Antologia de textos com cães dentro.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

COMPÊNDIO DE HISTÓRIA

A João Augusto Oliveira Freire

há um coração
mas não quero rasgar o poema

tardes lentas
sol a pino
sexo de meninos
(abraços quentúmidos)
allons enfants de la patrie

um quintal na província
um quintal no prelo

quem senão meu silêncio
veio tecendo
o palpável dessa memória?

e se
na luta com as palavras
entre lobo e cão me coloco
- sou do signo de gêmeos

poeta (como tal)
o que me ensino
senão o futuro da memória
?

Júlio Castañon Guimarães
Poesia Brasileira do Século XX
Antígona

domingo, 1 de julho de 2007


Joel-Peter Witkin, Dog on a Pillow, 1994.

O ELEFANTE, O CÃO... (fragmento)

Distingamos para começar uma virtude real e uma virtude falsa, ao compararmos o elefante e o cão, dos quais um é o emblema da amizade nobre e o outro o da falsa amizade.

1.º - A amizade. É nobre no elefante: está sempre conciliada com a honra. Não tem a baixeza do cão, o qual, espancado às vezes em motivo, nunca guarda rancores. O elefante suporta os castigos justos, mas sem motivo não se deixa maltratar; nunca perdoa as ofensas; quanto ao resto, a sua amizade é tão inalterável e tão devotada como a do cão. Esta amizade nobre é a mesma que leva às uniões colectivas e corporativas, enquanto a servil amizade do cão apenas favorece o despotismo, o regime civilizado e bárbaro que não tem nada a ver com aqueloutro onde reinariam as paixões nobres, tais se podem observar no elefante. Os déspotas gostam da amizade do cão, que, maltratado injustamente e aviltado, mesmo assim serve e ama quem o ofendeu.

2.º - O amor. No elefante é decente e fiel; é escandaloso e criminoso no cão, que em amor é o mais ignóbil dos quadrúpedes, aliando a esta paixão todos os vícios, tal como sucede entre os civilizados, cujos amores sãp dominados pela astúcia, a fraude, a opressão.

3.º - A paternidade. No elefante é judiciosa e digna. Não quer criar filhos que possam vir a ser infelizes, e abstém-se da procriação se for escravizado. É uma lição que dá aos civilizados, assassinos dos seus filhos, devido a quantidade em que procriam sem a certeza de lhes assegurarem o bem-estar. A moral ou a teoria da falsa virtude aconselha-os a fabricar carne para canhão, formigueiros de arregimentados que, por causa da miséria, se vêem obrigados a vender-se. Essa paternidade imprevidente é falsa virtude, egoísmo no prazer. Por isso, a natureza preservou desse vício o elefante, que é o tipo das quatro paixões afectivas, tomadas num sentido verdadeiramente social e, no geral, capaz de convir às uniões. O cão, emblema de falsas virtudes, é dotado dessa falsa paternidade que engendra formigueiros, ninhadas de onze (o primeiro dos números anti-harmónicos) amontoados, em que três quartos hão-de perecer pelo ferro, à dentada e à fome.

Charles Fourier
Tradução de Manuel João Gomes

MANUAL DE CIVILIDADE PARA MENINAS (fragmento)

Pôr mel entre as pernas para se fazer lamber por um cãozinho é, em rigor, permitido; mas não é preciso fazer o mesmo ao cão.
Pierre Louÿs
Tradução de Júlio Henriques

RECOMENDAÇÕES AOS CRIADOS (fragmento)

Não compareçais nunca sem terdes sido chamados três ou quatro vezes, pois só os cães é que comparecem logo ao primeiro assobio; e se o patrão disser «Quem está aí?» nenhum criado tem nada que comparecer, porque quem está aí não é nome de gente.

Jonathan Swift
Tradução de Manuel João Gomes

quarta-feira, 27 de junho de 2007

AVISO

CUIDADO COM O CÃO
UI ÃO
ÃO
ÃO
UI
UI
UIÃO
UI

Alexandre O'Neill
Entre a Cortina e a Vidraça
1972

terça-feira, 26 de junho de 2007

Ladrava com vigor todos os dias
como em igreja
o seu latir soava
no baixo ventre em sombra
o cão gania.
E vinha Deus no seu carro de Outono
e o cão uivando a todos prometia
e o cão em baixo em vão
ao abandono.

Escolhe outros sons mais fundos
no meu sangue
ó cão exangue homem mulher
criança
o coração ainda é teu ofício
roça por mim a tua língua
bruta
cão cheio de som meu
cão do vício.

Armando Silva Carvalho
Canis Dei
1995
Deixaram-no ali ladrando à rua
os donos desonestos.
Nas grades da janela feita jaula
o animal irado grita
que proteste.
No silêncio da rua o cão regressa
ao outro limiar da natureza
a sua fala brusca
conjura toda a fauna primitiva
a flor e a luxúria.
Um cortejo selavagem desemboca.
E a rua tem medo
das pegadas de deus no som da peste.

Armando Silva Carvalho
Canis Dei
1995

sábado, 23 de junho de 2007

DOG ON WHEELS


Belle and Sebastian
Junho, aqui estás, como um cão
cálido de suaves olhos.
Quando chegas toda a terra
se enche de luz e de sonho.
Também, tal como uma rua
sozinha, ao sol do meio-dia,
súbito em gritos se incendeia;
tal, digo eu, como uma rua
sem tempo, louca de luz,
sozinha, soa esfaqueada,
o teu nome de cão, Junho,
trabalha em meu coração
e de repente começa
a tempestade da memória.

1952


Antonio Gamoneda
tradução de Rui Almeida
Edad (Poesía 1947-1986)
2000


Oferecido por Rui Almeida.

9.

Zás! Entrou de rompante, sem licença!
Correu as mesas de nariz no ar,
Houve, na malta, uma alegria imensa
E uma senhora dona quase a desmaiar.

Os empregados dão-lhe caça.
Ele esquiva-se, esconde-se, ajudado
Pela malta. É um soberbo cão de raça,
Esbelto e bem tratado.

Fugiu à trela da dependência.
Por uns instantes (mais não terá!),
Escapa ao jugo da obediência,
Ao imperativo do aqui-já!

Depois dos caçadores haverem desistido,
Afagado e feliz,
Comeu um bolo, lento, estirado ao comprido,
E saiu quando quis.

(Com que emoção,
No circunspecto da minha idade,
Vivi, na fuga daquele cão,
A sensação de liberdade!)


António Manuel Couto Viana
Café de Subúrbio
1991


Oferecido por Rui Almeida.
Sei que a noite será longa
E que o frio me queimará
Os olhos que o escorpião me espia
Em silêncio e cães ávidos
Guardam a porta do dia


Anne Perrier
O Próximo Voo das Aves
Tradução Colectiva (Poetas em Mateus)
1999


Oferecido por Rui Almeida.

CÃES AO DESBARATO

Um género de cães ao desbarato
poetas cafres adoçam as nongas
ancestrais dos versos na obsessiva
carne terra dos açaimos
e não choram...
Batem!


[“Nonga(s): pau que funciona como cajado e que também serve de arma de defesa ou de ataque. Geralmente de superfície polida pelo uso.”]

José Craveirinha
Karingana ua Karingana
1974
Oferecido por Rui Almeida.
está sentado no chão, o cão ao lado
pousa a cabeça no lodo. nenhum olha,
o olhar parado está voltado para quem os vê,
apenas sombras sobre o quadro surdo.

a mão toca na luz atrás da porta,
apaga os rostos que sufoca o tédio,
mostra o avesso, almas à espera temendo
o assédio dessas figuras agora hostis.


Carlos Marques Queirós
Os Passos Reencontrados
2002


Oferecido por Rui Almeida.

ESTUDO DE UM CÃO

Dentro do círculo do sofrimento
esfera de fezes
a língua, a míngua de sede
em chão castanho de terra. Na distância, o movimento de uma estrada.

Em torção do corpo,
apoiado no braço, o rosto desenhava-se na água que
restara ao sabor da lama: este é o impossível
silêncio das rãs. Tinham partido. Ficara o abandono. Um
homem pode destruir tudo dentro de si –
ódio, descrença, amor, a dúvida – enquanto se prende
à vida o abandono permanece

o cão ergue o olhar sobre a
terra, as vozes, a água. O lamento de
uma estrela incendeia na queda
o desejo, abandono ardente

tirou meio dia de folga
foi tomar banho no rio; os dedos desceram
sobre a lira de prata as cordas, a
tensão mais extrema, fio de vida. O cão, figura de proa
ancorada. Brilho de lápis
entre o Orontes e o Eufrates, na fértil planície de Antioquia.


João Miguel Fernandes Jorge
Invisíveis Correntes

2004

Oferecido por Rui Almeida.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Somos o bafo dois cães
olhas o espelho
e eu transpiro a ciência
de Camões a masturbar
as mágoas.

Mais um verso atravessaste tu
gato barbieri ao longe
ali nada perdido
nos labirintos com o Minotauro.

Eu digo amor como digo
broca
e os anciãos de cu e boca
batem-me à porta
querem explodir na noite.

Nesta areia precária
morrem crianças
em histórias movediças
tu consegues a luz
nessa fenda inundada
por lembranças.

Nenhum dos dois consegue
erguer mais alto
o pão testicular
que se agarrou aos dedos.
Os cães aquecem
(recomeçar de novo?)
sobre a baba das rendas
resplandeces.

Armando Silva Carvalho
Eu Era de Areia
1977

sábado, 16 de junho de 2007

RETRATO DE D. SEBASTIÃO


Ruíram portas. Os velhos muros desmoronaram.
A lua de agosto, temível artesanato de um gnomo astuto
esperava a surpresa das vítimas. E a própria
palavra da língua fez ouvir gritos desentoados

vindos da noite dos tempos. O verão desse ano,
máscara disforme, envergonhada. E o rei,
um rapaz, o reino ameaçava como se faz às crianças
que não querem adormecer.

Os olhos azuis, pisados, desaguam em fantasias.
Sofriam, no severo conjuro adolescente, o juízo
que Platão verteu sobre os efeitos malignos da
arte, da ilusão que causa na alma humana. Havia

sonho, imagem e fazenda a destruir nos afilados dedos
que traziam morte, filme de gelo sobre o derradeiro
verão dos rios da cidade, ó castelos
e o lebréu, fiel, o mais fiel dos súbditos,

dispõe-se a recolher o afundamento
de corpos, barcas e pátria.
E do rapaz, de dezasseis anos ao tempo do retrato,
Areia de silêncio envolveu seus ossos. Inquietude,

Ânimo, valor ferido.

/Cristóvão de Moraes, c. 1572-74/

João Miguel Fernandes Jorge
Museu das Janelas Verdes
2002
Oferecido por Rui Almeida.

CÃES

Passou um rapaz e disse: «então, está aí, melancólico, a escrever um poema?»
K. podia responder-lhe que a poesia nunca fechara os olhos para a crueldade do mundo, antes pelo contrário; que a poesia nunca o impediu de entender a luta que travam entre si os princípios e as ambições, os ideais e a capacidade de fazer o mal; e que a ironia não vinha nada a propósito.
Para alimentar o mito da sua ligeireza e superficialidade, podia confidenciar que estava à espera de uma rapariga de olhos azuis, pequenas tranças.
Calou-se, porém. Que tinham os cães raivosos que ladrar-lhe quando, na solidão do café, ele começava a entrever o destino de outra perspectiva? Que tinham os amigos falsos que simular a simpatia do interesse quando ele, calado e quieto, já se esquecera de que costumam caluniar-nos quando viramos as costas?


João Camilo
A Ambição Sublime
2001
Oferecido por Rui Almeida.

VILA VERDE

Cadeia de Vila Verde,
Com teus ferros, tuas pedras,
Arrasada sejas tu!
Com os teus ferros sem alma;
Tuas pedras de olhar cru.

Vila Verde! Vila Verde!
Ai! Cadeias como a tua
Nem mesmo a fogueira as lava!
Eu bem vi em Vila Verde
Loucos, cegos… E, à mistura,
Dois presos. Ambos tão jovens!
Um sorria; outro chorava…

Fora em Maio.
Havia rosas
Cá fora.
E, ao sol, na estrada,
Bailavam os namorados!

Mocidade não tem crimes.
O que tem é coração!
Os dois presos eram jovens,
Estendi-lhes pelas grades,
A palma da minha mão…

Cuidado, Cristãos! Cuidado!
Quanta vez a caridade
Dói tanto ou mais que o desprezo!

Quem falou em mocidade?
Quem falou em coração?

Ao ver-me, aqueles dois presos
Abraçaram-se um ao outro,
E ambos me disseram:

– Cão!


Pedro Homem de Mello
Bodas Vermelhas
1947


Oferecido por Rui Almeida.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Sturtevant, Infinite Exhaustion, 2007.

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