(1879 - 1953)
Antologia de textos com cães dentro.
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
O CÃO VIAJANTE
A notícia veio de São Paulo, trazida por Anhembi. Foi o caso que certo cavalheiro de posses – um grã-fino, diz a revista – regressou dos Estados Unidos em companhia de um cachorro de raça, lá adquirido. No aeroporto de Congonhas, diante dos funcionários da Alfândega, houve a abertura de malas, e verificou-se que quatro eram do cachorro: uma com roupas, outra com coleiras e focinheiras; uma terceira com vitaminas, e a última com alimentos especiais.
O comentarista fala na Revolução Francesa, que reagiu contra coisas dêsse gênero, e na Revolução Russa, que reuniu em museu as jóias oferecidas pelos aristocratas a seus cães e cavalos. Expus o caso a um cachorro de minhas relações, chamado Puck, e êle manteve comigo, por meio dos olhos e da cauda saltitante, êste diálogo quase maiêutico, embora às avessas.
– As malas eram quatro, diz você?
– Realmente, meu caro Puck.
– Com certeza eram malinhas à-toa...
– Não consta da notícia, mas presumo que fôssem malas consideráveis.
– E você quer insinuar com isso que cachorro em viagem não tem direito a mala?
– Não é bem assim. Pareceu-me que havia bagagem em excesso para viajante tão sóbrio de natureza, como – não é por estar em sua presença – eu considero o cão.
– E quantas malas tinha o grã-fino? Quarenta?
– A revista não diz, mas é de supor que trouxesse muitas.
– Você acha direito que um homem viaje com quarenta malas (por hipótese) e seu cão não tenha pelo menos quatro?
– Mas veja bem, Puck, o homem é um animal complicado e que se afastou da natureza. Vai a festas noturnas, que exigem equipamento especial; tem reuniões de negócio, de esporte, de amor, de guerra. Compra livros e até os lê. Precisa de tapetes, automóveis, discos, esmalte de unhas e tudo aquilo que vocês, mais felizes, não conhecem ainda, ou desprezam.
– Essas coisas são necessárias à vida?
– São, na medida em que a tornam mais agradável.
– E não seria tempo de estendê-las ao uso pessoal dos cachorros e de outros animais em condições de saboreá-las?
– Teòricamente, talvez. Não acha, porém, que seria caso de estendê-las antes a todos os homens?
– Elas chegam para todos?
– No estado atual da produção, é capaz de não chegarem.
– Então, que adiantaria?
– Pelo que vejo, você tomou partido francamente por sua espécie contra a minha, quando as duas se entendem há milênios.
– Engano, meu caro. O que você enxerga no gesto do grã-fino é a falta de sensibilidade diante da miséria alheia, quando eu enxergo precisamente um comêço tímido de sensibilidade, a abotoar-se como uma florzinha anêmica. Todo êsse cuidado com o cão, um simples cão (pois somos simples, e esta é nossa maior virtude), revela que o homem não está de todo perdido, e já começa a desconfiar da existência do próximo. Por enquanto tem os olhos baixos, e só repara em alguns de nós, de mais pedigree. Amanhã descobrirá as criancinhas, e dia virá em que...
– Êle se estimará a si mesmo, através dos outros?
– Não vou a tanto – resmungou Puck. – Também, você está exigindo demais de seus semelhantes.
Carlos Drummond de Andrade
Fala, amendoeira
1957
O comentarista fala na Revolução Francesa, que reagiu contra coisas dêsse gênero, e na Revolução Russa, que reuniu em museu as jóias oferecidas pelos aristocratas a seus cães e cavalos. Expus o caso a um cachorro de minhas relações, chamado Puck, e êle manteve comigo, por meio dos olhos e da cauda saltitante, êste diálogo quase maiêutico, embora às avessas.
– As malas eram quatro, diz você?
– Realmente, meu caro Puck.
– Com certeza eram malinhas à-toa...
– Não consta da notícia, mas presumo que fôssem malas consideráveis.
– E você quer insinuar com isso que cachorro em viagem não tem direito a mala?
– Não é bem assim. Pareceu-me que havia bagagem em excesso para viajante tão sóbrio de natureza, como – não é por estar em sua presença – eu considero o cão.
– E quantas malas tinha o grã-fino? Quarenta?
– A revista não diz, mas é de supor que trouxesse muitas.
– Você acha direito que um homem viaje com quarenta malas (por hipótese) e seu cão não tenha pelo menos quatro?
– Mas veja bem, Puck, o homem é um animal complicado e que se afastou da natureza. Vai a festas noturnas, que exigem equipamento especial; tem reuniões de negócio, de esporte, de amor, de guerra. Compra livros e até os lê. Precisa de tapetes, automóveis, discos, esmalte de unhas e tudo aquilo que vocês, mais felizes, não conhecem ainda, ou desprezam.
– Essas coisas são necessárias à vida?
– São, na medida em que a tornam mais agradável.
– E não seria tempo de estendê-las ao uso pessoal dos cachorros e de outros animais em condições de saboreá-las?
– Teòricamente, talvez. Não acha, porém, que seria caso de estendê-las antes a todos os homens?
– Elas chegam para todos?
– No estado atual da produção, é capaz de não chegarem.
– Então, que adiantaria?
– Pelo que vejo, você tomou partido francamente por sua espécie contra a minha, quando as duas se entendem há milênios.
– Engano, meu caro. O que você enxerga no gesto do grã-fino é a falta de sensibilidade diante da miséria alheia, quando eu enxergo precisamente um comêço tímido de sensibilidade, a abotoar-se como uma florzinha anêmica. Todo êsse cuidado com o cão, um simples cão (pois somos simples, e esta é nossa maior virtude), revela que o homem não está de todo perdido, e já começa a desconfiar da existência do próximo. Por enquanto tem os olhos baixos, e só repara em alguns de nós, de mais pedigree. Amanhã descobrirá as criancinhas, e dia virá em que...
– Êle se estimará a si mesmo, através dos outros?
– Não vou a tanto – resmungou Puck. – Também, você está exigindo demais de seus semelhantes.
Carlos Drummond de Andrade
Fala, amendoeira
1957
Oferecido por Rui Almeida.
DENIS-ANTOINE CHAUDET
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
EM MEMÓRIA DO MEU CÃO
Sobre o campo fresco
Entre camomilas bravas e serralha
Recordo-te a brincar como criança.
Arfas depois solene,
Vens a correr depois lamber-me as mãos
E bebes a longos haustos a tarde
Mansa como o teu dorso
Mansa como os teus olhos.
Breve companheiro:
Olhava-te entendias-me
E de mim só querias puro afecto.
E te perdi também.
Se és Maltês errante no Além dos cães
Ao Senhor que tudo pode em tais domínios
Pede me seja, um dia, consentido
Entrar
E afagar-te ainda uma outra vez.
1981
Adalberto Alves
O Gume e o Tempo
1982
Entre camomilas bravas e serralha
Recordo-te a brincar como criança.
Arfas depois solene,
Vens a correr depois lamber-me as mãos
E bebes a longos haustos a tarde
Mansa como o teu dorso
Mansa como os teus olhos.
Breve companheiro:
Olhava-te entendias-me
E de mim só querias puro afecto.
E te perdi também.
Se és Maltês errante no Além dos cães
Ao Senhor que tudo pode em tais domínios
Pede me seja, um dia, consentido
Entrar
E afagar-te ainda uma outra vez.
1981
Adalberto Alves
O Gume e o Tempo
1982
terça-feira, 9 de outubro de 2007
mamã
aqui estou
debaixo de terra
com a minha boca
aberta
e
incapaz de dizer
mãe,
e os cães passam a correr e param para mijar
na minha campa; tenho tudo
menos o sol
e o meu fato começa a ficar
estragado
e ontem
o que restava do meu braço
esquerdo desapareceu
resta pouco, como uma harpa
sem cordas.
ao menos um bêbado
na cama com um cigarro
pode ser a causa para 5 carros
dos bombeiros e
33 homens.
eu não
faço
quase
nada.
mas p.s. – Hector Richmond na campa ao
lado só pensa em Mozart e
gomas.
ele é
muito má
companhia.
Charles Bukowski, Crucifix in a Deathhand , 1965
versão de manuel a. domingos
debaixo de terra
com a minha boca
aberta
e
incapaz de dizer
mãe,
e os cães passam a correr e param para mijar
na minha campa; tenho tudo
menos o sol
e o meu fato começa a ficar
estragado
e ontem
o que restava do meu braço
esquerdo desapareceu
resta pouco, como uma harpa
sem cordas.
ao menos um bêbado
na cama com um cigarro
pode ser a causa para 5 carros
dos bombeiros e
33 homens.
eu não
faço
quase
nada.
mas p.s. – Hector Richmond na campa ao
lado só pensa em Mozart e
gomas.
ele é
muito má
companhia.
Charles Bukowski, Crucifix in a Deathhand , 1965
versão de manuel a. domingos
terça-feira, 2 de outubro de 2007
EM LOUVOR E ACIDENTE
VII.
De mastigar os ossos nas sílabas espessas
este cão amargo rói os dias
sob o peso da chuva com a morte
por entre os lábios o marfim das pedras
com a lua a destruir os muros sucessivos
vai latindo. Um rio que passa
tão velho e transparente sacrifício
crescendo nesta sombra de ameaças
e pequenos acidentes de percurso.
É nas súbitas varandas que palavras
neutras ou amigas se recusam
concêntricas circulam e regressam
a espaços mínimos cada vez menores
onde não é possível respirar contigo.
Alberto Soares
Escrito Para A Noite
1984
De mastigar os ossos nas sílabas espessas
este cão amargo rói os dias
sob o peso da chuva com a morte
por entre os lábios o marfim das pedras
com a lua a destruir os muros sucessivos
vai latindo. Um rio que passa
tão velho e transparente sacrifício
crescendo nesta sombra de ameaças
e pequenos acidentes de percurso.
É nas súbitas varandas que palavras
neutras ou amigas se recusam
concêntricas circulam e regressam
a espaços mínimos cada vez menores
onde não é possível respirar contigo.
Alberto Soares
Escrito Para A Noite
1984
domingo, 30 de setembro de 2007
SOB O SIGNO DO CÃO
Piedade pela fome deste cão
por este sangrento pedaço de carne envenenada
Tu sabes não nos prende a piedade
muitas vezes o dissemos muitas vezes
nos perdemos antes de aceitar ficar
nesses corredores sem fim
à volta do mesmo quarto sempre
essas manhãs de lágrimas de repente entrecortadas
por viagens certas velhas casas
E no entanto sou bem eu quem pede
piedade por este cão este pedaço
de sangrenta carne envenenada
Por este rosto macerado
em silêncios de há muito já familiares
por este potro frente à faca
Alguns anos nos separam para que a peças comigo
por este cão faminto pela carne
alguns navios e alguns
litros de álcool no sangue
Eu falo-te da manhã despido por entre o gelo
o corpo aprisionado pelo gelo
é assim que te falo da manhã
Julgo não ter-te dito nunca
que seria sempre verão que se aproxima
no lugar da casa que imagino
tecida enfim à tua volta um dia
Sei que passas com o vento mas que é o vento
que fica afinal dos passos que o atravessam
Nada te peço mais e piso a areia
venho dizer-te ao mar venho perder
a memória nestas ruas vacilantes
e tropeço em ti como num barco
Já te disse tudo - que não posso
dizer-te nada que nãos eja
ainda solidão e não a quebre
Abro ao lume o coração deito-me por terra
fico mais deitado ainda do que à espera
de que bem feitas as contas sempre venhas
Peço piedade por este cão faminto
pelo seu sangrento pedaço de carne envenenada
Por esta palavra que esquece a sua boca
e ao longe de mim fica sem fim a soletrar-te
Miguel Serras Pereira
Corça
Fenda
1982
por este sangrento pedaço de carne envenenada
Tu sabes não nos prende a piedade
muitas vezes o dissemos muitas vezes
nos perdemos antes de aceitar ficar
nesses corredores sem fim
à volta do mesmo quarto sempre
essas manhãs de lágrimas de repente entrecortadas
por viagens certas velhas casas
E no entanto sou bem eu quem pede
piedade por este cão este pedaço
de sangrenta carne envenenada
Por este rosto macerado
em silêncios de há muito já familiares
por este potro frente à faca
Alguns anos nos separam para que a peças comigo
por este cão faminto pela carne
alguns navios e alguns
litros de álcool no sangue
Eu falo-te da manhã despido por entre o gelo
o corpo aprisionado pelo gelo
é assim que te falo da manhã
Julgo não ter-te dito nunca
que seria sempre verão que se aproxima
no lugar da casa que imagino
tecida enfim à tua volta um dia
Sei que passas com o vento mas que é o vento
que fica afinal dos passos que o atravessam
Nada te peço mais e piso a areia
venho dizer-te ao mar venho perder
a memória nestas ruas vacilantes
e tropeço em ti como num barco
Já te disse tudo - que não posso
dizer-te nada que nãos eja
ainda solidão e não a quebre
Abro ao lume o coração deito-me por terra
fico mais deitado ainda do que à espera
de que bem feitas as contas sempre venhas
Peço piedade por este cão faminto
pelo seu sangrento pedaço de carne envenenada
Por esta palavra que esquece a sua boca
e ao longe de mim fica sem fim a soletrar-te
Miguel Serras Pereira
Corça
Fenda
1982
sábado, 29 de setembro de 2007
O JARDINEIRO
Há Políticos e Doutores e Políticos e suas Excelências,
para quem ser Jardineiro é uma humilde e digna profissão.
Podem até achá-la bonita, colorida,
mas para dela, ganharem a vida Não.
No fundo, não dizem mas pensam uma merda de profissão,
isto para ser simples.
Para mim, que não sou poeta,
cuidar das flores,
parece ser a profissão certa,
que no centro de emprego,
tenho mais à mão.
Vamos ver, se, a cuidar das flores,
posso cuidar do ganha pão,
e, como as ideias que saem dos meus botões,
fazer com as flores a Permanente Revolução.
Depois de tirar informação,
acerca desta nova e hipotética profissão,
com um jardineiro municipal,
este informou-me haver um pequeno senão,
na sua lida habitual,
com a merda de cão.
Por isso há que fazer política,
deste meu posto,
como é de se esperar de mim
e, a primeira medida em que estou a pensar;
é pôr o seguinte letreiro, em cada público jardim:
«É EXPRESSAMENTE PROIBIDO NÃO FAZER TODA A
MERDA DOS POLÍTICOS E DOUTORES E POLÍTICOS E
SUAS EXCELENCIAS A NÃO SER MERDA DE CÃO»
Entretanto aguardo notícias do centro de emprego
e vou falando no café de Freud, Profissão
e suspirando com um título!...
Quanto ao sinal stop era a brincar.
Liberato
Manual do desempregado
2007
para quem ser Jardineiro é uma humilde e digna profissão.
Podem até achá-la bonita, colorida,
mas para dela, ganharem a vida Não.
No fundo, não dizem mas pensam uma merda de profissão,
isto para ser simples.
Para mim, que não sou poeta,
cuidar das flores,
parece ser a profissão certa,
que no centro de emprego,
tenho mais à mão.
Vamos ver, se, a cuidar das flores,
posso cuidar do ganha pão,
e, como as ideias que saem dos meus botões,
fazer com as flores a Permanente Revolução.
Depois de tirar informação,
acerca desta nova e hipotética profissão,
com um jardineiro municipal,
este informou-me haver um pequeno senão,
na sua lida habitual,
com a merda de cão.
Por isso há que fazer política,
deste meu posto,
como é de se esperar de mim
e, a primeira medida em que estou a pensar;
é pôr o seguinte letreiro, em cada público jardim:
«É EXPRESSAMENTE PROIBIDO NÃO FAZER TODA A
MERDA DOS POLÍTICOS E DOUTORES E POLÍTICOS E
SUAS EXCELENCIAS A NÃO SER MERDA DE CÃO»
Entretanto aguardo notícias do centro de emprego
e vou falando no café de Freud, Profissão
e suspirando com um título!...
Quanto ao sinal stop era a brincar.
Liberato
Manual do desempregado
2007
terça-feira, 25 de setembro de 2007
CÃES. Satie queria fazer um teatro para cães. O pano sobe. O cenário representa um osso.
*
* *
Em Inglaterra acaba de ser rodado um filme para cães. Os cento e cinquenta cães convidados para a estreia precipitam-se sobre o écran e fazem-no em pedaços (N.Y. Times).
*
* *
Rua La Bruyere, 45, em casa de meu avô grande inimigo dos cães e maníaco de ordem, saio (tinha catorze anos) com um fox de um ano e meio, que mal conseguia que me fosse sendo tolerado em casa. Ao fundo dos degraus brancos do vestíbulo, o meu fox arqueia-se e alivia-se. Eu precipito-me de mão levantada. A angústia dilata os olhos do pobre animal; devora o seu excremento e põe-se depois com o melhor ar que lhe é possível.
*
* *
Na clínica, dão às cinco horas ao velho buldogue moribundo uma injecção mortal de morfina. Uma hora depois, o cão brinca no jardim, salta, rebola. No dia seguinte, às cinco horas, arranha a porta do médico e pede nova injecção.
*
* *
O cão de M.me de C..., em Grasse, apaixonado pela cadela de Marie C..., que mora a alguns quilómetros de distância. Espera pelo autocarro, salta para a plataforma. O jogo é igual no regresso.
*
* *
Tinham vendido, na rua, um cão minúsculo a M.me A. D... Ao entrar em casa, ela põe o cão no chão para ir buscar água. Volta e encontra o cão empoleirado num quadro. Era um rato dentro de uma pele de cão. Com a cólera, conseguira roer as suas falsas patas.
*
* *
O duque de L... pagava aos guarda-portões do castelo para tratarem do seu velho caniche. Um dia chegou de imprevisto. Ao seu encontro corre um cão amarelo que arrasta atrás de si uma pele branca de caniche. Havia três anos que os guarda-portões disfarçavam o próprio cão deles com a pele do morto.
Jean Cocteau
Ópio
Tradução de Miguel Serras Pereira
Difel, 1984
Jean Cocteau
Ópio
Tradução de Miguel Serras Pereira
Difel, 1984
CÃO – Apelido que deve ter origem em alcunha, o mais antigo individuo que nos aparece documentalmente a usá-lo é um tal Gonçalo Cão, contemporâneo de D. João I. pretendem alguns autores fazer descender aquele Gonçalo de um fidalgo do século XIII que aparece alcunhado nos Livros Velhos de Linhagens com o epíteto de Pestanas de Cão, o que não é comprovável. O tronco documentado desta família surge-nos com Diogo Cão, que foi escudeiro e cavaleiro da Casa do Infante D. Henrique. Ao que parece nauta experimentado, viajou duas vezes à descoberta da costa africana, em 1482 e 1484, feitos que foram recompensados pelo Príncipe Perfeito com uma Carta de mercê de armas novas, com as seguintes: de verde, com dois padrões de prata rematados cada um por uma cruz de azul, firmados em dois montes moventes de um terrado, tudo de sua cor. Timbre: os dois padrões passados em aspa a atados de verde.
Manuel de Sousa
As Origens dos Apelidos das Famílias Portuguesas
2001
POEMA DO CÃO AO ENTARDECER
Um cão no areal corria presto.
Presto corria o cão no areal deserto.
Era ao entardecer, e o cão corria presto
no areal deserto.
Corria em linha recta, presto, presto,
pela orla do mar.
pela orla do mar, em linha recta,
presto, o cão.
Era ao entardecer.
No areal as águas derramadas
nas angústias do mar
lambuzavam de espuma as patas automáticas
do cão que presto, presto, corria em linha recta
pela orla do mar.
Sem princípio nem fim, em linha recta,
pela orla hora espessa, peganhenta e húmida,
em que um resto de luz no espasmo da agonia
geme nas coisas e empasta-as como goma.
No espaço diluído, esfumado e cinzento,
corria presto o cão no areal deserto.
Corria em linha recta, presto, presto,
definindo uma forma movediça
que perfurava a névoa e prosseguia
pela orla do mar, em linha recta,
focinho levantado, olhos estáticos,
fixando o breve ponto onde se encontram
além de todo o longe
as rectas que se dizem paralelas.
Alternavam-se as patas na cadência,
na cadência ritmada do movimento presto,
deixando no areal as marcas do contacto.
Presto, presto.
Como se um desejo o chamasse, corria presto o cão
no areal deserto.
O ritmo sempre igual, a língua pendurada,
os olhos como brocas, furadores de distâncias.
Em seu último espasmo a luz enrodilhou
o cão, o mar, o céu, o próximo e o distante.
Era um suposto cão correndo presto, presto,
num suposto areal, realmente deserto,
por uma linha recta mais suposta
que o areal e o mar.
mas presto, presto, sempre presto, presto,
correndo o cão no areal deserto.
António Gedeão
Poemas póstumos
1984
Oferecido por Rui Almeida.
Presto corria o cão no areal deserto.
Era ao entardecer, e o cão corria presto
no areal deserto.
Corria em linha recta, presto, presto,
pela orla do mar.
pela orla do mar, em linha recta,
presto, o cão.
Era ao entardecer.
No areal as águas derramadas
nas angústias do mar
lambuzavam de espuma as patas automáticas
do cão que presto, presto, corria em linha recta
pela orla do mar.
Sem princípio nem fim, em linha recta,
pela orla hora espessa, peganhenta e húmida,
em que um resto de luz no espasmo da agonia
geme nas coisas e empasta-as como goma.
No espaço diluído, esfumado e cinzento,
corria presto o cão no areal deserto.
Corria em linha recta, presto, presto,
definindo uma forma movediça
que perfurava a névoa e prosseguia
pela orla do mar, em linha recta,
focinho levantado, olhos estáticos,
fixando o breve ponto onde se encontram
além de todo o longe
as rectas que se dizem paralelas.
Alternavam-se as patas na cadência,
na cadência ritmada do movimento presto,
deixando no areal as marcas do contacto.
Presto, presto.
Como se um desejo o chamasse, corria presto o cão
no areal deserto.
O ritmo sempre igual, a língua pendurada,
os olhos como brocas, furadores de distâncias.
Em seu último espasmo a luz enrodilhou
o cão, o mar, o céu, o próximo e o distante.
Era um suposto cão correndo presto, presto,
num suposto areal, realmente deserto,
por uma linha recta mais suposta
que o areal e o mar.
mas presto, presto, sempre presto, presto,
correndo o cão no areal deserto.
António Gedeão
Poemas póstumos
1984
Oferecido por Rui Almeida.
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
ADÃO E EVA NO PARAÍSO (fragmento)
[...] E que valiam as garras de Adão, mesmo aliadas às garras de Eva, contra esses pavorosos leões do Jardim das Delícias a que a Zoologia, ainda hoje, arrepiada, chama o Leo Anticus? Ou contra a hiena-espeleia tão ousada, que, nos primeiros dias do Génesis, os anjos, quando desciam ao Paraíso, caminhavam sempre com as asas arregaçadas, para que ela, saltando de entre os bambus, lhes não arrancasse as penas refulgentes? Ou contra os cães, os horrendos cães do paraíso, que, atacando em cerradas e ululantes hostes, foram, nesses começos do homem, os piores inimigos do homem?
[...]
Outros gostos e modos de Eva o irritam também: e por vezes, com uma desumanidade que é já toda humana, nosso Pai arrebata pelos cabelos a sua fêmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim um furor o tomou, uma tarde, avistando, no regaço de Eva, sentada diante da fogueira, um cachorrinho mole e trôpego, que ela, com carinho e paciência, ensinava a sugar numa febra de carne fresca. À beira da fonte descobrira o cachorrinho perdido e ganindo; e muito mansamente o recolhera, o aquecera, o alimentara, com uma sensação que lhe era doce, e lhe abria na espessa boca, ainda mal sabedora de sorrir, um sorriso de maternidade. Nosso pai venerável, com as pupilas a reluzir, atira a garra, quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva defende o animal pequenino, que treme e que a lambe. O primeiro sentimento de caridade, informe como a primeira flor que brotou dos limos, aparece na Terra! E, com as curtas e roucas vozes que eram o falar de nossos Pais, Eva tenta talvez afiançar que será útil, na caverna do homem, a amizade de um bicho... Adão puxa o beiço trombudo. Depois, em silêncio, mansamente, corre os dedos pelo lombo macio do cachorrinho encolhido. E este é, na história, um momento espantoso! Eis que o homem domestica o animal! Desse cachorro agasalhado no Paraíso nascerá o cão amigo, por ele a aliança com o cavalo, depois o domínio sobre a ovelha. O rebanho crescerá; o pastor o levará; o cão fiel o guardará. Eva, da beira do seu lume, prepara os povos errantes que pastoreiam os gados.
[...]
Eça de Queiroz
Adão e Eva no Paraíso
1897
[...]
Outros gostos e modos de Eva o irritam também: e por vezes, com uma desumanidade que é já toda humana, nosso Pai arrebata pelos cabelos a sua fêmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim um furor o tomou, uma tarde, avistando, no regaço de Eva, sentada diante da fogueira, um cachorrinho mole e trôpego, que ela, com carinho e paciência, ensinava a sugar numa febra de carne fresca. À beira da fonte descobrira o cachorrinho perdido e ganindo; e muito mansamente o recolhera, o aquecera, o alimentara, com uma sensação que lhe era doce, e lhe abria na espessa boca, ainda mal sabedora de sorrir, um sorriso de maternidade. Nosso pai venerável, com as pupilas a reluzir, atira a garra, quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva defende o animal pequenino, que treme e que a lambe. O primeiro sentimento de caridade, informe como a primeira flor que brotou dos limos, aparece na Terra! E, com as curtas e roucas vozes que eram o falar de nossos Pais, Eva tenta talvez afiançar que será útil, na caverna do homem, a amizade de um bicho... Adão puxa o beiço trombudo. Depois, em silêncio, mansamente, corre os dedos pelo lombo macio do cachorrinho encolhido. E este é, na história, um momento espantoso! Eis que o homem domestica o animal! Desse cachorro agasalhado no Paraíso nascerá o cão amigo, por ele a aliança com o cavalo, depois o domínio sobre a ovelha. O rebanho crescerá; o pastor o levará; o cão fiel o guardará. Eva, da beira do seu lume, prepara os povos errantes que pastoreiam os gados.
[...]
Eça de Queiroz
Adão e Eva no Paraíso
1897
Oferecido por Rui Almeida.
O CÃO
(ao Clóvis)
1.
Um cão é por vezes
uma parábola, um conto, uma quimera
diferente do gato por ter a mais
o latido negro e o olhar raiado
de anos
de sangue e de histórias pavorosas.
Tanto cansaço
por um cão! Porque o dia
desfaz-se em pedaços
e subjuga-nos
e já nada é lonjura
limite, precaução
na memória.
Lovecraft
teria tido um cão?
E o cão de Rilke
forma desenhada
exercitando o estro
do seu dono ausente?
Qual o nome
do cão de Diana caçadora?
Não o preferido, o outro
que falhava perdizes e raposas
se adregava de quedar-se
no bosque prematuro
a mijar na caruma, contemplando
lá no alto uma brusca ameaça de luz.
Cão - recorte
de muitas linhas
que se confundem
estranhamente
na ardósia efémera
uma e outra vez
- nada nos dirá nunca
com seu focinho liberto
e sonolento.
2.
“Ninguém para mim morre. Sempre haverá
o movimento que foram e não foram
os homens, as flores, o infinito.
Celebro
não apenas o instante
mas o véu que nos dá
obras e paixões.
Inscrição sobre um muro
que se impõe, silenciosa
como se nela entrasse
o perene sussurro
da mais pura tristeza.
Unindo eternamente
olhos, vozes, planetas”.
in Os objectos inquietantes
nicolau saião
Oferecido pelo próprio.
1.
Um cão é por vezes
uma parábola, um conto, uma quimera
diferente do gato por ter a mais
o latido negro e o olhar raiado
de anos
de sangue e de histórias pavorosas.
Tanto cansaço
por um cão! Porque o dia
desfaz-se em pedaços
e subjuga-nos
e já nada é lonjura
limite, precaução
na memória.
Lovecraft
teria tido um cão?
E o cão de Rilke
forma desenhada
exercitando o estro
do seu dono ausente?
Qual o nome
do cão de Diana caçadora?
Não o preferido, o outro
que falhava perdizes e raposas
se adregava de quedar-se
no bosque prematuro
a mijar na caruma, contemplando
lá no alto uma brusca ameaça de luz.
Cão - recorte
de muitas linhas
que se confundem
estranhamente
na ardósia efémera
uma e outra vez
- nada nos dirá nunca
com seu focinho liberto
e sonolento.
2.
“Ninguém para mim morre. Sempre haverá
o movimento que foram e não foram
os homens, as flores, o infinito.
Celebro
não apenas o instante
mas o véu que nos dá
obras e paixões.
Inscrição sobre um muro
que se impõe, silenciosa
como se nela entrasse
o perene sussurro
da mais pura tristeza.
Unindo eternamente
olhos, vozes, planetas”.
in Os objectos inquietantes
nicolau saião
Oferecido pelo próprio.
domingo, 9 de setembro de 2007
O CÃO QUE ERA MORFINÓMANO
Já me deitei. O enfermeiro dorme na minha alcova, numa cama próxima à porta. Deu-me já a última injecção do dia – e só amanhã de manhã, às nove horas – primeiro decreto do ditador que me quer salvar – volto a picar-me. Raras vezes, no meio da noite, eu sentia o termocautério da falta de morfina; e quando tal sucedia – era sempre na noite de domingo para segunda-feira – ou seja, quando, esgotada a reserva de sábado, eu sabia que só na manhã seguinte a poderia obter, legalmente... Nessas madrugadas de pesadelo, erguia-me, com bravezas de esfomeado que se revolta, e deambulava pela cidade, alvoroçando os outros morfinómanos conhecidos, esmolando-lhes umas pepitas de tóxico.
Precisamente por eu saber que estou agora sujeito a um regime severo, inviolável – é que a falta da droga começa a aguilhoar-me...
Só amanhã! Só amanhã! Remexo-me no leito – e sofro, como um enterrado-vivo, a estreiteza do ataúde, ou como um alienado furioso o apertão da camisa-de-forças. Se não tivesse sido hoje; se eu gozasse ainda a autonomia do meu morfinismo – bastava estender a mão, tactear o tampo da mesa-de-cabeceira – e logo encontraria a agulha, a seringa, o frasco da droga...
A chuva continua a fustigar as vidraças – e eu enervo-me, na insónia, prelúdio de outras mais – oh! , quanto mais! – asfixiantes do que esta! Vasculho, na memória, reminiscências amáveis – como um convalescente, saturado de tédio, busca na biblioteca livros amenos, romances de Edgar Wallace ou de Rafael Sabatini.
Recordo então uma página de J. Cocteau – o admirável reformador do teatro francês, dramaturgo e publicista, que trouxe para a mise-en-scene e para a literatura o lápis e paleta de Picasso. Cocteau, opionómano, resolvera curar-se e internara-se nessa Lourdes de todos os que aspiram, fumam, bebem ou se picam com estupefacientes, que é Saint-Cloud.
Na vizinhança do seu quarto existia uma morfinómana mundana. O seu isolamento não era absoluto – porque os médicos tinham transigido com um fox-terrier – que vivia na sua alcova, e que ela estremecia mais do que ao amante que lhe custeava o luxo das toilettes e da cura (a cura era também um luxo, para ambos, porque é chique e caro ser-se tratado ou tratar alguém em Saint-Cloud).
Uma tarde, às quatro horas, Cocteau foi sacudido por uma grita histérica. Era a sua vizinha de quarto que ululava como uma fêmea plebeia – ante as contorções agónicas de um filho. Nela, o instinto maternal despertara na adopção do cachorro – que embalava, desde miúdo, com as fantasias de criança mimando uma boneca. E o fox-terrier, envenenado com guloseimas e carícias para racionais – estrebuchava num ataque – como se se debatesse já com a morte.
– Este mártir está sofrendo há mais de uma hora! – informou a dama, borrifando o bicho, que acalentava ao colo, com o duche lento das lágrimas. – É preciso que lhe anestesiemos a agonia!
E numa brusca resolução – desarvorou, corredor fora – seguida por Cocteau que não sabia ao certo o que ela pretendia. Ao chegar ao gabinete do médico de serviço, entrou, suplicando-lhe, numa veemência ruidosa, que estancasse o tormento do moribundo.
– Não sou, positivamente, a pessoa melhor indicada para a atender – visto que não me formei em Veterinária... – retorquiu o médico. – Mas, em suma, dentro dos recursos da minha ciência, farei o que puder .
– Queria que o doutor lhe désse uma injecção de morfina... – explicou a dama, esganiçando-se num choro convulso.
O clínico cedeu – talvez comovido ante a teatralidade daquele pranto. Encheu a seringa e despejou-a na carne do fox-terrier. O cão, ainda não recebera metade do líquido, já se aquietara, num alívio, como se o tivessem arrancado à bocarra de um lobo. Adormecendo a seguir, recolheu ao quarto, ao macio colo da dona – talvez invejado por Cocteau que não perdia um detalhe do episódio.
...No dia seguinte, pouco antes de soarem as quatro horas – a hora em que o cão fora injectado na véspera – Cocteau surpreende-o a arranhar a porta do médico de serviço, a suplicar, em ganidos ansiosos, que a abrissem. Estava esplêndido, mas queria que lhe dessem outra picadela de morfina...
Dizem que a morfina bestializa os homens! Neste caso humanizou o cão. E nesse instinto de fraternidade maçónica que estreita todos os toxicómanos – senti um arrepio – pensando no pobre bicho – sofrendo já a falta da droga – tal como eu...
Repórter X
Confissões de um ex-morfinómano
1933
Precisamente por eu saber que estou agora sujeito a um regime severo, inviolável – é que a falta da droga começa a aguilhoar-me...
Só amanhã! Só amanhã! Remexo-me no leito – e sofro, como um enterrado-vivo, a estreiteza do ataúde, ou como um alienado furioso o apertão da camisa-de-forças. Se não tivesse sido hoje; se eu gozasse ainda a autonomia do meu morfinismo – bastava estender a mão, tactear o tampo da mesa-de-cabeceira – e logo encontraria a agulha, a seringa, o frasco da droga...
A chuva continua a fustigar as vidraças – e eu enervo-me, na insónia, prelúdio de outras mais – oh! , quanto mais! – asfixiantes do que esta! Vasculho, na memória, reminiscências amáveis – como um convalescente, saturado de tédio, busca na biblioteca livros amenos, romances de Edgar Wallace ou de Rafael Sabatini.
Recordo então uma página de J. Cocteau – o admirável reformador do teatro francês, dramaturgo e publicista, que trouxe para a mise-en-scene e para a literatura o lápis e paleta de Picasso. Cocteau, opionómano, resolvera curar-se e internara-se nessa Lourdes de todos os que aspiram, fumam, bebem ou se picam com estupefacientes, que é Saint-Cloud.
Na vizinhança do seu quarto existia uma morfinómana mundana. O seu isolamento não era absoluto – porque os médicos tinham transigido com um fox-terrier – que vivia na sua alcova, e que ela estremecia mais do que ao amante que lhe custeava o luxo das toilettes e da cura (a cura era também um luxo, para ambos, porque é chique e caro ser-se tratado ou tratar alguém em Saint-Cloud).
Uma tarde, às quatro horas, Cocteau foi sacudido por uma grita histérica. Era a sua vizinha de quarto que ululava como uma fêmea plebeia – ante as contorções agónicas de um filho. Nela, o instinto maternal despertara na adopção do cachorro – que embalava, desde miúdo, com as fantasias de criança mimando uma boneca. E o fox-terrier, envenenado com guloseimas e carícias para racionais – estrebuchava num ataque – como se se debatesse já com a morte.
– Este mártir está sofrendo há mais de uma hora! – informou a dama, borrifando o bicho, que acalentava ao colo, com o duche lento das lágrimas. – É preciso que lhe anestesiemos a agonia!
E numa brusca resolução – desarvorou, corredor fora – seguida por Cocteau que não sabia ao certo o que ela pretendia. Ao chegar ao gabinete do médico de serviço, entrou, suplicando-lhe, numa veemência ruidosa, que estancasse o tormento do moribundo.
– Não sou, positivamente, a pessoa melhor indicada para a atender – visto que não me formei em Veterinária... – retorquiu o médico. – Mas, em suma, dentro dos recursos da minha ciência, farei o que puder .
– Queria que o doutor lhe désse uma injecção de morfina... – explicou a dama, esganiçando-se num choro convulso.
O clínico cedeu – talvez comovido ante a teatralidade daquele pranto. Encheu a seringa e despejou-a na carne do fox-terrier. O cão, ainda não recebera metade do líquido, já se aquietara, num alívio, como se o tivessem arrancado à bocarra de um lobo. Adormecendo a seguir, recolheu ao quarto, ao macio colo da dona – talvez invejado por Cocteau que não perdia um detalhe do episódio.
...No dia seguinte, pouco antes de soarem as quatro horas – a hora em que o cão fora injectado na véspera – Cocteau surpreende-o a arranhar a porta do médico de serviço, a suplicar, em ganidos ansiosos, que a abrissem. Estava esplêndido, mas queria que lhe dessem outra picadela de morfina...
Dizem que a morfina bestializa os homens! Neste caso humanizou o cão. E nesse instinto de fraternidade maçónica que estreita todos os toxicómanos – senti um arrepio – pensando no pobre bicho – sofrendo já a falta da droga – tal como eu...
Repórter X
Confissões de um ex-morfinómano
1933
Oferecido por Rui Almeida.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
domingo, 2 de setembro de 2007
MESMO OS NOSSOS SONHOS MAIS EXTRAVAGANTES PODEM SER REALIZADOS
- Caro Feri, aquele terceiro cão não puxa nada bem.
- Infelizmente, o meu chicote é um bocado curto.
- Mas vendo melhor, está também a coxear um pouco.
- Claro que está a coxear, só tem três patas!
- Ah, pois tem... É pena pôr um animal aleijado em frente do carro!
- Ó Ilonka, veja melhor Ilonka. Todos os doze cães têm três pés.
- Oh, coitados!
- Porque não tem pena de mim, Ilonka? Eu percorri todos os esfoladores até que consegui juntar doze cães de três pés.
- Pode ser que não entenda nada do assunto, mas pensava que um cão normal puxa melhor e com mais empenho.
- Não questiono isso. Mas eu sou um verdadeiro citadino. O que faria com doze cães de quatro pés?
- Ó Feri, talvez tenha medo deles?
- Eu tenho medo mesmo da picada de melga. Temos de ter cuidado com as forças da natureza. Digamos que estes cães são de quatro pés. Digamos que ficam descontrolados por alguma razão. Digamos que arrancam o chicote da minha mão... É melhor não pensar nisso, Ilonka!
- Mesmo assim, continuo a não entender. Se receia os cães, por que é que eles puxam o seu carro?
- Porque eu guio mal.
- Isso aprende-se.
- Mais ou menos, Ilonka... O carro e o homem não são partes homólogas.
- Olhe em volta! Não se vê nenhum carro puxado por cães!
- Isso é uma grande pena! Infelizmente, o homem já não é capaz de atingir o ritmo do desenvolvimento da técnica. Usar usa, mas na realidade fica atemorizado com ela.
- Eu não tenho medo dos carros.
- Mas este Simca consegue fazer cento e cinquanta quilómetros por hora...
- Não diga isso Feri, eu adoro a velocidade!
- Você é um pouco insaciável. Saímos há dez dias de Budapeste, e olhe, já estamos em Siófok.
- Com doze cães, esse rendimento não me parece grande coisa.
- Claro que não. Só que eu, ainda em Peste, deixei o travão de mão puxado.
- Você não é um pouco cauteloso de mais?
- Todos somos criados exactamente para ter este ritmo.
- Já viu toda esta gente a olhar para nós?
- Estão com inveja.
- Parecem mais admirados.
- Porque vêem que mesmo os nossos mais extravagantes podem ser realizados.
István Örkény
Histórias de 1 minuto, vol.1
Tradução de Piroska Felkai
Cavalo de Ferro
2004
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
O número um consola-me dos demais números.
Um ser humano consola-me de outros seres humanos.
Uma vida consola-me de todas as vidas,
possíveis e impossíveis.
Ter visto uma vez a luz
é como se a tivera visto sempre.
Ter visto uma só vez a luz
consola-me de não mais voltar a vê-la.
Um amor me consola de todos os amores
que tive e que não tive.
Uma mão me consola de todas as mãos
e até um cão me consola de todos os cães.
Só tenho um receio:
que amanhã chegue a consolar-me
mais o zero do que o um.
Roberto Juarroz
Poesia Vertical
Tradução de Arnaldo Saraiva
Um ser humano consola-me de outros seres humanos.
Uma vida consola-me de todas as vidas,
possíveis e impossíveis.
Ter visto uma vez a luz
é como se a tivera visto sempre.
Ter visto uma só vez a luz
consola-me de não mais voltar a vê-la.
Um amor me consola de todos os amores
que tive e que não tive.
Uma mão me consola de todas as mãos
e até um cão me consola de todos os cães.
Só tenho um receio:
que amanhã chegue a consolar-me
mais o zero do que o um.
Roberto Juarroz
Poesia Vertical
Tradução de Arnaldo Saraiva
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Etiquetas
- A. M. Pires Cabral
- Abel Neves
- Adalberto Alves
- Adélia Prado
- Adília Lopes
- Adriana Areal Calvet
- Adriana Zapparoli
- Agustina Bessa-Luís
- Aimé Césaire
- Albert Camus
- Alberto Pimenta
- Alberto Soares
- Albino Forjaz de Sampaio
- Alexandre Bonafim
- Alexandre O'Neill
- Alface
- Álvaro de Campos
- Amadeu Baptista
- Ambrose Bierce
- Ana Hatherly
- Anna Swir
- Anne Perrier
- Antonia Pozzi
- António Aleixo
- António Cabrita
- Antonio Gamoneda
- António Gedeão
- António José Forte
- António Manuel Couto Viana
- António Nobre
- António Osório
- Antonio Vivaldi
- Armando Silva Carvalho
- Armindo Rodrigues
- Augusto Baptista
- Azinhal Abelho
- Bernardo Santareno
- Bertolt Brecht
- Boris Vian
- Canção
- Carlos Alberto Machado
- Carlos Bessa
- Carlos de Oliveira
- Carlos Drummond de Andrade
- Carlos Leite
- Carlos Marques Queirós
- Carlos Nejar
- Catarina Santiago Costa
- CÉLINE
- Cesare Pavese
- Charles Baudelaire
- Charles Bukowski
- Charles Fourier
- Cristovam Pavia
- Dalton Trevisan
- Dâmaso Alonso
- Daniel Jonas
- Daniil Harms
- Décio Pignatari
- Dimíter Ánguelov
- Diogo Alcoforado
- Donald Bartheleme
- Eça de Queiroz
- Eduarda Chiote
- Eduardo Galeano
- Eduardo Olímpio
- Eduardo Pitta
- Eduardo White
- Elsa Anahory
- Ensaio
- Eugénio de Andrade
- Fabrício Carpinejar
- Fernando Alves dos Santos
- Fernando Assis Pacheco
- Fernando de Castro Branco
- Fernando Luís Sampaio
- Fernando Machado Silva
- Fernando Pessoa
- Ferreira Gullar
- Fiama Hasse Pais Brandão
- Filipe Guerra
- Francisco Bugalho
- Francisco Duarte Mangas
- Franz Kafka
- Gez Walsh
- Gil de Carvalho
- Goethe
- Gonçalo M. Tavares
- Gottfried Benn
- Guilherme de Azevedo
- Gustave Flaubert
- H. P. Lovecraft
- Hans-Ulrich Treichel
- Heitor Ferraz
- Helder Macedo
- Henrique Manuel Bento Fialho
- Henry David Thoreau
- Herberto Helder
- Hugo Claus
- Hugo Williams
- Imagem
- Inês Lourenço
- Irene Lisboa
- István Örkény
- Jacques Tati
- Javier Tomeo
- Jean Cocteau
- Joan Vergés
- João Almeida
- João Camilo
- João de Deus
- João Habitualmente
- João Miguel Fernandes Jorge
- Joaquim Castro Caldas
- Joaquim Pessoa
- Jonathan Swift
- Jorge de Sena
- Jorge Fallorca
- Jorge Gomes Miranda
- Jorge Roque
- José Agostinho Baptista
- José Alberto Oliveira
- José Ángel Cilleruelo
- José António Almeida
- José Bento
- José Craveirinha
- José Pinto Carneiro
- José Régio
- José Ricardo Nunes
- José Santiago Naud
- José Saramago
- José Sebag
- Juana Castro
- Judith Herzberg
- Júlio Castañon Guimarães
- Júlio Henriques
- Karen Finley
- Khalil Gibran
- León Felipe
- Leonardo Gandolfi
- Liberato
- Livros
- Luís de Camões
- Luís Miguel Nava
- Malcolm Lowry
- manuel a. domingos
- Manuel de Freitas
- Manuel de Seabra
- Manuel de Sousa
- Manuel Moya
- Manuel Resende
- Marcial
- Marcin Sendecki
- Marco Denevi
- Maria da Inquietação Fausto
- Maria Gabriela Llansol
- Maria Velho da Costa
- Marina Tsvetayeva
- Mário Cesariny
- Mário Cláudio
- Mário Contumélias
- Mário-Henrique Leiria
- Mark Twain
- Max Aub
- Miguel Serras Pereira
- Miguel Torga
- Miguel-Manso
- Milton D. Heifetz
- Milton Torres
- Miquel Bauçã
- Miriam Reyes
- Narrativa Estrangeira
- Narrativa Portuguesa
- Natália Correia
- Neil Young
- Nicolau Saião
- Nikolai Gógol
- Nuno Costa Santos
- Nuno Félix da Costa
- Nuno Júdice
- Nuno Moura
- Paolo Buzzi
- Paula Glenadel
- Pedro Homem de Mello
- Pedro Mexia
- Peter Levi
- Pierre Louÿs
- Poesia Estrangeira
- Poesia Portuguesa
- Provérbio
- R. Lino
- Rainer Maria Rilke
- Raul Malaquias Marques
- Raymond Carver
- Rei David
- Renato Suttana
- Repórter X
- Roberto Juarroz
- Rogério Rôla
- Rosa Alice Branco
- Ruben A.
- Rui Baião
- Rui Caeiro
- Rui Carlos Souto
- Rui Costa
- Rui da Costa Lopes
- Rui Knopfli
- Rui Manuel Amaral
- Ruy Belo
- Samuel Beckett
- Sarah Kirsch
- Sergei Yesenin
- Sérgio Godinho
- Silvia Chueire
- Sítios
- Sophia de Mello Breyner Andresen
- Tomas Tranströmer
- Urbino de San-Payo
- valter hugo mãe
- Vasco Costa Marques
- Vergílio Ferreira
- Vídeo
- Vinicius de Moraes
- Vitorino Nemésio
- Vladimir Maiakovski
- Wil Tirion
- Wladimir Saldanha
