CUIDADO COM O CÃO
UI ÃO
ÃO
ÃO
UI
UI
UIÃO
UI
Alexandre O'Neill
Entre a Cortina e a Vidraça
1972
Antologia de textos com cães dentro.
quarta-feira, 27 de junho de 2007
terça-feira, 26 de junho de 2007
Ladrava com vigor todos os dias
como em igreja
o seu latir soava
no baixo ventre em sombra
o cão gania.
E vinha Deus no seu carro de Outono
e o cão uivando a todos prometia
e o cão em baixo em vão
ao abandono.
Escolhe outros sons mais fundos
no meu sangue
ó cão exangue homem mulher
criança
o coração ainda é teu ofício
roça por mim a tua língua
bruta
cão cheio de som meu
cão do vício.
Armando Silva Carvalho
Canis Dei
1995
como em igreja
o seu latir soava
no baixo ventre em sombra
o cão gania.
E vinha Deus no seu carro de Outono
e o cão uivando a todos prometia
e o cão em baixo em vão
ao abandono.
Escolhe outros sons mais fundos
no meu sangue
ó cão exangue homem mulher
criança
o coração ainda é teu ofício
roça por mim a tua língua
bruta
cão cheio de som meu
cão do vício.
Armando Silva Carvalho
Canis Dei
1995
Deixaram-no ali ladrando à rua
os donos desonestos.
Nas grades da janela feita jaula
o animal irado grita
que proteste.
No silêncio da rua o cão regressa
ao outro limiar da natureza
a sua fala brusca
conjura toda a fauna primitiva
a flor e a luxúria.
Um cortejo selavagem desemboca.
E a rua tem medo
das pegadas de deus no som da peste.
Armando Silva Carvalho
Canis Dei
1995
os donos desonestos.
Nas grades da janela feita jaula
o animal irado grita
que proteste.
No silêncio da rua o cão regressa
ao outro limiar da natureza
a sua fala brusca
conjura toda a fauna primitiva
a flor e a luxúria.
Um cortejo selavagem desemboca.
E a rua tem medo
das pegadas de deus no som da peste.
Armando Silva Carvalho
Canis Dei
1995
sábado, 23 de junho de 2007
Junho, aqui estás, como um cão
cálido de suaves olhos.
Quando chegas toda a terra
se enche de luz e de sonho.
Também, tal como uma rua
sozinha, ao sol do meio-dia,
súbito em gritos se incendeia;
tal, digo eu, como uma rua
sem tempo, louca de luz,
sozinha, soa esfaqueada,
o teu nome de cão, Junho,
trabalha em meu coração
e de repente começa
a tempestade da memória.
1952
Antonio Gamoneda
tradução de Rui Almeida
Edad (Poesía 1947-1986)
2000
Oferecido por Rui Almeida.
cálido de suaves olhos.
Quando chegas toda a terra
se enche de luz e de sonho.
Também, tal como uma rua
sozinha, ao sol do meio-dia,
súbito em gritos se incendeia;
tal, digo eu, como uma rua
sem tempo, louca de luz,
sozinha, soa esfaqueada,
o teu nome de cão, Junho,
trabalha em meu coração
e de repente começa
a tempestade da memória.
1952
Antonio Gamoneda
tradução de Rui Almeida
Edad (Poesía 1947-1986)
2000
Oferecido por Rui Almeida.
9.
Zás! Entrou de rompante, sem licença!
Correu as mesas de nariz no ar,
Houve, na malta, uma alegria imensa
E uma senhora dona quase a desmaiar.
Os empregados dão-lhe caça.
Ele esquiva-se, esconde-se, ajudado
Pela malta. É um soberbo cão de raça,
Esbelto e bem tratado.
Fugiu à trela da dependência.
Por uns instantes (mais não terá!),
Escapa ao jugo da obediência,
Ao imperativo do aqui-já!
Depois dos caçadores haverem desistido,
Afagado e feliz,
Comeu um bolo, lento, estirado ao comprido,
E saiu quando quis.
(Com que emoção,
No circunspecto da minha idade,
Vivi, na fuga daquele cão,
A sensação de liberdade!)
António Manuel Couto Viana
Café de Subúrbio
1991
Oferecido por Rui Almeida.
Correu as mesas de nariz no ar,
Houve, na malta, uma alegria imensa
E uma senhora dona quase a desmaiar.
Os empregados dão-lhe caça.
Ele esquiva-se, esconde-se, ajudado
Pela malta. É um soberbo cão de raça,
Esbelto e bem tratado.
Fugiu à trela da dependência.
Por uns instantes (mais não terá!),
Escapa ao jugo da obediência,
Ao imperativo do aqui-já!
Depois dos caçadores haverem desistido,
Afagado e feliz,
Comeu um bolo, lento, estirado ao comprido,
E saiu quando quis.
(Com que emoção,
No circunspecto da minha idade,
Vivi, na fuga daquele cão,
A sensação de liberdade!)
António Manuel Couto Viana
Café de Subúrbio
1991
Oferecido por Rui Almeida.
Sei que a noite será longa
E que o frio me queimará
Os olhos que o escorpião me espia
Em silêncio e cães ávidos
Guardam a porta do dia
Anne Perrier
O Próximo Voo das Aves
Tradução Colectiva (Poetas em Mateus)
1999
Oferecido por Rui Almeida.
E que o frio me queimará
Os olhos que o escorpião me espia
Em silêncio e cães ávidos
Guardam a porta do dia
Anne Perrier
O Próximo Voo das Aves
Tradução Colectiva (Poetas em Mateus)
1999
Oferecido por Rui Almeida.
CÃES AO DESBARATO
Um género de cães ao desbarato
poetas cafres adoçam as nongas
ancestrais dos versos na obsessiva
carne terra dos açaimos
e não choram...
Batem!
[“Nonga(s): pau que funciona como cajado e que também serve de arma de defesa ou de ataque. Geralmente de superfície polida pelo uso.”]
José Craveirinha
Karingana ua Karingana
1974
poetas cafres adoçam as nongas
ancestrais dos versos na obsessiva
carne terra dos açaimos
e não choram...
Batem!
[“Nonga(s): pau que funciona como cajado e que também serve de arma de defesa ou de ataque. Geralmente de superfície polida pelo uso.”]
José Craveirinha
Karingana ua Karingana
1974
Oferecido por Rui Almeida.
está sentado no chão, o cão ao lado
pousa a cabeça no lodo. nenhum olha,
o olhar parado está voltado para quem os vê,
apenas sombras sobre o quadro surdo.
a mão toca na luz atrás da porta,
apaga os rostos que sufoca o tédio,
mostra o avesso, almas à espera temendo
o assédio dessas figuras agora hostis.
Carlos Marques Queirós
Os Passos Reencontrados
2002
Oferecido por Rui Almeida.
pousa a cabeça no lodo. nenhum olha,
o olhar parado está voltado para quem os vê,
apenas sombras sobre o quadro surdo.
a mão toca na luz atrás da porta,
apaga os rostos que sufoca o tédio,
mostra o avesso, almas à espera temendo
o assédio dessas figuras agora hostis.
Carlos Marques Queirós
Os Passos Reencontrados
2002
Oferecido por Rui Almeida.
ESTUDO DE UM CÃO
Dentro do círculo do sofrimento
esfera de fezes
a língua, a míngua de sede
em chão castanho de terra. Na distância, o movimento de uma estrada.
Em torção do corpo,
apoiado no braço, o rosto desenhava-se na água que
restara ao sabor da lama: este é o impossível
silêncio das rãs. Tinham partido. Ficara o abandono. Um
homem pode destruir tudo dentro de si –
ódio, descrença, amor, a dúvida – enquanto se prende
à vida o abandono permanece
o cão ergue o olhar sobre a
terra, as vozes, a água. O lamento de
uma estrela incendeia na queda
o desejo, abandono ardente
tirou meio dia de folga
foi tomar banho no rio; os dedos desceram
sobre a lira de prata as cordas, a
tensão mais extrema, fio de vida. O cão, figura de proa
ancorada. Brilho de lápis
entre o Orontes e o Eufrates, na fértil planície de Antioquia.
João Miguel Fernandes Jorge
Invisíveis Correntes
2004
Oferecido por Rui Almeida.
esfera de fezes
a língua, a míngua de sede
em chão castanho de terra. Na distância, o movimento de uma estrada.
Em torção do corpo,
apoiado no braço, o rosto desenhava-se na água que
restara ao sabor da lama: este é o impossível
silêncio das rãs. Tinham partido. Ficara o abandono. Um
homem pode destruir tudo dentro de si –
ódio, descrença, amor, a dúvida – enquanto se prende
à vida o abandono permanece
o cão ergue o olhar sobre a
terra, as vozes, a água. O lamento de
uma estrela incendeia na queda
o desejo, abandono ardente
tirou meio dia de folga
foi tomar banho no rio; os dedos desceram
sobre a lira de prata as cordas, a
tensão mais extrema, fio de vida. O cão, figura de proa
ancorada. Brilho de lápis
entre o Orontes e o Eufrates, na fértil planície de Antioquia.
João Miguel Fernandes Jorge
Invisíveis Correntes
2004
Oferecido por Rui Almeida.
quarta-feira, 20 de junho de 2007
Somos o bafo dois cães
olhas o espelho
e eu transpiro a ciência
de Camões a masturbar
as mágoas.
Mais um verso atravessaste tu
gato barbieri ao longe
ali nada perdido
nos labirintos com o Minotauro.
Eu digo amor como digo
broca
e os anciãos de cu e boca
batem-me à porta
querem explodir na noite.
Nesta areia precária
morrem crianças
em histórias movediças
tu consegues a luz
nessa fenda inundada
por lembranças.
Nenhum dos dois consegue
erguer mais alto
o pão testicular
que se agarrou aos dedos.
Os cães aquecem
(recomeçar de novo?)
sobre a baba das rendas
resplandeces.
Armando Silva Carvalho
Eu Era de Areia
1977
olhas o espelho
e eu transpiro a ciência
de Camões a masturbar
as mágoas.
Mais um verso atravessaste tu
gato barbieri ao longe
ali nada perdido
nos labirintos com o Minotauro.
Eu digo amor como digo
broca
e os anciãos de cu e boca
batem-me à porta
querem explodir na noite.
Nesta areia precária
morrem crianças
em histórias movediças
tu consegues a luz
nessa fenda inundada
por lembranças.
Nenhum dos dois consegue
erguer mais alto
o pão testicular
que se agarrou aos dedos.
Os cães aquecem
(recomeçar de novo?)
sobre a baba das rendas
resplandeces.
Armando Silva Carvalho
Eu Era de Areia
1977
sábado, 16 de junho de 2007
RETRATO DE D. SEBASTIÃO

Ruíram portas. Os velhos muros desmoronaram.
A lua de agosto, temível artesanato de um gnomo astuto
esperava a surpresa das vítimas. E a própria
palavra da língua fez ouvir gritos desentoados
vindos da noite dos tempos. O verão desse ano,
máscara disforme, envergonhada. E o rei,
um rapaz, o reino ameaçava como se faz às crianças
que não querem adormecer.
Os olhos azuis, pisados, desaguam em fantasias.
Sofriam, no severo conjuro adolescente, o juízo
que Platão verteu sobre os efeitos malignos da
arte, da ilusão que causa na alma humana. Havia
sonho, imagem e fazenda a destruir nos afilados dedos
que traziam morte, filme de gelo sobre o derradeiro
verão dos rios da cidade, ó castelos
e o lebréu, fiel, o mais fiel dos súbditos,
dispõe-se a recolher o afundamento
de corpos, barcas e pátria.
E do rapaz, de dezasseis anos ao tempo do retrato,
Areia de silêncio envolveu seus ossos. Inquietude,
Ânimo, valor ferido.
A lua de agosto, temível artesanato de um gnomo astuto
esperava a surpresa das vítimas. E a própria
palavra da língua fez ouvir gritos desentoados
vindos da noite dos tempos. O verão desse ano,
máscara disforme, envergonhada. E o rei,
um rapaz, o reino ameaçava como se faz às crianças
que não querem adormecer.
Os olhos azuis, pisados, desaguam em fantasias.
Sofriam, no severo conjuro adolescente, o juízo
que Platão verteu sobre os efeitos malignos da
arte, da ilusão que causa na alma humana. Havia
sonho, imagem e fazenda a destruir nos afilados dedos
que traziam morte, filme de gelo sobre o derradeiro
verão dos rios da cidade, ó castelos
e o lebréu, fiel, o mais fiel dos súbditos,
dispõe-se a recolher o afundamento
de corpos, barcas e pátria.
E do rapaz, de dezasseis anos ao tempo do retrato,
Areia de silêncio envolveu seus ossos. Inquietude,
Ânimo, valor ferido.
/Cristóvão de Moraes, c. 1572-74/
João Miguel Fernandes Jorge
Museu das Janelas Verdes
2002
Oferecido por Rui Almeida.
CÃES
Passou um rapaz e disse: «então, está aí, melancólico, a escrever um poema?»
K. podia responder-lhe que a poesia nunca fechara os olhos para a crueldade do mundo, antes pelo contrário; que a poesia nunca o impediu de entender a luta que travam entre si os princípios e as ambições, os ideais e a capacidade de fazer o mal; e que a ironia não vinha nada a propósito.
Para alimentar o mito da sua ligeireza e superficialidade, podia confidenciar que estava à espera de uma rapariga de olhos azuis, pequenas tranças.
Calou-se, porém. Que tinham os cães raivosos que ladrar-lhe quando, na solidão do café, ele começava a entrever o destino de outra perspectiva? Que tinham os amigos falsos que simular a simpatia do interesse quando ele, calado e quieto, já se esquecera de que costumam caluniar-nos quando viramos as costas?
João Camilo
A Ambição Sublime
2001
K. podia responder-lhe que a poesia nunca fechara os olhos para a crueldade do mundo, antes pelo contrário; que a poesia nunca o impediu de entender a luta que travam entre si os princípios e as ambições, os ideais e a capacidade de fazer o mal; e que a ironia não vinha nada a propósito.
Para alimentar o mito da sua ligeireza e superficialidade, podia confidenciar que estava à espera de uma rapariga de olhos azuis, pequenas tranças.
Calou-se, porém. Que tinham os cães raivosos que ladrar-lhe quando, na solidão do café, ele começava a entrever o destino de outra perspectiva? Que tinham os amigos falsos que simular a simpatia do interesse quando ele, calado e quieto, já se esquecera de que costumam caluniar-nos quando viramos as costas?
João Camilo
A Ambição Sublime
2001
Oferecido por Rui Almeida.
VILA VERDE
Cadeia de Vila Verde,
Com teus ferros, tuas pedras,
Arrasada sejas tu!
Com os teus ferros sem alma;
Tuas pedras de olhar cru.
Vila Verde! Vila Verde!
Ai! Cadeias como a tua
Nem mesmo a fogueira as lava!
Eu bem vi em Vila Verde
Loucos, cegos… E, à mistura,
Dois presos. Ambos tão jovens!
Um sorria; outro chorava…
Fora em Maio.
Havia rosas
Cá fora.
E, ao sol, na estrada,
Bailavam os namorados!
Mocidade não tem crimes.
O que tem é coração!
Os dois presos eram jovens,
Estendi-lhes pelas grades,
A palma da minha mão…
Cuidado, Cristãos! Cuidado!
Quanta vez a caridade
Dói tanto ou mais que o desprezo!
Quem falou em mocidade?
Quem falou em coração?
Ao ver-me, aqueles dois presos
Abraçaram-se um ao outro,
E ambos me disseram:
– Cão!
Pedro Homem de Mello
Bodas Vermelhas
1947
Oferecido por Rui Almeida.
Com teus ferros, tuas pedras,
Arrasada sejas tu!
Com os teus ferros sem alma;
Tuas pedras de olhar cru.
Vila Verde! Vila Verde!
Ai! Cadeias como a tua
Nem mesmo a fogueira as lava!
Eu bem vi em Vila Verde
Loucos, cegos… E, à mistura,
Dois presos. Ambos tão jovens!
Um sorria; outro chorava…
Fora em Maio.
Havia rosas
Cá fora.
E, ao sol, na estrada,
Bailavam os namorados!
Mocidade não tem crimes.
O que tem é coração!
Os dois presos eram jovens,
Estendi-lhes pelas grades,
A palma da minha mão…
Cuidado, Cristãos! Cuidado!
Quanta vez a caridade
Dói tanto ou mais que o desprezo!
Quem falou em mocidade?
Quem falou em coração?
Ao ver-me, aqueles dois presos
Abraçaram-se um ao outro,
E ambos me disseram:
– Cão!
Pedro Homem de Mello
Bodas Vermelhas
1947
Oferecido por Rui Almeida.
sexta-feira, 15 de junho de 2007
EU E OS CÃES
Soam os cães. Eu ponho as mãos na noite
e considero os velhos temas do amor.
Eu e os cães puxamos pela noite
com longas franjas batendo-me na testa.
Mas tudo, tudo
é tão exterior:
as franjas dessa colcha descomposta
mas sensível, os eternos lençóis
da solidão.
Como se visse os cães comendo a noite.
Tão intranquilos. Com dente em ruína
a baba em fio
caindo pelas casotas solitárias.
Eu ouço os cães nesta cidade enorme
com crostas de ruídos onde bóiam
os táxis com seu farol astuto
sempre prostituído.
Mas já para os cães vai existir o sono
filho da noite, amigo de animais.
Quase o conheço trazendo
o corpo mole
e sobre o qual
eu morro desistido.
Armando Silva Carvalho
O Comércio dos Nervos
1968
e considero os velhos temas do amor.
Eu e os cães puxamos pela noite
com longas franjas batendo-me na testa.
Mas tudo, tudo
é tão exterior:
as franjas dessa colcha descomposta
mas sensível, os eternos lençóis
da solidão.
Como se visse os cães comendo a noite.
Tão intranquilos. Com dente em ruína
a baba em fio
caindo pelas casotas solitárias.
Eu ouço os cães nesta cidade enorme
com crostas de ruídos onde bóiam
os táxis com seu farol astuto
sempre prostituído.
Mas já para os cães vai existir o sono
filho da noite, amigo de animais.
Quase o conheço trazendo
o corpo mole
e sobre o qual
eu morro desistido.
Armando Silva Carvalho
O Comércio dos Nervos
1968
quinta-feira, 14 de junho de 2007
ÓLEO DE CÃO
O meu nome é Boffer Bings. Nasci de pais honestos, qualquer deles de bastante humilde profissão: meu pai fabricante de óleo de cão; minha mãe proprietária de uma pequena oficina à sombra da igreja, onde eram decepadas crianças indesejáveis. Desde a infância me incutiram hábitos de trabalho assíduo, não só ajudando o meu pai a encontrar cães para os seus caldeirões, como por solicitar a minha mãe com frequência que me encarregasse de dar sumiço aos restos do seu labor. No cumprimento desta tarefa sentia eu necessidade de me apoiar com frequência em todos os recursos da minha inteligência natural, porque os polícias da vizinhança contrariavam a actividade da minha mãe. Não que eles tivessem sido escolhidos pelo partido da oposição ou alguma vez tivessem feito do caso questão política: a coisa era assim mesmo, acabou-se. A profissão do meu pai naturalmente menos impopular, ainda que os donos dos cães desaparecidos sentissem contra ele certas dúvidas que recaíam, de algum modo, sobre mim. O meu pai tinha como sócios-mudos todos os médicos da cidade e bem rara era a receita que não comportasse aquilo que lhes aprazava chamar Olcan, na verdade o mais precioso remédio até hoje descoberto. A maior parte das pessoas recusava-se porém a consentir sacrifícios pessoais para benefício dos necessitados. Como é de esperar, muitos dos mais gordos cães foram proibidos de brincar comigo, o que feriu de modo bem doloroso a minha sensibilidade de jovem e me impeliu, em dado momento, a embarcar como pirata.
Causando indirectamente a morte dos meus bem-amados pais, a referir os dias felizes do passado não posso as mais das vezes deixar de lamentar as desgraças que desencadeei e haveriam de exercer profunda influência sobre o meu futuro.
Certa noite passava eu à frente da olearia do meu pai com o cadáver de uma criança perdida que provinha da oficina da minha mãe, quando vi um polícia a fixar com a maior atenção os meus movimentos. Bem cedo aprendi que os actos de um polícia, seja qual for o seu aspecto, são inspirados pelos motivos, mais repreensíveis. Evitei assim o representante da ordem, esquivando-me para dentro da olearia por uma porta lateral entreaberta. Dei a volta à chave e fiquei a sós com o pequeno morto. O meu pai já estava deitado. Só havia a claridade do forno e a nódoa sanguínea que ele punha debaixo do caldeirão, os reflexos vermelhos projectados de encontro à parede. O óleo ainda fervente fazia girar no caldeirão as suas bolhas preguiçosas, trazia um ou outro pedaço de cão à superfície. Sentei-me, à espera que o polícia afastasse, mantendo nos joelhos o corpo nu da criança perdida, acariciando-lhe meigamente os cabelos curtos e sedosos. Ah! que linda criança! Já naquela idade eu sentia uma verdadeira paixão pelas crianças, e ao contemplar o anjo via nascer dentro de mim o desejo vago de que a pequena ferida vermelha do seu peito (obra da minha mãe) não tivesse tido um resultado mortal. Adquirira o hábito de atirar as crianças àquele rio que a providencial natureza concebera expressamente para o uso que eu lhe destinava. Sucedia, porém, que eu não ousava naquela noite abandonar a olearia, com medo do agente da polícia. «Ao cabo e ao resto – dizia a mim mesmo – enfiar a criança no caldeirão não será coisa de maior importância. O meu pai não saberá distinguir estes ossos dos ossos de um cão pequeno, e o insucesso que pode resultar do emprego de outro óleo diferente do incomparável Olcan nada pesará junto de uma população que não deixa tão facilmente de ter fé». Não tardou que eu desse o meu primeiro passo em direcção ao crime, fazendo cair o pequeno cadáver no caldeirão e reservando a mim próprio incalculáveis aborrecimentos.
Com surpresa minha, no dia seguinte o meu pai esfregava as mãos de contente e declarava, a mim e a minha mãe, que obtivera um óleo de qualidade excepcional (assim rezava o juízo dos médicos a quem tinha patenteado algumas amostras). Afirmou a sua ignorância a respeito de tais resultados, já que eram de raça bastante ordinária os cães utilizados e tudo fora tratado como era seu hábito. Julguei meu dever explicar o que se passara... ter-se-ia no entanto paralisado a minha língua, a prever as consequências da revelação. Lamentando a cegueira que até à data fizera ignoradas as vantagens da fusão das suas indústrias, os meus pais tomaram medidas rápidas para reparar o erro. A minha mãe instalou-se num recanto da olearia e eu fui desobrigado das minhas anteriores ocupações. Deixaram de pedir-me para dar sumiço aos cadáveres das crianças supérfluas, e já de mim não precisavam par atrair os cães ao seu destino porque o meu pai decidira não mais utilizá-los, embora lhes conservasse o honroso lugar no nome do óleo. Mercê da ociosidade súbita, seria talvez de esperar que eu me tivesse feito um debochado de péssimos costumes. Nada disso aconteceu. A santa influência da minha bem-amada mãe não deixou de proteger-me das tentações que assaltam a mocidade, além disso o meu pai era diácono da igreja... E dizer, ai de mim!, que por culpa minha culpa bem triste fim conheceram duas pessoas bem respeitáveis!
Descobrindo dupla vantagem em seu mister, minha mãe dedicou-se-lhe com reforçado zelo. Não contente em decepar por encomenda crianças indesejáveis e supérfluas, começou a calcorrear caminhos afastados e estradas desertas de onde trazia crianças de mais idade, por vezes adultos que lograva persuadir de forma a ser acompanhada àquela olearia. Por outro lado o meu pai, apaixonado pela superior qualidade do óleo produzido, alimentava os seus caldeirões com a maior das diligências. Transformar os vizinhos em óleo de cão, não tardou que fosse o seu único amor. Apoderou-se-lhes da alma uma actividade absorvente e tirânica que substituiu a esperança que alimentavam no ganho do Céu (por quem eram de igual modo inspirados).
Tão empreendedores acabaram por mostrar-se, que os seus concidadãos organizaram uma reunião pública no decurso da qual foram objecto de várias moções de censura. O presidente da assembleia declarou que todo e qualquer novo ataque à gente do lugar seria retribuído em tom hostil. Meus pobres pais saíram da reunião de coração partido, presas do maior desespero e – disso estou convencido – diminuídos na razão. De qualquer forma, julguei prudente não entrar com eles na olearia e deitar-me numa estrebaria.
Sob o efeito de não sei que misterioso impulso, levantei-me por volta da meia-noite e fui olhar à janela da sala do forno onde o meu pai ultimamente se deitava. As chamas brilhavam claras, como se a colheita do próximo dia se anunciasse abundante. Um dos grandes caldeirões fervia docemente, manifestava uma misteriosa discrição, ao que parece na ânsia do instante em que pudesse dar livre curso a toda a sua energia. O meu pai não se encontrava na cama, estava em camisa de noite, de pé, e agarrava numa corda sólida que ia preparando em forma de nó corredio. Os olhares que ele lançava à porta do quarto da minha mãe logo me fizeram compreender o fim que se propunha atingir. Eu sentia a língua e os membros paralisados de terror, não conseguia dar um só grito de alerta, ou fazer um movimento de intervenção. Abriu-se de repente a porta do quatro da minha mãe, sem ruído, e os dois esposos encontraram-se face a face, com grande surpresa aparente. A minha mãe também estava em camisa de noite e agarrava com a mão direita no utensílio da sua profissão, uma faca de lâmina delgada e longa.
Tal como o meu pai, não pudera conformar-se à renúncia do único ganho que lhe restava, cumpridas que fossem a minha ausência e a decisão hostil dos seus concidadãos. Olharam-se com flamejante fixidez e atiraram-se depois um ao outro num acesso de furor indescritível. Lutaram à volta da sala, o homem gritando pragas, a mulher lançando uivos inarticulados; ela tentando atingi-lo com a faca, ele esforçando-se por estrangulá-la nas suas mãos nuas. Não sei por quanto tempo sofri o infortúnio de contemplar tão desagradável quadro de infelicidade doméstica. Porém, ao cabo de um soco particularmente enérgico, os dois combatentes soltaram-se num movimento súbito.
O peito do meu pai e a faca da minha mãe revelavam as marcas sangrentas de um contacto funesto. Os dois esposos trocaram um olhar desprovido de amenidade e o meu pobre e ferido pai, que já sentia sobre si a mão da morte, arremessou-se para a frente sem atender à resistência do adversário. Estreitando em seus braços a minha bem-amada mãe, arrastou-a para muito perto do caldeirão fervente, reunindo débeis forças, projectou-se com ela dentro dele! Desapareceram ambos num instante, juntando o seu óleo ao óleo da embaixada dos cidadãos que tinham vindo na véspera convidá-los a comparecer na citada reunião pública. Convencido de que os bem deploráveis acontecimentos haveriam de fechar-me toda e qualquer carreira respeitável na minha cidade natal, instalei-me na célebre Otumwee onde redijo estas memórias com alma cheia de remorsos pela lembrança do acto estouvado que desencadeou tão deplorável desastre comercial.
Ambrose Bierce
Tradução de Aníbal Fernandes
Antologia do Conto Abominável
1969
Oferecido por Ricardo Jorge.
segunda-feira, 11 de junho de 2007
A CAÇA, A IMENSA CAÇA
A caça, a imensa caça
que alguns dos aguazis
movem a esta carcaça
quase imóvel já e lassa,
incapaz de mais ardis!
Os cães, os húmidos cães,
do meu rasto sabedores,
às vozes dos capitães,
cujo comando deténs,
erguem morras e clamores.
A rês, a lírica rês
que habitou este precinto
terás submissa e cortês,
antes de extinto de vez
o seu bafo nunca extinto.
A. M. Pires Cabral
Os Cavalos da Noite
1982
Oferecido por manuel a. domingos.
que alguns dos aguazis
movem a esta carcaça
quase imóvel já e lassa,
incapaz de mais ardis!
Os cães, os húmidos cães,
do meu rasto sabedores,
às vozes dos capitães,
cujo comando deténs,
erguem morras e clamores.
A rês, a lírica rês
que habitou este precinto
terás submissa e cortês,
antes de extinto de vez
o seu bafo nunca extinto.
A. M. Pires Cabral
Os Cavalos da Noite
1982
Oferecido por manuel a. domingos.
SAUDADE
As saudades da pátria, que ilusão
Há longos anos já abandonada!
Que me importa a mim em que rincão
Esteja isolada
Ou por que estreitas pedras de calçada
Vou com o saco de compras à ilharga
A caminho de uma estranha casa
Que é como uma caserna ou hospital.
Que me importam os rostos entre os quais
Possa viver como um leão rugindo,
E de que povo me possam expulsar,
Que me importa, certamente,
Para dentro de mim.
Como um urso da Kamtchatka sem gelo,
Para mim é sempre igual
O lugar de vida e humilhação.
Não me seduz já o apelo lácteo
Da minha bela língua natal,
Que me importa a língua
Em que não sou compreendida!
O voraz leitor de jornais
E munjidor de intrigas
É do século vinte
E eu de todos os séculos!
Perplexa como um tronco
Sou o que resta duma alameda,
Que me importa tudo, que me importam todos,
E que me importa acima de tudo
A pátria antiga.
Todos os sinais, todas as marcas,
Todas as datas, tudo passou:
Só resta a alma, nascida em qualquer parte.
O meu país não me soube guardar
E não há arguto cão-polícia
Que em toda a minha alma possa achar
Qualquer marca de nascença!
Toda a casa me é alheia, todo o templo me é vazio,
E que me importa tudo se é igual!
Mas os arbustos que avisto pela estrada
São como os da minha terra natal...
Tradução de Manuel de Seabra.
Marina Tsvetayeva
1934
Antologia da Poesia Soviética
1973
Há longos anos já abandonada!
Que me importa a mim em que rincão
Esteja isolada
Ou por que estreitas pedras de calçada
Vou com o saco de compras à ilharga
A caminho de uma estranha casa
Que é como uma caserna ou hospital.
Que me importam os rostos entre os quais
Possa viver como um leão rugindo,
E de que povo me possam expulsar,
Que me importa, certamente,
Para dentro de mim.
Como um urso da Kamtchatka sem gelo,
Para mim é sempre igual
O lugar de vida e humilhação.
Não me seduz já o apelo lácteo
Da minha bela língua natal,
Que me importa a língua
Em que não sou compreendida!
O voraz leitor de jornais
E munjidor de intrigas
É do século vinte
E eu de todos os séculos!
Perplexa como um tronco
Sou o que resta duma alameda,
Que me importa tudo, que me importam todos,
E que me importa acima de tudo
A pátria antiga.
Todos os sinais, todas as marcas,
Todas as datas, tudo passou:
Só resta a alma, nascida em qualquer parte.
O meu país não me soube guardar
E não há arguto cão-polícia
Que em toda a minha alma possa achar
Qualquer marca de nascença!
Toda a casa me é alheia, todo o templo me é vazio,
E que me importa tudo se é igual!
Mas os arbustos que avisto pela estrada
São como os da minha terra natal...
Tradução de Manuel de Seabra.
Marina Tsvetayeva
1934
Antologia da Poesia Soviética
1973
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