Antologia de textos com cães dentro.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

PARA UM DIA NÃO

(variação sobre tema de A. J. Forte)

Há dias assim só para o não e que
não podem ser do gato são do cão
por isso dias que não são para miar
dias que são só para ladrar ão ão
há dias para tudo e mais alguma coisa
e dias só para o menos e é se tanto
dias em que se não gostava de ser
ou de qualquer coisa ter e o quê então
dias ruins em que não há nada para fazer
em que o simples facto de ter corpo como
toda a gente faz ou tem dá um trabalho
insano um trabalho danado para além
do que ele próprio corpo está em condições
de poder suportar são dias mais para não ser
ou para o não ser ou para o não ter
não ter por exemplo que raio de exemplo
um corpo ou um corpo como este impositivo
porque um corpo assim obstacula muito
com perdão para tamanho palavrão
e logo o devaneio consigo nos transporta
não ter corpo nenhum ser espírito apenas
e de preferência um desses bem vagabundos
porque um espírito assim um apenas espírito
ajuda muito só ele está em condições
de nos poder conduzir melhor
dizendo de ele e só ele se deslocar
aos lugares mais improváveis que são os que
mais vale a pena visitar e que podem ser
lugares do nosso universo próprio lugares
do universo alheio ou quiçá mais delicado
ainda lugares do que não é isto é não lugares
caso este em que estaremos já bastante
próximos do nirvana o que dá sempre jeito
para o dia não chamado o dia do cão

Rui Caeiro
Saudade n.º 9
2007

domingo, 29 de julho de 2007

OS CÃES DE VELÁZQUEZ

Miguel Veiga, querido amigo, perdeu recentemente o seu cão Timmy, com quem o meu Jasão mantinha alguma correspondência de afectos. Quem quer que minorize os sentimentos que nisto se envolvem, ou os torne ojecto de desprezo, merece a mais fria das indiferenças com que se devem tratar os analfabetos da natureza humana. Não tenho a menor simpatia pelas religiões da fraternidade inextensível aos bichos, nem pelos teólogos que transformam o lobo de Gúbio, ou o canídeo que costuma acompanhar São Roque, num adereço metafórico da iconografia da flos sanctorum.
Chegou-me a notícia da morte de Timmy imediatamente a seguir à visita que fiz à exposição de Velàzquez, patente na National Gallery em Londres. Às várias razões que recomendam a mostra a quem puder ir até lá, e que justificam as horas passadas na fila dos que pretendem entrar, haverá que acrescer a de ser Diego Velázquez, ele também, amante desses solidários partícipes dos dias que nos vão cabendo. A consciência com que o pintor se debruça sobre tais criaturas, vendo nelas, mais do que a figura decorativa, o verdadeiro espelho em que se reflecte muito daquilo que somos, converte o percurso das quarenta e seis obras-primas numa empresa de auto-conhecimento, e não numa pura lição que é o que menos importa buscar na frequência de qualquer artista.
Os cães de Velázquez respeitam a estratificação social, e jogam com ela como com uma entidade inamovível. Reaccionários como são, e por isso adversos a medidas de legalização do aborto, acolhem valores certos, preferindo à conveniência política o conforto das relações, e optando pela liberdade de amar como, quando e onde lhes apetece, independentemente dos ditames de qualquer catecismo. São mais proveitosos em suma como exemplo comportamental do que os que no seu afã de reequilibra o Mundo não tardarão a impor o interdito do presépio público, ao qual de resto os animais alegremente concorrem, vendo na cena do nascimento de Jesus Cristo um ameaçador símbolo religioso.
O rafeirito que defende o patriarca Jacob, ao tomar conhecimento do destino de José, seu filho, porventura devorado pelos brutos do deserto, executa afinal a manobra da preservação da dor a que todos nós temos direito, e que não se compadece com ritos ornamentais. É um indivíduo débil, mas tão devotado à guarda da fragilidade de um velho, que não há gladiador de Roma que arroste com a sua fúria.
Os galgos e os perdigueiros, pacientemente aguardando, abrigados pelas sombras da Torre de la Parada, a sua vez de ingressar na montaria ao javali, manifestam a negligência dos grandes áulicos, sempre prontos a receber ordens, e a delas se desempenhar com uma descrição que é nota de respeito, e nunca de desdém. Já o sabujo que se senta à beira de Filipe IV, ascendido a uma dimensão donde apenas o fim terreno o desalojará, cobra a serenidade que o dispensa de efectivas funções, excepto a de posar assim para o retrato de Diego Rodríguez da Silva Velázquez, meio na penumbra, constantemente presente.
Os infantes pequenos beneficiam de uma escolta que, consagrando o império da infância, a encara como uma invulnerabilidade à inteligência dos clássicos irracionais. Baltasar Carlos, incapaz ainda de manobrar a carabina com que o retratista o armou, consente em que a seus pés adormeça um molosso enorme, isto por se encontrar ciente dos impenetráveis sonhos em que são cúmplices. E o mínimo Filipe Próspero, tão pelém que no rosto se lhe adivinha a letal gadanha que anda a rondá-lo, só com o maltês caprichoso, habituado à altura dos cadeirões, aceita dividir os seus choros e as suas birras.
Os cães de Velázquez celebram uma interioridade preciosa, mais afeita às caseiras noites de Inverno do que às tardes de domingo dos centros comerciais. Desaparecidos todos, tendo ascendido a um plano tão incontável como indiscutível, partilham com o saudoso Timmy essa sabedoria dourada a que em exclusivo acedem os que em definitivo entenderam já aquilo que equivale a ser. E até isso lhes agradecemos, até isso lhes invejamos.

Mário Cláudio
Expresso
2006

quarta-feira, 25 de julho de 2007

O teu cão morre

é atropelado por uma carrinha.
encontra-lo na berma da estrada
e enterra-lo.
sentes-te mal com isso.
sentes-te mal por ti mesmo,
mas sentes-te pior pela tua filha
porque era a sua mascote
muito adorada.
ela costumava embalá-lo
e deixá-lo dormir na sua cama.
escreves um poema sobre o assunto.
chamas-lhe um poema para a tua filha,
sobre o atropelamento do cão por uma carrinha
e o modo como cuidaste dele,
o levaste para o bosque
e o enterraste fundo, fundo,
e o poema resulta tão bem
que quase te alegras por o cão
ter sido atropelado, de outro modo
nunca terias escrito esse bom poema.
então sentas-te para escrever
um poema sobre escrever um poema
acerca da morte do tal cão,
mas enquanto o escreves
ouves uma mulher gritar
o teu nome, o teu primeiro nome,
ambas as sílabas,
e o teu coração pára.
passado um minuto, continuas a escrever.
ela volta a gritar.
perguntas-te quanto tempo pode isto durar.

Raymond Carver

Tradução e oferta de Rute Mota.

terça-feira, 24 de julho de 2007

ADAM & THE ANTS - «Dog Eat Dog»

UIVOS

Passam os dias e os anos, a vida corre
e a gente não sabe por que vive...
Passam os dias e os anos, a morte chega
e a gente não sabe por que morre.
E um dia o homem põe-se a chorar sem mais nem menos,
sem saber por que chora...
e o que significa uma lágrima.
E tão-pouco alguém por si o sabe.
E quando mais tarde a gente abala para sempre,
sem saber quem é
nem o que veio cá fazer...
pensa que talvez tenha vindo apenas chorar
e uivar como um cão...
pelo cão de ontem que se foi,
pelo cão de amanhã que virá
e partirá também sem saber para onde
e por todos os pobres cães mortos do mundo.
Porque: não é o homem um pobre cão perdido e solitário sem dono e sem domicilio conhecido?...
E não pode o Homem chorar e uivar no Vento
sem mais nem menos... porque sim
como uiva o mar... Por que uiva o mar?
Senhor Arcipreste... por que uiva o mar?


León Felipe
O Sapateiro de Van Gogh (original de El Ciervo y otros poemas)
tradução de Rui Caeiro
&etc, 1993


Oferecido por Rui Almeida.

O CÃO E O FRASCO

«-- Meu lindo cãozinho, meu bom cãozinho, meu querido totó, aproxima-te e vem respirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade.»
E o cão, agitando a cauda, o que é, creio eu, nestes pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e pousa curiosamente o focinho húmido sobre o frasco desarrolhado; depois, recuando com repentino receio, ladra voltado para mim, à maneira de censura.
«-- Ah! cachorro execrável, se eu te houvesse presenteado com um pacote de excrementos, tê-lo-ias farejado com delícia e talvez devorado. Assim, também tu, indigno companheiro da minha triste vida, és semelhante ao público, ao qual nunca se podem apresentar perfumes requintados que o exasperam, mas sim porcarias cuidadosamente escolhidas.»

Charles Baudelaire
O Spleen de Paris
Trad. António Pinheiro Guimarães

OS GUIZOS DO CÃO DE CAÇA

(Lo Leng)

1.
Cão de caça faz lim! lim!
Seu dono é belo e bem feito

2.
Tem o cão duas argolas;
Belas suíças tem o dono.

3.
Leva o cão dupla coleira;
Linda barba leva o dono.


Livro dos Cantares
tradução de Joaquim A. Guerra, S. J.
1979


Oferecido por Rui Almeida.

NO MATO É MORTO UM VEADO

No mato é morto um veado,
Coberto de juncos brancos:
Há uma rapariga em flor
Um belo homem a seduz.

No bosque troncos de carvalho,
No mato, morto, um veado:
Com juncos brancos, ata-o bem.
Lá está ela – bela como jade!

«Devagarinho – gentilmente!
Não estrague a faixa – à cintura,
Não faça ladrar o cão!»


Livro dos Cantares
in Uma Antologia de Poesia Chinesa
tradução de Gil de Carvalho
1989


Oferecido por Rui Almeida.

A HARMONIA

A certo momento pararam. O cão ensanguentado gania. Mas não estava morto.
(Somos todos irmãos, irmãos.)

Vamos supor que se chamava Maria e era uma mulher má e falsa. Um dia, de noite, sem perceber porquê, tinha dois homens à sua volta. Foi agarrada, atirada ao chão, violada.
Maria chegou a casa e nada conseguiu dizer. A sua irmã chorava. Maria tinha os olhos vermelhos, o corpo negro, tremia, não conseguia falar. Sangue na roupa.
E por Maria - que era mulher má, sempre fora intriguista, falsa - por ela choraram certas pessoas. Cinco pelo menos (que eu contei): a irmã, a mãe, o pai, uma rapariga (por vezes falavam); e uma outra pessoa que nunca até hoje se viu.
Que me importam os cães? Um animal é tanto ou menos que uma máquina e na luta dos dois que vença o melhor. Bater num cão é o mesmo que espancar uma máquina. Que adianta, que maldade é essa?
O acaso e as circunstâncias. É o destino, o cruzamento entre o acontecimento e um homem, que amplia ou não o reino da banalidade. Pouco depende do homem - quase tudo é importo pelo dia, pelas suas exigências de causas quase sempre obscuras.
E o único fenómeno estranho ao instinto de sobrevivência que manda em qualquer pessoa, animal ou anjo que exista, é o amor. Mas o amor é tão popular entre os vivos que se tornou num sentimento da multidão: há que receá-lo como se receia a palavra de ordem de qualquer ajuntamento exaltado.
O cão pode ser visto como música equilibrada (harmonia é a palavra) devido às suas quatro patas (como uma mesa orgânica). Mas se ao cão se cortar uma das patas a nossa vida altera-se, e sangra tudo, como quem é traído por uma mulher ou pela morte do pai.

Gonçalo M. Tavares
Água, Cão, Cavalo, Cabeça
2006

segunda-feira, 23 de julho de 2007

ELVIS PRESLEY: HOUND DOG

segunda-feira, 16 de julho de 2007

O MAPA DA RETINA

10. (reportagem 1)

Vi um galgo de vidro.
Atravessa o hall do hotel.
Ouço ainda o seu des-
compassado latido,
à chuva. Um galgo lácteo?
Em que tromba de água
nos iguala ensurdecer?
Olhar é já unir? T' resa,
digo: e uma transparência
soterra a minha pele.
Vi o galgo de vidro
atravessar o hall do hotel?
Danos que é preciso ter em conta.


António Cabrita
Os Abysmos da Mão
Íman, 2001

Oferecido por Rui Almeida.

CÃO ANDALUX

Uma mulher não pode andar à noite
na rua que é logo convidada
por um lacaio do real
para a mais baixa repressão
espiritual

E eu disse que sim
que o meu cão precisava
de conhecer outras pessoas
outras culturas
individuais apesar do instinto
me avisar

Que não há melhor
que a língua dum cão
a lamber-nos as entranhas
e seduzi-o até casa
e amarrei-o à cama
e soltei-lhe o meu cão
Andalux


Maria da Inquietação Fausto
Macacos me mordam
Edições Mortas, 1995


Oferecido por Rui Almeida.

O CÃO

O cão vive do lixo
O pêlo suja o chão

Fala-se do homem
Que vive na sarjeta
Do cão que suja

Move-se nas patas
Cansadas
Ladra forte
Do cheiro e do fumo

Nos olhos os dentes
Afiados
E a língua suada

A lua que a espuma
Faz na boca
E o tempo sacia
São minutos longos
E absurdos...

É dócil o cão
E o entardecer


Rui Carlos Souto
Cinco Luas e Um Navio
Edições Mortas, 2002

Oferecido por Rui Almeida.

terça-feira, 10 de julho de 2007

segunda-feira, 9 de julho de 2007

CÃO DE MORTO

Contarei as sílabas, depois os versos
Até catorze, a ninguém direi que morreu;
Serei parco em imagens, procurarei
A intensidade da canção primitiva.
A ninguém direi que dentro de mim morreu;
Fingirei que existe ainda algo
Belo por escrever. Inventarei frases
Com a memória dos que sentem ainda.
Um pouco de interesse me resta, vida
Também, ainda que não a solicite muito;
Quase não leio e já suporto só
Alguns romancistas americanos.
Contarei sílabas, acentos, histórias,
Mas a ninguém revelarei o meu embuste.

José Ángel Cilleruelo
Trad. Joaquim Manuel Magalhães
Trípticos Espanhóis 2.º
2000

O CÃO

O acaso amputou
uma das pernas do cão.
Manco
ele caminha pelo vazio
na intimidade da morte.
Na oquidão
de sua pata
há outra:
carne de ar
ferida de brisas.
Na inexistência
de sua perna
há o vazio somente
osso do etéreo
raiz do vento.
O poema amputou
o ganido do cão.
A palavra não consegue ressoar
a lancinante dor de seu grito.
A palavra é pouca demais
ante o destino do cão
é mera redundância
ante as pegadas de sua invalidez.
O poema é resquício
deserto de vida
ante o real mais denso.
Na verdade
o poema teve a perna amputada
pela ternura daquele cão.

Alexandre Bonafim
Biografia do deserto
2006

COMPÊNDIO DE HISTÓRIA

A João Augusto Oliveira Freire

há um coração
mas não quero rasgar o poema

tardes lentas
sol a pino
sexo de meninos
(abraços quentúmidos)
allons enfants de la patrie

um quintal na província
um quintal no prelo

quem senão meu silêncio
veio tecendo
o palpável dessa memória?

e se
na luta com as palavras
entre lobo e cão me coloco
- sou do signo de gêmeos

poeta (como tal)
o que me ensino
senão o futuro da memória
?

Júlio Castañon Guimarães
Poesia Brasileira do Século XX
Antígona

domingo, 1 de julho de 2007


Joel-Peter Witkin, Dog on a Pillow, 1994.

O ELEFANTE, O CÃO... (fragmento)

Distingamos para começar uma virtude real e uma virtude falsa, ao compararmos o elefante e o cão, dos quais um é o emblema da amizade nobre e o outro o da falsa amizade.

1.º - A amizade. É nobre no elefante: está sempre conciliada com a honra. Não tem a baixeza do cão, o qual, espancado às vezes em motivo, nunca guarda rancores. O elefante suporta os castigos justos, mas sem motivo não se deixa maltratar; nunca perdoa as ofensas; quanto ao resto, a sua amizade é tão inalterável e tão devotada como a do cão. Esta amizade nobre é a mesma que leva às uniões colectivas e corporativas, enquanto a servil amizade do cão apenas favorece o despotismo, o regime civilizado e bárbaro que não tem nada a ver com aqueloutro onde reinariam as paixões nobres, tais se podem observar no elefante. Os déspotas gostam da amizade do cão, que, maltratado injustamente e aviltado, mesmo assim serve e ama quem o ofendeu.

2.º - O amor. No elefante é decente e fiel; é escandaloso e criminoso no cão, que em amor é o mais ignóbil dos quadrúpedes, aliando a esta paixão todos os vícios, tal como sucede entre os civilizados, cujos amores sãp dominados pela astúcia, a fraude, a opressão.

3.º - A paternidade. No elefante é judiciosa e digna. Não quer criar filhos que possam vir a ser infelizes, e abstém-se da procriação se for escravizado. É uma lição que dá aos civilizados, assassinos dos seus filhos, devido a quantidade em que procriam sem a certeza de lhes assegurarem o bem-estar. A moral ou a teoria da falsa virtude aconselha-os a fabricar carne para canhão, formigueiros de arregimentados que, por causa da miséria, se vêem obrigados a vender-se. Essa paternidade imprevidente é falsa virtude, egoísmo no prazer. Por isso, a natureza preservou desse vício o elefante, que é o tipo das quatro paixões afectivas, tomadas num sentido verdadeiramente social e, no geral, capaz de convir às uniões. O cão, emblema de falsas virtudes, é dotado dessa falsa paternidade que engendra formigueiros, ninhadas de onze (o primeiro dos números anti-harmónicos) amontoados, em que três quartos hão-de perecer pelo ferro, à dentada e à fome.

Charles Fourier
Tradução de Manuel João Gomes

MANUAL DE CIVILIDADE PARA MENINAS (fragmento)

Pôr mel entre as pernas para se fazer lamber por um cãozinho é, em rigor, permitido; mas não é preciso fazer o mesmo ao cão.
Pierre Louÿs
Tradução de Júlio Henriques

RECOMENDAÇÕES AOS CRIADOS (fragmento)

Não compareçais nunca sem terdes sido chamados três ou quatro vezes, pois só os cães é que comparecem logo ao primeiro assobio; e se o patrão disser «Quem está aí?» nenhum criado tem nada que comparecer, porque quem está aí não é nome de gente.

Jonathan Swift
Tradução de Manuel João Gomes

quarta-feira, 27 de junho de 2007

AVISO

CUIDADO COM O CÃO
UI ÃO
ÃO
ÃO
UI
UI
UIÃO
UI

Alexandre O'Neill
Entre a Cortina e a Vidraça
1972

terça-feira, 26 de junho de 2007

Ladrava com vigor todos os dias
como em igreja
o seu latir soava
no baixo ventre em sombra
o cão gania.
E vinha Deus no seu carro de Outono
e o cão uivando a todos prometia
e o cão em baixo em vão
ao abandono.

Escolhe outros sons mais fundos
no meu sangue
ó cão exangue homem mulher
criança
o coração ainda é teu ofício
roça por mim a tua língua
bruta
cão cheio de som meu
cão do vício.

Armando Silva Carvalho
Canis Dei
1995
Deixaram-no ali ladrando à rua
os donos desonestos.
Nas grades da janela feita jaula
o animal irado grita
que proteste.
No silêncio da rua o cão regressa
ao outro limiar da natureza
a sua fala brusca
conjura toda a fauna primitiva
a flor e a luxúria.
Um cortejo selavagem desemboca.
E a rua tem medo
das pegadas de deus no som da peste.

Armando Silva Carvalho
Canis Dei
1995

sábado, 23 de junho de 2007

DOG ON WHEELS


Belle and Sebastian
Junho, aqui estás, como um cão
cálido de suaves olhos.
Quando chegas toda a terra
se enche de luz e de sonho.
Também, tal como uma rua
sozinha, ao sol do meio-dia,
súbito em gritos se incendeia;
tal, digo eu, como uma rua
sem tempo, louca de luz,
sozinha, soa esfaqueada,
o teu nome de cão, Junho,
trabalha em meu coração
e de repente começa
a tempestade da memória.

1952


Antonio Gamoneda
tradução de Rui Almeida
Edad (Poesía 1947-1986)
2000


Oferecido por Rui Almeida.

9.

Zás! Entrou de rompante, sem licença!
Correu as mesas de nariz no ar,
Houve, na malta, uma alegria imensa
E uma senhora dona quase a desmaiar.

Os empregados dão-lhe caça.
Ele esquiva-se, esconde-se, ajudado
Pela malta. É um soberbo cão de raça,
Esbelto e bem tratado.

Fugiu à trela da dependência.
Por uns instantes (mais não terá!),
Escapa ao jugo da obediência,
Ao imperativo do aqui-já!

Depois dos caçadores haverem desistido,
Afagado e feliz,
Comeu um bolo, lento, estirado ao comprido,
E saiu quando quis.

(Com que emoção,
No circunspecto da minha idade,
Vivi, na fuga daquele cão,
A sensação de liberdade!)


António Manuel Couto Viana
Café de Subúrbio
1991


Oferecido por Rui Almeida.
Sei que a noite será longa
E que o frio me queimará
Os olhos que o escorpião me espia
Em silêncio e cães ávidos
Guardam a porta do dia


Anne Perrier
O Próximo Voo das Aves
Tradução Colectiva (Poetas em Mateus)
1999


Oferecido por Rui Almeida.

CÃES AO DESBARATO

Um género de cães ao desbarato
poetas cafres adoçam as nongas
ancestrais dos versos na obsessiva
carne terra dos açaimos
e não choram...
Batem!


[“Nonga(s): pau que funciona como cajado e que também serve de arma de defesa ou de ataque. Geralmente de superfície polida pelo uso.”]

José Craveirinha
Karingana ua Karingana
1974
Oferecido por Rui Almeida.
está sentado no chão, o cão ao lado
pousa a cabeça no lodo. nenhum olha,
o olhar parado está voltado para quem os vê,
apenas sombras sobre o quadro surdo.

a mão toca na luz atrás da porta,
apaga os rostos que sufoca o tédio,
mostra o avesso, almas à espera temendo
o assédio dessas figuras agora hostis.


Carlos Marques Queirós
Os Passos Reencontrados
2002


Oferecido por Rui Almeida.

ESTUDO DE UM CÃO

Dentro do círculo do sofrimento
esfera de fezes
a língua, a míngua de sede
em chão castanho de terra. Na distância, o movimento de uma estrada.

Em torção do corpo,
apoiado no braço, o rosto desenhava-se na água que
restara ao sabor da lama: este é o impossível
silêncio das rãs. Tinham partido. Ficara o abandono. Um
homem pode destruir tudo dentro de si –
ódio, descrença, amor, a dúvida – enquanto se prende
à vida o abandono permanece

o cão ergue o olhar sobre a
terra, as vozes, a água. O lamento de
uma estrela incendeia na queda
o desejo, abandono ardente

tirou meio dia de folga
foi tomar banho no rio; os dedos desceram
sobre a lira de prata as cordas, a
tensão mais extrema, fio de vida. O cão, figura de proa
ancorada. Brilho de lápis
entre o Orontes e o Eufrates, na fértil planície de Antioquia.


João Miguel Fernandes Jorge
Invisíveis Correntes

2004

Oferecido por Rui Almeida.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Somos o bafo dois cães
olhas o espelho
e eu transpiro a ciência
de Camões a masturbar
as mágoas.

Mais um verso atravessaste tu
gato barbieri ao longe
ali nada perdido
nos labirintos com o Minotauro.

Eu digo amor como digo
broca
e os anciãos de cu e boca
batem-me à porta
querem explodir na noite.

Nesta areia precária
morrem crianças
em histórias movediças
tu consegues a luz
nessa fenda inundada
por lembranças.

Nenhum dos dois consegue
erguer mais alto
o pão testicular
que se agarrou aos dedos.
Os cães aquecem
(recomeçar de novo?)
sobre a baba das rendas
resplandeces.

Armando Silva Carvalho
Eu Era de Areia
1977

sábado, 16 de junho de 2007

RETRATO DE D. SEBASTIÃO


Ruíram portas. Os velhos muros desmoronaram.
A lua de agosto, temível artesanato de um gnomo astuto
esperava a surpresa das vítimas. E a própria
palavra da língua fez ouvir gritos desentoados

vindos da noite dos tempos. O verão desse ano,
máscara disforme, envergonhada. E o rei,
um rapaz, o reino ameaçava como se faz às crianças
que não querem adormecer.

Os olhos azuis, pisados, desaguam em fantasias.
Sofriam, no severo conjuro adolescente, o juízo
que Platão verteu sobre os efeitos malignos da
arte, da ilusão que causa na alma humana. Havia

sonho, imagem e fazenda a destruir nos afilados dedos
que traziam morte, filme de gelo sobre o derradeiro
verão dos rios da cidade, ó castelos
e o lebréu, fiel, o mais fiel dos súbditos,

dispõe-se a recolher o afundamento
de corpos, barcas e pátria.
E do rapaz, de dezasseis anos ao tempo do retrato,
Areia de silêncio envolveu seus ossos. Inquietude,

Ânimo, valor ferido.

/Cristóvão de Moraes, c. 1572-74/

João Miguel Fernandes Jorge
Museu das Janelas Verdes
2002
Oferecido por Rui Almeida.

CÃES

Passou um rapaz e disse: «então, está aí, melancólico, a escrever um poema?»
K. podia responder-lhe que a poesia nunca fechara os olhos para a crueldade do mundo, antes pelo contrário; que a poesia nunca o impediu de entender a luta que travam entre si os princípios e as ambições, os ideais e a capacidade de fazer o mal; e que a ironia não vinha nada a propósito.
Para alimentar o mito da sua ligeireza e superficialidade, podia confidenciar que estava à espera de uma rapariga de olhos azuis, pequenas tranças.
Calou-se, porém. Que tinham os cães raivosos que ladrar-lhe quando, na solidão do café, ele começava a entrever o destino de outra perspectiva? Que tinham os amigos falsos que simular a simpatia do interesse quando ele, calado e quieto, já se esquecera de que costumam caluniar-nos quando viramos as costas?


João Camilo
A Ambição Sublime
2001
Oferecido por Rui Almeida.

VILA VERDE

Cadeia de Vila Verde,
Com teus ferros, tuas pedras,
Arrasada sejas tu!
Com os teus ferros sem alma;
Tuas pedras de olhar cru.

Vila Verde! Vila Verde!
Ai! Cadeias como a tua
Nem mesmo a fogueira as lava!
Eu bem vi em Vila Verde
Loucos, cegos… E, à mistura,
Dois presos. Ambos tão jovens!
Um sorria; outro chorava…

Fora em Maio.
Havia rosas
Cá fora.
E, ao sol, na estrada,
Bailavam os namorados!

Mocidade não tem crimes.
O que tem é coração!
Os dois presos eram jovens,
Estendi-lhes pelas grades,
A palma da minha mão…

Cuidado, Cristãos! Cuidado!
Quanta vez a caridade
Dói tanto ou mais que o desprezo!

Quem falou em mocidade?
Quem falou em coração?

Ao ver-me, aqueles dois presos
Abraçaram-se um ao outro,
E ambos me disseram:

– Cão!


Pedro Homem de Mello
Bodas Vermelhas
1947


Oferecido por Rui Almeida.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Sturtevant, Infinite Exhaustion, 2007.

EU E OS CÃES

Soam os cães. Eu ponho as mãos na noite
e considero os velhos temas do amor.
Eu e os cães puxamos pela noite
com longas franjas batendo-me na testa.

Mas tudo, tudo
é tão exterior:
as franjas dessa colcha descomposta
mas sensível, os eternos lençóis
da solidão.

Como se visse os cães comendo a noite.
Tão intranquilos. Com dente em ruína
a baba em fio
caindo pelas casotas solitárias.

Eu ouço os cães nesta cidade enorme
com crostas de ruídos onde bóiam
os táxis com seu farol astuto
sempre prostituído.

Mas já para os cães vai existir o sono
filho da noite, amigo de animais.
Quase o conheço trazendo
o corpo mole
e sobre o qual
eu morro desistido.

Armando Silva Carvalho
O Comércio dos Nervos
1968

quinta-feira, 14 de junho de 2007

MUNDO CÃO


A partir de Arnaldo Antunes.

Oferecido por Rui Almeida.

ÓLEO DE CÃO

O meu nome é Boffer Bings. Nasci de pais honestos, qualquer deles de bastante humilde profissão: meu pai fabricante de óleo de cão; minha mãe proprietária de uma pequena oficina à sombra da igreja, onde eram decepadas crianças indesejáveis. Desde a infância me incutiram hábitos de trabalho assíduo, não só ajudando o meu pai a encontrar cães para os seus caldeirões, como por solicitar a minha mãe com frequência que me encarregasse de dar sumiço aos restos do seu labor. No cumprimento desta tarefa sentia eu necessidade de me apoiar com frequência em todos os recursos da minha inteligência natural, porque os polícias da vizinhança contrariavam a actividade da minha mãe. Não que eles tivessem sido escolhidos pelo partido da oposição ou alguma vez tivessem feito do caso questão política: a coisa era assim mesmo, acabou-se. A profissão do meu pai naturalmente menos impopular, ainda que os donos dos cães desaparecidos sentissem contra ele certas dúvidas que recaíam, de algum modo, sobre mim. O meu pai tinha como sócios-mudos todos os médicos da cidade e bem rara era a receita que não comportasse aquilo que lhes aprazava chamar Olcan, na verdade o mais precioso remédio até hoje descoberto. A maior parte das pessoas recusava-se porém a consentir sacrifícios pessoais para benefício dos necessitados. Como é de esperar, muitos dos mais gordos cães foram proibidos de brincar comigo, o que feriu de modo bem doloroso a minha sensibilidade de jovem e me impeliu, em dado momento, a embarcar como pirata.
Causando indirectamente a morte dos meus bem-amados pais, a referir os dias felizes do passado não posso as mais das vezes deixar de lamentar as desgraças que desencadeei e haveriam de exercer profunda influência sobre o meu futuro.
Certa noite passava eu à frente da olearia do meu pai com o cadáver de uma criança perdida que provinha da oficina da minha mãe, quando vi um polícia a fixar com a maior atenção os meus movimentos. Bem cedo aprendi que os actos de um polícia, seja qual for o seu aspecto, são inspirados pelos motivos, mais repreensíveis. Evitei assim o representante da ordem, esquivando-me para dentro da olearia por uma porta lateral entreaberta. Dei a volta à chave e fiquei a sós com o pequeno morto. O meu pai já estava deitado. Só havia a claridade do forno e a nódoa sanguínea que ele punha debaixo do caldeirão, os reflexos vermelhos projectados de encontro à parede. O óleo ainda fervente fazia girar no caldeirão as suas bolhas preguiçosas, trazia um ou outro pedaço de cão à superfície. Sentei-me, à espera que o polícia afastasse, mantendo nos joelhos o corpo nu da criança perdida, acariciando-lhe meigamente os cabelos curtos e sedosos. Ah! que linda criança! Já naquela idade eu sentia uma verdadeira paixão pelas crianças, e ao contemplar o anjo via nascer dentro de mim o desejo vago de que a pequena ferida vermelha do seu peito (obra da minha mãe) não tivesse tido um resultado mortal. Adquirira o hábito de atirar as crianças àquele rio que a providencial natureza concebera expressamente para o uso que eu lhe destinava. Sucedia, porém, que eu não ousava naquela noite abandonar a olearia, com medo do agente da polícia. «Ao cabo e ao resto – dizia a mim mesmo – enfiar a criança no caldeirão não será coisa de maior importância. O meu pai não saberá distinguir estes ossos dos ossos de um cão pequeno, e o insucesso que pode resultar do emprego de outro óleo diferente do incomparável Olcan nada pesará junto de uma população que não deixa tão facilmente de ter fé». Não tardou que eu desse o meu primeiro passo em direcção ao crime, fazendo cair o pequeno cadáver no caldeirão e reservando a mim próprio incalculáveis aborrecimentos.
Com surpresa minha, no dia seguinte o meu pai esfregava as mãos de contente e declarava, a mim e a minha mãe, que obtivera um óleo de qualidade excepcional (assim rezava o juízo dos médicos a quem tinha patenteado algumas amostras). Afirmou a sua ignorância a respeito de tais resultados, já que eram de raça bastante ordinária os cães utilizados e tudo fora tratado como era seu hábito. Julguei meu dever explicar o que se passara... ter-se-ia no entanto paralisado a minha língua, a prever as consequências da revelação. Lamentando a cegueira que até à data fizera ignoradas as vantagens da fusão das suas indústrias, os meus pais tomaram medidas rápidas para reparar o erro. A minha mãe instalou-se num recanto da olearia e eu fui desobrigado das minhas anteriores ocupações. Deixaram de pedir-me para dar sumiço aos cadáveres das crianças supérfluas, e já de mim não precisavam par atrair os cães ao seu destino porque o meu pai decidira não mais utilizá-los, embora lhes conservasse o honroso lugar no nome do óleo. Mercê da ociosidade súbita, seria talvez de esperar que eu me tivesse feito um debochado de péssimos costumes. Nada disso aconteceu. A santa influência da minha bem-amada mãe não deixou de proteger-me das tentações que assaltam a mocidade, além disso o meu pai era diácono da igreja... E dizer, ai de mim!, que por culpa minha culpa bem triste fim conheceram duas pessoas bem respeitáveis!
Descobrindo dupla vantagem em seu mister, minha mãe dedicou-se-lhe com reforçado zelo. Não contente em decepar por encomenda crianças indesejáveis e supérfluas, começou a calcorrear caminhos afastados e estradas desertas de onde trazia crianças de mais idade, por vezes adultos que lograva persuadir de forma a ser acompanhada àquela olearia. Por outro lado o meu pai, apaixonado pela superior qualidade do óleo produzido, alimentava os seus caldeirões com a maior das diligências. Transformar os vizinhos em óleo de cão, não tardou que fosse o seu único amor. Apoderou-se-lhes da alma uma actividade absorvente e tirânica que substituiu a esperança que alimentavam no ganho do Céu (por quem eram de igual modo inspirados).
Tão empreendedores acabaram por mostrar-se, que os seus concidadãos organizaram uma reunião pública no decurso da qual foram objecto de várias moções de censura. O presidente da assembleia declarou que todo e qualquer novo ataque à gente do lugar seria retribuído em tom hostil. Meus pobres pais saíram da reunião de coração partido, presas do maior desespero e – disso estou convencido – diminuídos na razão. De qualquer forma, julguei prudente não entrar com eles na olearia e deitar-me numa estrebaria.
Sob o efeito de não sei que misterioso impulso, levantei-me por volta da meia-noite e fui olhar à janela da sala do forno onde o meu pai ultimamente se deitava. As chamas brilhavam claras, como se a colheita do próximo dia se anunciasse abundante. Um dos grandes caldeirões fervia docemente, manifestava uma misteriosa discrição, ao que parece na ânsia do instante em que pudesse dar livre curso a toda a sua energia. O meu pai não se encontrava na cama, estava em camisa de noite, de pé, e agarrava numa corda sólida que ia preparando em forma de nó corredio. Os olhares que ele lançava à porta do quarto da minha mãe logo me fizeram compreender o fim que se propunha atingir. Eu sentia a língua e os membros paralisados de terror, não conseguia dar um só grito de alerta, ou fazer um movimento de intervenção. Abriu-se de repente a porta do quatro da minha mãe, sem ruído, e os dois esposos encontraram-se face a face, com grande surpresa aparente. A minha mãe também estava em camisa de noite e agarrava com a mão direita no utensílio da sua profissão, uma faca de lâmina delgada e longa.
Tal como o meu pai, não pudera conformar-se à renúncia do único ganho que lhe restava, cumpridas que fossem a minha ausência e a decisão hostil dos seus concidadãos. Olharam-se com flamejante fixidez e atiraram-se depois um ao outro num acesso de furor indescritível. Lutaram à volta da sala, o homem gritando pragas, a mulher lançando uivos inarticulados; ela tentando atingi-lo com a faca, ele esforçando-se por estrangulá-la nas suas mãos nuas. Não sei por quanto tempo sofri o infortúnio de contemplar tão desagradável quadro de infelicidade doméstica. Porém, ao cabo de um soco particularmente enérgico, os dois combatentes soltaram-se num movimento súbito.
O peito do meu pai e a faca da minha mãe revelavam as marcas sangrentas de um contacto funesto. Os dois esposos trocaram um olhar desprovido de amenidade e o meu pobre e ferido pai, que já sentia sobre si a mão da morte, arremessou-se para a frente sem atender à resistência do adversário. Estreitando em seus braços a minha bem-amada mãe, arrastou-a para muito perto do caldeirão fervente, reunindo débeis forças, projectou-se com ela dentro dele! Desapareceram ambos num instante, juntando o seu óleo ao óleo da embaixada dos cidadãos que tinham vindo na véspera convidá-los a comparecer na citada reunião pública. Convencido de que os bem deploráveis acontecimentos haveriam de fechar-me toda e qualquer carreira respeitável na minha cidade natal, instalei-me na célebre Otumwee onde redijo estas memórias com alma cheia de remorsos pela lembrança do acto estouvado que desencadeou tão deplorável desastre comercial.
Ambrose Bierce
Tradução de Aníbal Fernandes
Antologia do Conto Abominável
1969
Oferecido por Ricardo Jorge.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

A CAÇA, A IMENSA CAÇA

A caça, a imensa caça
que alguns dos aguazis
movem a esta carcaça
quase imóvel já e lassa,
incapaz de mais ardis!

Os cães, os húmidos cães,
do meu rasto sabedores,
às vozes dos capitães,
cujo comando deténs,
erguem morras e clamores.

A rês, a lírica rês
que habitou este precinto
terás submissa e cortês,
antes de extinto de vez
o seu bafo nunca extinto.


A. M. Pires Cabral

Os Cavalos da Noite
1982

Oferecido por manuel a. domingos.

SAUDADE

As saudades da pátria, que ilusão
Há longos anos já abandonada!
Que me importa a mim em que rincão
Esteja isolada

Ou por que estreitas pedras de calçada
Vou com o saco de compras à ilharga
A caminho de uma estranha casa
Que é como uma caserna ou hospital.

Que me importam os rostos entre os quais
Possa viver como um leão rugindo,
E de que povo me possam expulsar,
Que me importa, certamente,

Para dentro de mim.
Como um urso da Kamtchatka sem gelo,
Para mim é sempre igual
O lugar de vida e humilhação.

Não me seduz já o apelo lácteo
Da minha bela língua natal,
Que me importa a língua
Em que não sou compreendida!

O voraz leitor de jornais
E munjidor de intrigas
É do século vinte
E eu de todos os séculos!

Perplexa como um tronco
Sou o que resta duma alameda,
Que me importa tudo, que me importam todos,
E que me importa acima de tudo

A pátria antiga.
Todos os sinais, todas as marcas,
Todas as datas, tudo passou:
Só resta a alma, nascida em qualquer parte.

O meu país não me soube guardar
E não há arguto cão-polícia
Que em toda a minha alma possa achar
Qualquer marca de nascença!

Toda a casa me é alheia, todo o templo me é vazio,
E que me importa tudo se é igual!
Mas os arbustos que avisto pela estrada
São como os da minha terra natal...

Tradução de Manuel de Seabra.

Marina Tsvetayeva
1934
Antologia da Poesia Soviética
1973

domingo, 10 de junho de 2007


Pierre Bonnard, Villa Bach Andrée et son chien, 1891.
Guarda-te do homem que não fala e do cão que não ladra.

O VELHO CÃO

Soltava ontem já tarde um velho cão felpudo
Uns doloridos ais,
Em frente dum palácio altivo, belo e mudo,
Cerrado aos vendavais.

Fazia pena ouvi-lo, o mísero molosso
Em seu triste chorar!
Era quase uma sombra: apenas pele e osso
E um vago, um doce olhar!..

Eis a sorte cruel do pobre que não come,
Dos míseros sem pão!
Em paga ainda em cima os vai tragando a Fome,
A negra aparição!

Latia o cão faminto. O frio era mordente,
Feroz, quase voraz!
E o pobre não sabia, enfim, que há muita gente
Que adora a santa paz.

Ora perto vivia uma galante rosa,
Etérea, virginal,
Que tinha um lindo colo, amava, era nervosa
E a quem faziam mal,

Aquele uivar sinistro; a ponto de desmaios
Pender a fronte ao chão!
Saíram pois à rua impávidos lacaios
E foram dar no cão.

- Há no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado,
- O Povo sofredor,
Que às vezes vai ganir, com fome, o seu bocado
Às portas dum senhor.

O resto é velha história: ocioso é já dizer-vos
O fim que ela há-de ter.
A Ordem, só de ouvi-lo, alteram-se-lhe os nervos
E manda-lhe bater!


Guilherme de Azevedo
A Alma Nova
1874


Oferecido por Rui Almeida.

CÃO E PRESA

Um cão apanha um coelho
À margem de uma ribeira;
Mas vendo-o n’aquelle espelho,
Larga-o, salta a ribanceira…
E assim perde o que levava,
E mais o que ambicionava!

Abençoada prudência
(E é esta a moralidade!)
Quantos pela aparência
Perdem a realidade!


João de Deus
Campo de Flores
1893


Oferecido por Rui Almeida.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

LIRICACÃO/ÇÃO

Parte da lírica
afago-a com as unhas
focinho
do poema.

Os óculos perseguem as pálidas palavras.

Mesmo as mãos
farejam o discurso
enquanto firo um toiro
num alfabeto loiro
num velho mecanismo.

(Um lápis diz para mim:
enxota a solidão)

Parte da lírica
agora é como um cão.

Armando Silva Carvalho
Lírica Consumível
1965

ESTOU CANSADO DE VIVER NA MINHA TERRA NATAL

Estou cansado de viver na minha terra natal,
Pensativo nas vastidões de trigo negro,
A minha cabana vou abandonar
E partirei como vagabundo e ladrão.

Seguirei o dia de caracóis brancos
A procurar miserável abrigo.
E o meu melhor amigo afiará
Em mim a navalha tirada da bota.

A estrada atravessa o prado
Amarela de sol e Primavera,
E aquela de quem guardo o nome
Em mim, correr-me-á da sua porta.

E voltarei então à casa paterna,
Com a alegria de outro me consolarei,
E com a manga, uma noite verde,
Da janela me enforcarei.

Os salgueiros cinzentos na cerca
Inclinarão mais ternamente a cabeça.
E enterrar-me-ão sem me lavarem
Ao som dos cães a ladrar.

E a lua há-de vaguear e vaguear,
Deixando cair ramos nos lagos,
E a Rússia como dantes viverá
A dançar e a chorar na cerca.

Tradução de Manuel de Seabra.

Sergei Yesenin
1915
Antologia da Poesia Soviética
1973

quarta-feira, 6 de junho de 2007

DOGS OF LUST


The The

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Um cão de angústia progride
na cidadela sitiada

enquanto te demoras
no sorvo
no arquejo largo
no topo da saliva

enquanto te entreabro
as pernas altas
enquanto te humedeço
o musgo tenro

para te ferir com a boca
cheia de vidro moído.

Eduardo Pitta
Um Cão de Angústia Progride
1979

CHESTER

Tenho quatro minutos e alguns segundos para te escrever,
o mesmo tempo das saudades-de-ti.

Tenho um piano para tocar e um cão chamado chester,
tenho tempo e uma toda vida,
uma paixão preta por uma mulher branca.

Aos poucos ficámos a gostar de ti.

Tudo muda, menos tu,
tudo muda, menos o que vou tendo.

Devias viajar mais
sem ligares ao mapa das ruas que esperam que te percas,
como eu,
debaixo da luz daquele candeeiro igual aos outros.

O que são sete anos?
Tenho pelo menos seis para te escrever.

Tudo muda, menos tu.

Devias respirar o ar,
devias fazer parte de um genérico
ou de um agradecimento especial.

Estás mais perto de onde já estás.

Tenho um suor que devias aproveitar melhor.
O teu, lembras-te, apenas me guia.

Devias ir mais ao circo e sentir falta da rede.

Aos poucos, ficámos a amar-te,
aos poucos percebemos os que dormem dontigo,
os que te chateiam, os que tu amas.

Tenho pouco tempo e um piano para tocar,
devias rir mais,
tenho uma cama vazia e tu uma cheia.

Devias olhar menos para o tempo,
não tenho criada mas quero te rum sonho escuro.

Há cidades que não nos ligam,
há um homem que te cola a um ensaio que tu sabes ganhar,
mesmo quando não queres, pedes um beijo e uma boa-noite,
esperas uma gravação e uma carícia para mais tarde.

Tu é que sabes, tem calma,
é isso que queres ouvir, tem calma.

Como é que se luta contra um prazer?
Com outro, vezes e vezes.

Devias cantar mais no duche,
de manhã, quando a força te vem.

Estás mais perto de estares calada,
mas só o vais perceber quando tiveres pouca certeza.

Tenho um suor que devias provar,
se quiseres eu troco.

Os artistas esperam um público,
descalços ainda nos ferimos.
Devias reconhecer o sangue e dançar.

Devias dançar de manhã,
eu não me importo, tenho o sono pesado
e um piano para tocar.

Aind anão sabes as notas, pois não?
Nem eu, graças a deus.

Devias cantar mais, ir à guerra
- é isso não é, é preciso ser teu inimigo.

Tenho um piano para tocar,
talvez não aguente as tuas manhãs,
mas posso tentar adormecer-te com um dó.
Sem grande pena.

Devias dar aulas aos que não te ligam,
devias ir mais com as outras,
tenho um vinho para te acompanhar.
Já notaste como te brindo?

Devias passar uma faca nas minhas mãos
e dizer tão finas.

Tenho um piano para tocar,
devias cantar mais pela manhã.

Tenho pouco mais que quatro anos e alguns dias,
graças a deus,
vou ter um cão melhor que o teu.

Nuno Moura
Soluções do problema anterior
1996

sábado, 2 de junho de 2007

UM BLUES A DOIS



Fingimos muito bem.
Tu enrugas tua face filosófica
e pareces questionar a existência do mundo.
E eu sorrio e converso contigo.

A tristeza não é um espetáculo público,
pertence à nossa intimidade
e nela nos entendemos.
Posso então falar-te à vontade
e choro e te preocupas. Eu sei,
mesmo que nada digas,
afora lamberes-me as mãos
e me olhares com o teu olhar canino
agudamente.

Ambos sabemos o que nos entristece,
o que te preocupas por mim.
Ambos sabemos da tristeza mútua
e nos olhamos com respeito,
Mesmo que eu às vezes insista :
- Diga algo!
E tu me olhes perplexo,
porque querias tanto fazê-lo.

E amas-me e sabes que te amo.
O que não sabemos é que é a nossa questão.
E nós pensamos muito.

A cidade amanhece e estamos insones.
Um blues ia bem,
um dia aprenderás.

Silvia Chueire
(inédito)

sexta-feira, 1 de junho de 2007

HOJE, AS CIDADES

hoje, as cidades
ficaram um pouco mais longe
e eu não sei porquê
só sei que ficaram mais longe
as cidades
à beira-mar, havendo por todo o globo
as duas vidas:
eleanor damortis animada de festas e de estios
ou a rapariga que vive
a mil e quinhentos paus por mês
não sabendo no armário
outros sítios de ser festa ou esperar.
(do outro lado da ribeira o velho cão
guarda o corpo como algas
e compotas de frio às seis da tarde...)
a rapariga do armário
mata-se na cidade
do outro lado de ser diferente o mesmo tempo.

R. Lino
Atlas Paralelo
1984

terça-feira, 29 de maio de 2007

fastio

compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um cão dá-lhe pão caga o cão
revende o cão compra pão caga o pão
compra um pão come pão caga o pão
não compra não come não caga morre

Alberto Pimenta
Os Entes e os Contraentes
1971

NEGRUME

3.
vi os homens no carro celular, os cães fodidos.
por cima de mim estava o ramo,
havia céu, estrelas. mas os cães
ladravam à minha passagem, acossados.

no tempo em que me interrogava,
no tempo em que tinha uma ânfora, azeite e cereal,
fixava a atenção na iridescência. a cristaleira
à minha frente era um espelho.

mas sou agora um homem só. os cães fodidos
ladram na distância, ladram, ladram desabridamente.
e o brilho, assim translúcido,
é agora a minha maior pena, o meu maior desgosto.

vi os homens no carro celular, a neblina cinzenta.
às vezes Deus esmaga-nos o peito, reclama-nos.
o que gela é escuro como uma torrente de gritos.
meu amor, tremo de frio, a noite é vasta.

os cães fodidos. o barco, a viagem. nada espera.
de novo o carro celular volta ao lugar
em que a semente estiola e a boca arde.
não sei de ti, de mim, da nossa sombra.

noutros lugares o aceno é o sinal
da transposição do limite. a nuvem abre-se
ao sulco tracejante, ocre ou grená.
e é possível ver fazer chover.

aqui, assim, na barra da ausência,
só é possível ver as torres altas, os guardas
que vigiam, a arrogância
dos que nos servem o vinho e a abundância.

são desabridos os nossos sentimentos.
o desejo é um cão. os mortos
visitam-me ao crepúsculo. estou em fogo.
vi o carro celular. os cães fodidos.

hei-de dizer às crianças: foi assim
que em golpes de sangue o meu amor morreu.
não sei já para que serve a verdade.
Deus existe, não existe, reclama-nos.

Amadeu Baptista
Negrume
2006

OS BICHOS

Parece o movimento
de uma serpente,
este caminho que percorro
todos os dias
ao encontro do cansaço.
E nas bermas
gatos esventrados.
E no centro,
bem no centro,
alguns cães pisados.
Bichos que sem culpa
prefiro pensar adormecidos.

Henrique Manuel Bento Fialho
Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe
2000

segunda-feira, 28 de maio de 2007



Piotr Bakows, Running Dogs

VIDA ANÓNIMA (fragmento)

Um cão verde no outro lado do quintal
cresce felinamente para o céu.
Não ladra já.
Apenas ergue a cauda

e fareja no ar
a memória inverosímil do que arde
no espaço fulgurante
entre uma casa e outra

e esse sinal na testa
dos que esperam a serenidade
e tudo ignoram sobre a morte

e a vida que cresce nesse instante.
Ávido cão que do céu fareja
o rastro de um destino que não há -

Amadeu Baptista
A Construção de Nínive
2001

O CÃO AZTECA


Iyyar

Meu avô regressou do Brasil ao tempo da candidatura. Trouxe consigo um pequeno cão do Amazonas. Custou-lhe uma fortuna, fazê-lo. Dá horas, dizia, rindo. Era o cão azteca. O nome, na verdade, era Cruzeiro. Vinha pobre. Ele e o podengo (rafeiro) tornaram-se inseparáveis pareciam diminuir de feitio com o passar dos anos, mas para determinadas excursões somente. Acompanhava-o em altitude, no Serrando, a um que outro olival longínquo, e na verdade ao café – única excepção – dentro da vila. De resto, não saía dos muros, nem por perto. O país que ambos viram de uma pensão da Praça da Figueira, ou de um Hotel no Rossio, já não sabemos bem – pareceu-lhes diferente, mais apertado. De uma vez, numa ida a Santiago, trouxe uma coleira vermelha cravada de pequenos filetes metálicos, a fogo, no couro recuado.
Foi um dia, na metade alta e cinzenta da Serra que ouviu rosnar (verificava uma represa) junto a um palheiro perto do Fojão. Foi dentro e viu lá outro cão de pêlo semelhante, vermelhusco. No dia seguinte, voltou muito cedo com o seu – tinha sido ferido, e manquejava ainda um pouco. Levou ambos até à ponta derrubada do fojo pequeno. Deixou o Cruzeiro entrar e seguiu-o com uma lâmpada. O outro, uivava cá fora, bem preso. Veio sair a uma laje de musgo (escapulira-se um lagarto, velho, e restos de penas de pega ou poupa) que antecedia uma reentrância na qual deparou com um loureiro e alguns carvalhos enegrecidos. Mas o cão, nessa curta passagem, desaparecera. Voltou atrás, foi outra vez à maior boca, trouxe o outro, nada. Por fim, o mais pequeno veio trazer-lhe uma coleira, em perfeito estado, aberta, como se tivesse sido desapertada por mão humana.
Ao anoitecer, fez o longo trajecto em direcção à povoação do baio velho. Trazia o mais pequeno. Chegou, era noite cerrada. A velha dama, quando o viu, e conhecendo-o, não disse nada. O cão não saía o portão. Cerca de um mês depois apareceu morto junto à porta cocheira. O Avô viveu uma década mais e com frequência ia à montanha em busca “do rafeiro vermelho”. Guardara a coleira numa gaveta que fizera, de propósito, na sua secretária. Junto dela havia um pé de cabra que trouxera da fronteira, no Brasil. Ficaram abertas toda a noite no dia seguinte ao seu trespasse.


Gil de Carvalho
A Cidade de Cobre
Cotovia, 2001

Oferecido por Rui Almeida.

QUE FAÍSCA FUGIU DO TEU OLHAR

Nunca consegui despedir-me
dos meus mortos. Porque partíamos
para outras cidades, outras ruas, outros
sítios de despedida. Transporto
comigo esses finais antecipados,
novelos sem ponta, mimeses
sucessivas.

Mas os meus animais
sempre de mim se despediram, desde
o tigre domestico, envenenado no quintal
por uma velhinha sinistra que
queria preservar as alfaces,
até ao meu último cão, escondido
no último dia, no canto mais escuro
da garagem, um sitio de partidas
que ele conhecia.

Vem dos animais
uma tal inteireza, um até ao fim, até
que a morte nos separe, tão intensamente
farejado, tão comovidamente lambido. O clarim
de um miado ao abrir a porta. O latir
festivo de todas as chegadas. A probidade
do humilde estado de andar
a quatro. A alegria arcaica de trincar, rilhar
o esburgado osso, o looping de garras
fulminantes para suster um voo. Endoidecer
ao cheiro do pescado. Escutar
sons inaudíveis, danado de atenção.

Só os nossos animais nos lançam longos e
verdadeiros olhares de saudade, antes
de partirem, na sua perfeita condição
de seres indivisíveis, para a ventura de
nenhum Hades, nenhum céu.

Agosto, 2003

Inês Lourenço
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003


Oferecido por Rui Almeida.

100.

Só o cão, esse amante imediato, gania agonicamente toda a malignidade dum reconhecimento tão lento.


Maria Velho da Costa
Da rosa fixa (prosas)
1978


Oferecido por Rui Almeida.

sábado, 12 de maio de 2007

AMORES PERROS

O MEU CÃO TEM TRÊS PERNAS

O meu cão tem três pernas,
porque tiveram de lhe cortar uma.
Perguntei-lhe como é que se sentia,
olhou para mim e disse: "Foleiro!".
Costumava passear muito com ele e o meu pai, à noite,
mas agora ele já não
pode e por isso vamos só até ao parque.
Mas eu gosto à mesma do meu cão,
apesar de ele já não ser o que era.
Sabem, o nome dele era Veloz,
mas agora talvez não lhe ficasse bem:
escolhemos de entre sete ou oito palavras ternas
Stool, que quer dizer banco de três pernas.

Gez Walsh
Trad. Hélder Moura Pereira
aguasfurtadas n.º10
Outubro 2006

INTERRUPÇÃO

Sonhos que se repetem, não continuam.
Figuras levadas em escadas rolantes.
Ninguém sabe quem. Lugares de passagem.
Manequins afogam-se em cabines telefónicas.

Aqui vejo lábios além tornozelos.
Expostos, à venda. Bonecos perigosos.
Misturo-os a objectos que logo se desfazem.
Encontram maneira de não se destruírem.

Aqui vejo lábios, além tornozelos.
O momento fecha a sala de espera.
Não se alugam quartos. Cuidado com o cão.

Lembro. A tua boca é uma sala de espera.
O momento tropeça no momento seguinte.
Repete-se e cai. Não continua.

Rogério Rôla
aguasfurtadas n.º10
Outubro 2006

quinta-feira, 3 de maio de 2007

AFORISMOS DE PASTELARIA

Aforismos de dona Bina
Há cães que têm a personalidade dos donos. E há donos que têm a personalidade dos cães.

Não ouvido na rua
- Como é que tens medo de cães se cresceste rodeado deles?
- Olha, da mesma forma que cresci rodeado de pessoas e não perdi o medo delas.

Januário
Januário tinha bom feitio. O seu cão é que não. Quando se encontravam era Januário que abanava o rabo.

Vida canina
A vida na cidade está cada vez mais canina, diz o homem à esquina, sem saber que os cães que pela trela traz também são responsáveis por isso.

Vestido para matar
Durante o dia era um labrador. À noite transformava-se num rottweiler.

Vingança barata
Dois homens brigavam até à morte num descampado. Os cães, à volta, faziam apostas.

Ainda a obsessão com canídeos
Uma vez por semana, as senhoras da Mexicana juntavam-se num descampado para a luta de caniches.

Nuno Costa Santos
Melancómico
2007

terça-feira, 1 de maio de 2007


Jehsong Baak, Dog at a Beach, Holland, 2004

CÃES, MARINHEIROS

Era um cão que tinha um marinheiro. O cão perguntou à esposa, que se pode fazer de um marinheiro? Põe-se de guarda ao jardim, respondeu ela. - Não se deve deixar um marinheiro à solta no jardim, que fica perto do mar. Um marinheiro é uma criatura derivada por sufixação, e pode recear-se o poder do elemento base: o radical mar. Em vez de guardar o jardim, ele acabaria por fugir para o mar. - Deixá-lo fugir, disse a esposa do cão. Mas ele não estava de acordo. Que um facto deveria ser esse mesmo facto até ao limite do possível: quem possui um marinheiro para guardar o jardim deve procurar mantê-lo a todo o custo, assim como o cão, ou o casal de cães, que não tiver um marinheiro deve não tê-lo até a isso ser absolutamente forçado. - Nesse caso, só nos resta ir para uma terra do interior, longe do mar, disse a cadela. E então foram para o interior, levando pela trela o marinheiro açaimado. Durante o percurso viram muitas paisagens. O marinheiro estava espantado com as paisagens que podem existir longe do mar. Fez diversas observações a esse respeito, provocando o risonho latido dos cães que, pela sua parte, concordavam em que tinham um marinheiro muito inteligente. - Nem todos os cães têm a nossa sorte, disse o cão, pois conheço vários cães que são donos de vários marinheiros estúpidos. Iam por isso bastante contentes e diziam, a outros cães com quem se cruzavam, que possuíam um marinheiro invulgarmente esperto. - Ele tem uma filosofia das paisagens, dizia o cão. Um cão da Estrela, que encontraram naturalmente perto da Serra da Estrela, perguntou-lhes se o marinheiro gostava de sardinhas. - Adora-as, respondeu a cadela. - Isso não me admira nada, disse o indígena. E na verdade não parecia admirado. Quando chegaram ao mais interior possível, alugaram uma casa com um jardim e puseram o marinheiro a guardá-lo. - Guarda-o, disseram. Deixaram-lhe ao lado uma dúzia de latas de sardinhas e foram para dentro de casa. Durante sete dias e sete noites, o marinheiro reflectiu sobre as paisagens do interior e comeu as sardinhas de conserva. Depois foi atacado de esgana, e começou a andar em círculos cada vez mais apertados no meio do jardim. Os cães observavam-no da janela e viam que o seu marinheiro perdia as forças a cada volta. Um dia, ao anoitecer, caiu para o lado resfolegando. - O mar, ouviram-no dizer. Então foram para dentro, e dormiram. De manhã vieram cedo ao jardim e verificaram que o marinheiro estava morto. - Era um marinheiro tão esperto, disse a cadela. - Pois era, disse o cão, foi pena. E enterraram o marinheiro debaixo de uma acácia. Mas como já se haviam habituado à vida do interior, não regressaram ao litoral. Nunca mais tiveram marinheiros. - Para quê?, dizia a cadela, ralações já existem de sobra. E quem se atreve a negar que ela tinha razão?

Herberto Helder
Os Passos em Volta
1963

domingo, 15 de abril de 2007

CARLOTA, ABRIL DE 2000 - ABRIL DE 2007




Causa da morte: envenenamento.


quinta-feira, 12 de abril de 2007

DOM RAFEIRO

O seu latido faz o espaço, ainda, mais largo,
Dá mais distância e fundo a toda esta amplidão.
Solitário, é, da noite e do campo, em letargo,
O feroz e pachorrento guardião.

Os seus olhos, que têm canduras de alvorada,
Têm, às vezes, também, o fulgurar do raio:
- Providência da rês desirmanada,
Lutador fero, heróico e sem desmaio.

Da boca enorme, a baba cristalina,
Pende-lhe, quando sonolento espera,
No escalvado cabeço da colina,
O sol, macio e bom, da Primavera.

Mas nas noites de Inverno desalmado:
- Poços enormes, negros e sem fundo, -
O seu cavo ladrar, no ermo resignado,
É a única voz viva deste Mundo.

Agora, o sol lhe doira a felpa do espinhaço.
O rebanho repasta, plácido, em sossego.
E, aninhado entre as mãos, em ternuras de abraço,
Aconchega-se, débil, um borrego.

Francisco Bugalho
Poesia
1961

quarta-feira, 11 de abril de 2007

CALENDÁRIO RURAL

ABRIL
O «Navarro» é um belo cão de caça, mas muito guloso. Esqueceram-se de o açaimar e entrou na capoeira onde estava um rebanho de pintos e a galinha choca, comendo logo três, porque julgava que faziam parte de um bando de perdigotos. O dono, caçador entusiasta, perdoou-lhe. Mas a mulher ficou desgostosa e jurou castigar o «Navarro». Assim ela o pilhe.
Azinhal Abelho
Os da Orada
1964
Oferta do Rui Almeida.

terça-feira, 10 de abril de 2007

HOMEM COM CÃO

Will Ryman, Man with Dog, 2005.

Walking the dog

Mal me levanto
tomo o café-da-manhã
e penso no cão,
corpo de feltro
largado na estrada
Mal me levanto
e já me sinto
ensanduichado
esborrachado
esprimido
e reduzido
ao olhar do cão fugindo
atravessando a rua
com direito
de cidade
como os de Jude Stefan
- ou seria embalado
liofilizado
como no réquiem de Ruy Belo?
Com os sentimentos atolados
em coisas imediatas
deixo o cão
seja de um
ou de outro
As coisas imediatas
(em conflito permanente)
me levam para o carro

17/09/2003

Heitor Ferraz
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003

Oferta do Rui Almeida.

O SONHO E OS CÃES

para José Amaro Dionísio

Entredentes o sonho
apodrece-o, dos cães,
a baba que supuram.

Dizendo de outro modo,
por um augúrio insistes,
procuras outra fábula,
tu sabes lá se mentem
os astros dessorados
as cartas de tarot
a sina ciganada
as folhinhas de chá
nas chávenas de estilo

Desfocam-se contornos,
ninguém te vê por perto,
não tens perdão, rapaz,
não, não há-de ser nada,
segredos já só mesmo
os que pela mais intacta
deslocação da mágoa
transitem entre uma
e outra lâmina.

Ninguém te vê, dispara,
vá, dispara, rapaz,
não, não há-de ser nada,
nada a fazer, de resto,
a voz assim sangrada,
os cães ainda à espreita.

Raul Malaquias Marques
Traduções da Fala
&etc, 1995

Oferta do
Rui Almeida.

PRADO DE MADRID

*

Goya! – o de la quinta del sordo.
Amanhã é dos loucos de hoje.
Pela quinta vez volto à tua sala
e ouço o anedótico sobre ti.
Anedótico por anedótico,
deixa que te diga.
Para que aquele cão está olhando?
Tu vias, quando pintavas solitário. Pois lá
deixaste o grande imperador, após
tantos massacres, e a caveira da morte,
em cima a criança. E se olhar-se melhor,
à saída, a maja também está
e disfarça, e dança nos três. Tudo
semifundido com o cão. E é esta a explicação
dentro dos olhos do cão que contemplam.
Tudo passa, inexoravelmente
tudo passa, e nenhum poder
pode subsistir à humildade de um cão que contempla.

Agora podem continuar os zumbidos que entornam sobre ti.


José Santiago Naud
Conhecimento a Oeste
Moraes Editores, 1974

Oferta do Rui Almeida.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

UMA TARDE de Agosto. Nuvens altas e secas espalham o calor que sobe das pedras, que cerca as árvores, que trepa pelas paredes da casa e reverbera no coro monótono das cigarras.
A sombra agacha-se; a água parece lodo. O cão sofre, com a língua de fora e o olhar mortiço. Desespera. Está velho, acabado. Pensa que poderá ser o sofrimento do último verão - isso não o consola, nem o perturba.
Pensa que há um Deus que vigia a inclemência do verão e o sofrimento dos cães; agora, deseja o sono, que lhe resiste; cresce a modorra, o estupor do desamparo.

José Alberto Oliveira
Bestiário
2004

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Philip Pearlstein, Model with HMN Dog and Renaissance Bambino, 2006.

O BAIRRO

7.

O cão, aos pinotes
na cozinha onde as latas de chá
cheiram a lixívia,
rosna aos projectos de demolição.

Inútil estabelecer rimas ao «gosto popular».
A subtileza verbal, os jogos de palavras
e o ritmo da poesia feridos
irremediavelmente
no dia em que os recém-nascidos
começaram a aparecer nos contentores.

Jorge Gomes Miranda
Postos de Escuta
2003

O CÃO

Diz-me o meu jardineiro: O cão
É robusto e esperto e foi comprado
Pra guardar hortas. Mas eles
Fizeram dele o amigo do homem. Pra que é
Que lhe dão de comer?

Bertolt Brecht
Tradução de Paulo Quintela
Poemas e Canções
1975

domingo, 1 de abril de 2007


Frank Tenney Johnson, Men and Dog.

O ESTRANGEIRO (excerto)

Ao subir, na escada escura, choquei com o velho Salamano, meu vizinho de andar. Ia com o cão. Há oito anos que não se largam. O rafeiro tem uma doença de pele que lhe faz cair todo o pêlo e o que o cobre de manchas e de crostas. À força de viver com ele, os dois sozinhos num pequeno quarto, o velho Salamano acabou por ficar parecido com o cão. Quanto ao cão, tomou do dono uma espécie de ar curvado, focinho para a frente e pescoço estendido. Parecem da mesma raça, e no entanto detestam-se. Duas vezes por dia, às onze horas e às seis horas, o velho leva o cão a passear. Fazem há oito anos o mesmo itinerário. Seguem ao longo da Rua de Lyon, o cão a puxar pelo homem até o fazer tropeçar. Põe-se então a bater no bicho e a insultá-lo. O cão roja-se cheio de medo e deixa-se arrastar. Nesse momento é o velho que tem de puxar. Quando o cão se esquece, põe-se outra vez a puxar e é outra vez espancado e insultado. Ficam então os dois no passeio e olham-se, o cão com terror, o homem com ódio. É assim todos os dias. Quando o cão quer fazer as suas necessidades, o velho não lhe dá tempo e arrasta-o. Se por caso o cão «faz» no quarto, também lhe bate. Isto dura há oito anos. O Celeste diz que «é uma pena», mas no fundo ninguém quer saber. Quando encontrei o Salamano nas escadas ia a insultar o cão: «Bandido! Cão nojento!» Eu disse: «Boas-noites», mas o velho continuava a insultá-lo. Perguntei-lhe o que é que o cão tinha feito. Não me respondeu. Dizia apenas: «Bandido! Cão Nojento!» Percebi que debruçado sobre o animal, estava a arranjar qualquer coisa na coleira. Falei mais alto. Então, sem se voltar para trás, respondeu-me com uma espécie de raiva reprimida: «Está sempre aqui!» Depois foi-se embora puxando pelo cão, que gania e se deixava arrastar.
Albert Camus
O Estrangeiro
Oferta do Ricardo Jorge.

sábado, 31 de março de 2007

OS CÃES

Os cães, tantos. Sem cuidarem
da torpeza
lambem as nossas mãos.

Misteriosa religião a deles.
O rosto do seu Deus não temem
e contemplam lado a lado.

Nem a Moisés tal foi consentido.

António Osório
A Ignorância da Morte
1978

quarta-feira, 28 de março de 2007


Oswaldo Maciá, The Dog Barks but It Makes No Difference to the Camel – We Are the Dogs, the World Is the Camel, 2006

CONTO

Vai o menino só na estrada grande,
Grande e medonha entre pinhais sombrios,
Entre uivos ruivos, roucos e bravios
Arranhando o silêncio que se expande...

A mãe dissera-lhe: -- «O menino, ande
«Longe das selvas, dos fundões, dos rios...»
E avós, irmãos, amigos, primos, tios:
-- «Menino, vá por onde a gente o mande!»

Mas o menino foi desobediente.
E andou por vias ínvias ou sem gente,
Pela mão de enigmáticos destinos.

Saltar-lhe-ão lobos vis e cães de el-rei...
-- Foi pondo o ouvido em terra, que escutei
Lobos uivar e soluçar meninos.

José Régio
Biografia
1929

quarta-feira, 21 de março de 2007

Enquanto o homem pensar
que vale mais que outro homem,
são como os cães a ladrar,
não deixam comer, nem comem.

É fácil a qualquer cão
Tirar cordeiros da relva.
Tirar a presa ao leão
É difícil nesta selva.

António Aleixo
Quadras Populares

domingo, 18 de março de 2007

CARGO CULT

Não vivo disto
tenho o tempo contado
para escrever um poema
um poema novo que não seja surdo
às minhas preces

há horas felizes
e fico à espera
não serei eu a começar

- toca a comer
ou porque ardeu tudo
ou porque vi coisas
e que as pequenas formigas argentinas
são indestrutíveis, pequenos pontos a bulir
mortos diariamente
para voltarem iguais, concentrados
no dia seguinte

a luta não nos pode salvar da fome
ou dos organismos especializados
eis o que disse o sineiro
não é para gostares e ainda não viste nada

à distância de um barulho
em terra incerta
dois minutos abaixo de cão
assim me cubro
enquanto o sono de todos
se esgota nos quartos de dormir

e agora não digo mais nada
como miséria.

João Almeida
A Formiga Argentina
2005

sábado, 17 de março de 2007

o cão predominante o chefe da matilha,
a sua legítima

o cheiro do cão abatido o chão batido
do butim sem linha de fuga a foto desfocada
o erro de paralaxe. fecho de segurança prende as fezes ao cão

Milton Torres
No Fim das Terras
2005

DIOGO CÃO


os cães cara a cara, ou o cão no espelho
o pêlo ereto do lombo até o rabo
o focinho frio aquoso o focinho
sem ser parte. as presas de fora
o ronco do fundo dos peitos o ronco
mais forte que a força do cão, o custeio da imagem
a palmilha sob a pata.
a acareação dos cães, o mesmo que a fala de um só
a verdade do cão o pensar esquemático o semafórico o zelo seu
pelo diapositivo a cores, seta / direção / apito

- a sutura, o devir nacional
o dever cumprido

Milton Torres
No Fim das Terras
2005

sexta-feira, 16 de março de 2007

Cama no chão, cama de cão.

Joan Miró, Dog barking at the Moon, 1952
Não me admiro nada por os homens amarem tanto os cães:
Pois um miserável patife é tanto o homem como o cão.

J. W. Goethe
traduzido por João Barrento
Poesia
Círculo de Leitores, 1993

quinta-feira, 15 de março de 2007

OUÇO FALAR

Ouço falar da minha vocação
mendicante, e sorrio. Porque não sei
se tal vocação não é apenas
uma escolha entre riquezas, como Keats
diz ser a poesia.
Desci à rua pensando nisto,
atravessei o jardim, um cão
saltava à minha frente,
louco com as folhas do outono
que principiara, e doiravam
o chão. A música
digamos assim,
a que toda a alma aspira,
quando a alma
aspira a ter do mundo o melhor dele,
corria à minha frente, subia
por certo aos ouvidos de deus
com a ajuda de um cão,
que nem sequer me pertencia.

Eugénio de Andrade
O Sal da Língua
1995

Oferecido por Inês Lourenço.

EM PLENA MONTANHA:

Um esquiador e um bêbedo meteram-se pela montanha acima e foram surpreendidos por uma forte tempestade. Já quase desesperados, vêem ao longe um São Bernardo com a sua barriquinha de whisky pendurada na coleira. Grita, aliviado, o esquiador : Lá vem o melhor amigo do homem! Clama, exultante, o bêbado: E traz um cão!

Oferecido por Inês Lourenço.

terça-feira, 13 de março de 2007

SNOOPY

TERRESTRE

Depois da morte do cão,
os pombos passaram a ser
os seus animais de companhia,
porque não careciam de mãos humanas
nem cuidados de dono. Habitavam
qualquer vão de telha ou côncavo de
ramo. Trelas e coleiras eram
agora uma passada invenção
terrestre, jamais possível
entre um humano e uma ave.

Inês Lourenço
A Enganosa Respiração da Manhã
2002

segunda-feira, 12 de março de 2007

XLII

Aproxima-te, põe o ouvido na minha boca,
vou dizer-te um segredo,
está um homem com a noite deitado
nas areias, separado doutro homem

por um grito, ninguém o ouve,
o sol há tanto tempo apodrecido.
Não sei se espera a manhã
para partir ou vai ficar

com os cardos nas dunas, os olhos cheios
de ignorância e de bondade,
exposto
assim à calúnia, à ventania.

Como se fora um cão, menos ainda.

Eugénio de Andrade
Branco no Branco
1984

CONSTELAÇÕES DO VERÃO

Um corpo
estendido
nu
na iminência de ser música

diz o que penso

O fogo
súbita convulsão da água

sobe
pelas pernas
penetra os lábios

vacilantes do verão

exausto
e branco
porque entardecia

O olhar
cai

errante
cão

lambendo
a chama oscilante dos dedos

escassa língua
sobre flancos desertos

as palavras
tão leves que nem o ar feriam
nem sequer o ar

As palavras
que se levantam para recusar
(quando aprenderão a morder?)
são a nossa herança

E o fogo

Eugénio de Andrade
Véspera da Água
1973

domingo, 11 de março de 2007

COMEMORAR O CÃO

preciso céu azul-seco

abaixo dele
o cão raivoso
amarrado ao poste
da cidade pequena
treme e baba:
grande frio ao sol

a memória morde
quem comemora
desfigura o quem, o que

alheio
aos prados e às bananeiras
espera nada
sofre patibular
petrificado na cena
que me petrifica

Paula Glenadel
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003


Oferecido por Rui Almeida.

BANDO

Homenagem a Ruy Belo

Aperto a renda da cortina
e o vestido do dia.
Minhas unhas estão compridas.
Espero os cães que remexem o lixo.

Recolher justamente o que recusei,
ordenar os restos e a sombra da recusa.
Esses cães que mastigam a polpa da noite,
a fibra de uma verdura vencida,

a embalagem de um rosto.
Esses cães vadios na coleira do instinto.
Sem a censura das pálpebras,
sem nomes que os façam ridículos.

Não perdendo tempo
caçando ratos nas árvores
ou o tempo no corpo.
Hoje os sinto novamente.

Aviso: é a última vez.
Limpo a zoeira da visita, pago a conta,
Encaderno as sobras que foram minhas.
E a raiva só pede que voltem.

Voltem
e me aceitem em seu bando.

Fabrício Carpinejar
Inimigo Rumor, número 15
2º semestre 2003

Oferecido por Rui Almeida.

sábado, 10 de março de 2007

O CÃO SÁBIO

Certo dia um cão sábio passou por um grupo de gatos. E vendo que os gatos pareciam preocupados falando entre si sem dar pela sua presença, decidiu parar para escutar o que diziam.
Levantou-se um gato, o maior, grave e sisudo, que dirigindo-se aos outros disse: Meus irmãos, rezai, porque se rezardes muitas vezes por certo choverão ratazanas.
Ao escutar estas palavras o cão riu-se com os seus botões e seguiu caminho dizendo: Gatos cegos e insensatos. Por acaso não está escrito, e não é dado adquirido que o que chove quando rezamos não são ratazanas, mas ossos?
Khalil Gibran
Versão de Ana Leal
O Louco
1997

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