortos
visitam-me ao crepúsculo. estou em fogo.
vi o carro celular. os cães fodidos.

hei-de dizer às crianças: foi assim
que em golpes de sangue o meu amor morreu.
não sei já para que serve a verdade.
Deus existe, não existe, reclama-nos.

Amadeu Baptista
Negrume
2006

OS BICHOS

Parece o movimento
de uma serpente,
este caminho que percorro
todos os dias
ao encontro do cansaço.
E nas bermas
gatos esventrados.
E no centro,
bem no centro,
alguns cães pisados.
Bichos que sem culpa
prefiro pensar adormecidos.

Henrique Manuel Bento Fialho
Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe
2000

segunda-feira, 28 de maio de 2007



Piotr Bakows, Running Dogs

VIDA ANÓNIMA (fragmento)

Um cão verde no outro lado do quintal
cresce felinamente para o céu.
Não ladra já.
Apenas ergue a cauda

e fareja no ar
a memória inverosímil do que arde
no espaço fulgurante
entre uma casa e outra

e esse sinal na testa
dos que esperam a serenidade
e tudo ignoram sobre a morte

e a vida que cresce nesse instante.
Ávido cão que do céu fareja
o rastro de um destino que não há -

Amadeu Baptista
A Construção de Nínive
2001

O CÃO AZTECA


Iyyar

Meu avô regressou do Brasil ao tempo da candidatura. Trouxe consigo um pequeno cão do Amazonas. Custou-lhe uma fortuna, fazê-lo. Dá horas, dizia, rindo. Era o cão azteca. O nome, na verdade, era Cruzeiro. Vinha pobre. Ele e o podengo (rafeiro) tornaram-se inseparáveis pareciam diminuir de feitio com o passar dos anos, mas para determinadas excursões somente. Acompanhava-o em altitude, no Serrando, a um que outro olival longínquo, e na verdade ao café – única excepção – dentro da vila. De resto, não saía dos muros, nem por perto. O país que ambos viram de uma pensão da Praça da Figueira, ou de um Hotel no Rossio, já não sabemos bem – pareceu-lhes diferente, mais apertado. De uma vez, numa ida a Santiago, trouxe uma coleira vermelha cravada de pequenos filetes metálicos, a fogo, no couro recuado.
Foi um dia, na metade alta e cinzenta da Serra que ouviu rosnar (verificava uma represa) junto a um palheiro perto do Fojão. Foi dentro e viu lá outro cão de pêlo semelhante, vermelhusco. No dia seguinte, voltou muito cedo com o seu – tinha sido ferido, e manquejava ainda um pouco. Levou ambos até à ponta derrubada do fojo pequeno. Deixou o Cruzeiro entrar e seguiu-o com uma lâmpada. O outro, uivava cá fora, bem preso. Veio sair a uma laje de musgo (escapulira-se um lagarto, velho, e restos de penas de pega ou poupa) que antecedia uma reentrância na qual deparou com um loureiro e alguns carvalhos enegrecidos. Mas o cão, nessa curta passagem, desaparecera. Voltou atrás, foi outra vez à maior boca, trouxe o outro, nada. Por fim, o mais pequeno veio trazer-lhe uma coleira, em perfeito estado, aberta, como se tivesse sido desapertada por mão humana.
Ao anoitecer, fez o longo trajecto em direcção à povoação do baio velho. Trazia o mais pequeno. Chegou, era noite cerrada. A velha dama, quando o viu, e conhecendo-o, não disse nada. O cão não saía o portão. Cerca de um mês depois apareceu morto junto à porta cocheira. O Avô viveu uma década mais e com frequência ia à montanha em busca “do rafeiro vermelho”. Guardara a coleira numa gaveta que fizera, de propósito, na sua secretária. Junto dela havia um pé de cabra que trouxera da fronteira, no Brasil. Ficaram abertas toda a noite no dia seguinte ao seu trespasse.


Gil de Carvalho
A Cidade de Cobre
Cotovia, 2001

Oferecido por Rui Almeida.

QUE FAÍSCA FUGIU DO TEU OLHAR

Nunca consegui despedir-me
dos meus mortos. Porque partíamos
para outras cidades, outras ruas, outros
sítios de despedida. Transporto
comigo esses finais antecipados,
novelos sem ponta, mimeses
sucessivas.

Mas os meus animais
sempre de mim se despediram, desde
o tigre domestico, envenenado no quintal
por uma velhinha sinistra que
queria preservar as alfaces,
até ao meu último cão, escondido
no último dia, no canto mais escuro
da garagem, um sitio de partidas
que ele conhecia.

Vem dos animais
uma tal inteireza, um até ao fim, até
que a morte nos separe, tão intensamente
farejado, tão comovidamente lambido. O clarim
de um miado ao abrir a porta. O latir
festivo de todas as chegadas. A probidade
do humilde estado de andar
a quatro. A alegria arcaica de trincar, rilhar
o esburgado osso, o looping de garras
fulminantes para suster um voo. Endoidecer
ao cheiro do pescado. Escutar
sons inaudíveis, danado de atenção.

Só os nossos animais nos lançam longos e
verdadeiros olhares de saudade, antes
de partirem, na sua perfeita condição
de seres indivisíveis, para a ventura de
nenhum Hades, nenhum céu.

Agosto, 2003

Inês Lourenço
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003


Oferecido por Rui Almeida.

100.

Só o cão, esse amante imediato, gania agonicamente toda a malignidade dum reconhecimento tão lento.


Maria Velho da Costa
Da rosa fixa (prosas)
1978


Oferecido por Rui Almeida.

sábado, 12 de maio de 2007

AMORES PERROS

O MEU CÃO TEM TRÊS PERNAS

O meu cão tem três pernas,
porque tiveram de lhe cortar uma.
Perguntei-lhe como é que se sentia,
olhou para mim e disse: "Foleiro!".
Costumava passear muito com ele e o meu pai, à noite,
mas agora ele já não
pode e por isso vamos só até ao parque.
Mas eu gosto à mesma do meu cão,
apesar de ele já não ser o que era.
Sabem, o nome dele era Veloz,
mas agora talvez não lhe ficasse bem:
escolhemos de entre sete ou oito palavras ternas
Stool, que quer dizer banco de três pernas.

Gez Walsh
Trad. Hélder Moura Pereira
aguasfurtadas n.º10
Outubro 2006

INTERRUPÇÃO

Sonhos que se repetem, não continuam.
Figuras levadas em escadas rolantes.
Ninguém sabe quem. Lugares de passagem.
Manequins afogam-se em cabines telefónicas.

Aqui vejo lábios além tornozelos.
Expostos, à venda. Bonecos perigosos.
Misturo-os a objectos que logo se desfazem.
Encontram maneira de não se destruírem.

Aqui vejo lábios, além tornozelos.
O momento fecha a sala de espera.
Não se alugam quartos. Cuidado com o cão.

Lembro. A tua boca é uma sala de espera.
O momento tropeça no momento seguinte.
Repete-se e cai. Não continua.

Rogério Rôla
aguasfurtadas n.º10
Outubro 2006

quinta-feira, 3 de maio de 2007

AFORISMOS DE PASTELARIA

Aforismos de dona Bina
Há cães que têm a personalidade dos donos. E há donos que têm a personalidade dos cães.

Não ouvido na rua
- Como é que tens medo de cães se cresceste rodeado deles?
- Olha, da mesma forma que cresci rodeado de pessoas e não perdi o medo delas.

Januário
Januário tinha bom feitio. O seu cão é que não. Quando se encontravam era Januário que abanava o rabo.

Vida canina
A vida na cidade está cada vez mais canina, diz o homem à esquina, sem saber que os cães que pela trela traz também são responsáveis por isso.

Vestido para matar
Durante o dia era um labrador. À noite transformava-se num rottweiler.

Vingança barata
Dois homens brigavam até à morte num descampado. Os cães, à volta, faziam apostas.

Ainda a obsessão com canídeos
Uma vez por semana, as senhoras da Mexicana juntavam-se num descampado para a luta de caniches.

Nuno Costa Santos
Melancómico
2007

terça-feira, 1 de maio de 2007


Jehsong Baak, Dog at a Beach, Holland, 2004

CÃES, MARINHEIROS

Era um cão que tinha um marinheiro. O cão perguntou à esposa, que se pode fazer de um marinheiro? Põe-se de guarda ao jardim, respondeu ela. - Não se deve deixar um marinheiro à solta no jardim, que fica perto do mar. Um marinheiro é uma criatura derivada por sufixação, e pode recear-se o poder do elemento base: o radical mar. Em vez de guardar o jardim, ele acabaria por fugir para o mar. - Deixá-lo fugir, disse a esposa do cão. Mas ele não estava de acordo. Que um facto deveria ser esse mesmo facto até ao limite do possível: quem possui um marinheiro para guardar o jardim deve procurar mantê-lo a todo o custo, assim como o cão, ou o casal de cães, que não tiver um marinheiro deve não tê-lo até a isso ser absolutamente forçado. - Nesse caso, só nos resta ir para uma terra do interior, longe do mar, disse a cadela. E então foram para o interior, levando pela trela o marinheiro açaimado. Durante o percurso viram muitas paisagens. O marinheiro estava espantado com as paisagens que podem existir longe do mar. Fez diversas observações a esse respeito, provocando o risonho latido dos cães que, pela sua parte, concordavam em que tinham um marinheiro muito inteligente. - Nem todos os cães têm a nossa sorte, disse o cão, pois conheço vários cães que são donos de vários marinheiros estúpidos. Iam por isso bastante contentes e diziam, a outros cães com quem se cruzavam, que possuíam um marinheiro invulgarmente esperto. - Ele tem uma filosofia das paisagens, dizia o cão. Um cão da Estrela, que encontraram naturalmente perto da Serra da Estrela, perguntou-lhes se o marinheiro gostava de sardinhas. - Adora-as, respondeu a cadela. - Isso não me admira nada, disse o indígena. E na verdade não parecia admirado. Quando chegaram ao mais interior possível, alugaram uma casa com um jardim e puseram o marinheiro a guardá-lo. - Guarda-o, disseram. Deixaram-lhe ao lado uma dúzia de latas de sardinhas e foram para dentro de casa. Durante sete dias e sete noites, o marinheiro reflectiu sobre as paisagens do interior e comeu as sardinhas de conserva. Depois foi atacado de esgana, e começou a andar em círculos cada vez mais apertados no meio do jardim. Os cães observavam-no da janela e viam que o seu marinheiro perdia as forças a cada volta. Um dia, ao anoitecer, caiu para o lado resfolegando. - O mar, ouviram-no dizer. Então foram para dentro, e dormiram. De manhã vieram cedo ao jardim e verificaram que o marinheiro estava morto. - Era um marinheiro tão esperto, disse a cadela. - Pois era, disse o cão, foi pena. E enterraram o marinheiro debaixo de uma acácia. Mas como já se haviam habituado à vida do interior, não regressaram ao litoral. Nunca mais tiveram marinheiros. - Para quê?, dizia a cadela, ralações já existem de sobra. E quem se atreve a negar que ela tinha razão?

Herberto Helder
Os Passos em Volta
1963

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