As saudades da pátria, que ilusão
Há longos anos já abandonada!
Que me importa a mim em que rincão
Esteja isolada
Ou por que estreitas pedras de calçada
Vou com o saco de compras à ilharga
A caminho de uma estranha casa
Que é como uma caserna ou hospital.
Que me importam os rostos entre os quais
Possa viver como um leão rugindo,
E de que povo me possam expulsar,
Que me importa, certamente,
Para dentro de mim.
Como um urso da Kamtchatka sem gelo,
Para mim é sempre igual
O lugar de vida e humilhação.
Não me seduz já o apelo lácteo
Da minha bela língua natal,
Que me importa a língua
Em que não sou compreendida!
O voraz leitor de jornais
E munjidor de intrigas
É do século vinte
E eu de todos os séculos!
Perplexa como um tronco
Sou o que resta duma alameda,
Que me importa tudo, que me importam todos,
E que me importa acima de tudo
A pátria antiga.
Todos os sinais, todas as marcas,
Todas as datas, tudo passou:
Só resta a alma, nascida em qualquer parte.
O meu país não me soube guardar
E não há arguto cão-polícia
Que em toda a minha alma possa achar
Qualquer marca de nascença!
Toda a casa me é alheia, todo o templo me é vazio,
E que me importa tudo se é igual!
Mas os arbustos que avisto pela estrada
São como os da minha terra natal...
Tradução de Manuel de Seabra.
Marina Tsvetayeva
1934
Antologia da Poesia Soviética
1973
Antologia de textos com cães dentro.
segunda-feira, 11 de junho de 2007
domingo, 10 de junho de 2007
O VELHO CÃO
Soltava ontem já tarde um velho cão felpudo
Uns doloridos ais,
Em frente dum palácio altivo, belo e mudo,
Cerrado aos vendavais.
Fazia pena ouvi-lo, o mísero molosso
Em seu triste chorar!
Era quase uma sombra: apenas pele e osso
E um vago, um doce olhar!..
Eis a sorte cruel do pobre que não come,
Dos míseros sem pão!
Em paga ainda em cima os vai tragando a Fome,
A negra aparição!
Latia o cão faminto. O frio era mordente,
Feroz, quase voraz!
E o pobre não sabia, enfim, que há muita gente
Que adora a santa paz.
Ora perto vivia uma galante rosa,
Etérea, virginal,
Que tinha um lindo colo, amava, era nervosa
E a quem faziam mal,
Aquele uivar sinistro; a ponto de desmaios
Pender a fronte ao chão!
Saíram pois à rua impávidos lacaios
E foram dar no cão.
- Há no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado,
- O Povo sofredor,
Que às vezes vai ganir, com fome, o seu bocado
Às portas dum senhor.
O resto é velha história: ocioso é já dizer-vos
O fim que ela há-de ter.
A Ordem, só de ouvi-lo, alteram-se-lhe os nervos
E manda-lhe bater!
Guilherme de Azevedo
A Alma Nova
1874
Oferecido por Rui Almeida.
Uns doloridos ais,
Em frente dum palácio altivo, belo e mudo,
Cerrado aos vendavais.
Fazia pena ouvi-lo, o mísero molosso
Em seu triste chorar!
Era quase uma sombra: apenas pele e osso
E um vago, um doce olhar!..
Eis a sorte cruel do pobre que não come,
Dos míseros sem pão!
Em paga ainda em cima os vai tragando a Fome,
A negra aparição!
Latia o cão faminto. O frio era mordente,
Feroz, quase voraz!
E o pobre não sabia, enfim, que há muita gente
Que adora a santa paz.
Ora perto vivia uma galante rosa,
Etérea, virginal,
Que tinha um lindo colo, amava, era nervosa
E a quem faziam mal,
Aquele uivar sinistro; a ponto de desmaios
Pender a fronte ao chão!
Saíram pois à rua impávidos lacaios
E foram dar no cão.
- Há no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado,
- O Povo sofredor,
Que às vezes vai ganir, com fome, o seu bocado
Às portas dum senhor.
O resto é velha história: ocioso é já dizer-vos
O fim que ela há-de ter.
A Ordem, só de ouvi-lo, alteram-se-lhe os nervos
E manda-lhe bater!
Guilherme de Azevedo
A Alma Nova
1874
Oferecido por Rui Almeida.
CÃO E PRESA
Um cão apanha um coelho
À margem de uma ribeira;
Mas vendo-o n’aquelle espelho,
Larga-o, salta a ribanceira…
E assim perde o que levava,
E mais o que ambicionava!
Abençoada prudência
(E é esta a moralidade!)
Quantos pela aparência
Perdem a realidade!
João de Deus
Campo de Flores
1893
Oferecido por Rui Almeida.
À margem de uma ribeira;
Mas vendo-o n’aquelle espelho,
Larga-o, salta a ribanceira…
E assim perde o que levava,
E mais o que ambicionava!
Abençoada prudência
(E é esta a moralidade!)
Quantos pela aparência
Perdem a realidade!
João de Deus
Campo de Flores
1893
Oferecido por Rui Almeida.
sexta-feira, 8 de junho de 2007
LIRICACÃO/ÇÃO
Parte da lírica
afago-a com as unhas
focinho
do poema.
Os óculos perseguem as pálidas palavras.
Mesmo as mãos
farejam o discurso
enquanto firo um toiro
num alfabeto loiro
num velho mecanismo.
(Um lápis diz para mim:
enxota a solidão)
Parte da lírica
agora é como um cão.
Armando Silva Carvalho
Lírica Consumível
1965
afago-a com as unhas
focinho
do poema.
Os óculos perseguem as pálidas palavras.
Mesmo as mãos
farejam o discurso
enquanto firo um toiro
num alfabeto loiro
num velho mecanismo.
(Um lápis diz para mim:
enxota a solidão)
Parte da lírica
agora é como um cão.
Armando Silva Carvalho
Lírica Consumível
1965
ESTOU CANSADO DE VIVER NA MINHA TERRA NATAL
Estou cansado de viver na minha terra natal,
Pensativo nas vastidões de trigo negro,
A minha cabana vou abandonar
E partirei como vagabundo e ladrão.
Seguirei o dia de caracóis brancos
A procurar miserável abrigo.
E o meu melhor amigo afiará
Em mim a navalha tirada da bota.
A estrada atravessa o prado
Amarela de sol e Primavera,
E aquela de quem guardo o nome
Em mim, correr-me-á da sua porta.
E voltarei então à casa paterna,
Com a alegria de outro me consolarei,
E com a manga, uma noite verde,
Da janela me enforcarei.
Os salgueiros cinzentos na cerca
Inclinarão mais ternamente a cabeça.
E enterrar-me-ão sem me lavarem
Ao som dos cães a ladrar.
E a lua há-de vaguear e vaguear,
Deixando cair ramos nos lagos,
E a Rússia como dantes viverá
A dançar e a chorar na cerca.
Tradução de Manuel de Seabra.
Sergei Yesenin
1915
Antologia da Poesia Soviética
1973
Pensativo nas vastidões de trigo negro,
A minha cabana vou abandonar
E partirei como vagabundo e ladrão.
Seguirei o dia de caracóis brancos
A procurar miserável abrigo.
E o meu melhor amigo afiará
Em mim a navalha tirada da bota.
A estrada atravessa o prado
Amarela de sol e Primavera,
E aquela de quem guardo o nome
Em mim, correr-me-á da sua porta.
E voltarei então à casa paterna,
Com a alegria de outro me consolarei,
E com a manga, uma noite verde,
Da janela me enforcarei.
Os salgueiros cinzentos na cerca
Inclinarão mais ternamente a cabeça.
E enterrar-me-ão sem me lavarem
Ao som dos cães a ladrar.
E a lua há-de vaguear e vaguear,
Deixando cair ramos nos lagos,
E a Rússia como dantes viverá
A dançar e a chorar na cerca.
Tradução de Manuel de Seabra.
Sergei Yesenin
1915
Antologia da Poesia Soviética
1973
quarta-feira, 6 de junho de 2007
segunda-feira, 4 de junho de 2007
CHESTER
Tenho quatro minutos e alguns segundos para te escrever,
o mesmo tempo das saudades-de-ti.
Tenho um piano para tocar e um cão chamado chester,
tenho tempo e uma toda vida,
uma paixão preta por uma mulher branca.
Aos poucos ficámos a gostar de ti.
Tudo muda, menos tu,
tudo muda, menos o que vou tendo.
Devias viajar mais
sem ligares ao mapa das ruas que esperam que te percas,
como eu,
debaixo da luz daquele candeeiro igual aos outros.
O que são sete anos?
Tenho pelo menos seis para te escrever.
Tudo muda, menos tu.
Devias respirar o ar,
devias fazer parte de um genérico
ou de um agradecimento especial.
Estás mais perto de onde já estás.
Tenho um suor que devias aproveitar melhor.
O teu, lembras-te, apenas me guia.
Devias ir mais ao circo e sentir falta da rede.
Aos poucos, ficámos a amar-te,
aos poucos percebemos os que dormem dontigo,
os que te chateiam, os que tu amas.
Tenho pouco tempo e um piano para tocar,
devias rir mais,
tenho uma cama vazia e tu uma cheia.
Devias olhar menos para o tempo,
não tenho criada mas quero te rum sonho escuro.
Há cidades que não nos ligam,
há um homem que te cola a um ensaio que tu sabes ganhar,
mesmo quando não queres, pedes um beijo e uma boa-noite,
esperas uma gravação e uma carícia para mais tarde.
Tu é que sabes, tem calma,
é isso que queres ouvir, tem calma.
Como é que se luta contra um prazer?
Com outro, vezes e vezes.
Devias cantar mais no duche,
de manhã, quando a força te vem.
Estás mais perto de estares calada,
mas só o vais perceber quando tiveres pouca certeza.
Tenho um suor que devias provar,
se quiseres eu troco.
Os artistas esperam um público,
descalços ainda nos ferimos.
Devias reconhecer o sangue e dançar.
Devias dançar de manhã,
eu não me importo, tenho o sono pesado
e um piano para tocar.
Aind anão sabes as notas, pois não?
Nem eu, graças a deus.
Devias cantar mais, ir à guerra
- é isso não é, é preciso ser teu inimigo.
Tenho um piano para tocar,
talvez não aguente as tuas manhãs,
mas posso tentar adormecer-te com um dó.
Sem grande pena.
Devias dar aulas aos que não te ligam,
devias ir mais com as outras,
tenho um vinho para te acompanhar.
Já notaste como te brindo?
Devias passar uma faca nas minhas mãos
e dizer tão finas.
Tenho um piano para tocar,
devias cantar mais pela manhã.
Tenho pouco mais que quatro anos e alguns dias,
graças a deus,
vou ter um cão melhor que o teu.
Nuno Moura
Soluções do problema anterior
1996
o mesmo tempo das saudades-de-ti.
Tenho um piano para tocar e um cão chamado chester,
tenho tempo e uma toda vida,
uma paixão preta por uma mulher branca.
Aos poucos ficámos a gostar de ti.
Tudo muda, menos tu,
tudo muda, menos o que vou tendo.
Devias viajar mais
sem ligares ao mapa das ruas que esperam que te percas,
como eu,
debaixo da luz daquele candeeiro igual aos outros.
O que são sete anos?
Tenho pelo menos seis para te escrever.
Tudo muda, menos tu.
Devias respirar o ar,
devias fazer parte de um genérico
ou de um agradecimento especial.
Estás mais perto de onde já estás.
Tenho um suor que devias aproveitar melhor.
O teu, lembras-te, apenas me guia.
Devias ir mais ao circo e sentir falta da rede.
Aos poucos, ficámos a amar-te,
aos poucos percebemos os que dormem dontigo,
os que te chateiam, os que tu amas.
Tenho pouco tempo e um piano para tocar,
devias rir mais,
tenho uma cama vazia e tu uma cheia.
Devias olhar menos para o tempo,
não tenho criada mas quero te rum sonho escuro.
Há cidades que não nos ligam,
há um homem que te cola a um ensaio que tu sabes ganhar,
mesmo quando não queres, pedes um beijo e uma boa-noite,
esperas uma gravação e uma carícia para mais tarde.
Tu é que sabes, tem calma,
é isso que queres ouvir, tem calma.
Como é que se luta contra um prazer?
Com outro, vezes e vezes.
Devias cantar mais no duche,
de manhã, quando a força te vem.
Estás mais perto de estares calada,
mas só o vais perceber quando tiveres pouca certeza.
Tenho um suor que devias provar,
se quiseres eu troco.
Os artistas esperam um público,
descalços ainda nos ferimos.
Devias reconhecer o sangue e dançar.
Devias dançar de manhã,
eu não me importo, tenho o sono pesado
e um piano para tocar.
Aind anão sabes as notas, pois não?
Nem eu, graças a deus.
Devias cantar mais, ir à guerra
- é isso não é, é preciso ser teu inimigo.
Tenho um piano para tocar,
talvez não aguente as tuas manhãs,
mas posso tentar adormecer-te com um dó.
Sem grande pena.
Devias dar aulas aos que não te ligam,
devias ir mais com as outras,
tenho um vinho para te acompanhar.
Já notaste como te brindo?
Devias passar uma faca nas minhas mãos
e dizer tão finas.
Tenho um piano para tocar,
devias cantar mais pela manhã.
Tenho pouco mais que quatro anos e alguns dias,
graças a deus,
vou ter um cão melhor que o teu.
Nuno Moura
Soluções do problema anterior
1996
sábado, 2 de junho de 2007
UM BLUES A DOIS

Fingimos muito bem.
Tu enrugas tua face filosófica
e pareces questionar a existência do mundo.
E eu sorrio e converso contigo.
A tristeza não é um espetáculo público,
pertence à nossa intimidade
e nela nos entendemos.
Posso então falar-te à vontade
e choro e te preocupas. Eu sei,
mesmo que nada digas,
afora lamberes-me as mãos
e me olhares com o teu olhar canino
agudamente.
Ambos sabemos o que nos entristece,
o que te preocupas por mim.
Ambos sabemos da tristeza mútua
e nos olhamos com respeito,
Mesmo que eu às vezes insista :
- Diga algo!
E tu me olhes perplexo,
porque querias tanto fazê-lo.
E amas-me e sabes que te amo.
O que não sabemos é que é a nossa questão.
E nós pensamos muito.
A cidade amanhece e estamos insones.
Um blues ia bem,
um dia aprenderás.
Silvia Chueire
(inédito)
sexta-feira, 1 de junho de 2007
HOJE, AS CIDADES
hoje, as cidades
ficaram um pouco mais longe
e eu não sei porquê
só sei que ficaram mais longe
as cidades
à beira-mar, havendo por todo o globo
as duas vidas:
eleanor damortis animada de festas e de estios
ou a rapariga que vive
a mil e quinhentos paus por mês
não sabendo no armário
outros sítios de ser festa ou esperar.
(do outro lado da ribeira o velho cão
guarda o corpo como algas
e compotas de frio às seis da tarde...)
a rapariga do armário
mata-se na cidade
do outro lado de ser diferente o mesmo tempo.
R. Lino
Atlas Paralelo
1984
ficaram um pouco mais longe
e eu não sei porquê
só sei que ficaram mais longe
as cidades
à beira-mar, havendo por todo o globo
as duas vidas:
eleanor damortis animada de festas e de estios
ou a rapariga que vive
a mil e quinhentos paus por mês
não sabendo no armário
outros sítios de ser festa ou esperar.
(do outro lado da ribeira o velho cão
guarda o corpo como algas
e compotas de frio às seis da tarde...)
a rapariga do armário
mata-se na cidade
do outro lado de ser diferente o mesmo tempo.
R. Lino
Atlas Paralelo
1984
terça-feira, 29 de maio de 2007
fastio
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um cão dá-lhe pão caga o cão
revende o cão compra pão caga o pão
compra um pão come pão caga o pão
não compra não come não caga morre
Alberto Pimenta
Os Entes e os Contraentes
1971
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um cão dá-lhe pão caga o cão
revende o cão compra pão caga o pão
compra um pão come pão caga o pão
não compra não come não caga morre
Alberto Pimenta
Os Entes e os Contraentes
1971
NEGRUME
3.
vi os homens no carro celular, os cães fodidos.
por cima de mim estava o ramo,
havia céu, estrelas. mas os cães
ladravam à minha passagem, acossados.
no tempo em que me interrogava,
no tempo em que tinha uma ânfora, azeite e cereal,
fixava a atenção na iridescência. a cristaleira
à minha frente era um espelho.
mas sou agora um homem só. os cães fodidos
ladram na distância, ladram, ladram desabridamente.
e o brilho, assim translúcido,
é agora a minha maior pena, o meu maior desgosto.
vi os homens no carro celular, a neblina cinzenta.
às vezes Deus esmaga-nos o peito, reclama-nos.
o que gela é escuro como uma torrente de gritos.
meu amor, tremo de frio, a noite é vasta.
os cães fodidos. o barco, a viagem. nada espera.
de novo o carro celular volta ao lugar
em que a semente estiola e a boca arde.
não sei de ti, de mim, da nossa sombra.
noutros lugares o aceno é o sinal
da transposição do limite. a nuvem abre-se
ao sulco tracejante, ocre ou grená.
e é possível ver fazer chover.
aqui, assim, na barra da ausência,
só é possível ver as torres altas, os guardas
que vigiam, a arrogância
dos que nos servem o vinho e a abundância.
são desabridos os nossos sentimentos.
o desejo é um cão. os mortos
visitam-me ao crepúsculo. estou em fogo.
vi o carro celular. os cães fodidos.
hei-de dizer às crianças: foi assim
que em golpes de sangue o meu amor morreu.
não sei já para que serve a verdade.
Deus existe, não existe, reclama-nos.
Amadeu Baptista
Negrume
2006
vi os homens no carro celular, os cães fodidos.
por cima de mim estava o ramo,
havia céu, estrelas. mas os cães
ladravam à minha passagem, acossados.
no tempo em que me interrogava,
no tempo em que tinha uma ânfora, azeite e cereal,
fixava a atenção na iridescência. a cristaleira
à minha frente era um espelho.
mas sou agora um homem só. os cães fodidos
ladram na distância, ladram, ladram desabridamente.
e o brilho, assim translúcido,
é agora a minha maior pena, o meu maior desgosto.
vi os homens no carro celular, a neblina cinzenta.
às vezes Deus esmaga-nos o peito, reclama-nos.
o que gela é escuro como uma torrente de gritos.
meu amor, tremo de frio, a noite é vasta.
os cães fodidos. o barco, a viagem. nada espera.
de novo o carro celular volta ao lugar
em que a semente estiola e a boca arde.
não sei de ti, de mim, da nossa sombra.
noutros lugares o aceno é o sinal
da transposição do limite. a nuvem abre-se
ao sulco tracejante, ocre ou grená.
e é possível ver fazer chover.
aqui, assim, na barra da ausência,
só é possível ver as torres altas, os guardas
que vigiam, a arrogância
dos que nos servem o vinho e a abundância.
são desabridos os nossos sentimentos.
o desejo é um cão. os mortos
visitam-me ao crepúsculo. estou em fogo.
vi o carro celular. os cães fodidos.
hei-de dizer às crianças: foi assim
que em golpes de sangue o meu amor morreu.
não sei já para que serve a verdade.
Deus existe, não existe, reclama-nos.
Amadeu Baptista
Negrume
2006
OS BICHOS
Parece o movimento
de uma serpente,
este caminho que percorro
todos os dias
ao encontro do cansaço.
E nas bermas
gatos esventrados.
E no centro,
bem no centro,
alguns cães pisados.
Bichos que sem culpa
prefiro pensar adormecidos.
Henrique Manuel Bento Fialho
Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe
2000
de uma serpente,
este caminho que percorro
todos os dias
ao encontro do cansaço.
E nas bermas
gatos esventrados.
E no centro,
bem no centro,
alguns cães pisados.
Bichos que sem culpa
prefiro pensar adormecidos.
Henrique Manuel Bento Fialho
Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe
2000
segunda-feira, 28 de maio de 2007
VIDA ANÓNIMA (fragmento)
Um cão verde no outro lado do quintal
cresce felinamente para o céu.
Não ladra já.
Apenas ergue a cauda
e fareja no ar
a memória inverosímil do que arde
no espaço fulgurante
entre uma casa e outra
e esse sinal na testa
dos que esperam a serenidade
e tudo ignoram sobre a morte
e a vida que cresce nesse instante.
Ávido cão que do céu fareja
o rastro de um destino que não há -
Amadeu Baptista
A Construção de Nínive
2001
cresce felinamente para o céu.
Não ladra já.
Apenas ergue a cauda
e fareja no ar
a memória inverosímil do que arde
no espaço fulgurante
entre uma casa e outra
e esse sinal na testa
dos que esperam a serenidade
e tudo ignoram sobre a morte
e a vida que cresce nesse instante.
Ávido cão que do céu fareja
o rastro de um destino que não há -
Amadeu Baptista
A Construção de Nínive
2001
O CÃO AZTECA
Iyyar
Meu avô regressou do Brasil ao tempo da candidatura. Trouxe consigo um pequeno cão do Amazonas. Custou-lhe uma fortuna, fazê-lo. Dá horas, dizia, rindo. Era o cão azteca. O nome, na verdade, era Cruzeiro. Vinha pobre. Ele e o podengo (rafeiro) tornaram-se inseparáveis pareciam diminuir de feitio com o passar dos anos, mas para determinadas excursões somente. Acompanhava-o em altitude, no Serrando, a um que outro olival longínquo, e na verdade ao café – única excepção – dentro da vila. De resto, não saía dos muros, nem por perto. O país que ambos viram de uma pensão da Praça da Figueira, ou de um Hotel no Rossio, já não sabemos bem – pareceu-lhes diferente, mais apertado. De uma vez, numa ida a Santiago, trouxe uma coleira vermelha cravada de pequenos filetes metálicos, a fogo, no couro recuado.
Foi um dia, na metade alta e cinzenta da Serra que ouviu rosnar (verificava uma represa) junto a um palheiro perto do Fojão. Foi dentro e viu lá outro cão de pêlo semelhante, vermelhusco. No dia seguinte, voltou muito cedo com o seu – tinha sido ferido, e manquejava ainda um pouco. Levou ambos até à ponta derrubada do fojo pequeno. Deixou o Cruzeiro entrar e seguiu-o com uma lâmpada. O outro, uivava cá fora, bem preso. Veio sair a uma laje de musgo (escapulira-se um lagarto, velho, e restos de penas de pega ou poupa) que antecedia uma reentrância na qual deparou com um loureiro e alguns carvalhos enegrecidos. Mas o cão, nessa curta passagem, desaparecera. Voltou atrás, foi outra vez à maior boca, trouxe o outro, nada. Por fim, o mais pequeno veio trazer-lhe uma coleira, em perfeito estado, aberta, como se tivesse sido desapertada por mão humana.
Ao anoitecer, fez o longo trajecto em direcção à povoação do baio velho. Trazia o mais pequeno. Chegou, era noite cerrada. A velha dama, quando o viu, e conhecendo-o, não disse nada. O cão não saía o portão. Cerca de um mês depois apareceu morto junto à porta cocheira. O Avô viveu uma década mais e com frequência ia à montanha em busca “do rafeiro vermelho”. Guardara a coleira numa gaveta que fizera, de propósito, na sua secretária. Junto dela havia um pé de cabra que trouxera da fronteira, no Brasil. Ficaram abertas toda a noite no dia seguinte ao seu trespasse.
Gil de Carvalho
A Cidade de Cobre
Cotovia, 2001
Oferecido por Rui Almeida.
QUE FAÍSCA FUGIU DO TEU OLHAR
Nunca consegui despedir-me
dos meus mortos. Porque partíamos
para outras cidades, outras ruas, outros
sítios de despedida. Transporto
comigo esses finais antecipados,
novelos sem ponta, mimeses
sucessivas.
Mas os meus animais
sempre de mim se despediram, desde
o tigre domestico, envenenado no quintal
por uma velhinha sinistra que
queria preservar as alfaces,
até ao meu último cão, escondido
no último dia, no canto mais escuro
da garagem, um sitio de partidas
que ele conhecia.
Vem dos animais
uma tal inteireza, um até ao fim, até
que a morte nos separe, tão intensamente
farejado, tão comovidamente lambido. O clarim
de um miado ao abrir a porta. O latir
festivo de todas as chegadas. A probidade
do humilde estado de andar
a quatro. A alegria arcaica de trincar, rilhar
o esburgado osso, o looping de garras
fulminantes para suster um voo. Endoidecer
ao cheiro do pescado. Escutar
sons inaudíveis, danado de atenção.
Só os nossos animais nos lançam longos e
verdadeiros olhares de saudade, antes
de partirem, na sua perfeita condição
de seres indivisíveis, para a ventura de
nenhum Hades, nenhum céu.
Agosto, 2003
Inês Lourenço
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003
Oferecido por Rui Almeida.
dos meus mortos. Porque partíamos
para outras cidades, outras ruas, outros
sítios de despedida. Transporto
comigo esses finais antecipados,
novelos sem ponta, mimeses
sucessivas.
Mas os meus animais
sempre de mim se despediram, desde
o tigre domestico, envenenado no quintal
por uma velhinha sinistra que
queria preservar as alfaces,
até ao meu último cão, escondido
no último dia, no canto mais escuro
da garagem, um sitio de partidas
que ele conhecia.
Vem dos animais
uma tal inteireza, um até ao fim, até
que a morte nos separe, tão intensamente
farejado, tão comovidamente lambido. O clarim
de um miado ao abrir a porta. O latir
festivo de todas as chegadas. A probidade
do humilde estado de andar
a quatro. A alegria arcaica de trincar, rilhar
o esburgado osso, o looping de garras
fulminantes para suster um voo. Endoidecer
ao cheiro do pescado. Escutar
sons inaudíveis, danado de atenção.
Só os nossos animais nos lançam longos e
verdadeiros olhares de saudade, antes
de partirem, na sua perfeita condição
de seres indivisíveis, para a ventura de
nenhum Hades, nenhum céu.
Agosto, 2003
Inês Lourenço
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003
Oferecido por Rui Almeida.
100.
Só o cão, esse amante imediato, gania agonicamente toda a malignidade dum reconhecimento tão lento.
Maria Velho da Costa
Da rosa fixa (prosas)
1978
Oferecido por Rui Almeida.
Maria Velho da Costa
Da rosa fixa (prosas)
1978
Oferecido por Rui Almeida.
sábado, 12 de maio de 2007
O MEU CÃO TEM TRÊS PERNAS
O meu cão tem três pernas,
porque tiveram de lhe cortar uma.
Perguntei-lhe como é que se sentia,
olhou para mim e disse: "Foleiro!".
Costumava passear muito com ele e o meu pai, à noite,
mas agora ele já não
pode e por isso vamos só até ao parque.
Mas eu gosto à mesma do meu cão,
apesar de ele já não ser o que era.
Sabem, o nome dele era Veloz,
mas agora talvez não lhe ficasse bem:
escolhemos de entre sete ou oito palavras ternas
Stool, que quer dizer banco de três pernas.
Gez Walsh
Trad. Hélder Moura Pereira
aguasfurtadas n.º10
Outubro 2006
porque tiveram de lhe cortar uma.
Perguntei-lhe como é que se sentia,
olhou para mim e disse: "Foleiro!".
Costumava passear muito com ele e o meu pai, à noite,
mas agora ele já não
pode e por isso vamos só até ao parque.
Mas eu gosto à mesma do meu cão,
apesar de ele já não ser o que era.
Sabem, o nome dele era Veloz,
mas agora talvez não lhe ficasse bem:
escolhemos de entre sete ou oito palavras ternas
Stool, que quer dizer banco de três pernas.
Gez Walsh
Trad. Hélder Moura Pereira
aguasfurtadas n.º10
Outubro 2006
INTERRUPÇÃO
Sonhos que se repetem, não continuam.
Figuras levadas em escadas rolantes.
Ninguém sabe quem. Lugares de passagem.
Manequins afogam-se em cabines telefónicas.
Aqui vejo lábios além tornozelos.
Expostos, à venda. Bonecos perigosos.
Misturo-os a objectos que logo se desfazem.
Encontram maneira de não se destruírem.
Aqui vejo lábios, além tornozelos.
O momento fecha a sala de espera.
Não se alugam quartos. Cuidado com o cão.
Lembro. A tua boca é uma sala de espera.
O momento tropeça no momento seguinte.
Repete-se e cai. Não continua.
Rogério Rôla
aguasfurtadas n.º10
Outubro 2006
Figuras levadas em escadas rolantes.
Ninguém sabe quem. Lugares de passagem.
Manequins afogam-se em cabines telefónicas.
Aqui vejo lábios além tornozelos.
Expostos, à venda. Bonecos perigosos.
Misturo-os a objectos que logo se desfazem.
Encontram maneira de não se destruírem.
Aqui vejo lábios, além tornozelos.
O momento fecha a sala de espera.
Não se alugam quartos. Cuidado com o cão.
Lembro. A tua boca é uma sala de espera.
O momento tropeça no momento seguinte.
Repete-se e cai. Não continua.
Rogério Rôla
aguasfurtadas n.º10
Outubro 2006
quinta-feira, 3 de maio de 2007
AFORISMOS DE PASTELARIA
Aforismos de dona Bina
Há cães que têm a personalidade dos donos. E há donos que têm a personalidade dos cães.
Não ouvido na rua
- Como é que tens medo de cães se cresceste rodeado deles?
- Olha, da mesma forma que cresci rodeado de pessoas e não perdi o medo delas.
Januário
Januário tinha bom feitio. O seu cão é que não. Quando se encontravam era Januário que abanava o rabo.
Vida canina
A vida na cidade está cada vez mais canina, diz o homem à esquina, sem saber que os cães que pela trela traz também são responsáveis por isso.
Vestido para matar
Durante o dia era um labrador. À noite transformava-se num rottweiler.
Vingança barata
Dois homens brigavam até à morte num descampado. Os cães, à volta, faziam apostas.
Ainda a obsessão com canídeos
Uma vez por semana, as senhoras da Mexicana juntavam-se num descampado para a luta de caniches.
Nuno Costa Santos
Melancómico
2007
Há cães que têm a personalidade dos donos. E há donos que têm a personalidade dos cães.
Não ouvido na rua
- Como é que tens medo de cães se cresceste rodeado deles?
- Olha, da mesma forma que cresci rodeado de pessoas e não perdi o medo delas.
Januário
Januário tinha bom feitio. O seu cão é que não. Quando se encontravam era Januário que abanava o rabo.
Vida canina
A vida na cidade está cada vez mais canina, diz o homem à esquina, sem saber que os cães que pela trela traz também são responsáveis por isso.
Vestido para matar
Durante o dia era um labrador. À noite transformava-se num rottweiler.
Vingança barata
Dois homens brigavam até à morte num descampado. Os cães, à volta, faziam apostas.
Ainda a obsessão com canídeos
Uma vez por semana, as senhoras da Mexicana juntavam-se num descampado para a luta de caniches.
Nuno Costa Santos
Melancómico
2007
terça-feira, 1 de maio de 2007
CÃES, MARINHEIROS
Era um cão que tinha um marinheiro. O cão perguntou à esposa, que se pode fazer de um marinheiro? Põe-se de guarda ao jardim, respondeu ela. - Não se deve deixar um marinheiro à solta no jardim, que fica perto do mar. Um marinheiro é uma criatura derivada por sufixação, e pode recear-se o poder do elemento base: o radical mar. Em vez de guardar o jardim, ele acabaria por fugir para o mar. - Deixá-lo fugir, disse a esposa do cão. Mas ele não estava de acordo. Que um facto deveria ser esse mesmo facto até ao limite do possível: quem possui um marinheiro para guardar o jardim deve procurar mantê-lo a todo o custo, assim como o cão, ou o casal de cães, que não tiver um marinheiro deve não tê-lo até a isso ser absolutamente forçado. - Nesse caso, só nos resta ir para uma terra do interior, longe do mar, disse a cadela. E então foram para o interior, levando pela trela o marinheiro açaimado. Durante o percurso viram muitas paisagens. O marinheiro estava espantado com as paisagens que podem existir longe do mar. Fez diversas observações a esse respeito, provocando o risonho latido dos cães que, pela sua parte, concordavam em que tinham um marinheiro muito inteligente. - Nem todos os cães têm a nossa sorte, disse o cão, pois conheço vários cães que são donos de vários marinheiros estúpidos. Iam por isso bastante contentes e diziam, a outros cães com quem se cruzavam, que possuíam um marinheiro invulgarmente esperto. - Ele tem uma filosofia das paisagens, dizia o cão. Um cão da Estrela, que encontraram naturalmente perto da Serra da Estrela, perguntou-lhes se o marinheiro gostava de sardinhas. - Adora-as, respondeu a cadela. - Isso não me admira nada, disse o indígena. E na verdade não parecia admirado. Quando chegaram ao mais interior possível, alugaram uma casa com um jardim e puseram o marinheiro a guardá-lo. - Guarda-o, disseram. Deixaram-lhe ao lado uma dúzia de latas de sardinhas e foram para dentro de casa. Durante sete dias e sete noites, o marinheiro reflectiu sobre as paisagens do interior e comeu as sardinhas de conserva. Depois foi atacado de esgana, e começou a andar em círculos cada vez mais apertados no meio do jardim. Os cães observavam-no da janela e viam que o seu marinheiro perdia as forças a cada volta. Um dia, ao anoitecer, caiu para o lado resfolegando. - O mar, ouviram-no dizer. Então foram para dentro, e dormiram. De manhã vieram cedo ao jardim e verificaram que o marinheiro estava morto. - Era um marinheiro tão esperto, disse a cadela. - Pois era, disse o cão, foi pena. E enterraram o marinheiro debaixo de uma acácia. Mas como já se haviam habituado à vida do interior, não regressaram ao litoral. Nunca mais tiveram marinheiros. - Para quê?, dizia a cadela, ralações já existem de sobra. E quem se atreve a negar que ela tinha razão?
Herberto Helder
Os Passos em Volta
1963
domingo, 15 de abril de 2007
quinta-feira, 12 de abril de 2007
DOM RAFEIRO
O seu latido faz o espaço, ainda, mais largo,
Dá mais distância e fundo a toda esta amplidão.
Solitário, é, da noite e do campo, em letargo,
O feroz e pachorrento guardião.
Os seus olhos, que têm canduras de alvorada,
Têm, às vezes, também, o fulgurar do raio:
- Providência da rês desirmanada,
Lutador fero, heróico e sem desmaio.
Da boca enorme, a baba cristalina,
Pende-lhe, quando sonolento espera,
No escalvado cabeço da colina,
O sol, macio e bom, da Primavera.
Mas nas noites de Inverno desalmado:
- Poços enormes, negros e sem fundo, -
O seu cavo ladrar, no ermo resignado,
É a única voz viva deste Mundo.
Agora, o sol lhe doira a felpa do espinhaço.
O rebanho repasta, plácido, em sossego.
E, aninhado entre as mãos, em ternuras de abraço,
Aconchega-se, débil, um borrego.
Francisco Bugalho
Poesia
1961
Dá mais distância e fundo a toda esta amplidão.
Solitário, é, da noite e do campo, em letargo,
O feroz e pachorrento guardião.
Os seus olhos, que têm canduras de alvorada,
Têm, às vezes, também, o fulgurar do raio:
- Providência da rês desirmanada,
Lutador fero, heróico e sem desmaio.
Da boca enorme, a baba cristalina,
Pende-lhe, quando sonolento espera,
No escalvado cabeço da colina,
O sol, macio e bom, da Primavera.
Mas nas noites de Inverno desalmado:
- Poços enormes, negros e sem fundo, -
O seu cavo ladrar, no ermo resignado,
É a única voz viva deste Mundo.
Agora, o sol lhe doira a felpa do espinhaço.
O rebanho repasta, plácido, em sossego.
E, aninhado entre as mãos, em ternuras de abraço,
Aconchega-se, débil, um borrego.
Francisco Bugalho
Poesia
1961
quarta-feira, 11 de abril de 2007
CALENDÁRIO RURAL
ABRIL
O «Navarro» é um belo cão de caça, mas muito guloso. Esqueceram-se de o açaimar e entrou na capoeira onde estava um rebanho de pintos e a galinha choca, comendo logo três, porque julgava que faziam parte de um bando de perdigotos. O dono, caçador entusiasta, perdoou-lhe. Mas a mulher ficou desgostosa e jurou castigar o «Navarro». Assim ela o pilhe.
Azinhal Abelho
Os da Orada
1964
Oferta do Rui Almeida.
terça-feira, 10 de abril de 2007
Walking the dog
Mal me levanto
tomo o café-da-manhã
e penso no cão,
corpo de feltro
largado na estrada
Mal me levanto
e já me sinto
ensanduichado
esborrachado
esprimido
e reduzido
ao olhar do cão fugindo
atravessando a rua
com direito
de cidade
como os de Jude Stefan
- ou seria embalado
liofilizado
como no réquiem de Ruy Belo?
Com os sentimentos atolados
em coisas imediatas
deixo o cão
seja de um
ou de outro
As coisas imediatas
(em conflito permanente)
me levam para o carro
17/09/2003
Heitor Ferraz
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003
Oferta do Rui Almeida.
tomo o café-da-manhã
e penso no cão,
corpo de feltro
largado na estrada
Mal me levanto
e já me sinto
ensanduichado
esborrachado
esprimido
e reduzido
ao olhar do cão fugindo
atravessando a rua
com direito
de cidade
como os de Jude Stefan
- ou seria embalado
liofilizado
como no réquiem de Ruy Belo?
Com os sentimentos atolados
em coisas imediatas
deixo o cão
seja de um
ou de outro
As coisas imediatas
(em conflito permanente)
me levam para o carro
17/09/2003
Heitor Ferraz
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003
Oferta do Rui Almeida.
O SONHO E OS CÃES
para José Amaro Dionísio
Entredentes o sonho
apodrece-o, dos cães,
a baba que supuram.
Dizendo de outro modo,
por um augúrio insistes,
procuras outra fábula,
tu sabes lá se mentem
os astros dessorados
as cartas de tarot
a sina ciganada
as folhinhas de chá
nas chávenas de estilo
Desfocam-se contornos,
ninguém te vê por perto,
não tens perdão, rapaz,
não, não há-de ser nada,
segredos já só mesmo
os que pela mais intacta
deslocação da mágoa
transitem entre uma
e outra lâmina.
Ninguém te vê, dispara,
vá, dispara, rapaz,
não, não há-de ser nada,
nada a fazer, de resto,
a voz assim sangrada,
os cães ainda à espreita.
Raul Malaquias Marques
Traduções da Fala
&etc, 1995
Oferta do Rui Almeida.
PRADO DE MADRID
*Goya! – o de la quinta del sordo.
Amanhã é dos loucos de hoje.
Pela quinta vez volto à tua sala
e ouço o anedótico sobre ti.
Anedótico por anedótico,
deixa que te diga.
Para que aquele cão está olhando?
Tu vias, quando pintavas solitário. Pois lá
deixaste o grande imperador, após
tantos massacres, e a caveira da morte,
em cima a criança. E se olhar-se melhor,
à saída, a maja também está
e disfarça, e dança nos três. Tudo
semifundido com o cão. E é esta a explicação
dentro dos olhos do cão que contemplam.
Tudo passa, inexoravelmente
tudo passa, e nenhum poder
pode subsistir à humildade de um cão que contempla.
Agora podem continuar os zumbidos que entornam sobre ti.
José Santiago Naud
Conhecimento a Oeste
Moraes Editores, 1974
segunda-feira, 9 de abril de 2007
UMA TARDE de Agosto. Nuvens altas e secas espalham o calor que sobe das pedras, que cerca as árvores, que trepa pelas paredes da casa e reverbera no coro monótono das cigarras.
A sombra agacha-se; a água parece lodo. O cão sofre, com a língua de fora e o olhar mortiço. Desespera. Está velho, acabado. Pensa que poderá ser o sofrimento do último verão - isso não o consola, nem o perturba.
Pensa que há um Deus que vigia a inclemência do verão e o sofrimento dos cães; agora, deseja o sono, que lhe resiste; cresce a modorra, o estupor do desamparo.
José Alberto Oliveira
Bestiário
2004
sexta-feira, 6 de abril de 2007
O BAIRRO
7.
O cão, aos pinotes
na cozinha onde as latas de chá
cheiram a lixívia,
rosna aos projectos de demolição.
Inútil estabelecer rimas ao «gosto popular».
A subtileza verbal, os jogos de palavras
e o ritmo da poesia feridos
irremediavelmente
no dia em que os recém-nascidos
começaram a aparecer nos contentores.
Jorge Gomes Miranda
Postos de Escuta
2003
O cão, aos pinotes
na cozinha onde as latas de chá
cheiram a lixívia,
rosna aos projectos de demolição.
Inútil estabelecer rimas ao «gosto popular».
A subtileza verbal, os jogos de palavras
e o ritmo da poesia feridos
irremediavelmente
no dia em que os recém-nascidos
começaram a aparecer nos contentores.
Jorge Gomes Miranda
Postos de Escuta
2003
O CÃO
Diz-me o meu jardineiro: O cão
É robusto e esperto e foi comprado
Pra guardar hortas. Mas eles
Fizeram dele o amigo do homem. Pra que é
Que lhe dão de comer?
Bertolt Brecht
Tradução de Paulo Quintela
Poemas e Canções
1975
É robusto e esperto e foi comprado
Pra guardar hortas. Mas eles
Fizeram dele o amigo do homem. Pra que é
Que lhe dão de comer?
Bertolt Brecht
Tradução de Paulo Quintela
Poemas e Canções
1975
domingo, 1 de abril de 2007
O ESTRANGEIRO (excerto)
Ao subir, na escada escura, choquei com o velho Salamano, meu vizinho de andar. Ia com o cão. Há oito anos que não se largam. O rafeiro tem uma doença de pele que lhe faz cair todo o pêlo e o que o cobre de manchas e de crostas. À força de viver com ele, os dois sozinhos num pequeno quarto, o velho Salamano acabou por ficar parecido com o cão. Quanto ao cão, tomou do dono uma espécie de ar curvado, focinho para a frente e pescoço estendido. Parecem da mesma raça, e no entanto detestam-se. Duas vezes por dia, às onze horas e às seis horas, o velho leva o cão a passear. Fazem há oito anos o mesmo itinerário. Seguem ao longo da Rua de Lyon, o cão a puxar pelo homem até o fazer tropeçar. Põe-se então a bater no bicho e a insultá-lo. O cão roja-se cheio de medo e deixa-se arrastar. Nesse momento é o velho que tem de puxar. Quando o cão se esquece, põe-se outra vez a puxar e é outra vez espancado e insultado. Ficam então os dois no passeio e olham-se, o cão com terror, o homem com ódio. É assim todos os dias. Quando o cão quer fazer as suas necessidades, o velho não lhe dá tempo e arrasta-o. Se por caso o cão «faz» no quarto, também lhe bate. Isto dura há oito anos. O Celeste diz que «é uma pena», mas no fundo ninguém quer saber. Quando encontrei o Salamano nas escadas ia a insultar o cão: «Bandido! Cão nojento!» Eu disse: «Boas-noites», mas o velho continuava a insultá-lo. Perguntei-lhe o que é que o cão tinha feito. Não me respondeu. Dizia apenas: «Bandido! Cão Nojento!» Percebi que debruçado sobre o animal, estava a arranjar qualquer coisa na coleira. Falei mais alto. Então, sem se voltar para trás, respondeu-me com uma espécie de raiva reprimida: «Está sempre aqui!» Depois foi-se embora puxando pelo cão, que gania e se deixava arrastar.
Albert Camus
O Estrangeiro
Oferta do Ricardo Jorge.
sábado, 31 de março de 2007
OS CÃES
Os cães, tantos. Sem cuidarem
da torpeza
lambem as nossas mãos.
Misteriosa religião a deles.
O rosto do seu Deus não temem
e contemplam lado a lado.
Nem a Moisés tal foi consentido.
António Osório
A Ignorância da Morte
1978
da torpeza
lambem as nossas mãos.
Misteriosa religião a deles.
O rosto do seu Deus não temem
e contemplam lado a lado.
Nem a Moisés tal foi consentido.
António Osório
A Ignorância da Morte
1978
quarta-feira, 28 de março de 2007
CONTO
Vai o menino só na estrada grande,
Grande e medonha entre pinhais sombrios,
Entre uivos ruivos, roucos e bravios
Arranhando o silêncio que se expande...
A mãe dissera-lhe: -- «O menino, ande
«Longe das selvas, dos fundões, dos rios...»
E avós, irmãos, amigos, primos, tios:
-- «Menino, vá por onde a gente o mande!»
Mas o menino foi desobediente.
E andou por vias ínvias ou sem gente,
Pela mão de enigmáticos destinos.
Saltar-lhe-ão lobos vis e cães de el-rei...
-- Foi pondo o ouvido em terra, que escutei
Lobos uivar e soluçar meninos.
José Régio
Biografia
1929
Grande e medonha entre pinhais sombrios,
Entre uivos ruivos, roucos e bravios
Arranhando o silêncio que se expande...
A mãe dissera-lhe: -- «O menino, ande
«Longe das selvas, dos fundões, dos rios...»
E avós, irmãos, amigos, primos, tios:
-- «Menino, vá por onde a gente o mande!»
Mas o menino foi desobediente.
E andou por vias ínvias ou sem gente,
Pela mão de enigmáticos destinos.
Saltar-lhe-ão lobos vis e cães de el-rei...
-- Foi pondo o ouvido em terra, que escutei
Lobos uivar e soluçar meninos.
José Régio
Biografia
1929
quarta-feira, 21 de março de 2007
domingo, 18 de março de 2007
CARGO CULT
Não vivo disto
tenho o tempo contado
para escrever um poema
um poema novo que não seja surdo
às minhas preces
há horas felizes
e fico à espera
não serei eu a começar
- toca a comer
ou porque ardeu tudo
ou porque vi coisas
e que as pequenas formigas argentinas
são indestrutíveis, pequenos pontos a bulir
mortos diariamente
para voltarem iguais, concentrados
no dia seguinte
a luta não nos pode salvar da fome
ou dos organismos especializados
eis o que disse o sineiro
não é para gostares e ainda não viste nada
à distância de um barulho
em terra incerta
dois minutos abaixo de cão
assim me cubro
enquanto o sono de todos
se esgota nos quartos de dormir
e agora não digo mais nada
como miséria.
João Almeida
A Formiga Argentina
2005
tenho o tempo contado
para escrever um poema
um poema novo que não seja surdo
às minhas preces
há horas felizes
e fico à espera
não serei eu a começar
- toca a comer
ou porque ardeu tudo
ou porque vi coisas
e que as pequenas formigas argentinas
são indestrutíveis, pequenos pontos a bulir
mortos diariamente
para voltarem iguais, concentrados
no dia seguinte
a luta não nos pode salvar da fome
ou dos organismos especializados
eis o que disse o sineiro
não é para gostares e ainda não viste nada
à distância de um barulho
em terra incerta
dois minutos abaixo de cão
assim me cubro
enquanto o sono de todos
se esgota nos quartos de dormir
e agora não digo mais nada
como miséria.
João Almeida
A Formiga Argentina
2005
sábado, 17 de março de 2007
os cães cara a cara, ou o cão no espelho
o pêlo ereto do lombo até o rabo
o focinho frio aquoso o focinho
sem ser parte. as presas de fora
o ronco do fundo dos peitos o ronco
mais forte que a força do cão, o custeio da imagem
a palmilha sob a pata.
a acareação dos cães, o mesmo que a fala de um só
a verdade do cão o pensar esquemático o semafórico o zelo seu
pelo diapositivo a cores, seta / direção / apito
- a sutura, o devir nacional
o dever cumprido
Milton Torres
No Fim das Terras
2005
o pêlo ereto do lombo até o rabo
o focinho frio aquoso o focinho
sem ser parte. as presas de fora
o ronco do fundo dos peitos o ronco
mais forte que a força do cão, o custeio da imagem
a palmilha sob a pata.
a acareação dos cães, o mesmo que a fala de um só
a verdade do cão o pensar esquemático o semafórico o zelo seu
pelo diapositivo a cores, seta / direção / apito
- a sutura, o devir nacional
o dever cumprido
Milton Torres
No Fim das Terras
2005
sexta-feira, 16 de março de 2007
quinta-feira, 15 de março de 2007
OUÇO FALAR
Ouço falar da minha vocação
mendicante, e sorrio. Porque não sei
se tal vocação não é apenas
uma escolha entre riquezas, como Keats
diz ser a poesia.
Desci à rua pensando nisto,
atravessei o jardim, um cão
saltava à minha frente,
louco com as folhas do outono
que principiara, e doiravam
o chão. A música
digamos assim,
a que toda a alma aspira,
quando a alma
aspira a ter do mundo o melhor dele,
corria à minha frente, subia
por certo aos ouvidos de deus
com a ajuda de um cão,
que nem sequer me pertencia.
Eugénio de Andrade
O Sal da Língua
1995
Oferecido por Inês Lourenço.
mendicante, e sorrio. Porque não sei
se tal vocação não é apenas
uma escolha entre riquezas, como Keats
diz ser a poesia.
Desci à rua pensando nisto,
atravessei o jardim, um cão
saltava à minha frente,
louco com as folhas do outono
que principiara, e doiravam
o chão. A música
digamos assim,
a que toda a alma aspira,
quando a alma
aspira a ter do mundo o melhor dele,
corria à minha frente, subia
por certo aos ouvidos de deus
com a ajuda de um cão,
que nem sequer me pertencia.
Eugénio de Andrade
O Sal da Língua
1995
Oferecido por Inês Lourenço.
EM PLENA MONTANHA:
Um esquiador e um bêbedo meteram-se pela montanha acima e foram surpreendidos por uma forte tempestade. Já quase desesperados, vêem ao longe um São Bernardo com a sua barriquinha de whisky pendurada na coleira. Grita, aliviado, o esquiador : Lá vem o melhor amigo do homem! Clama, exultante, o bêbado: E traz um cão!
Oferecido por Inês Lourenço.
Oferecido por Inês Lourenço.
terça-feira, 13 de março de 2007
TERRESTRE
Depois da morte do cão,
os pombos passaram a ser
os seus animais de companhia,
porque não careciam de mãos humanas
nem cuidados de dono. Habitavam
qualquer vão de telha ou côncavo de
ramo. Trelas e coleiras eram
agora uma passada invenção
terrestre, jamais possível
entre um humano e uma ave.
Inês Lourenço
A Enganosa Respiração da Manhã
2002
os pombos passaram a ser
os seus animais de companhia,
porque não careciam de mãos humanas
nem cuidados de dono. Habitavam
qualquer vão de telha ou côncavo de
ramo. Trelas e coleiras eram
agora uma passada invenção
terrestre, jamais possível
entre um humano e uma ave.
Inês Lourenço
A Enganosa Respiração da Manhã
2002
segunda-feira, 12 de março de 2007
XLII
Aproxima-te, põe o ouvido na minha boca,
vou dizer-te um segredo,
está um homem com a noite deitado
nas areias, separado doutro homem
por um grito, ninguém o ouve,
o sol há tanto tempo apodrecido.
Não sei se espera a manhã
para partir ou vai ficar
com os cardos nas dunas, os olhos cheios
de ignorância e de bondade,
exposto
assim à calúnia, à ventania.
Como se fora um cão, menos ainda.
Eugénio de Andrade
Branco no Branco
1984
vou dizer-te um segredo,
está um homem com a noite deitado
nas areias, separado doutro homem
por um grito, ninguém o ouve,
o sol há tanto tempo apodrecido.
Não sei se espera a manhã
para partir ou vai ficar
com os cardos nas dunas, os olhos cheios
de ignorância e de bondade,
exposto
assim à calúnia, à ventania.
Como se fora um cão, menos ainda.
Eugénio de Andrade
Branco no Branco
1984
CONSTELAÇÕES DO VERÃO
Um corpo
estendido
nu
na iminência de ser música
diz o que penso
O fogo
súbita convulsão da água
sobe
pelas pernas
penetra os lábios
vacilantes do verão
exausto
e branco
porque entardecia
O olhar
cai
errante
cão
lambendo
a chama oscilante dos dedos
escassa língua
sobre flancos desertos
as palavras
tão leves que nem o ar feriam
nem sequer o ar
As palavras
que se levantam para recusar
(quando aprenderão a morder?)
são a nossa herança
E o fogo
Eugénio de Andrade
Véspera da Água
1973
estendido
nu
na iminência de ser música
diz o que penso
O fogo
súbita convulsão da água
sobe
pelas pernas
penetra os lábios
vacilantes do verão
exausto
e branco
porque entardecia
O olhar
cai
errante
cão
lambendo
a chama oscilante dos dedos
escassa língua
sobre flancos desertos
as palavras
tão leves que nem o ar feriam
nem sequer o ar
As palavras
que se levantam para recusar
(quando aprenderão a morder?)
são a nossa herança
E o fogo
Eugénio de Andrade
Véspera da Água
1973
domingo, 11 de março de 2007
COMEMORAR O CÃO
preciso céu azul-seco
abaixo dele
o cão raivoso
amarrado ao poste
da cidade pequena
treme e baba:
grande frio ao sol
a memória morde
quem comemora
desfigura o quem, o que
alheio
aos prados e às bananeiras
espera nada
sofre patibular
petrificado na cena
que me petrifica
Paula Glenadel
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003
Oferecido por Rui Almeida.
abaixo dele
o cão raivoso
amarrado ao poste
da cidade pequena
treme e baba:
grande frio ao sol
a memória morde
quem comemora
desfigura o quem, o que
alheio
aos prados e às bananeiras
espera nada
sofre patibular
petrificado na cena
que me petrifica
Paula Glenadel
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003
Oferecido por Rui Almeida.
BANDO
Homenagem a Ruy Belo
Aperto a renda da cortina
e o vestido do dia.
Minhas unhas estão compridas.
Espero os cães que remexem o lixo.
Recolher justamente o que recusei,
ordenar os restos e a sombra da recusa.
Esses cães que mastigam a polpa da noite,
a fibra de uma verdura vencida,
a embalagem de um rosto.
Esses cães vadios na coleira do instinto.
Sem a censura das pálpebras,
sem nomes que os façam ridículos.
Não perdendo tempo
caçando ratos nas árvores
ou o tempo no corpo.
Hoje os sinto novamente.
Aviso: é a última vez.
Limpo a zoeira da visita, pago a conta,
Encaderno as sobras que foram minhas.
E a raiva só pede que voltem.
Voltem
e me aceitem em seu bando.
Fabrício Carpinejar
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003
Oferecido por Rui Almeida.
sábado, 10 de março de 2007
O CÃO SÁBIO
Certo dia um cão sábio passou por um grupo de gatos. E vendo que os gatos pareciam preocupados falando entre si sem dar pela sua presença, decidiu parar para escutar o que diziam.
Levantou-se um gato, o maior, grave e sisudo, que dirigindo-se aos outros disse: Meus irmãos, rezai, porque se rezardes muitas vezes por certo choverão ratazanas.
Ao escutar estas palavras o cão riu-se com os seus botões e seguiu caminho dizendo: Gatos cegos e insensatos. Por acaso não está escrito, e não é dado adquirido que o que chove quando rezamos não são ratazanas, mas ossos?
Khalil Gibran
Versão de Ana Leal
O Louco
1997
sexta-feira, 9 de março de 2007
REQUIEM POR UM CÃO
Cão que matinalmente farejavas a calçada
as ervas os calhaus os seixos e os paralelipípedos
os restos de comida os restos de manhã
a chuva antes caída e convertida numa como que auréola da terra
cão que isso farejavas cão que nada disso já farejas
Foi um segundo súbito e ficaste ensanduichado
esborrachado comprimido e reduzido
debaixo do rodado imperturbável do pesado camião
Que tinhas que não tens diz-mo ou ladra-mo
ou utiliza então qualquer moderno meio de comunicação
diz-me lá cão que faísca fugiu do teu olhar
que falta nesse corpo afinal o mesmo corpo
só que embalado ou liofilizado?
Eras vivo e morreste nada mais teus donos
se é que os tinhas sempre que de ti falavam
falavam no presente falam no passado agora
Mudou alguma coisa de um momento para o outro
coisa sem importância de maior para quem passa
indiferente até ao halo da manhã de pensamento posto
em coisas práticas em coisas próximas
Cão que morreste tão caninamente
cão que morreste e me fazes pensar parar até
que o polícia me diz que siga em frente
Que se passou então? Um simples cão que era e já não é
Ruy Belo
Transporte no Tempo
1973
as ervas os calhaus os seixos e os paralelipípedos
os restos de comida os restos de manhã
a chuva antes caída e convertida numa como que auréola da terra
cão que isso farejavas cão que nada disso já farejas
Foi um segundo súbito e ficaste ensanduichado
esborrachado comprimido e reduzido
debaixo do rodado imperturbável do pesado camião
Que tinhas que não tens diz-mo ou ladra-mo
ou utiliza então qualquer moderno meio de comunicação
diz-me lá cão que faísca fugiu do teu olhar
que falta nesse corpo afinal o mesmo corpo
só que embalado ou liofilizado?
Eras vivo e morreste nada mais teus donos
se é que os tinhas sempre que de ti falavam
falavam no presente falam no passado agora
Mudou alguma coisa de um momento para o outro
coisa sem importância de maior para quem passa
indiferente até ao halo da manhã de pensamento posto
em coisas práticas em coisas próximas
Cão que morreste tão caninamente
cão que morreste e me fazes pensar parar até
que o polícia me diz que siga em frente
Que se passou então? Um simples cão que era e já não é
Ruy Belo
Transporte no Tempo
1973
quarta-feira, 7 de março de 2007
QUADRO
Indeciso ressurge do poente
Aureolado de espanto e de desastres
Em busca do seu corpo dividido
Todas as sombras se erguem das esquinas
E o seguem devagar nas ruas verdes
São como cães no rastro dos seus passos
Aberta a porta o quarto grave surge
E os espaços oscilam nas janelas.
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Tempo Dividido
1954
Aureolado de espanto e de desastres
Em busca do seu corpo dividido
Todas as sombras se erguem das esquinas
E o seguem devagar nas ruas verdes
São como cães no rastro dos seus passos
Aberta a porta o quarto grave surge
E os espaços oscilam nas janelas.
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Tempo Dividido
1954
terça-feira, 6 de março de 2007
MOONLIGHT SERENADE
E contudo a ordem do mundo
nem é um desejo do fundo
do coração mas
tão só o reclamado
entre o cuidado e cuidado
numa canção
sobre os dias que
passam sobre os rios que correm
sobre as montanhas que estão
sobre mim e os cães que à lua ladramos
sempre da mesma maneira e tudo
por causa do vento
da inquietação
Carlos Leite
O Desflashar dos Espaços
Black Sun, 1987
Nota: Poema oferecido por Rui Almeida.
nem é um desejo do fundo
do coração mas
tão só o reclamado
entre o cuidado e cuidado
numa canção
sobre os dias que
passam sobre os rios que correm
sobre as montanhas que estão
sobre mim e os cães que à lua ladramos
sempre da mesma maneira e tudo
por causa do vento
da inquietação
Carlos Leite
O Desflashar dos Espaços
Black Sun, 1987
Nota: Poema oferecido por Rui Almeida.
segunda-feira, 5 de março de 2007
domingo, 4 de março de 2007
AMAR UM CÃO (excerto)
_____ houve uma breve hesitação da parte de quem transportava o recém-nascido _____ o meu cão Jade, há muito tempo; muito, e com grande intensidade, aconteceu durante esse tempo breve em que Jade foi deixado suspenso sobre um medronheiro, sem mãe visível,
num berço nem celeste,
nem terrestre. No lugar que toda a planta acolhe, e que o entregara ao medronheiro,
sentia sobre si uma incidência animal alada, que nem era verdadeiramente pássaro,
nem verdadeiramente quadrúpede.
Era um fio de voz soando à altura do corpo musical que compunha a mata, um choro que coincidia com a convulsão das primeiras gotas de chuva; um sentimento ténue envolvia a cabeça emergindo do verde, e as pequeninas patas, saídas de um pano de baptista, não comoviam a planta lenhosa,
já habituada a palpitações e folhas.
mas o ritmo novo que, pouco a pouco, não se identificava com a chuva, e tornava vermelho de tempo activo a atmosfera, fez erguer o medronheiro sobre si mesmo
«que ser tão frágil mais alto do que eu».
Se o ar não tivesse uma densidade leve, teria quebrado Jade. Jade, que acabara de nascer sobre as bagas purpúreas dos medronhos,
e o ruído dos ramos partidos, já pensava. Um pensamento de leite subia nos sítios pedregosos, fora do local da casa, e da cerca com cerros e penhascos. Ele trazia nos olhos um instrumento azul para medir o diâmetro do sol, e dos astros; lia-se neles uma linguagem que só mais tarde, muito mais tarde, encontraria equivalente na boca:
«o meu Pai não existe fora da descrição do Sol; caminho através da murta, do aderno, a aroeira, e avistei esta serra em que a memória vê primeiro o porto nascer; mal nasci, situei-me, em vida interior, em face do mar; ergo para a minha dona os meus olhos frágeis, opondo-me a uma adversária que, de certeza, me ama: faço-lhe pedidos
luta comigo;
dá-me a sensação de ter saído vencido, mas com rebeldia.»
Maria Gabriela Llansol
Amar um Cão
1990
sábado, 3 de março de 2007
sexta-feira, 2 de março de 2007
TEMPO MORTO
Jogávamos pueris jogos de sexo, Xila,
corríamos entre girassóis,
morávamos numa cabana oculta na barreira.
Na lembrança, um cão malhado ladra
entre os arbustos.
Éramos tão crianças!, a vida nem chegava
a ser mistério
e não havia problemas de pão a resolver...
Apesar disso tu eras a mulher,
tu eras a Amante (mais subtil
e experiente de quantas tenho conhecido,
porque eras o grande livro da Inocência).
Eu era Tarzan dos Macacos,
tu, Jane morena.
Havia a inveja de Carlos e o ciúme de Sofia,
mas isso tornava-nos maiores ainda.
Amávamos na lonjura das tardes,
enquanto Foxie dormitava a um canto da cabana.
Sobre folhas verdes de acácia
tu não eras segredo
e, em mim, não morava o mistério.
Eras um duende de tranças pretas e olhos verdes,
eu era um potro selvagem.
Éramos sexo, lábios, mãos, epidermes
sem impureza.
Partiste ao anoitecer num navio amarelo,
levando juras eternas.
Quando voltaste
tinhas crescido e o teu corpo
esboçava outras formas.
Tomaras meneios senhoris,
falavas em pecado e em criancices reprováveis
com ar judicioso.
Eras a mentira, Xila!
A muralha do Impuro interpusera-se
entre mim e ti
e as nossas mãos não se estenderam
mais.
Eu,
fiquei na vida de calção.
E, certa manhã sem sol,
Foxie morreu atropelado.
A minha infância é um cão malhado.
Chama-se Foxie e ladra aos passantes.
Andou por aí
solto nos matos,
dormiu nos bancos ao relento,
olhou as estrelas, sem mistério
e sem as compreender.
Seu olhar langue e sem mágoa
aceitou as carícias e os pontapés
que lhe quiseram dar.
Sabia os recantos da rua
e os segredos do baldio defronte.
Conheceu noites de cio
e dias de vagabundagem.
Foi inconsequente
e - como já se disse
- morreu atropelado
numa escura manhã sem data.
Rui Knopfli
O País dos Outros
1959
corríamos entre girassóis,
morávamos numa cabana oculta na barreira.
Na lembrança, um cão malhado ladra
entre os arbustos.
Éramos tão crianças!, a vida nem chegava
a ser mistério
e não havia problemas de pão a resolver...
Apesar disso tu eras a mulher,
tu eras a Amante (mais subtil
e experiente de quantas tenho conhecido,
porque eras o grande livro da Inocência).
Eu era Tarzan dos Macacos,
tu, Jane morena.
Havia a inveja de Carlos e o ciúme de Sofia,
mas isso tornava-nos maiores ainda.
Amávamos na lonjura das tardes,
enquanto Foxie dormitava a um canto da cabana.
Sobre folhas verdes de acácia
tu não eras segredo
e, em mim, não morava o mistério.
Eras um duende de tranças pretas e olhos verdes,
eu era um potro selvagem.
Éramos sexo, lábios, mãos, epidermes
sem impureza.
Partiste ao anoitecer num navio amarelo,
levando juras eternas.
Quando voltaste
tinhas crescido e o teu corpo
esboçava outras formas.
Tomaras meneios senhoris,
falavas em pecado e em criancices reprováveis
com ar judicioso.
Eras a mentira, Xila!
A muralha do Impuro interpusera-se
entre mim e ti
e as nossas mãos não se estenderam
mais.
Eu,
fiquei na vida de calção.
E, certa manhã sem sol,
Foxie morreu atropelado.
A minha infância é um cão malhado.
Chama-se Foxie e ladra aos passantes.
Andou por aí
solto nos matos,
dormiu nos bancos ao relento,
olhou as estrelas, sem mistério
e sem as compreender.
Seu olhar langue e sem mágoa
aceitou as carícias e os pontapés
que lhe quiseram dar.
Sabia os recantos da rua
e os segredos do baldio defronte.
Conheceu noites de cio
e dias de vagabundagem.
Foi inconsequente
e - como já se disse
- morreu atropelado
numa escura manhã sem data.
Rui Knopfli
O País dos Outros
1959
O CÃO DA ANGÚSTIA
Tem eriçado e ralo o pêlo
como se de animal morto,
dos beiços gomosa baba lhe escorre
em grandes fios de reluzente espuma.
No olhar sangrento e fosco dura-lhe
uma mágoa antiga e resignada.
Mágoa, já não o sonho,
lacerado à sanha das alcateias.
Caminha trôpego e hesitante
sob o triângulo agoniado do focinho,
numa dança lenta e grotesca.
Todo o tempo lhe pertence
e não lhe sobra nenhum, cão
insonoro e furtivo, cão de sombra,
cão tardio e nocturno, ó cão
da nossa esperança lazarenta,
cão durável, cão indestrutível.
Rui Knopfli
Mangas Verdes Com Sal
1969
como se de animal morto,
dos beiços gomosa baba lhe escorre
em grandes fios de reluzente espuma.
No olhar sangrento e fosco dura-lhe
uma mágoa antiga e resignada.
Mágoa, já não o sonho,
lacerado à sanha das alcateias.
Caminha trôpego e hesitante
sob o triângulo agoniado do focinho,
numa dança lenta e grotesca.
Todo o tempo lhe pertence
e não lhe sobra nenhum, cão
insonoro e furtivo, cão de sombra,
cão tardio e nocturno, ó cão
da nossa esperança lazarenta,
cão durável, cão indestrutível.
Rui Knopfli
Mangas Verdes Com Sal
1969
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
I LOVE MY DOG
I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
All he asks from me is the food to give him strength
All he ever needs is love and that he knows hell get
So, I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
All the pay I need comes shining through his eyes
I dont need no cold water to make me realize that
I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
Na, na, na, na, na, na, nana...
I love my dog as much as I love you
But you may fade, my dog will always come through.
Na, na, na, na, na, na, nana...
I love my dog, baby, I love my dog. na, na, na...
I love my dog, baby, I love my dog. na, na, na...
Cat Stevens
Matthew & Son
1966
sábado, 24 de fevereiro de 2007
RETRATO DO ARTISTA EM CÃO JOVEM
Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por trás de lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos
aqui estás tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o cão vadio dos outros dias da semana
o cão de sempre
cada vez que há um cão jovem
neste local da terra
António José Forte
40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes Numa Girândola Implacável e Outros Poemas
1960
por trás de lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos
aqui estás tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o cão vadio dos outros dias da semana
o cão de sempre
cada vez que há um cão jovem
neste local da terra
António José Forte
40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes Numa Girândola Implacável e Outros Poemas
1960
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
TISANAS
1
A criança passeia pelo campo. Pára diante de um portão entreaberto. É o portão de uma grande quinta. A criança entra. Lá dentro está um cão enorme.
57
Teoricamente, se a percepção é finita toda a acção é finalmente fútil e devidamente grátis. Isto é verdade. Quem não reivindica sempre o seu direito ao repouso. Por exemplo agora estou de pé e à minha direita e à minha esquerda estão três cães com fitas brancas ao pescoço. Que quererá isto dizer penso. Os cães cumprem com perfeito conhecimento o solene ritual da espera, dizem-me. Que mais posso desejar. O significado é o que ficou do sinal.
58
Muitas vezes quando passeio à noite pela cidade me interrogo: o que é a solicitação pura e simples? Olho o chão e vejo um pedaço de vidro a brilhar ao mesmo tempo que pela rua abaixo voa um grande pedaço de jornal e a um canto um caixote do lixo ultrapassa em Archimboldo tudo o que há de involuntário nos gestos habituais. Estou considerando tudo isto e reflectindo quando passa por mim um cão. Lança-me um olhar rápido. Tem os olhos raiados de vermelho. Então eu penso quanto em cada acto há de fantástica abstracção.
157
Era uma vez um homem que tinha um cão. Quando passeava no bosque o cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. Um dia o cão morreu. O homem comprou outro cão. Como o anterior o novo cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se do outro cão. Mas um dia também esse cão morreu. De novo o homem comprou outro cão. Como os anteriores também este trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se dos outros cães. Por fim não foi preciso comprar mais nenhum cão. Par aonde fosse uma matilha seguia-o. Mais tarde nem era preciso já ir passear para o bosque.
158
Humilhação e holocausto. Vou a caminho da estação. Surge um cão preto relativamente pequeno. Fareja-me olha-me um instante eu olho para ele. Afasta-se atravessa a estrada. Segundos depois é atropelado por um automóvel. Oiço o estrondo fantástico da cabeça do cão batendo no pára-choques do carro.
159
Venho da estação. Numa esquina cruzo-me com um cão amarelo grande. Olha para mim e vai atravessar a rua quando vem um carro. Desvia-se a tempo e nesse instante preciso os nossos olhos cruzam-se. Nesse instante estabelece-se entre nós um entendimento profundo é um laço fraternal penso. Sem mais nenhuma outra manifestação acompanha-me até eu chegar a casa.
160
Sentada no parque vejo voar no ar um mar de pólen. Grãos de amor e ovo penso enquanto olho os cães que rebolam na relva. Os pássaros cantam furiosamente - gargalhadas ameaças assobios - ruído de fundo sobre um trabalho doméstico penso
179
O meu jardim. Agora é um parque. Passeio. Não há ninguém. Um esquilo corre apressado. As árvores já não têm folhas. Há pouca coisa para os animais comerem. Caminho por uma pequena álea. Oiço pássaros atrás de mim. Olho rapidamente e vejo um rapaz com bastante mau aspecto. Estamos sós. Não há absolutamente ninguém mais. Acelero um pouco até atingir o fim da álea, onde vejo um gradeamento e um cão lá dentro. Quando chego lá paro diante do cão e começo a falar com ele. O cão começa a ladrar furiosamente.
180
Estou no parque. É afastado do meu jardim. Quando estou a atravessar a ponte vejo em baixo uma rapariga que atira para o lago um pau para o seu cão ir buscar. O cão corre para a água mas não avança mais que vinte centímetros. O pau está a dois metros onde é fundo. O cão não avança. Volta atrás, entra de lado, não avança. Começa a ladrar. Sai e entra. Ladra. Está já desesperado. Não aguento mais. Sigo. Minutos depois vejo a mesma rapariga passar a meu lado. O cão vai atrás. Molhado. Cabisbaixo.
318
Os cães do vizinho incomodam-me quando vêm para a rua ladrar agressivamente a tudo e até a nada, só por afirmação territorial. Vou à varanda e mando-os calar. Umas vezes obedecem-me outras não. De qualquer modo incomodam-me mas quando penso neles sinto uma certa vergonha. Afinal eles estão apenas a cumprir o seu programa. Mas eu também.
331
Em Goa à noite. Os cães são muitos. Mas não ladram. Quando andam movem-se sem energia, cansados, desinteressados de tudo. Realmente: qual é o interesse da vida?
380
Pensar o presente conduz necessariamente ao desespero porque a vida não tem outra solução senão perpetuar-se na sua imperfeição. Em frente da minha janela vários cães seguem o rasto de uma cadela com cio que vagueia pela rua. À noite a cadela é fechada em casa. Os cães assentam arraial à sua porta com dignidade e persistência, numa total submissão à tirania do ensejo
424
Candid camera. Estou num restaurante apinhado de gente. É a hora do almoço. De repente entra uma senhora com um cãozinho de luxo pela trela. O cão senta-se diante de mim e fita-me. É branco. Tem os olhos pretos e o nariz também. Parece um amor-perfeito. E é.
Ana Hatherly
A criança passeia pelo campo. Pára diante de um portão entreaberto. É o portão de uma grande quinta. A criança entra. Lá dentro está um cão enorme.
57
Teoricamente, se a percepção é finita toda a acção é finalmente fútil e devidamente grátis. Isto é verdade. Quem não reivindica sempre o seu direito ao repouso. Por exemplo agora estou de pé e à minha direita e à minha esquerda estão três cães com fitas brancas ao pescoço. Que quererá isto dizer penso. Os cães cumprem com perfeito conhecimento o solene ritual da espera, dizem-me. Que mais posso desejar. O significado é o que ficou do sinal.
58
Muitas vezes quando passeio à noite pela cidade me interrogo: o que é a solicitação pura e simples? Olho o chão e vejo um pedaço de vidro a brilhar ao mesmo tempo que pela rua abaixo voa um grande pedaço de jornal e a um canto um caixote do lixo ultrapassa em Archimboldo tudo o que há de involuntário nos gestos habituais. Estou considerando tudo isto e reflectindo quando passa por mim um cão. Lança-me um olhar rápido. Tem os olhos raiados de vermelho. Então eu penso quanto em cada acto há de fantástica abstracção.
157
Era uma vez um homem que tinha um cão. Quando passeava no bosque o cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. Um dia o cão morreu. O homem comprou outro cão. Como o anterior o novo cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se do outro cão. Mas um dia também esse cão morreu. De novo o homem comprou outro cão. Como os anteriores também este trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se dos outros cães. Por fim não foi preciso comprar mais nenhum cão. Par aonde fosse uma matilha seguia-o. Mais tarde nem era preciso já ir passear para o bosque.
158
Humilhação e holocausto. Vou a caminho da estação. Surge um cão preto relativamente pequeno. Fareja-me olha-me um instante eu olho para ele. Afasta-se atravessa a estrada. Segundos depois é atropelado por um automóvel. Oiço o estrondo fantástico da cabeça do cão batendo no pára-choques do carro.
159
Venho da estação. Numa esquina cruzo-me com um cão amarelo grande. Olha para mim e vai atravessar a rua quando vem um carro. Desvia-se a tempo e nesse instante preciso os nossos olhos cruzam-se. Nesse instante estabelece-se entre nós um entendimento profundo é um laço fraternal penso. Sem mais nenhuma outra manifestação acompanha-me até eu chegar a casa.
160
Sentada no parque vejo voar no ar um mar de pólen. Grãos de amor e ovo penso enquanto olho os cães que rebolam na relva. Os pássaros cantam furiosamente - gargalhadas ameaças assobios - ruído de fundo sobre um trabalho doméstico penso
179
O meu jardim. Agora é um parque. Passeio. Não há ninguém. Um esquilo corre apressado. As árvores já não têm folhas. Há pouca coisa para os animais comerem. Caminho por uma pequena álea. Oiço pássaros atrás de mim. Olho rapidamente e vejo um rapaz com bastante mau aspecto. Estamos sós. Não há absolutamente ninguém mais. Acelero um pouco até atingir o fim da álea, onde vejo um gradeamento e um cão lá dentro. Quando chego lá paro diante do cão e começo a falar com ele. O cão começa a ladrar furiosamente.
180
Estou no parque. É afastado do meu jardim. Quando estou a atravessar a ponte vejo em baixo uma rapariga que atira para o lago um pau para o seu cão ir buscar. O cão corre para a água mas não avança mais que vinte centímetros. O pau está a dois metros onde é fundo. O cão não avança. Volta atrás, entra de lado, não avança. Começa a ladrar. Sai e entra. Ladra. Está já desesperado. Não aguento mais. Sigo. Minutos depois vejo a mesma rapariga passar a meu lado. O cão vai atrás. Molhado. Cabisbaixo.
318
Os cães do vizinho incomodam-me quando vêm para a rua ladrar agressivamente a tudo e até a nada, só por afirmação territorial. Vou à varanda e mando-os calar. Umas vezes obedecem-me outras não. De qualquer modo incomodam-me mas quando penso neles sinto uma certa vergonha. Afinal eles estão apenas a cumprir o seu programa. Mas eu também.
331
Em Goa à noite. Os cães são muitos. Mas não ladram. Quando andam movem-se sem energia, cansados, desinteressados de tudo. Realmente: qual é o interesse da vida?
380
Pensar o presente conduz necessariamente ao desespero porque a vida não tem outra solução senão perpetuar-se na sua imperfeição. Em frente da minha janela vários cães seguem o rasto de uma cadela com cio que vagueia pela rua. À noite a cadela é fechada em casa. Os cães assentam arraial à sua porta com dignidade e persistência, numa total submissão à tirania do ensejo
424
Candid camera. Estou num restaurante apinhado de gente. É a hora do almoço. De repente entra uma senhora com um cãozinho de luxo pela trela. O cão senta-se diante de mim e fita-me. É branco. Tem os olhos pretos e o nariz também. Parece um amor-perfeito. E é.
Ana Hatherly
463 Tisanas
1969-2006
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007
Imagens de Tóssan





Imagens de "Cão pên dio", editado pela Portugália, de Tóssan, António dos Santos, artista gráfico, caricaturista, desenhador e actor, enviadas pela Luísa do weblog No Silêncio do Deserto.
UMA CANÇÃO DE BEBER
O que foi Tróia, e o que foi meu cão,
Na mesma terra a mesma coisa são.
Quanto foi é despojos, e o que é hoje
Seus despojos sustenta de ilusão.
A vida viva da palavra dita,
A vida longa da palavra escrita,
A vida das palavras por dizer -
Qual dura? Qual é ser? Qual é...
22-7-1930
Fernando Pessoa
Canções de Beber
2003
Na mesma terra a mesma coisa são.
Quanto foi é despojos, e o que é hoje
Seus despojos sustenta de ilusão.
A vida viva da palavra dita,
A vida longa da palavra escrita,
A vida das palavras por dizer -
Qual dura? Qual é ser? Qual é...
22-7-1930
Fernando Pessoa
Canções de Beber
2003
UMA QUADRA AO GOSTO POPULAR
Toda a noite ouvi cães
P'ra manhã ouvi galos.
Tristeza - vem ter connosco.
Prazeres - é ir achá-los.
Fernando Pessoa
Quadras ao Gosto Popular
1973
P'ra manhã ouvi galos.
Tristeza - vem ter connosco.
Prazeres - é ir achá-los.
Fernando Pessoa
Quadras ao Gosto Popular
1973
domingo, 18 de fevereiro de 2007
PARQUE DE CAMPISMO
Limpei a nódoa e entrei
sorrindo à árvore
perguntei
se era ali que se faziam turistas
e disseram-me que sim
tirei logo o boné com atenção
porque já lá estavam
dois ingleses arm-in-arm
e de labita breve
olarila
com um ar
indubitavelmente marcial
de soldados ao sol
com falta de ar
afastei a perna
para deixar passar
o pássaro com a mala
mas tropecei no cão
que vinha
atrás do pássaro que passara
e que abriu uma enorme goela
tão goela hiante
que parecia
traduzida em alemão antigo
e quis morder-me a perna afastada
disse-lhe salsicha e outros exorcismos
veio logo o dono
dinamarquês muito erudito
que explicou tudo em sueco
como eu não sei sueco nem lapão
nem quem foi Druschken Alvarado
respondi-lhe
com a pronúncia das Vascongadas
e daí concluímos que
o cão com goela em tradução adiantada
era afinal a dona Josefa
proprietária da Pensão Afonso
falámos então com certo gáudio
em vários idiomas excitantes
falámos vasconso
e iogurte
e gargarejo
e sábado à noite
e luxamburger
e lembrámos melancolicamente
a dona Albertina
da ex-Pensão Ernesto
que fora por aí fora
a ver se lá não havia polícia
recordámos ainda
quanta mágoa
o Asdrúbal de Tabasco
e o seu simpático porco industrial
e despedimo-nos
à saída
encontrei de novo
a dona Josefa-cão
que conversava orgulhosa
com um coronel grego
disfarçado em pessoa
o pássaro passou sem a mala
assim vai o turismo
Mário-Henrique Leiria
Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro
1974
sorrindo à árvore
perguntei
se era ali que se faziam turistas
e disseram-me que sim
tirei logo o boné com atenção
porque já lá estavam
dois ingleses arm-in-arm
e de labita breve
olarila
com um ar
indubitavelmente marcial
de soldados ao sol
com falta de ar
afastei a perna
para deixar passar
o pássaro com a mala
mas tropecei no cão
que vinha
atrás do pássaro que passara
e que abriu uma enorme goela
tão goela hiante
que parecia
traduzida em alemão antigo
e quis morder-me a perna afastada
disse-lhe salsicha e outros exorcismos
veio logo o dono
dinamarquês muito erudito
que explicou tudo em sueco
como eu não sei sueco nem lapão
nem quem foi Druschken Alvarado
respondi-lhe
com a pronúncia das Vascongadas
e daí concluímos que
o cão com goela em tradução adiantada
era afinal a dona Josefa
proprietária da Pensão Afonso
falámos então com certo gáudio
em vários idiomas excitantes
falámos vasconso
e iogurte
e gargarejo
e sábado à noite
e luxamburger
e lembrámos melancolicamente
a dona Albertina
da ex-Pensão Ernesto
que fora por aí fora
a ver se lá não havia polícia
recordámos ainda
quanta mágoa
o Asdrúbal de Tabasco
e o seu simpático porco industrial
e despedimo-nos
à saída
encontrei de novo
a dona Josefa-cão
que conversava orgulhosa
com um coronel grego
disfarçado em pessoa
o pássaro passou sem a mala
assim vai o turismo
Mário-Henrique Leiria
Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro
1974
EXPLICAÇÃO RIGOROSA
Esperar
o quê?
uma máquina
de transformar bananas
em governos?
uma porta
que só obedece ao sinal
do ombro respeitável?
o cão profissional
que morde à sexta-feira
a perna que contesta?
o dedo
de unha poluída
que aponta a única direcção?
esperar
o quê?
o riso explosivo
e quente
como um sexo de mulher
aberto em flor
a faca
a granada
o dia
Mário-Henrique Leiria
Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro
1974
o quê?
uma máquina
de transformar bananas
em governos?
uma porta
que só obedece ao sinal
do ombro respeitável?
o cão profissional
que morde à sexta-feira
a perna que contesta?
o dedo
de unha poluída
que aponta a única direcção?
esperar
o quê?
o riso explosivo
e quente
como um sexo de mulher
aberto em flor
a faca
a granada
o dia
Mário-Henrique Leiria
Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro
1974
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
A MINHA SOMBRA VAI CAIR SOBRE O PRIMEIRO CÃO MORTO
A minha sombra vai cair sobre o primeiro cão morto
que uma tarde de esgotamentos funde na realidade
enquanto os braços bálsamo da noite
estendem ao vento um parto desgraçado.
Caminhar da luz para a treva e ver tudo;
vir do mar para a terra
e balançar nos grãos de vento;
beijar-te
e desejar antes ter uso que fazer projectos;
levar a meninice empoleirada no vestuário
e sujar a manhã
com um gesto generoso.
Zenide,
o herói da minha infância,
entra umbrático na minha vida
pelo lado fatal de um triângulo que me toca.
Como uma bala deixo um só dos meus cabelos
para veia do meu sangue.
E quando a névoa me traz uma colina de sargaços,
flor isolada,
num grito atravesso um futuro de limites convulsivos.
As minhas margens,
as minhas alamedas,
o fantasma que comunga comigo todas as madrugadas,
alguns anos de ausência disfarçada de rainha,
uma ardência débil na voz,
a minha folhagem submersa,
espaço e mais espaço a fulgir no meu corpo renovado
eis o átrio-astro da minha milenária profundidade.
Navego o vendaval
e nas minhas asas
música nenhuma me ama tanto
como eu beijo o incêndio dos teus seios.
Nenhuma neve esquecida dos meus passos
pulsa como tu.
Crescem nos meus dedos meiguices
e sempre
um quante mistério de outono
estremece na claridade da minha memória.
De penhasco em penhasco
vives em juventude um beijo que te espera
e que te escolhe
para alargar a solidão das mansões.
É dia nas águas onde a minha sede envolve pensamentos mágicos
e lento
o meu tossir
adivinha a fonte doente
que rasga na neblina os cérebros raros e escuros.
As chamas atravessam placidamente a rua
e vão beber com toda a equipagem do navio de meditações.
Morre num palácio
entre sedas claras
um mártir cavaleiro
que entrou em agonia
quando a catedral abriu os seus amplos claustros ao derradeiro par em lua-de-mel.
Sem cessar
do outro lado da lua cheia
o cão amadurece os seus sonhos de saber morrer.
O bafo do mar
abre-me aos nervos uma porta sobre a vida.
Entrançadas
morte e vida
são uma estrada para o sul da eternidade.
Nos olhos de um palhaço,
nas asas do milhafre,
desponta manso o teu olhar diferente
meu próprio fragmento livre
brotando furioso num gemido
sol no azul do universo.
A estrela descuidada
dá-me o teu cabelo loiro.
Aqui e ali
a paisagem prolonga-se
até aos limites do meu chamamento.
Hoje
bate à vidraça o cavername das ondas
e uma vela veste o meu silêncio
cada vez mais areal solene
mais eu e tu:
-silêncio do meu ser.
Fernando Alves dos Santos
Diário Flagrante
1954
que uma tarde de esgotamentos funde na realidade
enquanto os braços bálsamo da noite
estendem ao vento um parto desgraçado.
Caminhar da luz para a treva e ver tudo;
vir do mar para a terra
e balançar nos grãos de vento;
beijar-te
e desejar antes ter uso que fazer projectos;
levar a meninice empoleirada no vestuário
e sujar a manhã
com um gesto generoso.
Zenide,
o herói da minha infância,
entra umbrático na minha vida
pelo lado fatal de um triângulo que me toca.
Como uma bala deixo um só dos meus cabelos
para veia do meu sangue.
E quando a névoa me traz uma colina de sargaços,
flor isolada,
num grito atravesso um futuro de limites convulsivos.
As minhas margens,
as minhas alamedas,
o fantasma que comunga comigo todas as madrugadas,
alguns anos de ausência disfarçada de rainha,
uma ardência débil na voz,
a minha folhagem submersa,
espaço e mais espaço a fulgir no meu corpo renovado
eis o átrio-astro da minha milenária profundidade.
Navego o vendaval
e nas minhas asas
música nenhuma me ama tanto
como eu beijo o incêndio dos teus seios.
Nenhuma neve esquecida dos meus passos
pulsa como tu.
Crescem nos meus dedos meiguices
e sempre
um quante mistério de outono
estremece na claridade da minha memória.
De penhasco em penhasco
vives em juventude um beijo que te espera
e que te escolhe
para alargar a solidão das mansões.
É dia nas águas onde a minha sede envolve pensamentos mágicos
e lento
o meu tossir
adivinha a fonte doente
que rasga na neblina os cérebros raros e escuros.
As chamas atravessam placidamente a rua
e vão beber com toda a equipagem do navio de meditações.
Morre num palácio
entre sedas claras
um mártir cavaleiro
que entrou em agonia
quando a catedral abriu os seus amplos claustros ao derradeiro par em lua-de-mel.
Sem cessar
do outro lado da lua cheia
o cão amadurece os seus sonhos de saber morrer.
O bafo do mar
abre-me aos nervos uma porta sobre a vida.
Entrançadas
morte e vida
são uma estrada para o sul da eternidade.
Nos olhos de um palhaço,
nas asas do milhafre,
desponta manso o teu olhar diferente
meu próprio fragmento livre
brotando furioso num gemido
sol no azul do universo.
A estrela descuidada
dá-me o teu cabelo loiro.
Aqui e ali
a paisagem prolonga-se
até aos limites do meu chamamento.
Hoje
bate à vidraça o cavername das ondas
e uma vela veste o meu silêncio
cada vez mais areal solene
mais eu e tu:
-silêncio do meu ser.
Fernando Alves dos Santos
Diário Flagrante
1954
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
HISTÓRIA DE CÃO
eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento
tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros
entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada
depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou
ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia
estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar
e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo
o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória
dos lados não ficou nada
Mário Cesariny
burlescas teóricas e sentimentais
1972
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento
tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros
entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada
depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou
ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia
estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar
e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo
o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória
dos lados não ficou nada
Mário Cesariny
burlescas teóricas e sentimentais
1972
domingo, 11 de fevereiro de 2007
O CÃO
Exacto oboé de pêlo
por quatro patas contido
humano de não querer sê-lo
pontualmente enternecido
geométrica dose de amor
aos pés do dono rio
cão por fora absoluto
de cão não ser escondido
idioma de nascituro
povo no ovo, o seu latido
por nos seguir é cão.
Mas se seguido?
Natália Correia
O Vinho e a Lira
1966
por quatro patas contido
humano de não querer sê-lo
pontualmente enternecido
geométrica dose de amor
aos pés do dono rio
cão por fora absoluto
de cão não ser escondido
idioma de nascituro
povo no ovo, o seu latido
por nos seguir é cão.
Mas se seguido?
Natália Correia
O Vinho e a Lira
1966
sábado, 10 de fevereiro de 2007
UM POEMA ESQUIMÓ
Vejo aproximarem-se os brancos cães da aurora:
- Alto!, que vos atrelo ao meu trenó de gelo!
Herberto Helder
O Bebedor Nocturno
poemas mudados para português
1968
- Alto!, que vos atrelo ao meu trenó de gelo!
Herberto Helder
O Bebedor Nocturno
poemas mudados para português
1968
DEBAIXO DO VULCÃO
«alguém atirou um cão
morto às profundidades»
Malcolm Lowry
I
Malcolm
Lowry: vivo
mal como Lowry,
bebo
bem como Mal-
colm, como
mal como
Malcolm
come:
álcool
Malcolm, al
coolm,
ó
alcolmalcolm,
II
ó frígida
tequilla
no sopé do vulcão
por onde
o vulnerável cão
do espírito
ladra
e lavra
a essência
recôndita
do álcool:
conte-a
a bebidíssima
exigência
III
do meu
último copo,
sempre o último,
cante-a
o ex-extinto
vulcão
e por instinto
o vulnerável
cão,
ou plante-a
o próprio Lowry,
frágil,
entre lava
e neve:
IV
tépido mescal
para inventar
a mescaligrafia
gémea do som
ou da sombria
pauta musical
onde as notas florescem
em breves,
compactas corolas,
e hastes
que sobem, descem
esguiamente
os degraus
dum jardim,
V
enquanto
os índios passam
depressa
mas de pedra,
ficam
antepondo-se
ao norte
que fabrica
os países
com vidro,
com vinho, com visões
de vidrais vitais
debaixo
do vulcão,
VI
ó tépida tequilla,
existe ainda
o amor
e o vulnerável cão
do espírito
que lavra
cada palavra
oculta
por pudor
e a ladra
inutilmente
dentro
da garganta
vazia,
VII
frígido mescal
como um galope
na floresta
de vinho e vidro,
filtro
litro a litro,
animal,
animais,
e mais e só
o dorido espírito
do álcool
Malcolm,
entre neve
e lava:
VIII
os índios passam,
bebo, ficam
na sombria
pauta musical,
e o vulnerável cão
do amor
sossega pelo menos
um instante,
enquanto
os índios
sobem, descem
esguiamente
os degraus
das pirâmides.
Carlos de Oliveira
Micropaisagem
1968
morto às profundidades»
Malcolm Lowry
I
Malcolm
Lowry: vivo
mal como Lowry,
bebo
bem como Mal-
colm, como
mal como
Malcolm
come:
álcool
Malcolm, al
coolm,
ó
alcolmalcolm,
II
ó frígida
tequilla
no sopé do vulcão
por onde
o vulnerável cão
do espírito
ladra
e lavra
a essência
recôndita
do álcool:
conte-a
a bebidíssima
exigência
III
do meu
último copo,
sempre o último,
cante-a
o ex-extinto
vulcão
e por instinto
o vulnerável
cão,
ou plante-a
o próprio Lowry,
frágil,
entre lava
e neve:
IV
tépido mescal
para inventar
a mescaligrafia
gémea do som
ou da sombria
pauta musical
onde as notas florescem
em breves,
compactas corolas,
e hastes
que sobem, descem
esguiamente
os degraus
dum jardim,
V
enquanto
os índios passam
depressa
mas de pedra,
ficam
antepondo-se
ao norte
que fabrica
os países
com vidro,
com vinho, com visões
de vidrais vitais
debaixo
do vulcão,
VI
ó tépida tequilla,
existe ainda
o amor
e o vulnerável cão
do espírito
que lavra
cada palavra
oculta
por pudor
e a ladra
inutilmente
dentro
da garganta
vazia,
VII
frígido mescal
como um galope
na floresta
de vinho e vidro,
filtro
litro a litro,
animal,
animais,
e mais e só
o dorido espírito
do álcool
Malcolm,
entre neve
e lava:
VIII
os índios passam,
bebo, ficam
na sombria
pauta musical,
e o vulnerável cão
do amor
sossega pelo menos
um instante,
enquanto
os índios
sobem, descem
esguiamente
os degraus
das pirâmides.
Carlos de Oliveira
Micropaisagem
1968
terça-feira, 6 de fevereiro de 2007
EU, QUE PASSEI...
Eram gritos de uma dor humana
e um vento distante nas copas das árvores
embalando o silêncio e a lividez da rua
tortuosa, ambígua, de altos e mesquinhos prédios,
e becos e escadas e água correndo perdida
na beira de um passeio em que de súbito
havia janelas pequeninas, longíncuas, e uma luz enorme
suspensa entre nuvens, a cidade inteira
vista só de um lado como os gritos.
Um cão se esgueira de um caixote voltado.
E um vulto, encolhido no portal de onde o cão saíra,
dorme profundamente a solidão e o frio,
a casa, a cama e a mesa, tantas, tantas,
que mal os gritos se ouvem... tê-los-ia ouvido
eu que passei, que só passei, no sonho
de um vulto adormecido, que nele fui
a mão amiga, o rosto sorridente, a porta entreaberta,
os passos que se perdem no corredor comprido,
ao fundo a claridade, imensa gente, a vida,
a que é dos outros, se adivinha, vozes -
meus passos tristes mais um cão que foge.
23/4/48
Jorge de Sena
Pedra Filosofal
1950
e um vento distante nas copas das árvores
embalando o silêncio e a lividez da rua
tortuosa, ambígua, de altos e mesquinhos prédios,
e becos e escadas e água correndo perdida
na beira de um passeio em que de súbito
havia janelas pequeninas, longíncuas, e uma luz enorme
suspensa entre nuvens, a cidade inteira
vista só de um lado como os gritos.
Um cão se esgueira de um caixote voltado.
E um vulto, encolhido no portal de onde o cão saíra,
dorme profundamente a solidão e o frio,
a casa, a cama e a mesa, tantas, tantas,
que mal os gritos se ouvem... tê-los-ia ouvido
eu que passei, que só passei, no sonho
de um vulto adormecido, que nele fui
a mão amiga, o rosto sorridente, a porta entreaberta,
os passos que se perdem no corredor comprido,
ao fundo a claridade, imensa gente, a vida,
a que é dos outros, se adivinha, vozes -
meus passos tristes mais um cão que foge.
23/4/48
Jorge de Sena
Pedra Filosofal
1950
A MATILHA
As mãos perderam a força,
nunca a tiveram a não ser no descanso,
a que havia não dava por isso e chegava,
mas ao sentir os cães ladrando tão perto,
há pouco, onde fui eu buscar
a nobreza que me dirigiu os passos firmes,
me endireitou tão direito,
me fez olhar à volta com ar tão quotidiano,
e mesmo até me segurou o chapéu na cabeça?
Onde a fui eu buscar para ir ali como se a noite
se tecesse em estrelas
e as ruas em flores de silêncio,
ali, sentindo atrás a baba e os uivos
e o tropel das unhas não retráteis?
E, quando ficaram exibindo-se junto ao candeeiro,
ainda prossegui,
cheguei ao fim e parando ofegante,
vendo a escuridão molhada além dos vidros embaciados
e vendo o deserto e o passado a que tudo pertencia,
vendo à excepção dos lábios futuros que só agora distingo,
tive saudades do tropel...
tive saudades dos latidos...
e do meu ar sereno útil,
que este que ficou não serve para nada;
tive saudades, tenho-as,
e se agora ladrassem debaixo da janela,
não sei o que faria -
talvez lhes desse um osso...
talvez me abandonasse inteiro...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
desse o que desse, equivalia...
pois equivalia!...
mas eu tomei gosto à baba, cães vadios!
6,7/11/39
Jorge de Sena
Perseguição
1942
nunca a tiveram a não ser no descanso,
a que havia não dava por isso e chegava,
mas ao sentir os cães ladrando tão perto,
há pouco, onde fui eu buscar
a nobreza que me dirigiu os passos firmes,
me endireitou tão direito,
me fez olhar à volta com ar tão quotidiano,
e mesmo até me segurou o chapéu na cabeça?
Onde a fui eu buscar para ir ali como se a noite
se tecesse em estrelas
e as ruas em flores de silêncio,
ali, sentindo atrás a baba e os uivos
e o tropel das unhas não retráteis?
E, quando ficaram exibindo-se junto ao candeeiro,
ainda prossegui,
cheguei ao fim e parando ofegante,
vendo a escuridão molhada além dos vidros embaciados
e vendo o deserto e o passado a que tudo pertencia,
vendo à excepção dos lábios futuros que só agora distingo,
tive saudades do tropel...
tive saudades dos latidos...
e do meu ar sereno útil,
que este que ficou não serve para nada;
tive saudades, tenho-as,
e se agora ladrassem debaixo da janela,
não sei o que faria -
talvez lhes desse um osso...
talvez me abandonasse inteiro...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
desse o que desse, equivalia...
pois equivalia!...
mas eu tomei gosto à baba, cães vadios!
6,7/11/39
Jorge de Sena
Perseguição
1942
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
NOCTURNO
Quatro da madrugada.
Vivos,
sob o arco do céu,
eu
e um cão tão magro como eu.
Sem prévia combinação, sem nada,
tivemos este encontro nesta rua
a esta hora marcada
pelo aceno da lua.
E aqui vamos agora,
num amor vagabundo
de quem não se conhece e se namora,
a encher os dois sozinhos este mundo.
Coimbra, 16 de Maio de 1940.
Miguel Torga
Diário I
1941
Vivos,
sob o arco do céu,
eu
e um cão tão magro como eu.
Sem prévia combinação, sem nada,
tivemos este encontro nesta rua
a esta hora marcada
pelo aceno da lua.
E aqui vamos agora,
num amor vagabundo
de quem não se conhece e se namora,
a encher os dois sozinhos este mundo.
Coimbra, 16 de Maio de 1940.
Miguel Torga
Diário I
1941
domingo, 4 de fevereiro de 2007
CÃO ATÓMICO
1.
Este cão tem folhas nas orelhas,
Com quatro talos:
Mas o que este cão devia ter era calos,
E só tem olhos e ossos
E morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
Quase o diria meu irmão:
Parece gente!
2.
Este cão é redondo. Está deitado,
Rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
Mas perdeu a alcateia
Como os homens perderam a Razão,
Que hoje serve de osso ao cão
Escapo ao cogumelo nuclear.
E por essa razão se foi deitar.
Vitorino Nemésio
Limite De Idade
1972
Este cão tem folhas nas orelhas,
Com quatro talos:
Mas o que este cão devia ter era calos,
E só tem olhos e ossos
E morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
Quase o diria meu irmão:
Parece gente!
2.
Este cão é redondo. Está deitado,
Rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
Mas perdeu a alcateia
Como os homens perderam a Razão,
Que hoje serve de osso ao cão
Escapo ao cogumelo nuclear.
E por essa razão se foi deitar.
Vitorino Nemésio
Limite De Idade
1972
O recorte de um cão, na areia, ao luar.
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.
Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vai uivar a tanta eira?
Que longo e liso, o fio da noite!
- E amar, esperar desta maneira!
Numa cidade deserta
(Talvez outra, ou Nínive)
Encontrei um anel, uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.
Mas tudo isso foi vão,
E até nem sei se esse osso tive.
Vitorino Nemésio
Eu, Comovido A Oeste
1940
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.
Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vai uivar a tanta eira?
Que longo e liso, o fio da noite!
- E amar, esperar desta maneira!
Numa cidade deserta
(Talvez outra, ou Nínive)
Encontrei um anel, uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.
Mas tudo isso foi vão,
E até nem sei se esse osso tive.
Vitorino Nemésio
Eu, Comovido A Oeste
1940
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
INTERIOR COM CÃO
A velhice, aprender-lhe esses primeiros sinais
o cabelo «de prata» caindo agora um tudo nada mais
no lavatório ou simplesmente
ao deitar-se na cama o coração «que salta»
a moleza das pernas
não consolação nisto nenhuma
nem um crédito a favor
quando cotejadas as situações
(velhos nos asilos senhoras de preto à esmola
subindo a Rua Garrett)
a constatação dos anos «feitos
entre si para me perderem»
uma quase também
melancolia matadora
toda a máscara sufoca?
mas não para escapar a isto
usei-as talvez
quando me sento
à mesa e vejo aqui diante
do papel branco as unhas devastadas
como por um ácido
dentro do cesto o cão da casa
também já passa manhãs
à espera do sol quente
Fernando Assis Pacheco
Variações em Sousa
1984
o cabelo «de prata» caindo agora um tudo nada mais
no lavatório ou simplesmente
ao deitar-se na cama o coração «que salta»
a moleza das pernas
não consolação nisto nenhuma
nem um crédito a favor
quando cotejadas as situações
(velhos nos asilos senhoras de preto à esmola
subindo a Rua Garrett)
a constatação dos anos «feitos
entre si para me perderem»
uma quase também
melancolia matadora
toda a máscara sufoca?
mas não para escapar a isto
usei-as talvez
quando me sento
à mesa e vejo aqui diante
do papel branco as unhas devastadas
como por um ácido
dentro do cesto o cão da casa
também já passa manhãs
à espera do sol quente
Fernando Assis Pacheco
Variações em Sousa
1984
OS CÃES
Eram loucos. Alguns deles eram loucos,
parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, «está um trapo», uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer somente, cães que somos
dez, vinte, chama-me «Niassa»,
ou «Tejo», vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.
Fernando Assis Pacheco
Catalabanza, Quilolo e Volta
1976
parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, «está um trapo», uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer somente, cães que somos
dez, vinte, chama-me «Niassa»,
ou «Tejo», vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.
Fernando Assis Pacheco
Catalabanza, Quilolo e Volta
1976
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
POESIA-CÃO
Com que então, coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
Alexandre O'Neill
Feira Cabisbaixa
1965
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
Alexandre O'Neill
Feira Cabisbaixa
1965
CÃO
Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Alexandre O'Neill
Abandono Vigiado
1960
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
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cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
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Alexandre O'Neill
Abandono Vigiado
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