Antologia de textos com cães dentro.

terça-feira, 25 de setembro de 2007


CÃO – Apelido que deve ter origem em alcunha, o mais antigo individuo que nos aparece documentalmente a usá-lo é um tal Gonçalo Cão, contemporâneo de D. João I. pretendem alguns autores fazer descender aquele Gonçalo de um fidalgo do século XIII que aparece alcunhado nos Livros Velhos de Linhagens com o epíteto de Pestanas de Cão, o que não é comprovável. O tronco documentado desta família surge-nos com Diogo Cão, que foi escudeiro e cavaleiro da Casa do Infante D. Henrique. Ao que parece nauta experimentado, viajou duas vezes à descoberta da costa africana, em 1482 e 1484, feitos que foram recompensados pelo Príncipe Perfeito com uma Carta de mercê de armas novas, com as seguintes: de verde, com dois padrões de prata rematados cada um por uma cruz de azul, firmados em dois montes moventes de um terrado, tudo de sua cor. Timbre: os dois padrões passados em aspa a atados de verde.

Manuel de Sousa
As Origens dos Apelidos das Famílias Portuguesas
2001

Oferecido por Rui Almeida.

POEMA DO CÃO AO ENTARDECER

Um cão no areal corria presto.
Presto corria o cão no areal deserto.


Era ao entardecer, e o cão corria presto
no areal deserto.


Corria em linha recta, presto, presto,
pela orla do mar.
pela orla do mar, em linha recta,
presto, o cão.


Era ao entardecer.
No areal as águas derramadas
nas angústias do mar
lambuzavam de espuma as patas automáticas
do cão que presto, presto, corria em linha recta
pela orla do mar.


Sem princípio nem fim, em linha recta,
pela orla hora espessa, peganhenta e húmida,
em que um resto de luz no espasmo da agonia
geme nas coisas e empasta-as como goma.
No espaço diluído, esfumado e cinzento,
corria presto o cão no areal deserto.
Corria em linha recta, presto, presto,
definindo uma forma movediça
que perfurava a névoa e prosseguia
pela orla do mar, em linha recta,
focinho levantado, olhos estáticos,
fixando o breve ponto onde se encontram
além de todo o longe
as rectas que se dizem paralelas.


Alternavam-se as patas na cadência,
na cadência ritmada do movimento presto,
deixando no areal as marcas do contacto.
Presto, presto.


Como se um desejo o chamasse, corria presto o cão
no areal deserto.
O ritmo sempre igual, a língua pendurada,
os olhos como brocas, furadores de distâncias.


Em seu último espasmo a luz enrodilhou
o cão, o mar, o céu, o próximo e o distante.
Era um suposto cão correndo presto, presto,
num suposto areal, realmente deserto,
por uma linha recta mais suposta
que o areal e o mar.
mas presto, presto, sempre presto, presto,
correndo o cão no areal deserto.


António Gedeão
Poemas póstumos
1984


Oferecido por Rui Almeida.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

ADÃO E EVA NO PARAÍSO (fragmento)

[...] E que valiam as garras de Adão, mesmo aliadas às garras de Eva, contra esses pavorosos leões do Jardim das Delícias a que a Zoologia, ainda hoje, arrepiada, chama o Leo Anticus? Ou contra a hiena-espeleia tão ousada, que, nos primeiros dias do Génesis, os anjos, quando desciam ao Paraíso, caminhavam sempre com as asas arregaçadas, para que ela, saltando de entre os bambus, lhes não arrancasse as penas refulgentes? Ou contra os cães, os horrendos cães do paraíso, que, atacando em cerradas e ululantes hostes, foram, nesses começos do homem, os piores inimigos do homem?

[...]

Outros gostos e modos de Eva o irritam também: e por vezes, com uma desumanidade que é já toda humana, nosso Pai arrebata pelos cabelos a sua fêmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim um furor o tomou, uma tarde, avistando, no regaço de Eva, sentada diante da fogueira, um cachorrinho mole e trôpego, que ela, com carinho e paciência, ensinava a sugar numa febra de carne fresca. À beira da fonte descobrira o cachorrinho perdido e ganindo; e muito mansamente o recolhera, o aquecera, o alimentara, com uma sensação que lhe era doce, e lhe abria na espessa boca, ainda mal sabedora de sorrir, um sorriso de maternidade. Nosso pai venerável, com as pupilas a reluzir, atira a garra, quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva defende o animal pequenino, que treme e que a lambe. O primeiro sentimento de caridade, informe como a primeira flor que brotou dos limos, aparece na Terra! E, com as curtas e roucas vozes que eram o falar de nossos Pais, Eva tenta talvez afiançar que será útil, na caverna do homem, a amizade de um bicho... Adão puxa o beiço trombudo. Depois, em silêncio, mansamente, corre os dedos pelo lombo macio do cachorrinho encolhido. E este é, na história, um momento espantoso! Eis que o homem domestica o animal! Desse cachorro agasalhado no Paraíso nascerá o cão amigo, por ele a aliança com o cavalo, depois o domínio sobre a ovelha. O rebanho crescerá; o pastor o levará; o cão fiel o guardará. Eva, da beira do seu lume, prepara os povos errantes que pastoreiam os gados.
[...]

Eça de Queiroz
Adão e Eva no Paraíso
1897
Oferecido por Rui Almeida.

O CÃO

(ao Clóvis)

1.

Um cão é por vezes
uma parábola, um conto, uma quimera
diferente do gato por ter a mais
o latido negro e o olhar raiado
de anos
de sangue e de histórias pavorosas.

Tanto cansaço
por um cão! Porque o dia
desfaz-se em pedaços
e subjuga-nos
e já nada é lonjura
limite, precaução
na memória.

Lovecraft
teria tido um cão?
E o cão de Rilke
forma desenhada
exercitando o estro
do seu dono ausente?
Qual o nome
do cão de Diana caçadora?
Não o preferido, o outro
que falhava perdizes e raposas
se adregava de quedar-se
no bosque prematuro
a mijar na caruma, contemplando
lá no alto uma brusca ameaça de luz.

Cão - recorte
de muitas linhas
que se confundem
estranhamente
na ardósia efémera
uma e outra vez
- nada nos dirá nunca
com seu focinho liberto
e sonolento.

2.

“Ninguém para mim morre. Sempre haverá
o movimento que foram e não foram
os homens, as flores, o infinito.

Celebro
não apenas o instante
mas o véu que nos dá
obras e paixões.

Inscrição sobre um muro
que se impõe, silenciosa
como se nela entrasse
o perene sussurro
da mais pura tristeza.

Unindo eternamente
olhos, vozes, planetas”.


in Os objectos inquietantes
nicolau saião


Oferecido pelo próprio.

domingo, 9 de setembro de 2007

O CÃO QUE ERA MORFINÓMANO

Já me deitei. O enfermeiro dorme na minha alcova, numa cama próxima à porta. Deu-me já a última injecção do dia – e só amanhã de manhã, às nove horas – primeiro decreto do ditador que me quer salvar – volto a picar-me. Raras vezes, no meio da noite, eu sentia o termocautério da falta de morfina; e quando tal sucedia – era sempre na noite de domingo para segunda-feira – ou seja, quando, esgotada a reserva de sábado, eu sabia que só na manhã seguinte a poderia obter, legalmente... Nessas madrugadas de pesadelo, erguia-me, com bravezas de esfomeado que se revolta, e deambulava pela cidade, alvoroçando os outros morfinómanos conhecidos, esmolando-lhes umas pepitas de tóxico.
Precisamente por eu saber que estou agora sujeito a um regime severo, inviolável – é que a falta da droga começa a aguilhoar-me...
Só amanhã! Só amanhã! Remexo-me no leito – e sofro, como um enterrado-vivo, a estreiteza do ataúde, ou como um alienado furioso o apertão da camisa-de-forças. Se não tivesse sido hoje; se eu gozasse ainda a autonomia do meu morfinismo – bastava estender a mão, tactear o tampo da mesa-de-cabeceira – e logo encontraria a agulha, a seringa, o frasco da droga...
A chuva continua a fustigar as vidraças – e eu enervo-me, na insónia, prelúdio de outras mais – oh! , quanto mais! – asfixiantes do que esta! Vasculho, na memória, reminiscências amáveis – como um convalescente, saturado de tédio, busca na biblioteca livros amenos, romances de Edgar Wallace ou de Rafael Sabatini.
Recordo então uma página de J. Cocteau – o admirável reformador do teatro francês, dramaturgo e publicista, que trouxe para a mise-en-scene e para a literatura o lápis e paleta de Picasso. Cocteau, opionómano, resolvera curar-se e internara-se nessa Lourdes de todos os que aspiram, fumam, bebem ou se picam com estupefacientes, que é Saint-Cloud.
Na vizinhança do seu quarto existia uma morfinómana mundana. O seu isolamento não era absoluto – porque os médicos tinham transigido com um fox-terrier – que vivia na sua alcova, e que ela estremecia mais do que ao amante que lhe custeava o luxo das toilettes e da cura (a cura era também um luxo, para ambos, porque é chique e caro ser-se tratado ou tratar alguém em Saint-Cloud).
Uma tarde, às quatro horas, Cocteau foi sacudido por uma grita histérica. Era a sua vizinha de quarto que ululava como uma fêmea plebeia – ante as contorções agónicas de um filho. Nela, o instinto maternal despertara na adopção do cachorro – que embalava, desde miúdo, com as fantasias de criança mimando uma boneca. E o fox-terrier, envenenado com guloseimas e carícias para racionais – estrebuchava num ataque – como se se debatesse já com a morte.
– Este mártir está sofrendo há mais de uma hora! – informou a dama, borrifando o bicho, que acalentava ao colo, com o duche lento das lágrimas. – É preciso que lhe anestesiemos a agonia!
E numa brusca resolução – desarvorou, corredor fora – seguida por Cocteau que não sabia ao certo o que ela pretendia. Ao chegar ao gabinete do médico de serviço, entrou, suplicando-lhe, numa veemência ruidosa, que estancasse o tormento do moribundo.
– Não sou, positivamente, a pessoa melhor indicada para a atender – visto que não me formei em Veterinária... – retorquiu o médico. – Mas, em suma, dentro dos recursos da minha ciência, farei o que puder .
– Queria que o doutor lhe désse uma injecção de morfina... – explicou a dama, esganiçando-se num choro convulso.
O clínico cedeu – talvez comovido ante a teatralidade daquele pranto. Encheu a seringa e despejou-a na carne do fox-terrier. O cão, ainda não recebera metade do líquido, já se aquietara, num alívio, como se o tivessem arrancado à bocarra de um lobo. Adormecendo a seguir, recolheu ao quarto, ao macio colo da dona – talvez invejado por Cocteau que não perdia um detalhe do episódio.
...No dia seguinte, pouco antes de soarem as quatro horas – a hora em que o cão fora injectado na véspera – Cocteau surpreende-o a arranhar a porta do médico de serviço, a suplicar, em ganidos ansiosos, que a abrissem. Estava esplêndido, mas queria que lhe dessem outra picadela de morfina...
Dizem que a morfina bestializa os homens! Neste caso humanizou o cão. E nesse instinto de fraternidade maçónica que estreita todos os toxicómanos – senti um arrepio – pensando no pobre bicho – sofrendo já a falta da droga – tal como eu...

Repórter X
Confissões de um ex-morfinómano
1933
Oferecido por Rui Almeida.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

SHAKE DOG SHAKE


The Cure

domingo, 2 de setembro de 2007

MESMO OS NOSSOS SONHOS MAIS EXTRAVAGANTES PODEM SER REALIZADOS

- Caro Feri, aquele terceiro cão não puxa nada bem.
- Infelizmente, o meu chicote é um bocado curto.
- Mas vendo melhor, está também a coxear um pouco.
- Claro que está a coxear, só tem três patas!
- Ah, pois tem... É pena pôr um animal aleijado em frente do carro!
- Ó Ilonka, veja melhor Ilonka. Todos os doze cães têm três pés.
- Oh, coitados!
- Porque não tem pena de mim, Ilonka? Eu percorri todos os esfoladores até que consegui juntar doze cães de três pés.
- Pode ser que não entenda nada do assunto, mas pensava que um cão normal puxa melhor e com mais empenho.
- Não questiono isso. Mas eu sou um verdadeiro citadino. O que faria com doze cães de quatro pés?
- Ó Feri, talvez tenha medo deles?
- Eu tenho medo mesmo da picada de melga. Temos de ter cuidado com as forças da natureza. Digamos que estes cães são de quatro pés. Digamos que ficam descontrolados por alguma razão. Digamos que arrancam o chicote da minha mão... É melhor não pensar nisso, Ilonka!
- Mesmo assim, continuo a não entender. Se receia os cães, por que é que eles puxam o seu carro?
- Porque eu guio mal.
- Isso aprende-se.
- Mais ou menos, Ilonka... O carro e o homem não são partes homólogas.
- Olhe em volta! Não se vê nenhum carro puxado por cães!
- Isso é uma grande pena! Infelizmente, o homem já não é capaz de atingir o ritmo do desenvolvimento da técnica. Usar usa, mas na realidade fica atemorizado com ela.
- Eu não tenho medo dos carros.
- Mas este Simca consegue fazer cento e cinquanta quilómetros por hora...
- Não diga isso Feri, eu adoro a velocidade!
- Você é um pouco insaciável. Saímos há dez dias de Budapeste, e olhe, já estamos em Siófok.
- Com doze cães, esse rendimento não me parece grande coisa.
- Claro que não. Só que eu, ainda em Peste, deixei o travão de mão puxado.
- Você não é um pouco cauteloso de mais?
- Todos somos criados exactamente para ter este ritmo.
- Já viu toda esta gente a olhar para nós?
- Estão com inveja.
- Parecem mais admirados.
- Porque vêem que mesmo os nossos mais extravagantes podem ser realizados.

István Örkény
Histórias de 1 minuto, vol.1
Tradução de Piroska Felkai
Cavalo de Ferro
2004

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

O número um consola-me dos demais números.
Um ser humano consola-me de outros seres humanos.
Uma vida consola-me de todas as vidas,
possíveis e impossíveis.

Ter visto uma vez a luz
é como se a tivera visto sempre.
Ter visto uma só vez a luz
consola-me de não mais voltar a vê-la.

Um amor me consola de todos os amores
que tive e que não tive.
Uma mão me consola de todas as mãos
e até um cão me consola de todos os cães.

Só tenho um receio:
que amanhã chegue a consolar-me
mais o zero do que o um.

Roberto Juarroz
Poesia Vertical
Tradução de Arnaldo Saraiva

terça-feira, 28 de agosto de 2007

I WANNA BE YOUR DOG



Iggy & the Stooges
Oferecido por manuel a. domingos.

FÁBULAS FANTÁSTICAS

A CAUDA DA ESFINGE

Um Cão de temperamento taciturno disse para a Cauda:
- Sempre que me zango retesas-te, toda eriçada; quando estou contente abanas-te; quando me assusto escondes-te a coberto do perigo. És demasiado versátil: revelas todas as minhas emoções. A minha ideia é que as caudas servem para dissimular o pensamento. A minha maior ambição é ser tão impassível como a esfinge.
- Meu amigo, deverás reconhecer as leis e as limitações do teu ser - retorquiu a Cauda, com os movimentos apropriados aos sentimentos exprimidos - e tentar sobressair de outra maneira qualquer. A esfinge tem cento e cinquenta razões para a impassibilidade que te falta.
- E quais são elas? - perguntou o Cão.
- Cento e quarenta e nove toneladas de areia em cima da cauda.
- E...?
- E uma cauda de pedra.


O ÁRBITRO DESINTERESSADO

Dois Cães que disputavam um osso sem que nenhum ficasse em vantagem submeteram a decisão da contenda ao juízo de uma Ovelha. Esta foi ouvindo pacientemente as alegações de cada um e, no fim, atirou com o osso para uma lagoa.
- Por que fizeste tu isso? - perguntaram os Cães.
E respondeu a ovelha:
- Porque sou vegetariana.


UMA CONDIÇÃO INDISPENSÁVEL

Um Súbdito, reformista, entregou uma petição ao Rei dos Cães para que este ordenasse que os estranhos, ao encontrarem-se, se tratassem com amizade e compreensão. O Rei fez sair um decreto real nesse sentido e ordenou ao peticionista que o apregoasse por todo o mundo. Contudo, era escorraçado pelos cães do lugar e cruelmente mordido antes de poder cumprir o seu dever.
- Ai! - disse ele. - Agora percebo que a reforma deve ser precedida pela reformação.


OS LOBOS E OS CÃES

- Por que terá de haver conflitos entre nós? - disseram os Lobos às Ovelhas. - Tudo por causa daqueles cães metediços. Mandai-os embora e a paz reinará entre nós.
- Pelos vistos - retorquiram as Ovelhas -, pensais ser tarefa fácil mandar cães embora.


O CÃO E O REFLEXO

Um Cão que atravessava um ribeiro por cima duma prancha viu o seu reflexo na água.
- Grande burro! - gritou - Como te atreves a olhar-me desse modo insolente?
Enfiou uma pata na água e, agarrando naquilo que supôs ser um maxilar do outro cão, sacou um belo pedaço de carne que o filho de um carniceiro havia atirado à água.

Ambrose Bierce
Esopo emendado & outras fábulas fantásticas
Tradução e Prefácio de Fernando Gonçalves
Antígona
1996

PERPÉTUA

Embora tenha já visto melhores dias, a senhora Dona Perpétua de Noronha não se queixava da existência. A pensão do defunto dava-lhe para viver, as rendas dos seus prédios davam para ir vivendo. Amiúde explicava ela aos muitos cães e gatos que albergava em casa residir o segredo da felicidade no equilíbrio, na sobriedade, na justa medida duma boa orientação patrimonial. E os animais obedientemente esperavam a refeição seguinte refreando uma gula sempre adiada. Calcula-se, por isso, a felina incredulidade e a canina indignação quando Dona Perpétua deu de quebrar a sacrossanta trave-mestra de toda uma vida - a medida, o equilíbrio - e começou a empanturrar os bichos com tudo o que há de melhor. Ele era foie gras, ele era bife da vazia, ele era linguado, ele era pão-de-ló. Tanta ou tão pouca foi a fartura que os cães e gatos desconfiaram, crentes natos na última refeição dos condenados. Daí que, um belo dia, Dona Perpétua de Noronha se visse sozinha no seu enorme casarão, rodeada de iguarias a apodrecer nas marmitas, rodeada de solidão e de cheiro a gato escaldado.

Alface
Cuidado com os Rapazes
1995

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

CÃES

Os portões daquela casa sempre fechados
prendiam três enormes cães que nos viam passar.
Morreram ou levaram-nos, a eles e aos donos.
Os portões abertos ressuscitam, anacrónico, o medo.

Pedro Mexia
Em Memória
2000

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Andrei Semionovich cuspiu numa taça com água. A água ficou imediatamente negra. Andrei Semionovich franziu os olhos e olhou com atenção para a taça. A água estava negra. O coração de Andrei Semionovich desatou a bater com força.
Nessa altura, o seu cão acordou. Andrei Semionovich aproximou-se da janela e mergulhou nos seus pensamentos.
De repente, qualquer coisa grande e escura passou como uma rabanada de vento à frente do seu rosto e saiu a voar pela janela. O cão é que tinha voado e pousado, como um corvo, no telhado do edifício que ficava do outro lado da rua. Andrei Semionovich pôs-se de cócoras e começou a uivar.
O camarada Papugaev entrou abruptamente no quarto.
- O que é que tem? Está doente? - perguntou o camarada Papugaev.
Andrei Semionovich mantinha-se em silêncio e esfregava a cara com as mãos.
O camarada Papugaev deitou um olhar à taça que estava em cima da mesa.
- O que é que tem ali dentro? - perguntou a Andrei Semionovich.
- Não sei - disse Andrei Semionovich.
Papugaev volatizou-se instantaneamente. O cão voltou a entrar pela janela, foi deitar-se no lugar habitual e adormeceu.
Andrei Semionovich aproximou-se da mesa, bebeu a taça com água negra.
E fez-se, na alma de Andrei Semionovich, uma grande claridade.

Daniil Harms
Tradução de Sérgio Moita
Crónicas da Razão Louca
Hiena
Julho de 1994

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Coimbra - zona histórica
Oferecido por Rui Almeida.

O CÃO NÃO

to Ferdinand Schmatz
Nenhum cão se chama Não porque, como S. José, todos os cães dizem Sim quando lhes aparece o Anjo em sonhos a dizer-lhes que as cadelas suas noivas vão ter cachorrinhos do Espírito Santo.
Mas houve um cão chamado Não porque achava que não era digno de nada. O Anjo apareceu-lhe em sonhos e deu-lhe um beijo no focinho.
-- És tão bom, Não. Tão bonito. -- disse o Anjo a Não -- A tua noiva vai ter cachorrinhos.
-- Mas eu não tenho noiva. -- disse o Não.
-- A Maria quer ser tua noiva e já está à espera dos teus cachorrinhos.
-- Mas eu não sou digno de entrar na morada da Maria.
-- A Maria acha-te graça. Quer acasalar contigo e ter mais cachorrinhos, todos os cachorrinhos que tu quiseres ter.
-- E os cachorrinhos querem-me a mim?
-- Claro que querem, Não. Porque tu viste a tristeza do Bobi, do Tejo e do Guizos quando os donos os abandonaram.

Adília Lopes
A Bela Acordada
1997

OS CÃES

A menina parecia-se com a vestal de uma estela funerária que há nessa cidade e que tem roupas, embora de pedra, finíssimas. Passava, pela mão da mãe, pela orla do terreiro, no ar denso de trovoada.
Esse terreiro onde se armavam as barracas da feira, agora deserto, varrido com ferocidade pelo vento, na hora nefasta do meio-dia, hora em que é perigoso passar debaixo de certas árvores ou contemplar as fontes, tem apenas alguns troncos como ossos de que brotam cotos carecas.
Dos arredores vinha um cheiro acre a queimadas que invadia as casas de mistura com as películas de cinza como se um grande fogo (daqueles que abatem uma a uma as árvores) rondasse a povoação.
Na areia eriçada e vermelha como pêlo, que as rajadas levantavam e atiravam para longe aos punhados, dois cães rodopiavam voltejando e espojando-se, colados um ao outro, pardos e rafeiros.
Os ganidos de um dos cães feriam o ar cinzento e abstruso como se lhe estivessem a fazer mal. A menina, aflita, gritou à mãe:
- O outro vai matá-lo!
Mas a mãe, embaraçada, calou-a:
- Não. É um cão e uma cadela. Não olhes para lá.
Então a menina tapou os ouvidos.

Adília Lopes
O Decote da Dama de Espadas (romances)
1988

domingo, 19 de agosto de 2007

CÃO DA MORTE


MÃO MORTA

BEWARE OF THE DOG


JAMELIA

SOLILOQUIOS E COMMENTARIOS DE ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO

As mulheres são como as ovelhas. Todas tem a sua volta tres ou quatro lobos que só esperam que esteja longe o cão que as guarda.
Amor meu, não temas. Bem sabes que os lobos são amigos.
E que eu nunca deixo a coleira de pregos, nem de rosnar, junto de ti...

*

A mordedura do cão cura-se com o pelo do mesmo cão. O Amor de uma mulher com outro amor. São pois identicos, a dentada do cão e o amor da mulher...

*

Que o meu coração é um cão vadio?
É. Jamais quiz coleira. Dorme hoje em edredon de penas, amanhã em qualquer patamar de escada. Mas não tem Mulher que o acorrente, nem Ciume a quem pagar imposto.

Albino Forjaz de Sampaio
Mais Além da Morte e do Amor
1922

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

AURORA(S)

«Era um cão com muita teoria»
- explicou-nos, junto ao aquecedor,
na certeza de que Todorov
não frequenta a travessa do Alcaide,
ao Combro. Aurora, Dona Aurora:
guardiã provisória do declínio
(cor-de-laranja, juro) das paredes
ou dos dias - não há diferença.

Fiz questão de tirar eu próprio
do frigorífico a segunda Sagres.
Já houve naquela rua sete auroras
- não é um verso, apenas um dado
estatístico, vindo de quem sabe.
Algumas, como «histórias verdadeiras»,
casaram ou morreram - tanto faz.

O cão, sem nome, aceita o favor
da trela «noite demasiado morta»
(volta a dizer Aurora). É normal,
há coisas que acontecem sob a sombra
desmentida da cidade. Piano, dessa infância
triste, a apodrecer agora numa taberna
colorida. «P'ra mim é tinto» - repetem
já sem clientes os mais pequenos altares.

Enquanto um tecto sobre nós, vazio,
esconjura metáforas e recusa a noite.

Manuel de Freitas
[SIC]
2002

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