Antologia de textos com cães dentro.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

CÃES

Os portões daquela casa sempre fechados
prendiam três enormes cães que nos viam passar.
Morreram ou levaram-nos, a eles e aos donos.
Os portões abertos ressuscitam, anacrónico, o medo.

Pedro Mexia
Em Memória
2000

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Andrei Semionovich cuspiu numa taça com água. A água ficou imediatamente negra. Andrei Semionovich franziu os olhos e olhou com atenção para a taça. A água estava negra. O coração de Andrei Semionovich desatou a bater com força.
Nessa altura, o seu cão acordou. Andrei Semionovich aproximou-se da janela e mergulhou nos seus pensamentos.
De repente, qualquer coisa grande e escura passou como uma rabanada de vento à frente do seu rosto e saiu a voar pela janela. O cão é que tinha voado e pousado, como um corvo, no telhado do edifício que ficava do outro lado da rua. Andrei Semionovich pôs-se de cócoras e começou a uivar.
O camarada Papugaev entrou abruptamente no quarto.
- O que é que tem? Está doente? - perguntou o camarada Papugaev.
Andrei Semionovich mantinha-se em silêncio e esfregava a cara com as mãos.
O camarada Papugaev deitou um olhar à taça que estava em cima da mesa.
- O que é que tem ali dentro? - perguntou a Andrei Semionovich.
- Não sei - disse Andrei Semionovich.
Papugaev volatizou-se instantaneamente. O cão voltou a entrar pela janela, foi deitar-se no lugar habitual e adormeceu.
Andrei Semionovich aproximou-se da mesa, bebeu a taça com água negra.
E fez-se, na alma de Andrei Semionovich, uma grande claridade.

Daniil Harms
Tradução de Sérgio Moita
Crónicas da Razão Louca
Hiena
Julho de 1994

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Coimbra - zona histórica
Oferecido por Rui Almeida.

O CÃO NÃO

to Ferdinand Schmatz
Nenhum cão se chama Não porque, como S. José, todos os cães dizem Sim quando lhes aparece o Anjo em sonhos a dizer-lhes que as cadelas suas noivas vão ter cachorrinhos do Espírito Santo.
Mas houve um cão chamado Não porque achava que não era digno de nada. O Anjo apareceu-lhe em sonhos e deu-lhe um beijo no focinho.
-- És tão bom, Não. Tão bonito. -- disse o Anjo a Não -- A tua noiva vai ter cachorrinhos.
-- Mas eu não tenho noiva. -- disse o Não.
-- A Maria quer ser tua noiva e já está à espera dos teus cachorrinhos.
-- Mas eu não sou digno de entrar na morada da Maria.
-- A Maria acha-te graça. Quer acasalar contigo e ter mais cachorrinhos, todos os cachorrinhos que tu quiseres ter.
-- E os cachorrinhos querem-me a mim?
-- Claro que querem, Não. Porque tu viste a tristeza do Bobi, do Tejo e do Guizos quando os donos os abandonaram.

Adília Lopes
A Bela Acordada
1997

OS CÃES

A menina parecia-se com a vestal de uma estela funerária que há nessa cidade e que tem roupas, embora de pedra, finíssimas. Passava, pela mão da mãe, pela orla do terreiro, no ar denso de trovoada.
Esse terreiro onde se armavam as barracas da feira, agora deserto, varrido com ferocidade pelo vento, na hora nefasta do meio-dia, hora em que é perigoso passar debaixo de certas árvores ou contemplar as fontes, tem apenas alguns troncos como ossos de que brotam cotos carecas.
Dos arredores vinha um cheiro acre a queimadas que invadia as casas de mistura com as películas de cinza como se um grande fogo (daqueles que abatem uma a uma as árvores) rondasse a povoação.
Na areia eriçada e vermelha como pêlo, que as rajadas levantavam e atiravam para longe aos punhados, dois cães rodopiavam voltejando e espojando-se, colados um ao outro, pardos e rafeiros.
Os ganidos de um dos cães feriam o ar cinzento e abstruso como se lhe estivessem a fazer mal. A menina, aflita, gritou à mãe:
- O outro vai matá-lo!
Mas a mãe, embaraçada, calou-a:
- Não. É um cão e uma cadela. Não olhes para lá.
Então a menina tapou os ouvidos.

Adília Lopes
O Decote da Dama de Espadas (romances)
1988

domingo, 19 de agosto de 2007

CÃO DA MORTE


MÃO MORTA

BEWARE OF THE DOG


JAMELIA

SOLILOQUIOS E COMMENTARIOS DE ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO

As mulheres são como as ovelhas. Todas tem a sua volta tres ou quatro lobos que só esperam que esteja longe o cão que as guarda.
Amor meu, não temas. Bem sabes que os lobos são amigos.
E que eu nunca deixo a coleira de pregos, nem de rosnar, junto de ti...

*

A mordedura do cão cura-se com o pelo do mesmo cão. O Amor de uma mulher com outro amor. São pois identicos, a dentada do cão e o amor da mulher...

*

Que o meu coração é um cão vadio?
É. Jamais quiz coleira. Dorme hoje em edredon de penas, amanhã em qualquer patamar de escada. Mas não tem Mulher que o acorrente, nem Ciume a quem pagar imposto.

Albino Forjaz de Sampaio
Mais Além da Morte e do Amor
1922

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

AURORA(S)

«Era um cão com muita teoria»
- explicou-nos, junto ao aquecedor,
na certeza de que Todorov
não frequenta a travessa do Alcaide,
ao Combro. Aurora, Dona Aurora:
guardiã provisória do declínio
(cor-de-laranja, juro) das paredes
ou dos dias - não há diferença.

Fiz questão de tirar eu próprio
do frigorífico a segunda Sagres.
Já houve naquela rua sete auroras
- não é um verso, apenas um dado
estatístico, vindo de quem sabe.
Algumas, como «histórias verdadeiras»,
casaram ou morreram - tanto faz.

O cão, sem nome, aceita o favor
da trela «noite demasiado morta»
(volta a dizer Aurora). É normal,
há coisas que acontecem sob a sombra
desmentida da cidade. Piano, dessa infância
triste, a apodrecer agora numa taberna
colorida. «P'ra mim é tinto» - repetem
já sem clientes os mais pequenos altares.

Enquanto um tecto sobre nós, vazio,
esconjura metáforas e recusa a noite.

Manuel de Freitas
[SIC]
2002

UM AFORISMO DE KAFKA

Os cães de caça brincam ainda no pátio, mas não lhes escapará a presa, por mais depressa que, a partir desse instante, corra as florestas.

Franz Kafka
Antologia de Páginas Íntimas
Tradução de Alfredo Margarido.

27 DE MAIO

Uma parte de Niklasstrasse e a ponte inteira voltam-se, emocionados, para ver um cão que acompanha, uivando, uma ambulância da Sociedade de Socorros. Até que o cão interrompe bruscamente a corrida, volta para trás e porta-se como um cão estranho e vulgar que, seguindo o carro, não pretendia nada de particular.

Franz Kafka
Antologia de Páginas Íntimas
Tradução de Alfredo Margarido.

BOM-DIA, CÃO

Avisto na rua um cão
Digo-lhe: como vais, cão?
Pensa que me responde?
Não? Pois bem, mas ele responde-me
E isso não é da sua conta
Agora quando se vêem pessoas
Que passam sem sequer reparar nos cães
Sentimos vergonha pelos seus pais
E pelos pais dos seus pais
Porque é uma tão má educação
É coisa que requer pelo menos... e não estou a ser generoso
Três gerações, com uma sífilis hereditária
Mas, para não vexar ninguém, devo acrescentar
Que um número considerável de cães não falam com muita frequência.


9 de Fevereiro de 1948

Boris Vian
Cantilenas em geleia
Tradução de Margarida Vale do Gato.

Oferecido por Rute Mota.

DE COLEIRA

Ter um filho com um cão
Exige dotes de observação fora do comum
E o profundo conhecimento do factor RH.

Com treinos intensivos
A caça ao coelho, o jogo do nem-te-posso-cheirar
E a corrida ao osso,
Talvez se consiga chegar
Ao nível intelectual necessário para uma compreensão mútua e saudável.

Nas terras em que faltam mulheres
(ou são tapadas, o que vai dar ao mesmo)
Um bom cão é melhor do que a masturbação.

Boris Vian
Cantilenas em geleia
Tradução de Margarida Vale do Gato.

Oferecido por Rute Mota.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

PARA UM DIA NÃO

(variação sobre tema de A. J. Forte)

Há dias assim só para o não e que
não podem ser do gato são do cão
por isso dias que não são para miar
dias que são só para ladrar ão ão
há dias para tudo e mais alguma coisa
e dias só para o menos e é se tanto
dias em que se não gostava de ser
ou de qualquer coisa ter e o quê então
dias ruins em que não há nada para fazer
em que o simples facto de ter corpo como
toda a gente faz ou tem dá um trabalho
insano um trabalho danado para além
do que ele próprio corpo está em condições
de poder suportar são dias mais para não ser
ou para o não ser ou para o não ter
não ter por exemplo que raio de exemplo
um corpo ou um corpo como este impositivo
porque um corpo assim obstacula muito
com perdão para tamanho palavrão
e logo o devaneio consigo nos transporta
não ter corpo nenhum ser espírito apenas
e de preferência um desses bem vagabundos
porque um espírito assim um apenas espírito
ajuda muito só ele está em condições
de nos poder conduzir melhor
dizendo de ele e só ele se deslocar
aos lugares mais improváveis que são os que
mais vale a pena visitar e que podem ser
lugares do nosso universo próprio lugares
do universo alheio ou quiçá mais delicado
ainda lugares do que não é isto é não lugares
caso este em que estaremos já bastante
próximos do nirvana o que dá sempre jeito
para o dia não chamado o dia do cão

Rui Caeiro
Saudade n.º 9
2007

domingo, 29 de julho de 2007

OS CÃES DE VELÁZQUEZ

Miguel Veiga, querido amigo, perdeu recentemente o seu cão Timmy, com quem o meu Jasão mantinha alguma correspondência de afectos. Quem quer que minorize os sentimentos que nisto se envolvem, ou os torne ojecto de desprezo, merece a mais fria das indiferenças com que se devem tratar os analfabetos da natureza humana. Não tenho a menor simpatia pelas religiões da fraternidade inextensível aos bichos, nem pelos teólogos que transformam o lobo de Gúbio, ou o canídeo que costuma acompanhar São Roque, num adereço metafórico da iconografia da flos sanctorum.
Chegou-me a notícia da morte de Timmy imediatamente a seguir à visita que fiz à exposição de Velàzquez, patente na National Gallery em Londres. Às várias razões que recomendam a mostra a quem puder ir até lá, e que justificam as horas passadas na fila dos que pretendem entrar, haverá que acrescer a de ser Diego Velázquez, ele também, amante desses solidários partícipes dos dias que nos vão cabendo. A consciência com que o pintor se debruça sobre tais criaturas, vendo nelas, mais do que a figura decorativa, o verdadeiro espelho em que se reflecte muito daquilo que somos, converte o percurso das quarenta e seis obras-primas numa empresa de auto-conhecimento, e não numa pura lição que é o que menos importa buscar na frequência de qualquer artista.
Os cães de Velázquez respeitam a estratificação social, e jogam com ela como com uma entidade inamovível. Reaccionários como são, e por isso adversos a medidas de legalização do aborto, acolhem valores certos, preferindo à conveniência política o conforto das relações, e optando pela liberdade de amar como, quando e onde lhes apetece, independentemente dos ditames de qualquer catecismo. São mais proveitosos em suma como exemplo comportamental do que os que no seu afã de reequilibra o Mundo não tardarão a impor o interdito do presépio público, ao qual de resto os animais alegremente concorrem, vendo na cena do nascimento de Jesus Cristo um ameaçador símbolo religioso.
O rafeirito que defende o patriarca Jacob, ao tomar conhecimento do destino de José, seu filho, porventura devorado pelos brutos do deserto, executa afinal a manobra da preservação da dor a que todos nós temos direito, e que não se compadece com ritos ornamentais. É um indivíduo débil, mas tão devotado à guarda da fragilidade de um velho, que não há gladiador de Roma que arroste com a sua fúria.
Os galgos e os perdigueiros, pacientemente aguardando, abrigados pelas sombras da Torre de la Parada, a sua vez de ingressar na montaria ao javali, manifestam a negligência dos grandes áulicos, sempre prontos a receber ordens, e a delas se desempenhar com uma descrição que é nota de respeito, e nunca de desdém. Já o sabujo que se senta à beira de Filipe IV, ascendido a uma dimensão donde apenas o fim terreno o desalojará, cobra a serenidade que o dispensa de efectivas funções, excepto a de posar assim para o retrato de Diego Rodríguez da Silva Velázquez, meio na penumbra, constantemente presente.
Os infantes pequenos beneficiam de uma escolta que, consagrando o império da infância, a encara como uma invulnerabilidade à inteligência dos clássicos irracionais. Baltasar Carlos, incapaz ainda de manobrar a carabina com que o retratista o armou, consente em que a seus pés adormeça um molosso enorme, isto por se encontrar ciente dos impenetráveis sonhos em que são cúmplices. E o mínimo Filipe Próspero, tão pelém que no rosto se lhe adivinha a letal gadanha que anda a rondá-lo, só com o maltês caprichoso, habituado à altura dos cadeirões, aceita dividir os seus choros e as suas birras.
Os cães de Velázquez celebram uma interioridade preciosa, mais afeita às caseiras noites de Inverno do que às tardes de domingo dos centros comerciais. Desaparecidos todos, tendo ascendido a um plano tão incontável como indiscutível, partilham com o saudoso Timmy essa sabedoria dourada a que em exclusivo acedem os que em definitivo entenderam já aquilo que equivale a ser. E até isso lhes agradecemos, até isso lhes invejamos.

Mário Cláudio
Expresso
2006

quarta-feira, 25 de julho de 2007

O teu cão morre

é atropelado por uma carrinha.
encontra-lo na berma da estrada
e enterra-lo.
sentes-te mal com isso.
sentes-te mal por ti mesmo,
mas sentes-te pior pela tua filha
porque era a sua mascote
muito adorada.
ela costumava embalá-lo
e deixá-lo dormir na sua cama.
escreves um poema sobre o assunto.
chamas-lhe um poema para a tua filha,
sobre o atropelamento do cão por uma carrinha
e o modo como cuidaste dele,
o levaste para o bosque
e o enterraste fundo, fundo,
e o poema resulta tão bem
que quase te alegras por o cão
ter sido atropelado, de outro modo
nunca terias escrito esse bom poema.
então sentas-te para escrever
um poema sobre escrever um poema
acerca da morte do tal cão,
mas enquanto o escreves
ouves uma mulher gritar
o teu nome, o teu primeiro nome,
ambas as sílabas,
e o teu coração pára.
passado um minuto, continuas a escrever.
ela volta a gritar.
perguntas-te quanto tempo pode isto durar.

Raymond Carver

Tradução e oferta de Rute Mota.

terça-feira, 24 de julho de 2007

ADAM & THE ANTS - «Dog Eat Dog»

UIVOS

Passam os dias e os anos, a vida corre
e a gente não sabe por que vive...
Passam os dias e os anos, a morte chega
e a gente não sabe por que morre.
E um dia o homem põe-se a chorar sem mais nem menos,
sem saber por que chora...
e o que significa uma lágrima.
E tão-pouco alguém por si o sabe.
E quando mais tarde a gente abala para sempre,
sem saber quem é
nem o que veio cá fazer...
pensa que talvez tenha vindo apenas chorar
e uivar como um cão...
pelo cão de ontem que se foi,
pelo cão de amanhã que virá
e partirá também sem saber para onde
e por todos os pobres cães mortos do mundo.
Porque: não é o homem um pobre cão perdido e solitário sem dono e sem domicilio conhecido?...
E não pode o Homem chorar e uivar no Vento
sem mais nem menos... porque sim
como uiva o mar... Por que uiva o mar?
Senhor Arcipreste... por que uiva o mar?


León Felipe
O Sapateiro de Van Gogh (original de El Ciervo y otros poemas)
tradução de Rui Caeiro
&etc, 1993


Oferecido por Rui Almeida.

O CÃO E O FRASCO

«-- Meu lindo cãozinho, meu bom cãozinho, meu querido totó, aproxima-te e vem respirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade.»
E o cão, agitando a cauda, o que é, creio eu, nestes pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e pousa curiosamente o focinho húmido sobre o frasco desarrolhado; depois, recuando com repentino receio, ladra voltado para mim, à maneira de censura.
«-- Ah! cachorro execrável, se eu te houvesse presenteado com um pacote de excrementos, tê-lo-ias farejado com delícia e talvez devorado. Assim, também tu, indigno companheiro da minha triste vida, és semelhante ao público, ao qual nunca se podem apresentar perfumes requintados que o exasperam, mas sim porcarias cuidadosamente escolhidas.»

Charles Baudelaire
O Spleen de Paris
Trad. António Pinheiro Guimarães

OS GUIZOS DO CÃO DE CAÇA

(Lo Leng)

1.
Cão de caça faz lim! lim!
Seu dono é belo e bem feito

2.
Tem o cão duas argolas;
Belas suíças tem o dono.

3.
Leva o cão dupla coleira;
Linda barba leva o dono.


Livro dos Cantares
tradução de Joaquim A. Guerra, S. J.
1979


Oferecido por Rui Almeida.

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