aqui estou
debaixo de terra
com a minha boca
aberta
e
incapaz de dizer
mãe,
e os cães passam a correr e param para mijar
na minha campa; tenho tudo
menos o sol
e o meu fato começa a ficar
estragado
e ontem
o que restava do meu braço
esquerdo desapareceu
resta pouco, como uma harpa
sem cordas.
ao menos um bêbado
na cama com um cigarro
pode ser a causa para 5 carros
dos bombeiros e
33 homens.
eu não
faço
quase
nada.
mas p.s. – Hector Richmond na campa ao
lado só pensa em Mozart e
gomas.
ele é
muito má
companhia.
Charles Bukowski, Crucifix in a Deathhand , 1965
versão de manuel a. domingos
Antologia de textos com cães dentro.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
terça-feira, 2 de outubro de 2007
EM LOUVOR E ACIDENTE
VII.
De mastigar os ossos nas sílabas espessas
este cão amargo rói os dias
sob o peso da chuva com a morte
por entre os lábios o marfim das pedras
com a lua a destruir os muros sucessivos
vai latindo. Um rio que passa
tão velho e transparente sacrifício
crescendo nesta sombra de ameaças
e pequenos acidentes de percurso.
É nas súbitas varandas que palavras
neutras ou amigas se recusam
concêntricas circulam e regressam
a espaços mínimos cada vez menores
onde não é possível respirar contigo.
Alberto Soares
Escrito Para A Noite
1984
De mastigar os ossos nas sílabas espessas
este cão amargo rói os dias
sob o peso da chuva com a morte
por entre os lábios o marfim das pedras
com a lua a destruir os muros sucessivos
vai latindo. Um rio que passa
tão velho e transparente sacrifício
crescendo nesta sombra de ameaças
e pequenos acidentes de percurso.
É nas súbitas varandas que palavras
neutras ou amigas se recusam
concêntricas circulam e regressam
a espaços mínimos cada vez menores
onde não é possível respirar contigo.
Alberto Soares
Escrito Para A Noite
1984
domingo, 30 de setembro de 2007
SOB O SIGNO DO CÃO
Piedade pela fome deste cão
por este sangrento pedaço de carne envenenada
Tu sabes não nos prende a piedade
muitas vezes o dissemos muitas vezes
nos perdemos antes de aceitar ficar
nesses corredores sem fim
à volta do mesmo quarto sempre
essas manhãs de lágrimas de repente entrecortadas
por viagens certas velhas casas
E no entanto sou bem eu quem pede
piedade por este cão este pedaço
de sangrenta carne envenenada
Por este rosto macerado
em silêncios de há muito já familiares
por este potro frente à faca
Alguns anos nos separam para que a peças comigo
por este cão faminto pela carne
alguns navios e alguns
litros de álcool no sangue
Eu falo-te da manhã despido por entre o gelo
o corpo aprisionado pelo gelo
é assim que te falo da manhã
Julgo não ter-te dito nunca
que seria sempre verão que se aproxima
no lugar da casa que imagino
tecida enfim à tua volta um dia
Sei que passas com o vento mas que é o vento
que fica afinal dos passos que o atravessam
Nada te peço mais e piso a areia
venho dizer-te ao mar venho perder
a memória nestas ruas vacilantes
e tropeço em ti como num barco
Já te disse tudo - que não posso
dizer-te nada que nãos eja
ainda solidão e não a quebre
Abro ao lume o coração deito-me por terra
fico mais deitado ainda do que à espera
de que bem feitas as contas sempre venhas
Peço piedade por este cão faminto
pelo seu sangrento pedaço de carne envenenada
Por esta palavra que esquece a sua boca
e ao longe de mim fica sem fim a soletrar-te
Miguel Serras Pereira
Corça
Fenda
1982
por este sangrento pedaço de carne envenenada
Tu sabes não nos prende a piedade
muitas vezes o dissemos muitas vezes
nos perdemos antes de aceitar ficar
nesses corredores sem fim
à volta do mesmo quarto sempre
essas manhãs de lágrimas de repente entrecortadas
por viagens certas velhas casas
E no entanto sou bem eu quem pede
piedade por este cão este pedaço
de sangrenta carne envenenada
Por este rosto macerado
em silêncios de há muito já familiares
por este potro frente à faca
Alguns anos nos separam para que a peças comigo
por este cão faminto pela carne
alguns navios e alguns
litros de álcool no sangue
Eu falo-te da manhã despido por entre o gelo
o corpo aprisionado pelo gelo
é assim que te falo da manhã
Julgo não ter-te dito nunca
que seria sempre verão que se aproxima
no lugar da casa que imagino
tecida enfim à tua volta um dia
Sei que passas com o vento mas que é o vento
que fica afinal dos passos que o atravessam
Nada te peço mais e piso a areia
venho dizer-te ao mar venho perder
a memória nestas ruas vacilantes
e tropeço em ti como num barco
Já te disse tudo - que não posso
dizer-te nada que nãos eja
ainda solidão e não a quebre
Abro ao lume o coração deito-me por terra
fico mais deitado ainda do que à espera
de que bem feitas as contas sempre venhas
Peço piedade por este cão faminto
pelo seu sangrento pedaço de carne envenenada
Por esta palavra que esquece a sua boca
e ao longe de mim fica sem fim a soletrar-te
Miguel Serras Pereira
Corça
Fenda
1982
sábado, 29 de setembro de 2007
O JARDINEIRO
Há Políticos e Doutores e Políticos e suas Excelências,
para quem ser Jardineiro é uma humilde e digna profissão.
Podem até achá-la bonita, colorida,
mas para dela, ganharem a vida Não.
No fundo, não dizem mas pensam uma merda de profissão,
isto para ser simples.
Para mim, que não sou poeta,
cuidar das flores,
parece ser a profissão certa,
que no centro de emprego,
tenho mais à mão.
Vamos ver, se, a cuidar das flores,
posso cuidar do ganha pão,
e, como as ideias que saem dos meus botões,
fazer com as flores a Permanente Revolução.
Depois de tirar informação,
acerca desta nova e hipotética profissão,
com um jardineiro municipal,
este informou-me haver um pequeno senão,
na sua lida habitual,
com a merda de cão.
Por isso há que fazer política,
deste meu posto,
como é de se esperar de mim
e, a primeira medida em que estou a pensar;
é pôr o seguinte letreiro, em cada público jardim:
«É EXPRESSAMENTE PROIBIDO NÃO FAZER TODA A
MERDA DOS POLÍTICOS E DOUTORES E POLÍTICOS E
SUAS EXCELENCIAS A NÃO SER MERDA DE CÃO»
Entretanto aguardo notícias do centro de emprego
e vou falando no café de Freud, Profissão
e suspirando com um título!...
Quanto ao sinal stop era a brincar.
Liberato
Manual do desempregado
2007
para quem ser Jardineiro é uma humilde e digna profissão.
Podem até achá-la bonita, colorida,
mas para dela, ganharem a vida Não.
No fundo, não dizem mas pensam uma merda de profissão,
isto para ser simples.
Para mim, que não sou poeta,
cuidar das flores,
parece ser a profissão certa,
que no centro de emprego,
tenho mais à mão.
Vamos ver, se, a cuidar das flores,
posso cuidar do ganha pão,
e, como as ideias que saem dos meus botões,
fazer com as flores a Permanente Revolução.
Depois de tirar informação,
acerca desta nova e hipotética profissão,
com um jardineiro municipal,
este informou-me haver um pequeno senão,
na sua lida habitual,
com a merda de cão.
Por isso há que fazer política,
deste meu posto,
como é de se esperar de mim
e, a primeira medida em que estou a pensar;
é pôr o seguinte letreiro, em cada público jardim:
«É EXPRESSAMENTE PROIBIDO NÃO FAZER TODA A
MERDA DOS POLÍTICOS E DOUTORES E POLÍTICOS E
SUAS EXCELENCIAS A NÃO SER MERDA DE CÃO»
Entretanto aguardo notícias do centro de emprego
e vou falando no café de Freud, Profissão
e suspirando com um título!...
Quanto ao sinal stop era a brincar.
Liberato
Manual do desempregado
2007
terça-feira, 25 de setembro de 2007
CÃES. Satie queria fazer um teatro para cães. O pano sobe. O cenário representa um osso.
*
* *
Em Inglaterra acaba de ser rodado um filme para cães. Os cento e cinquenta cães convidados para a estreia precipitam-se sobre o écran e fazem-no em pedaços (N.Y. Times).
*
* *
Rua La Bruyere, 45, em casa de meu avô grande inimigo dos cães e maníaco de ordem, saio (tinha catorze anos) com um fox de um ano e meio, que mal conseguia que me fosse sendo tolerado em casa. Ao fundo dos degraus brancos do vestíbulo, o meu fox arqueia-se e alivia-se. Eu precipito-me de mão levantada. A angústia dilata os olhos do pobre animal; devora o seu excremento e põe-se depois com o melhor ar que lhe é possível.
*
* *
Na clínica, dão às cinco horas ao velho buldogue moribundo uma injecção mortal de morfina. Uma hora depois, o cão brinca no jardim, salta, rebola. No dia seguinte, às cinco horas, arranha a porta do médico e pede nova injecção.
*
* *
O cão de M.me de C..., em Grasse, apaixonado pela cadela de Marie C..., que mora a alguns quilómetros de distância. Espera pelo autocarro, salta para a plataforma. O jogo é igual no regresso.
*
* *
Tinham vendido, na rua, um cão minúsculo a M.me A. D... Ao entrar em casa, ela põe o cão no chão para ir buscar água. Volta e encontra o cão empoleirado num quadro. Era um rato dentro de uma pele de cão. Com a cólera, conseguira roer as suas falsas patas.
*
* *
O duque de L... pagava aos guarda-portões do castelo para tratarem do seu velho caniche. Um dia chegou de imprevisto. Ao seu encontro corre um cão amarelo que arrasta atrás de si uma pele branca de caniche. Havia três anos que os guarda-portões disfarçavam o próprio cão deles com a pele do morto.
Jean Cocteau
Ópio
Tradução de Miguel Serras Pereira
Difel, 1984
Jean Cocteau
Ópio
Tradução de Miguel Serras Pereira
Difel, 1984
CÃO – Apelido que deve ter origem em alcunha, o mais antigo individuo que nos aparece documentalmente a usá-lo é um tal Gonçalo Cão, contemporâneo de D. João I. pretendem alguns autores fazer descender aquele Gonçalo de um fidalgo do século XIII que aparece alcunhado nos Livros Velhos de Linhagens com o epíteto de Pestanas de Cão, o que não é comprovável. O tronco documentado desta família surge-nos com Diogo Cão, que foi escudeiro e cavaleiro da Casa do Infante D. Henrique. Ao que parece nauta experimentado, viajou duas vezes à descoberta da costa africana, em 1482 e 1484, feitos que foram recompensados pelo Príncipe Perfeito com uma Carta de mercê de armas novas, com as seguintes: de verde, com dois padrões de prata rematados cada um por uma cruz de azul, firmados em dois montes moventes de um terrado, tudo de sua cor. Timbre: os dois padrões passados em aspa a atados de verde.
Manuel de Sousa
As Origens dos Apelidos das Famílias Portuguesas
2001
POEMA DO CÃO AO ENTARDECER
Um cão no areal corria presto.
Presto corria o cão no areal deserto.
Era ao entardecer, e o cão corria presto
no areal deserto.
Corria em linha recta, presto, presto,
pela orla do mar.
pela orla do mar, em linha recta,
presto, o cão.
Era ao entardecer.
No areal as águas derramadas
nas angústias do mar
lambuzavam de espuma as patas automáticas
do cão que presto, presto, corria em linha recta
pela orla do mar.
Sem princípio nem fim, em linha recta,
pela orla hora espessa, peganhenta e húmida,
em que um resto de luz no espasmo da agonia
geme nas coisas e empasta-as como goma.
No espaço diluído, esfumado e cinzento,
corria presto o cão no areal deserto.
Corria em linha recta, presto, presto,
definindo uma forma movediça
que perfurava a névoa e prosseguia
pela orla do mar, em linha recta,
focinho levantado, olhos estáticos,
fixando o breve ponto onde se encontram
além de todo o longe
as rectas que se dizem paralelas.
Alternavam-se as patas na cadência,
na cadência ritmada do movimento presto,
deixando no areal as marcas do contacto.
Presto, presto.
Como se um desejo o chamasse, corria presto o cão
no areal deserto.
O ritmo sempre igual, a língua pendurada,
os olhos como brocas, furadores de distâncias.
Em seu último espasmo a luz enrodilhou
o cão, o mar, o céu, o próximo e o distante.
Era um suposto cão correndo presto, presto,
num suposto areal, realmente deserto,
por uma linha recta mais suposta
que o areal e o mar.
mas presto, presto, sempre presto, presto,
correndo o cão no areal deserto.
António Gedeão
Poemas póstumos
1984
Oferecido por Rui Almeida.
Presto corria o cão no areal deserto.
Era ao entardecer, e o cão corria presto
no areal deserto.
Corria em linha recta, presto, presto,
pela orla do mar.
pela orla do mar, em linha recta,
presto, o cão.
Era ao entardecer.
No areal as águas derramadas
nas angústias do mar
lambuzavam de espuma as patas automáticas
do cão que presto, presto, corria em linha recta
pela orla do mar.
Sem princípio nem fim, em linha recta,
pela orla hora espessa, peganhenta e húmida,
em que um resto de luz no espasmo da agonia
geme nas coisas e empasta-as como goma.
No espaço diluído, esfumado e cinzento,
corria presto o cão no areal deserto.
Corria em linha recta, presto, presto,
definindo uma forma movediça
que perfurava a névoa e prosseguia
pela orla do mar, em linha recta,
focinho levantado, olhos estáticos,
fixando o breve ponto onde se encontram
além de todo o longe
as rectas que se dizem paralelas.
Alternavam-se as patas na cadência,
na cadência ritmada do movimento presto,
deixando no areal as marcas do contacto.
Presto, presto.
Como se um desejo o chamasse, corria presto o cão
no areal deserto.
O ritmo sempre igual, a língua pendurada,
os olhos como brocas, furadores de distâncias.
Em seu último espasmo a luz enrodilhou
o cão, o mar, o céu, o próximo e o distante.
Era um suposto cão correndo presto, presto,
num suposto areal, realmente deserto,
por uma linha recta mais suposta
que o areal e o mar.
mas presto, presto, sempre presto, presto,
correndo o cão no areal deserto.
António Gedeão
Poemas póstumos
1984
Oferecido por Rui Almeida.
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
ADÃO E EVA NO PARAÍSO (fragmento)
[...] E que valiam as garras de Adão, mesmo aliadas às garras de Eva, contra esses pavorosos leões do Jardim das Delícias a que a Zoologia, ainda hoje, arrepiada, chama o Leo Anticus? Ou contra a hiena-espeleia tão ousada, que, nos primeiros dias do Génesis, os anjos, quando desciam ao Paraíso, caminhavam sempre com as asas arregaçadas, para que ela, saltando de entre os bambus, lhes não arrancasse as penas refulgentes? Ou contra os cães, os horrendos cães do paraíso, que, atacando em cerradas e ululantes hostes, foram, nesses começos do homem, os piores inimigos do homem?
[...]
Outros gostos e modos de Eva o irritam também: e por vezes, com uma desumanidade que é já toda humana, nosso Pai arrebata pelos cabelos a sua fêmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim um furor o tomou, uma tarde, avistando, no regaço de Eva, sentada diante da fogueira, um cachorrinho mole e trôpego, que ela, com carinho e paciência, ensinava a sugar numa febra de carne fresca. À beira da fonte descobrira o cachorrinho perdido e ganindo; e muito mansamente o recolhera, o aquecera, o alimentara, com uma sensação que lhe era doce, e lhe abria na espessa boca, ainda mal sabedora de sorrir, um sorriso de maternidade. Nosso pai venerável, com as pupilas a reluzir, atira a garra, quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva defende o animal pequenino, que treme e que a lambe. O primeiro sentimento de caridade, informe como a primeira flor que brotou dos limos, aparece na Terra! E, com as curtas e roucas vozes que eram o falar de nossos Pais, Eva tenta talvez afiançar que será útil, na caverna do homem, a amizade de um bicho... Adão puxa o beiço trombudo. Depois, em silêncio, mansamente, corre os dedos pelo lombo macio do cachorrinho encolhido. E este é, na história, um momento espantoso! Eis que o homem domestica o animal! Desse cachorro agasalhado no Paraíso nascerá o cão amigo, por ele a aliança com o cavalo, depois o domínio sobre a ovelha. O rebanho crescerá; o pastor o levará; o cão fiel o guardará. Eva, da beira do seu lume, prepara os povos errantes que pastoreiam os gados.
[...]
Eça de Queiroz
Adão e Eva no Paraíso
1897
[...]
Outros gostos e modos de Eva o irritam também: e por vezes, com uma desumanidade que é já toda humana, nosso Pai arrebata pelos cabelos a sua fêmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim um furor o tomou, uma tarde, avistando, no regaço de Eva, sentada diante da fogueira, um cachorrinho mole e trôpego, que ela, com carinho e paciência, ensinava a sugar numa febra de carne fresca. À beira da fonte descobrira o cachorrinho perdido e ganindo; e muito mansamente o recolhera, o aquecera, o alimentara, com uma sensação que lhe era doce, e lhe abria na espessa boca, ainda mal sabedora de sorrir, um sorriso de maternidade. Nosso pai venerável, com as pupilas a reluzir, atira a garra, quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva defende o animal pequenino, que treme e que a lambe. O primeiro sentimento de caridade, informe como a primeira flor que brotou dos limos, aparece na Terra! E, com as curtas e roucas vozes que eram o falar de nossos Pais, Eva tenta talvez afiançar que será útil, na caverna do homem, a amizade de um bicho... Adão puxa o beiço trombudo. Depois, em silêncio, mansamente, corre os dedos pelo lombo macio do cachorrinho encolhido. E este é, na história, um momento espantoso! Eis que o homem domestica o animal! Desse cachorro agasalhado no Paraíso nascerá o cão amigo, por ele a aliança com o cavalo, depois o domínio sobre a ovelha. O rebanho crescerá; o pastor o levará; o cão fiel o guardará. Eva, da beira do seu lume, prepara os povos errantes que pastoreiam os gados.
[...]
Eça de Queiroz
Adão e Eva no Paraíso
1897
Oferecido por Rui Almeida.
O CÃO
(ao Clóvis)
1.
Um cão é por vezes
uma parábola, um conto, uma quimera
diferente do gato por ter a mais
o latido negro e o olhar raiado
de anos
de sangue e de histórias pavorosas.
Tanto cansaço
por um cão! Porque o dia
desfaz-se em pedaços
e subjuga-nos
e já nada é lonjura
limite, precaução
na memória.
Lovecraft
teria tido um cão?
E o cão de Rilke
forma desenhada
exercitando o estro
do seu dono ausente?
Qual o nome
do cão de Diana caçadora?
Não o preferido, o outro
que falhava perdizes e raposas
se adregava de quedar-se
no bosque prematuro
a mijar na caruma, contemplando
lá no alto uma brusca ameaça de luz.
Cão - recorte
de muitas linhas
que se confundem
estranhamente
na ardósia efémera
uma e outra vez
- nada nos dirá nunca
com seu focinho liberto
e sonolento.
2.
“Ninguém para mim morre. Sempre haverá
o movimento que foram e não foram
os homens, as flores, o infinito.
Celebro
não apenas o instante
mas o véu que nos dá
obras e paixões.
Inscrição sobre um muro
que se impõe, silenciosa
como se nela entrasse
o perene sussurro
da mais pura tristeza.
Unindo eternamente
olhos, vozes, planetas”.
in Os objectos inquietantes
nicolau saião
Oferecido pelo próprio.
1.
Um cão é por vezes
uma parábola, um conto, uma quimera
diferente do gato por ter a mais
o latido negro e o olhar raiado
de anos
de sangue e de histórias pavorosas.
Tanto cansaço
por um cão! Porque o dia
desfaz-se em pedaços
e subjuga-nos
e já nada é lonjura
limite, precaução
na memória.
Lovecraft
teria tido um cão?
E o cão de Rilke
forma desenhada
exercitando o estro
do seu dono ausente?
Qual o nome
do cão de Diana caçadora?
Não o preferido, o outro
que falhava perdizes e raposas
se adregava de quedar-se
no bosque prematuro
a mijar na caruma, contemplando
lá no alto uma brusca ameaça de luz.
Cão - recorte
de muitas linhas
que se confundem
estranhamente
na ardósia efémera
uma e outra vez
- nada nos dirá nunca
com seu focinho liberto
e sonolento.
2.
“Ninguém para mim morre. Sempre haverá
o movimento que foram e não foram
os homens, as flores, o infinito.
Celebro
não apenas o instante
mas o véu que nos dá
obras e paixões.
Inscrição sobre um muro
que se impõe, silenciosa
como se nela entrasse
o perene sussurro
da mais pura tristeza.
Unindo eternamente
olhos, vozes, planetas”.
in Os objectos inquietantes
nicolau saião
Oferecido pelo próprio.
domingo, 9 de setembro de 2007
O CÃO QUE ERA MORFINÓMANO
Já me deitei. O enfermeiro dorme na minha alcova, numa cama próxima à porta. Deu-me já a última injecção do dia – e só amanhã de manhã, às nove horas – primeiro decreto do ditador que me quer salvar – volto a picar-me. Raras vezes, no meio da noite, eu sentia o termocautério da falta de morfina; e quando tal sucedia – era sempre na noite de domingo para segunda-feira – ou seja, quando, esgotada a reserva de sábado, eu sabia que só na manhã seguinte a poderia obter, legalmente... Nessas madrugadas de pesadelo, erguia-me, com bravezas de esfomeado que se revolta, e deambulava pela cidade, alvoroçando os outros morfinómanos conhecidos, esmolando-lhes umas pepitas de tóxico.
Precisamente por eu saber que estou agora sujeito a um regime severo, inviolável – é que a falta da droga começa a aguilhoar-me...
Só amanhã! Só amanhã! Remexo-me no leito – e sofro, como um enterrado-vivo, a estreiteza do ataúde, ou como um alienado furioso o apertão da camisa-de-forças. Se não tivesse sido hoje; se eu gozasse ainda a autonomia do meu morfinismo – bastava estender a mão, tactear o tampo da mesa-de-cabeceira – e logo encontraria a agulha, a seringa, o frasco da droga...
A chuva continua a fustigar as vidraças – e eu enervo-me, na insónia, prelúdio de outras mais – oh! , quanto mais! – asfixiantes do que esta! Vasculho, na memória, reminiscências amáveis – como um convalescente, saturado de tédio, busca na biblioteca livros amenos, romances de Edgar Wallace ou de Rafael Sabatini.
Recordo então uma página de J. Cocteau – o admirável reformador do teatro francês, dramaturgo e publicista, que trouxe para a mise-en-scene e para a literatura o lápis e paleta de Picasso. Cocteau, opionómano, resolvera curar-se e internara-se nessa Lourdes de todos os que aspiram, fumam, bebem ou se picam com estupefacientes, que é Saint-Cloud.
Na vizinhança do seu quarto existia uma morfinómana mundana. O seu isolamento não era absoluto – porque os médicos tinham transigido com um fox-terrier – que vivia na sua alcova, e que ela estremecia mais do que ao amante que lhe custeava o luxo das toilettes e da cura (a cura era também um luxo, para ambos, porque é chique e caro ser-se tratado ou tratar alguém em Saint-Cloud).
Uma tarde, às quatro horas, Cocteau foi sacudido por uma grita histérica. Era a sua vizinha de quarto que ululava como uma fêmea plebeia – ante as contorções agónicas de um filho. Nela, o instinto maternal despertara na adopção do cachorro – que embalava, desde miúdo, com as fantasias de criança mimando uma boneca. E o fox-terrier, envenenado com guloseimas e carícias para racionais – estrebuchava num ataque – como se se debatesse já com a morte.
– Este mártir está sofrendo há mais de uma hora! – informou a dama, borrifando o bicho, que acalentava ao colo, com o duche lento das lágrimas. – É preciso que lhe anestesiemos a agonia!
E numa brusca resolução – desarvorou, corredor fora – seguida por Cocteau que não sabia ao certo o que ela pretendia. Ao chegar ao gabinete do médico de serviço, entrou, suplicando-lhe, numa veemência ruidosa, que estancasse o tormento do moribundo.
– Não sou, positivamente, a pessoa melhor indicada para a atender – visto que não me formei em Veterinária... – retorquiu o médico. – Mas, em suma, dentro dos recursos da minha ciência, farei o que puder .
– Queria que o doutor lhe désse uma injecção de morfina... – explicou a dama, esganiçando-se num choro convulso.
O clínico cedeu – talvez comovido ante a teatralidade daquele pranto. Encheu a seringa e despejou-a na carne do fox-terrier. O cão, ainda não recebera metade do líquido, já se aquietara, num alívio, como se o tivessem arrancado à bocarra de um lobo. Adormecendo a seguir, recolheu ao quarto, ao macio colo da dona – talvez invejado por Cocteau que não perdia um detalhe do episódio.
...No dia seguinte, pouco antes de soarem as quatro horas – a hora em que o cão fora injectado na véspera – Cocteau surpreende-o a arranhar a porta do médico de serviço, a suplicar, em ganidos ansiosos, que a abrissem. Estava esplêndido, mas queria que lhe dessem outra picadela de morfina...
Dizem que a morfina bestializa os homens! Neste caso humanizou o cão. E nesse instinto de fraternidade maçónica que estreita todos os toxicómanos – senti um arrepio – pensando no pobre bicho – sofrendo já a falta da droga – tal como eu...
Repórter X
Confissões de um ex-morfinómano
1933
Precisamente por eu saber que estou agora sujeito a um regime severo, inviolável – é que a falta da droga começa a aguilhoar-me...
Só amanhã! Só amanhã! Remexo-me no leito – e sofro, como um enterrado-vivo, a estreiteza do ataúde, ou como um alienado furioso o apertão da camisa-de-forças. Se não tivesse sido hoje; se eu gozasse ainda a autonomia do meu morfinismo – bastava estender a mão, tactear o tampo da mesa-de-cabeceira – e logo encontraria a agulha, a seringa, o frasco da droga...
A chuva continua a fustigar as vidraças – e eu enervo-me, na insónia, prelúdio de outras mais – oh! , quanto mais! – asfixiantes do que esta! Vasculho, na memória, reminiscências amáveis – como um convalescente, saturado de tédio, busca na biblioteca livros amenos, romances de Edgar Wallace ou de Rafael Sabatini.
Recordo então uma página de J. Cocteau – o admirável reformador do teatro francês, dramaturgo e publicista, que trouxe para a mise-en-scene e para a literatura o lápis e paleta de Picasso. Cocteau, opionómano, resolvera curar-se e internara-se nessa Lourdes de todos os que aspiram, fumam, bebem ou se picam com estupefacientes, que é Saint-Cloud.
Na vizinhança do seu quarto existia uma morfinómana mundana. O seu isolamento não era absoluto – porque os médicos tinham transigido com um fox-terrier – que vivia na sua alcova, e que ela estremecia mais do que ao amante que lhe custeava o luxo das toilettes e da cura (a cura era também um luxo, para ambos, porque é chique e caro ser-se tratado ou tratar alguém em Saint-Cloud).
Uma tarde, às quatro horas, Cocteau foi sacudido por uma grita histérica. Era a sua vizinha de quarto que ululava como uma fêmea plebeia – ante as contorções agónicas de um filho. Nela, o instinto maternal despertara na adopção do cachorro – que embalava, desde miúdo, com as fantasias de criança mimando uma boneca. E o fox-terrier, envenenado com guloseimas e carícias para racionais – estrebuchava num ataque – como se se debatesse já com a morte.
– Este mártir está sofrendo há mais de uma hora! – informou a dama, borrifando o bicho, que acalentava ao colo, com o duche lento das lágrimas. – É preciso que lhe anestesiemos a agonia!
E numa brusca resolução – desarvorou, corredor fora – seguida por Cocteau que não sabia ao certo o que ela pretendia. Ao chegar ao gabinete do médico de serviço, entrou, suplicando-lhe, numa veemência ruidosa, que estancasse o tormento do moribundo.
– Não sou, positivamente, a pessoa melhor indicada para a atender – visto que não me formei em Veterinária... – retorquiu o médico. – Mas, em suma, dentro dos recursos da minha ciência, farei o que puder .
– Queria que o doutor lhe désse uma injecção de morfina... – explicou a dama, esganiçando-se num choro convulso.
O clínico cedeu – talvez comovido ante a teatralidade daquele pranto. Encheu a seringa e despejou-a na carne do fox-terrier. O cão, ainda não recebera metade do líquido, já se aquietara, num alívio, como se o tivessem arrancado à bocarra de um lobo. Adormecendo a seguir, recolheu ao quarto, ao macio colo da dona – talvez invejado por Cocteau que não perdia um detalhe do episódio.
...No dia seguinte, pouco antes de soarem as quatro horas – a hora em que o cão fora injectado na véspera – Cocteau surpreende-o a arranhar a porta do médico de serviço, a suplicar, em ganidos ansiosos, que a abrissem. Estava esplêndido, mas queria que lhe dessem outra picadela de morfina...
Dizem que a morfina bestializa os homens! Neste caso humanizou o cão. E nesse instinto de fraternidade maçónica que estreita todos os toxicómanos – senti um arrepio – pensando no pobre bicho – sofrendo já a falta da droga – tal como eu...
Repórter X
Confissões de um ex-morfinómano
1933
Oferecido por Rui Almeida.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
domingo, 2 de setembro de 2007
MESMO OS NOSSOS SONHOS MAIS EXTRAVAGANTES PODEM SER REALIZADOS
- Caro Feri, aquele terceiro cão não puxa nada bem.
- Infelizmente, o meu chicote é um bocado curto.
- Mas vendo melhor, está também a coxear um pouco.
- Claro que está a coxear, só tem três patas!
- Ah, pois tem... É pena pôr um animal aleijado em frente do carro!
- Ó Ilonka, veja melhor Ilonka. Todos os doze cães têm três pés.
- Oh, coitados!
- Porque não tem pena de mim, Ilonka? Eu percorri todos os esfoladores até que consegui juntar doze cães de três pés.
- Pode ser que não entenda nada do assunto, mas pensava que um cão normal puxa melhor e com mais empenho.
- Não questiono isso. Mas eu sou um verdadeiro citadino. O que faria com doze cães de quatro pés?
- Ó Feri, talvez tenha medo deles?
- Eu tenho medo mesmo da picada de melga. Temos de ter cuidado com as forças da natureza. Digamos que estes cães são de quatro pés. Digamos que ficam descontrolados por alguma razão. Digamos que arrancam o chicote da minha mão... É melhor não pensar nisso, Ilonka!
- Mesmo assim, continuo a não entender. Se receia os cães, por que é que eles puxam o seu carro?
- Porque eu guio mal.
- Isso aprende-se.
- Mais ou menos, Ilonka... O carro e o homem não são partes homólogas.
- Olhe em volta! Não se vê nenhum carro puxado por cães!
- Isso é uma grande pena! Infelizmente, o homem já não é capaz de atingir o ritmo do desenvolvimento da técnica. Usar usa, mas na realidade fica atemorizado com ela.
- Eu não tenho medo dos carros.
- Mas este Simca consegue fazer cento e cinquanta quilómetros por hora...
- Não diga isso Feri, eu adoro a velocidade!
- Você é um pouco insaciável. Saímos há dez dias de Budapeste, e olhe, já estamos em Siófok.
- Com doze cães, esse rendimento não me parece grande coisa.
- Claro que não. Só que eu, ainda em Peste, deixei o travão de mão puxado.
- Você não é um pouco cauteloso de mais?
- Todos somos criados exactamente para ter este ritmo.
- Já viu toda esta gente a olhar para nós?
- Estão com inveja.
- Parecem mais admirados.
- Porque vêem que mesmo os nossos mais extravagantes podem ser realizados.
István Örkény
Histórias de 1 minuto, vol.1
Tradução de Piroska Felkai
Cavalo de Ferro
2004
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
O número um consola-me dos demais números.
Um ser humano consola-me de outros seres humanos.
Uma vida consola-me de todas as vidas,
possíveis e impossíveis.
Ter visto uma vez a luz
é como se a tivera visto sempre.
Ter visto uma só vez a luz
consola-me de não mais voltar a vê-la.
Um amor me consola de todos os amores
que tive e que não tive.
Uma mão me consola de todas as mãos
e até um cão me consola de todos os cães.
Só tenho um receio:
que amanhã chegue a consolar-me
mais o zero do que o um.
Roberto Juarroz
Poesia Vertical
Tradução de Arnaldo Saraiva
Um ser humano consola-me de outros seres humanos.
Uma vida consola-me de todas as vidas,
possíveis e impossíveis.
Ter visto uma vez a luz
é como se a tivera visto sempre.
Ter visto uma só vez a luz
consola-me de não mais voltar a vê-la.
Um amor me consola de todos os amores
que tive e que não tive.
Uma mão me consola de todas as mãos
e até um cão me consola de todos os cães.
Só tenho um receio:
que amanhã chegue a consolar-me
mais o zero do que o um.
Roberto Juarroz
Poesia Vertical
Tradução de Arnaldo Saraiva
terça-feira, 28 de agosto de 2007
FÁBULAS FANTÁSTICAS
A CAUDA DA ESFINGE
Um Cão de temperamento taciturno disse para a Cauda:
- Sempre que me zango retesas-te, toda eriçada; quando estou contente abanas-te; quando me assusto escondes-te a coberto do perigo. És demasiado versátil: revelas todas as minhas emoções. A minha ideia é que as caudas servem para dissimular o pensamento. A minha maior ambição é ser tão impassível como a esfinge.
- Meu amigo, deverás reconhecer as leis e as limitações do teu ser - retorquiu a Cauda, com os movimentos apropriados aos sentimentos exprimidos - e tentar sobressair de outra maneira qualquer. A esfinge tem cento e cinquenta razões para a impassibilidade que te falta.
- E quais são elas? - perguntou o Cão.
- Cento e quarenta e nove toneladas de areia em cima da cauda.
- E...?
- E uma cauda de pedra.
O ÁRBITRO DESINTERESSADO
Dois Cães que disputavam um osso sem que nenhum ficasse em vantagem submeteram a decisão da contenda ao juízo de uma Ovelha. Esta foi ouvindo pacientemente as alegações de cada um e, no fim, atirou com o osso para uma lagoa.
- Por que fizeste tu isso? - perguntaram os Cães.
E respondeu a ovelha:
- Porque sou vegetariana.
UMA CONDIÇÃO INDISPENSÁVEL
Um Súbdito, reformista, entregou uma petição ao Rei dos Cães para que este ordenasse que os estranhos, ao encontrarem-se, se tratassem com amizade e compreensão. O Rei fez sair um decreto real nesse sentido e ordenou ao peticionista que o apregoasse por todo o mundo. Contudo, era escorraçado pelos cães do lugar e cruelmente mordido antes de poder cumprir o seu dever.
- Ai! - disse ele. - Agora percebo que a reforma deve ser precedida pela reformação.
OS LOBOS E OS CÃES
- Por que terá de haver conflitos entre nós? - disseram os Lobos às Ovelhas. - Tudo por causa daqueles cães metediços. Mandai-os embora e a paz reinará entre nós.
- Pelos vistos - retorquiram as Ovelhas -, pensais ser tarefa fácil mandar cães embora.
O CÃO E O REFLEXO
Um Cão que atravessava um ribeiro por cima duma prancha viu o seu reflexo na água.
- Grande burro! - gritou - Como te atreves a olhar-me desse modo insolente?
Enfiou uma pata na água e, agarrando naquilo que supôs ser um maxilar do outro cão, sacou um belo pedaço de carne que o filho de um carniceiro havia atirado à água.
Ambrose Bierce
Esopo emendado & outras fábulas fantásticas
Tradução e Prefácio de Fernando Gonçalves
Antígona
1996
PERPÉTUA
Embora tenha já visto melhores dias, a senhora Dona Perpétua de Noronha não se queixava da existência. A pensão do defunto dava-lhe para viver, as rendas dos seus prédios davam para ir vivendo. Amiúde explicava ela aos muitos cães e gatos que albergava em casa residir o segredo da felicidade no equilíbrio, na sobriedade, na justa medida duma boa orientação patrimonial. E os animais obedientemente esperavam a refeição seguinte refreando uma gula sempre adiada. Calcula-se, por isso, a felina incredulidade e a canina indignação quando Dona Perpétua deu de quebrar a sacrossanta trave-mestra de toda uma vida - a medida, o equilíbrio - e começou a empanturrar os bichos com tudo o que há de melhor. Ele era foie gras, ele era bife da vazia, ele era linguado, ele era pão-de-ló. Tanta ou tão pouca foi a fartura que os cães e gatos desconfiaram, crentes natos na última refeição dos condenados. Daí que, um belo dia, Dona Perpétua de Noronha se visse sozinha no seu enorme casarão, rodeada de iguarias a apodrecer nas marmitas, rodeada de solidão e de cheiro a gato escaldado.
Alface
Cuidado com os Rapazes
1995
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
CÃES
Os portões daquela casa sempre fechados
prendiam três enormes cães que nos viam passar.
Morreram ou levaram-nos, a eles e aos donos.
Os portões abertos ressuscitam, anacrónico, o medo.
Pedro Mexia
Em Memória
2000
prendiam três enormes cães que nos viam passar.
Morreram ou levaram-nos, a eles e aos donos.
Os portões abertos ressuscitam, anacrónico, o medo.
Pedro Mexia
Em Memória
2000
terça-feira, 21 de agosto de 2007
Andrei Semionovich cuspiu numa taça com água. A água ficou imediatamente negra. Andrei Semionovich franziu os olhos e olhou com atenção para a taça. A água estava negra. O coração de Andrei Semionovich desatou a bater com força.
Nessa altura, o seu cão acordou. Andrei Semionovich aproximou-se da janela e mergulhou nos seus pensamentos.
De repente, qualquer coisa grande e escura passou como uma rabanada de vento à frente do seu rosto e saiu a voar pela janela. O cão é que tinha voado e pousado, como um corvo, no telhado do edifício que ficava do outro lado da rua. Andrei Semionovich pôs-se de cócoras e começou a uivar.
O camarada Papugaev entrou abruptamente no quarto.
- O que é que tem? Está doente? - perguntou o camarada Papugaev.
Andrei Semionovich mantinha-se em silêncio e esfregava a cara com as mãos.
O camarada Papugaev deitou um olhar à taça que estava em cima da mesa.
- O que é que tem ali dentro? - perguntou a Andrei Semionovich.
- Não sei - disse Andrei Semionovich.
Papugaev volatizou-se instantaneamente. O cão voltou a entrar pela janela, foi deitar-se no lugar habitual e adormeceu.
Andrei Semionovich aproximou-se da mesa, bebeu a taça com água negra.
E fez-se, na alma de Andrei Semionovich, uma grande claridade.
Daniil Harms
Tradução de Sérgio Moita
Crónicas da Razão Louca
Hiena
Julho de 1994
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
O CÃO NÃO
to Ferdinand Schmatz
Nenhum cão se chama Não porque, como S. José, todos os cães dizem Sim quando lhes aparece o Anjo em sonhos a dizer-lhes que as cadelas suas noivas vão ter cachorrinhos do Espírito Santo.
Mas houve um cão chamado Não porque achava que não era digno de nada. O Anjo apareceu-lhe em sonhos e deu-lhe um beijo no focinho.
-- És tão bom, Não. Tão bonito. -- disse o Anjo a Não -- A tua noiva vai ter cachorrinhos.
-- Mas eu não tenho noiva. -- disse o Não.
-- A Maria quer ser tua noiva e já está à espera dos teus cachorrinhos.
-- Mas eu não sou digno de entrar na morada da Maria.
-- A Maria acha-te graça. Quer acasalar contigo e ter mais cachorrinhos, todos os cachorrinhos que tu quiseres ter.
-- E os cachorrinhos querem-me a mim?
-- Claro que querem, Não. Porque tu viste a tristeza do Bobi, do Tejo e do Guizos quando os donos os abandonaram.
Adília Lopes
A Bela Acordada
1997
OS CÃES
A menina parecia-se com a vestal de uma estela funerária que há nessa cidade e que tem roupas, embora de pedra, finíssimas. Passava, pela mão da mãe, pela orla do terreiro, no ar denso de trovoada.
Esse terreiro onde se armavam as barracas da feira, agora deserto, varrido com ferocidade pelo vento, na hora nefasta do meio-dia, hora em que é perigoso passar debaixo de certas árvores ou contemplar as fontes, tem apenas alguns troncos como ossos de que brotam cotos carecas.
Dos arredores vinha um cheiro acre a queimadas que invadia as casas de mistura com as películas de cinza como se um grande fogo (daqueles que abatem uma a uma as árvores) rondasse a povoação.
Na areia eriçada e vermelha como pêlo, que as rajadas levantavam e atiravam para longe aos punhados, dois cães rodopiavam voltejando e espojando-se, colados um ao outro, pardos e rafeiros.
Os ganidos de um dos cães feriam o ar cinzento e abstruso como se lhe estivessem a fazer mal. A menina, aflita, gritou à mãe:
- O outro vai matá-lo!
Mas a mãe, embaraçada, calou-a:
- Não. É um cão e uma cadela. Não olhes para lá.
Então a menina tapou os ouvidos.
Adília Lopes
O Decote da Dama de Espadas (romances)
1988
domingo, 19 de agosto de 2007
SOLILOQUIOS E COMMENTARIOS DE ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO
As mulheres são como as ovelhas. Todas tem a sua volta tres ou quatro lobos que só esperam que esteja longe o cão que as guarda.
Amor meu, não temas. Bem sabes que os lobos são amigos.
E que eu nunca deixo a coleira de pregos, nem de rosnar, junto de ti...
*
A mordedura do cão cura-se com o pelo do mesmo cão. O Amor de uma mulher com outro amor. São pois identicos, a dentada do cão e o amor da mulher...
*
Que o meu coração é um cão vadio?
É. Jamais quiz coleira. Dorme hoje em edredon de penas, amanhã em qualquer patamar de escada. Mas não tem Mulher que o acorrente, nem Ciume a quem pagar imposto.
Albino Forjaz de Sampaio
Mais Além da Morte e do Amor
1922
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
AURORA(S)
«Era um cão com muita teoria»
- explicou-nos, junto ao aquecedor,
na certeza de que Todorov
não frequenta a travessa do Alcaide,
ao Combro. Aurora, Dona Aurora:
guardiã provisória do declínio
(cor-de-laranja, juro) das paredes
ou dos dias - não há diferença.
Fiz questão de tirar eu próprio
do frigorífico a segunda Sagres.
Já houve naquela rua sete auroras
- não é um verso, apenas um dado
estatístico, vindo de quem sabe.
Algumas, como «histórias verdadeiras»,
casaram ou morreram - tanto faz.
O cão, sem nome, aceita o favor
da trela «noite demasiado morta»
(volta a dizer Aurora). É normal,
há coisas que acontecem sob a sombra
desmentida da cidade. Piano, dessa infância
triste, a apodrecer agora numa taberna
colorida. «P'ra mim é tinto» - repetem
já sem clientes os mais pequenos altares.
Enquanto um tecto sobre nós, vazio,
esconjura metáforas e recusa a noite.
Manuel de Freitas
[SIC]
2002
- explicou-nos, junto ao aquecedor,
na certeza de que Todorov
não frequenta a travessa do Alcaide,
ao Combro. Aurora, Dona Aurora:
guardiã provisória do declínio
(cor-de-laranja, juro) das paredes
ou dos dias - não há diferença.
Fiz questão de tirar eu próprio
do frigorífico a segunda Sagres.
Já houve naquela rua sete auroras
- não é um verso, apenas um dado
estatístico, vindo de quem sabe.
Algumas, como «histórias verdadeiras»,
casaram ou morreram - tanto faz.
O cão, sem nome, aceita o favor
da trela «noite demasiado morta»
(volta a dizer Aurora). É normal,
há coisas que acontecem sob a sombra
desmentida da cidade. Piano, dessa infância
triste, a apodrecer agora numa taberna
colorida. «P'ra mim é tinto» - repetem
já sem clientes os mais pequenos altares.
Enquanto um tecto sobre nós, vazio,
esconjura metáforas e recusa a noite.
Manuel de Freitas
[SIC]
2002
UM AFORISMO DE KAFKA
Os cães de caça brincam ainda no pátio, mas não lhes escapará a presa, por mais depressa que, a partir desse instante, corra as florestas.
Franz Kafka
Antologia de Páginas Íntimas
Tradução de Alfredo Margarido.
27 DE MAIO
Uma parte de Niklasstrasse e a ponte inteira voltam-se, emocionados, para ver um cão que acompanha, uivando, uma ambulância da Sociedade de Socorros. Até que o cão interrompe bruscamente a corrida, volta para trás e porta-se como um cão estranho e vulgar que, seguindo o carro, não pretendia nada de particular.
Franz Kafka
Antologia de Páginas Íntimas
Tradução de Alfredo Margarido.
BOM-DIA, CÃO
Avisto na rua um cão
Digo-lhe: como vais, cão?
Pensa que me responde?
Não? Pois bem, mas ele responde-me
E isso não é da sua conta
Agora quando se vêem pessoas
Que passam sem sequer reparar nos cães
Sentimos vergonha pelos seus pais
E pelos pais dos seus pais
Porque é uma tão má educação
É coisa que requer pelo menos... e não estou a ser generoso
Três gerações, com uma sífilis hereditária
Mas, para não vexar ninguém, devo acrescentar
Que um número considerável de cães não falam com muita frequência.
9 de Fevereiro de 1948
Boris Vian
Cantilenas em geleia
Tradução de Margarida Vale do Gato.
Oferecido por Rute Mota.
Digo-lhe: como vais, cão?
Pensa que me responde?
Não? Pois bem, mas ele responde-me
E isso não é da sua conta
Agora quando se vêem pessoas
Que passam sem sequer reparar nos cães
Sentimos vergonha pelos seus pais
E pelos pais dos seus pais
Porque é uma tão má educação
É coisa que requer pelo menos... e não estou a ser generoso
Três gerações, com uma sífilis hereditária
Mas, para não vexar ninguém, devo acrescentar
Que um número considerável de cães não falam com muita frequência.
9 de Fevereiro de 1948
Boris Vian
Cantilenas em geleia
Tradução de Margarida Vale do Gato.
Oferecido por Rute Mota.
DE COLEIRA
Ter um filho com um cão
Exige dotes de observação fora do comum
E o profundo conhecimento do factor RH.
Com treinos intensivos
A caça ao coelho, o jogo do nem-te-posso-cheirar
E a corrida ao osso,
Talvez se consiga chegar
Ao nível intelectual necessário para uma compreensão mútua e saudável.
Nas terras em que faltam mulheres
(ou são tapadas, o que vai dar ao mesmo)
Um bom cão é melhor do que a masturbação.
Boris Vian
Cantilenas em geleia
Tradução de Margarida Vale do Gato.
Oferecido por Rute Mota.
Exige dotes de observação fora do comum
E o profundo conhecimento do factor RH.
Com treinos intensivos
A caça ao coelho, o jogo do nem-te-posso-cheirar
E a corrida ao osso,
Talvez se consiga chegar
Ao nível intelectual necessário para uma compreensão mútua e saudável.
Nas terras em que faltam mulheres
(ou são tapadas, o que vai dar ao mesmo)
Um bom cão é melhor do que a masturbação.
Boris Vian
Cantilenas em geleia
Tradução de Margarida Vale do Gato.
Oferecido por Rute Mota.
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
PARA UM DIA NÃO
(variação sobre tema de A. J. Forte)
Há dias assim só para o não e que
não podem ser do gato são do cão
por isso dias que não são para miar
dias que são só para ladrar ão ão
há dias para tudo e mais alguma coisa
e dias só para o menos e é se tanto
dias em que se não gostava de ser
ou de qualquer coisa ter e o quê então
dias ruins em que não há nada para fazer
em que o simples facto de ter corpo como
toda a gente faz ou tem dá um trabalho
insano um trabalho danado para além
do que ele próprio corpo está em condições
de poder suportar são dias mais para não ser
ou para o não ser ou para o não ter
não ter por exemplo que raio de exemplo
um corpo ou um corpo como este impositivo
porque um corpo assim obstacula muito
com perdão para tamanho palavrão
e logo o devaneio consigo nos transporta
não ter corpo nenhum ser espírito apenas
e de preferência um desses bem vagabundos
porque um espírito assim um apenas espírito
ajuda muito só ele está em condições
de nos poder conduzir melhor
dizendo de ele e só ele se deslocar
aos lugares mais improváveis que são os que
mais vale a pena visitar e que podem ser
lugares do nosso universo próprio lugares
do universo alheio ou quiçá mais delicado
ainda lugares do que não é isto é não lugares
caso este em que estaremos já bastante
próximos do nirvana o que dá sempre jeito
para o dia não chamado o dia do cão
Rui Caeiro
Saudade n.º 9
2007
domingo, 29 de julho de 2007
OS CÃES DE VELÁZQUEZ
Miguel Veiga, querido amigo, perdeu recentemente o seu cão Timmy, com quem o meu Jasão mantinha alguma correspondência de afectos. Quem quer que minorize os sentimentos que nisto se envolvem, ou os torne ojecto de desprezo, merece a mais fria das indiferenças com que se devem tratar os analfabetos da natureza humana. Não tenho a menor simpatia pelas religiões da fraternidade inextensível aos bichos, nem pelos teólogos que transformam o lobo de Gúbio, ou o canídeo que costuma acompanhar São Roque, num adereço metafórico da iconografia da flos sanctorum.
Chegou-me a notícia da morte de Timmy imediatamente a seguir à visita que fiz à exposição de Velàzquez, patente na National Gallery em Londres. Às várias razões que recomendam a mostra a quem puder ir até lá, e que justificam as horas passadas na fila dos que pretendem entrar, haverá que acrescer a de ser Diego Velázquez, ele também, amante desses solidários partícipes dos dias que nos vão cabendo. A consciência com que o pintor se debruça sobre tais criaturas, vendo nelas, mais do que a figura decorativa, o verdadeiro espelho em que se reflecte muito daquilo que somos, converte o percurso das quarenta e seis obras-primas numa empresa de auto-conhecimento, e não numa pura lição que é o que menos importa buscar na frequência de qualquer artista.
Os cães de Velázquez respeitam a estratificação social, e jogam com ela como com uma entidade inamovível. Reaccionários como são, e por isso adversos a medidas de legalização do aborto, acolhem valores certos, preferindo à conveniência política o conforto das relações, e optando pela liberdade de amar como, quando e onde lhes apetece, independentemente dos ditames de qualquer catecismo. São mais proveitosos em suma como exemplo comportamental do que os que no seu afã de reequilibra o Mundo não tardarão a impor o interdito do presépio público, ao qual de resto os animais alegremente concorrem, vendo na cena do nascimento de Jesus Cristo um ameaçador símbolo religioso.
O rafeirito que defende o patriarca Jacob, ao tomar conhecimento do destino de José, seu filho, porventura devorado pelos brutos do deserto, executa afinal a manobra da preservação da dor a que todos nós temos direito, e que não se compadece com ritos ornamentais. É um indivíduo débil, mas tão devotado à guarda da fragilidade de um velho, que não há gladiador de Roma que arroste com a sua fúria.
Os galgos e os perdigueiros, pacientemente aguardando, abrigados pelas sombras da Torre de la Parada, a sua vez de ingressar na montaria ao javali, manifestam a negligência dos grandes áulicos, sempre prontos a receber ordens, e a delas se desempenhar com uma descrição que é nota de respeito, e nunca de desdém. Já o sabujo que se senta à beira de Filipe IV, ascendido a uma dimensão donde apenas o fim terreno o desalojará, cobra a serenidade que o dispensa de efectivas funções, excepto a de posar assim para o retrato de Diego Rodríguez da Silva Velázquez, meio na penumbra, constantemente presente.
Os infantes pequenos beneficiam de uma escolta que, consagrando o império da infância, a encara como uma invulnerabilidade à inteligência dos clássicos irracionais. Baltasar Carlos, incapaz ainda de manobrar a carabina com que o retratista o armou, consente em que a seus pés adormeça um molosso enorme, isto por se encontrar ciente dos impenetráveis sonhos em que são cúmplices. E o mínimo Filipe Próspero, tão pelém que no rosto se lhe adivinha a letal gadanha que anda a rondá-lo, só com o maltês caprichoso, habituado à altura dos cadeirões, aceita dividir os seus choros e as suas birras.
Os cães de Velázquez celebram uma interioridade preciosa, mais afeita às caseiras noites de Inverno do que às tardes de domingo dos centros comerciais. Desaparecidos todos, tendo ascendido a um plano tão incontável como indiscutível, partilham com o saudoso Timmy essa sabedoria dourada a que em exclusivo acedem os que em definitivo entenderam já aquilo que equivale a ser. E até isso lhes agradecemos, até isso lhes invejamos.
Mário Cláudio
Expresso
2006
quarta-feira, 25 de julho de 2007
O teu cão morre
é atropelado por uma carrinha.
encontra-lo na berma da estrada
e enterra-lo.
sentes-te mal com isso.
sentes-te mal por ti mesmo,
mas sentes-te pior pela tua filha
porque era a sua mascote
muito adorada.
ela costumava embalá-lo
e deixá-lo dormir na sua cama.
escreves um poema sobre o assunto.
chamas-lhe um poema para a tua filha,
sobre o atropelamento do cão por uma carrinha
e o modo como cuidaste dele,
o levaste para o bosque
e o enterraste fundo, fundo,
e o poema resulta tão bem
que quase te alegras por o cão
ter sido atropelado, de outro modo
nunca terias escrito esse bom poema.
então sentas-te para escrever
um poema sobre escrever um poema
acerca da morte do tal cão,
mas enquanto o escreves
ouves uma mulher gritar
o teu nome, o teu primeiro nome,
ambas as sílabas,
e o teu coração pára.
passado um minuto, continuas a escrever.
ela volta a gritar.
perguntas-te quanto tempo pode isto durar.
Raymond Carver
Tradução e oferta de Rute Mota.
encontra-lo na berma da estrada
e enterra-lo.
sentes-te mal com isso.
sentes-te mal por ti mesmo,
mas sentes-te pior pela tua filha
porque era a sua mascote
muito adorada.
ela costumava embalá-lo
e deixá-lo dormir na sua cama.
escreves um poema sobre o assunto.
chamas-lhe um poema para a tua filha,
sobre o atropelamento do cão por uma carrinha
e o modo como cuidaste dele,
o levaste para o bosque
e o enterraste fundo, fundo,
e o poema resulta tão bem
que quase te alegras por o cão
ter sido atropelado, de outro modo
nunca terias escrito esse bom poema.
então sentas-te para escrever
um poema sobre escrever um poema
acerca da morte do tal cão,
mas enquanto o escreves
ouves uma mulher gritar
o teu nome, o teu primeiro nome,
ambas as sílabas,
e o teu coração pára.
passado um minuto, continuas a escrever.
ela volta a gritar.
perguntas-te quanto tempo pode isto durar.
Raymond Carver
Tradução e oferta de Rute Mota.
terça-feira, 24 de julho de 2007
UIVOS
Passam os dias e os anos, a vida corre
e a gente não sabe por que vive...
Passam os dias e os anos, a morte chega
e a gente não sabe por que morre.
E um dia o homem põe-se a chorar sem mais nem menos,
sem saber por que chora...
e o que significa uma lágrima.
E tão-pouco alguém por si o sabe.
E quando mais tarde a gente abala para sempre,
sem saber quem é
nem o que veio cá fazer...
pensa que talvez tenha vindo apenas chorar
e uivar como um cão...
pelo cão de ontem que se foi,
pelo cão de amanhã que virá
e partirá também sem saber para onde
e por todos os pobres cães mortos do mundo.
Porque: não é o homem um pobre cão perdido e solitário sem dono e sem domicilio conhecido?...
E não pode o Homem chorar e uivar no Vento
sem mais nem menos... porque sim
como uiva o mar... Por que uiva o mar?
Senhor Arcipreste... por que uiva o mar?
León Felipe
O Sapateiro de Van Gogh (original de El Ciervo y otros poemas)
tradução de Rui Caeiro
&etc, 1993
Oferecido por Rui Almeida.
e a gente não sabe por que vive...
Passam os dias e os anos, a morte chega
e a gente não sabe por que morre.
E um dia o homem põe-se a chorar sem mais nem menos,
sem saber por que chora...
e o que significa uma lágrima.
E tão-pouco alguém por si o sabe.
E quando mais tarde a gente abala para sempre,
sem saber quem é
nem o que veio cá fazer...
pensa que talvez tenha vindo apenas chorar
e uivar como um cão...
pelo cão de ontem que se foi,
pelo cão de amanhã que virá
e partirá também sem saber para onde
e por todos os pobres cães mortos do mundo.
Porque: não é o homem um pobre cão perdido e solitário sem dono e sem domicilio conhecido?...
E não pode o Homem chorar e uivar no Vento
sem mais nem menos... porque sim
como uiva o mar... Por que uiva o mar?
Senhor Arcipreste... por que uiva o mar?
León Felipe
O Sapateiro de Van Gogh (original de El Ciervo y otros poemas)
tradução de Rui Caeiro
&etc, 1993
Oferecido por Rui Almeida.
O CÃO E O FRASCO
«-- Meu lindo cãozinho, meu bom cãozinho, meu querido totó, aproxima-te e vem respirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade.»
E o cão, agitando a cauda, o que é, creio eu, nestes pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e pousa curiosamente o focinho húmido sobre o frasco desarrolhado; depois, recuando com repentino receio, ladra voltado para mim, à maneira de censura.
«-- Ah! cachorro execrável, se eu te houvesse presenteado com um pacote de excrementos, tê-lo-ias farejado com delícia e talvez devorado. Assim, também tu, indigno companheiro da minha triste vida, és semelhante ao público, ao qual nunca se podem apresentar perfumes requintados que o exasperam, mas sim porcarias cuidadosamente escolhidas.»
Charles Baudelaire
O Spleen de Paris
Trad. António Pinheiro Guimarães
OS GUIZOS DO CÃO DE CAÇA
(Lo Leng)
1.
Cão de caça faz lim! lim!
Seu dono é belo e bem feito
2.
Tem o cão duas argolas;
Belas suíças tem o dono.
3.
Leva o cão dupla coleira;
Linda barba leva o dono.
Livro dos Cantares
tradução de Joaquim A. Guerra, S. J.
1979
Oferecido por Rui Almeida.
1.
Cão de caça faz lim! lim!
Seu dono é belo e bem feito
2.
Tem o cão duas argolas;
Belas suíças tem o dono.
3.
Leva o cão dupla coleira;
Linda barba leva o dono.
Livro dos Cantares
tradução de Joaquim A. Guerra, S. J.
1979
Oferecido por Rui Almeida.
NO MATO É MORTO UM VEADO
No mato é morto um veado,
Coberto de juncos brancos:
Há uma rapariga em flor
Um belo homem a seduz.
No bosque troncos de carvalho,
No mato, morto, um veado:
Com juncos brancos, ata-o bem.
Lá está ela – bela como jade!
«Devagarinho – gentilmente!
Não estrague a faixa – à cintura,
Não faça ladrar o cão!»
Livro dos Cantares
in Uma Antologia de Poesia Chinesa
tradução de Gil de Carvalho
1989
Oferecido por Rui Almeida.
Coberto de juncos brancos:
Há uma rapariga em flor
Um belo homem a seduz.
No bosque troncos de carvalho,
No mato, morto, um veado:
Com juncos brancos, ata-o bem.
Lá está ela – bela como jade!
«Devagarinho – gentilmente!
Não estrague a faixa – à cintura,
Não faça ladrar o cão!»
Livro dos Cantares
in Uma Antologia de Poesia Chinesa
tradução de Gil de Carvalho
1989
Oferecido por Rui Almeida.
A HARMONIA
A certo momento pararam. O cão ensanguentado gania. Mas não estava morto.
(Somos todos irmãos, irmãos.)
Vamos supor que se chamava Maria e era uma mulher má e falsa. Um dia, de noite, sem perceber porquê, tinha dois homens à sua volta. Foi agarrada, atirada ao chão, violada.
Maria chegou a casa e nada conseguiu dizer. A sua irmã chorava. Maria tinha os olhos vermelhos, o corpo negro, tremia, não conseguia falar. Sangue na roupa.
E por Maria - que era mulher má, sempre fora intriguista, falsa - por ela choraram certas pessoas. Cinco pelo menos (que eu contei): a irmã, a mãe, o pai, uma rapariga (por vezes falavam); e uma outra pessoa que nunca até hoje se viu.
Que me importam os cães? Um animal é tanto ou menos que uma máquina e na luta dos dois que vença o melhor. Bater num cão é o mesmo que espancar uma máquina. Que adianta, que maldade é essa?
O acaso e as circunstâncias. É o destino, o cruzamento entre o acontecimento e um homem, que amplia ou não o reino da banalidade. Pouco depende do homem - quase tudo é importo pelo dia, pelas suas exigências de causas quase sempre obscuras.
E o único fenómeno estranho ao instinto de sobrevivência que manda em qualquer pessoa, animal ou anjo que exista, é o amor. Mas o amor é tão popular entre os vivos que se tornou num sentimento da multidão: há que receá-lo como se receia a palavra de ordem de qualquer ajuntamento exaltado.
O cão pode ser visto como música equilibrada (harmonia é a palavra) devido às suas quatro patas (como uma mesa orgânica). Mas se ao cão se cortar uma das patas a nossa vida altera-se, e sangra tudo, como quem é traído por uma mulher ou pela morte do pai.
Gonçalo M. Tavares
Água, Cão, Cavalo, Cabeça
2006
segunda-feira, 23 de julho de 2007
segunda-feira, 16 de julho de 2007
O MAPA DA RETINA
10. (reportagem 1)
Vi um galgo de vidro.
Atravessa o hall do hotel.
Ouço ainda o seu des-
compassado latido,
à chuva. Um galgo lácteo?
Em que tromba de água
nos iguala ensurdecer?
Olhar é já unir? T' resa,
digo: e uma transparência
soterra a minha pele.
Vi o galgo de vidro
atravessar o hall do hotel?
Danos que é preciso ter em conta.
António Cabrita
Os Abysmos da Mão
Íman, 2001
Oferecido por Rui Almeida.
Vi um galgo de vidro.
Atravessa o hall do hotel.
Ouço ainda o seu des-
compassado latido,
à chuva. Um galgo lácteo?
Em que tromba de água
nos iguala ensurdecer?
Olhar é já unir? T' resa,
digo: e uma transparência
soterra a minha pele.
Vi o galgo de vidro
atravessar o hall do hotel?
Danos que é preciso ter em conta.
António Cabrita
Os Abysmos da Mão
Íman, 2001
Oferecido por Rui Almeida.
CÃO ANDALUX
Uma mulher não pode andar à noite
na rua que é logo convidada
por um lacaio do real
para a mais baixa repressão
espiritual
E eu disse que sim
que o meu cão precisava
de conhecer outras pessoas
outras culturas
individuais apesar do instinto
me avisar
Que não há melhor
que a língua dum cão
a lamber-nos as entranhas
e seduzi-o até casa
e amarrei-o à cama
e soltei-lhe o meu cão
Andalux
Maria da Inquietação Fausto
Macacos me mordam
Edições Mortas, 1995
Oferecido por Rui Almeida.
na rua que é logo convidada
por um lacaio do real
para a mais baixa repressão
espiritual
E eu disse que sim
que o meu cão precisava
de conhecer outras pessoas
outras culturas
individuais apesar do instinto
me avisar
Que não há melhor
que a língua dum cão
a lamber-nos as entranhas
e seduzi-o até casa
e amarrei-o à cama
e soltei-lhe o meu cão
Andalux
Maria da Inquietação Fausto
Macacos me mordam
Edições Mortas, 1995
Oferecido por Rui Almeida.
O CÃO
O cão vive do lixo
O pêlo suja o chão
Fala-se do homem
Que vive na sarjeta
Do cão que suja
Move-se nas patas
Cansadas
Ladra forte
Do cheiro e do fumo
Nos olhos os dentes
Afiados
E a língua suada
A lua que a espuma
Faz na boca
E o tempo sacia
São minutos longos
E absurdos...
É dócil o cão
E o entardecer
Rui Carlos Souto
Cinco Luas e Um Navio
Edições Mortas, 2002
Oferecido por Rui Almeida.
O pêlo suja o chão
Fala-se do homem
Que vive na sarjeta
Do cão que suja
Move-se nas patas
Cansadas
Ladra forte
Do cheiro e do fumo
Nos olhos os dentes
Afiados
E a língua suada
A lua que a espuma
Faz na boca
E o tempo sacia
São minutos longos
E absurdos...
É dócil o cão
E o entardecer
Rui Carlos Souto
Cinco Luas e Um Navio
Edições Mortas, 2002
Oferecido por Rui Almeida.
segunda-feira, 9 de julho de 2007
CÃO DE MORTO
Contarei as sílabas, depois os versos
Até catorze, a ninguém direi que morreu;
Serei parco em imagens, procurarei
A intensidade da canção primitiva.
A ninguém direi que dentro de mim morreu;
Fingirei que existe ainda algo
Belo por escrever. Inventarei frases
Com a memória dos que sentem ainda.
Um pouco de interesse me resta, vida
Também, ainda que não a solicite muito;
Quase não leio e já suporto só
Alguns romancistas americanos.
Contarei sílabas, acentos, histórias,
Mas a ninguém revelarei o meu embuste.
José Ángel Cilleruelo
Trad. Joaquim Manuel Magalhães
Trípticos Espanhóis 2.º
2000
Até catorze, a ninguém direi que morreu;
Serei parco em imagens, procurarei
A intensidade da canção primitiva.
A ninguém direi que dentro de mim morreu;
Fingirei que existe ainda algo
Belo por escrever. Inventarei frases
Com a memória dos que sentem ainda.
Um pouco de interesse me resta, vida
Também, ainda que não a solicite muito;
Quase não leio e já suporto só
Alguns romancistas americanos.
Contarei sílabas, acentos, histórias,
Mas a ninguém revelarei o meu embuste.
José Ángel Cilleruelo
Trad. Joaquim Manuel Magalhães
Trípticos Espanhóis 2.º
2000
O CÃO
O acaso amputou
uma das pernas do cão.
Manco
ele caminha pelo vazio
na intimidade da morte.
Na oquidão
de sua pata
há outra:
carne de ar
ferida de brisas.
Na inexistência
de sua perna
há o vazio somente
osso do etéreo
raiz do vento.
O poema amputou
o ganido do cão.
A palavra não consegue ressoar
a lancinante dor de seu grito.
A palavra é pouca demais
ante o destino do cão
é mera redundância
ante as pegadas de sua invalidez.
O poema é resquício
deserto de vida
ante o real mais denso.
Na verdade
o poema teve a perna amputada
pela ternura daquele cão.
Alexandre Bonafim
Biografia do deserto
2006
uma das pernas do cão.
Manco
ele caminha pelo vazio
na intimidade da morte.
Na oquidão
de sua pata
há outra:
carne de ar
ferida de brisas.
Na inexistência
de sua perna
há o vazio somente
osso do etéreo
raiz do vento.
O poema amputou
o ganido do cão.
A palavra não consegue ressoar
a lancinante dor de seu grito.
A palavra é pouca demais
ante o destino do cão
é mera redundância
ante as pegadas de sua invalidez.
O poema é resquício
deserto de vida
ante o real mais denso.
Na verdade
o poema teve a perna amputada
pela ternura daquele cão.
Alexandre Bonafim
Biografia do deserto
2006
COMPÊNDIO DE HISTÓRIA
A João Augusto Oliveira Freire
há um coração
mas não quero rasgar o poema
tardes lentas
sol a pino
sexo de meninos
(abraços quentúmidos)
allons enfants de la patrie
um quintal na província
um quintal no prelo
quem senão meu silêncio
veio tecendo
o palpável dessa memória?
e se
na luta com as palavras
entre lobo e cão me coloco
- sou do signo de gêmeos
poeta (como tal)
o que me ensino
senão o futuro da memória
?
Júlio Castañon Guimarães
Poesia Brasileira do Século XX
Antígona
domingo, 1 de julho de 2007
O ELEFANTE, O CÃO... (fragmento)
Distingamos para começar uma virtude real e uma virtude falsa, ao compararmos o elefante e o cão, dos quais um é o emblema da amizade nobre e o outro o da falsa amizade.
1.º - A amizade. É nobre no elefante: está sempre conciliada com a honra. Não tem a baixeza do cão, o qual, espancado às vezes em motivo, nunca guarda rancores. O elefante suporta os castigos justos, mas sem motivo não se deixa maltratar; nunca perdoa as ofensas; quanto ao resto, a sua amizade é tão inalterável e tão devotada como a do cão. Esta amizade nobre é a mesma que leva às uniões colectivas e corporativas, enquanto a servil amizade do cão apenas favorece o despotismo, o regime civilizado e bárbaro que não tem nada a ver com aqueloutro onde reinariam as paixões nobres, tais se podem observar no elefante. Os déspotas gostam da amizade do cão, que, maltratado injustamente e aviltado, mesmo assim serve e ama quem o ofendeu.
2.º - O amor. No elefante é decente e fiel; é escandaloso e criminoso no cão, que em amor é o mais ignóbil dos quadrúpedes, aliando a esta paixão todos os vícios, tal como sucede entre os civilizados, cujos amores sãp dominados pela astúcia, a fraude, a opressão.
3.º - A paternidade. No elefante é judiciosa e digna. Não quer criar filhos que possam vir a ser infelizes, e abstém-se da procriação se for escravizado. É uma lição que dá aos civilizados, assassinos dos seus filhos, devido a quantidade em que procriam sem a certeza de lhes assegurarem o bem-estar. A moral ou a teoria da falsa virtude aconselha-os a fabricar carne para canhão, formigueiros de arregimentados que, por causa da miséria, se vêem obrigados a vender-se. Essa paternidade imprevidente é falsa virtude, egoísmo no prazer. Por isso, a natureza preservou desse vício o elefante, que é o tipo das quatro paixões afectivas, tomadas num sentido verdadeiramente social e, no geral, capaz de convir às uniões. O cão, emblema de falsas virtudes, é dotado dessa falsa paternidade que engendra formigueiros, ninhadas de onze (o primeiro dos números anti-harmónicos) amontoados, em que três quartos hão-de perecer pelo ferro, à dentada e à fome.
Charles Fourier
Tradução de Manuel João Gomes
MANUAL DE CIVILIDADE PARA MENINAS (fragmento)
Pôr mel entre as pernas para se fazer lamber por um cãozinho é, em rigor, permitido; mas não é preciso fazer o mesmo ao cão.
Pierre Louÿs
Tradução de Júlio Henriques
RECOMENDAÇÕES AOS CRIADOS (fragmento)
Não compareçais nunca sem terdes sido chamados três ou quatro vezes, pois só os cães é que comparecem logo ao primeiro assobio; e se o patrão disser «Quem está aí?» nenhum criado tem nada que comparecer, porque quem está aí não é nome de gente.
Jonathan Swift
Tradução de Manuel João Gomes
quarta-feira, 27 de junho de 2007
terça-feira, 26 de junho de 2007
Ladrava com vigor todos os dias
como em igreja
o seu latir soava
no baixo ventre em sombra
o cão gania.
E vinha Deus no seu carro de Outono
e o cão uivando a todos prometia
e o cão em baixo em vão
ao abandono.
Escolhe outros sons mais fundos
no meu sangue
ó cão exangue homem mulher
criança
o coração ainda é teu ofício
roça por mim a tua língua
bruta
cão cheio de som meu
cão do vício.
Armando Silva Carvalho
Canis Dei
1995
como em igreja
o seu latir soava
no baixo ventre em sombra
o cão gania.
E vinha Deus no seu carro de Outono
e o cão uivando a todos prometia
e o cão em baixo em vão
ao abandono.
Escolhe outros sons mais fundos
no meu sangue
ó cão exangue homem mulher
criança
o coração ainda é teu ofício
roça por mim a tua língua
bruta
cão cheio de som meu
cão do vício.
Armando Silva Carvalho
Canis Dei
1995
Deixaram-no ali ladrando à rua
os donos desonestos.
Nas grades da janela feita jaula
o animal irado grita
que proteste.
No silêncio da rua o cão regressa
ao outro limiar da natureza
a sua fala brusca
conjura toda a fauna primitiva
a flor e a luxúria.
Um cortejo selavagem desemboca.
E a rua tem medo
das pegadas de deus no som da peste.
Armando Silva Carvalho
Canis Dei
1995
os donos desonestos.
Nas grades da janela feita jaula
o animal irado grita
que proteste.
No silêncio da rua o cão regressa
ao outro limiar da natureza
a sua fala brusca
conjura toda a fauna primitiva
a flor e a luxúria.
Um cortejo selavagem desemboca.
E a rua tem medo
das pegadas de deus no som da peste.
Armando Silva Carvalho
Canis Dei
1995
sábado, 23 de junho de 2007
Junho, aqui estás, como um cão
cálido de suaves olhos.
Quando chegas toda a terra
se enche de luz e de sonho.
Também, tal como uma rua
sozinha, ao sol do meio-dia,
súbito em gritos se incendeia;
tal, digo eu, como uma rua
sem tempo, louca de luz,
sozinha, soa esfaqueada,
o teu nome de cão, Junho,
trabalha em meu coração
e de repente começa
a tempestade da memória.
1952
Antonio Gamoneda
tradução de Rui Almeida
Edad (Poesía 1947-1986)
2000
Oferecido por Rui Almeida.
cálido de suaves olhos.
Quando chegas toda a terra
se enche de luz e de sonho.
Também, tal como uma rua
sozinha, ao sol do meio-dia,
súbito em gritos se incendeia;
tal, digo eu, como uma rua
sem tempo, louca de luz,
sozinha, soa esfaqueada,
o teu nome de cão, Junho,
trabalha em meu coração
e de repente começa
a tempestade da memória.
1952
Antonio Gamoneda
tradução de Rui Almeida
Edad (Poesía 1947-1986)
2000
Oferecido por Rui Almeida.
9.
Zás! Entrou de rompante, sem licença!
Correu as mesas de nariz no ar,
Houve, na malta, uma alegria imensa
E uma senhora dona quase a desmaiar.
Os empregados dão-lhe caça.
Ele esquiva-se, esconde-se, ajudado
Pela malta. É um soberbo cão de raça,
Esbelto e bem tratado.
Fugiu à trela da dependência.
Por uns instantes (mais não terá!),
Escapa ao jugo da obediência,
Ao imperativo do aqui-já!
Depois dos caçadores haverem desistido,
Afagado e feliz,
Comeu um bolo, lento, estirado ao comprido,
E saiu quando quis.
(Com que emoção,
No circunspecto da minha idade,
Vivi, na fuga daquele cão,
A sensação de liberdade!)
António Manuel Couto Viana
Café de Subúrbio
1991
Oferecido por Rui Almeida.
Correu as mesas de nariz no ar,
Houve, na malta, uma alegria imensa
E uma senhora dona quase a desmaiar.
Os empregados dão-lhe caça.
Ele esquiva-se, esconde-se, ajudado
Pela malta. É um soberbo cão de raça,
Esbelto e bem tratado.
Fugiu à trela da dependência.
Por uns instantes (mais não terá!),
Escapa ao jugo da obediência,
Ao imperativo do aqui-já!
Depois dos caçadores haverem desistido,
Afagado e feliz,
Comeu um bolo, lento, estirado ao comprido,
E saiu quando quis.
(Com que emoção,
No circunspecto da minha idade,
Vivi, na fuga daquele cão,
A sensação de liberdade!)
António Manuel Couto Viana
Café de Subúrbio
1991
Oferecido por Rui Almeida.
Sei que a noite será longa
E que o frio me queimará
Os olhos que o escorpião me espia
Em silêncio e cães ávidos
Guardam a porta do dia
Anne Perrier
O Próximo Voo das Aves
Tradução Colectiva (Poetas em Mateus)
1999
Oferecido por Rui Almeida.
E que o frio me queimará
Os olhos que o escorpião me espia
Em silêncio e cães ávidos
Guardam a porta do dia
Anne Perrier
O Próximo Voo das Aves
Tradução Colectiva (Poetas em Mateus)
1999
Oferecido por Rui Almeida.
CÃES AO DESBARATO
Um género de cães ao desbarato
poetas cafres adoçam as nongas
ancestrais dos versos na obsessiva
carne terra dos açaimos
e não choram...
Batem!
[“Nonga(s): pau que funciona como cajado e que também serve de arma de defesa ou de ataque. Geralmente de superfície polida pelo uso.”]
José Craveirinha
Karingana ua Karingana
1974
poetas cafres adoçam as nongas
ancestrais dos versos na obsessiva
carne terra dos açaimos
e não choram...
Batem!
[“Nonga(s): pau que funciona como cajado e que também serve de arma de defesa ou de ataque. Geralmente de superfície polida pelo uso.”]
José Craveirinha
Karingana ua Karingana
1974
Oferecido por Rui Almeida.
está sentado no chão, o cão ao lado
pousa a cabeça no lodo. nenhum olha,
o olhar parado está voltado para quem os vê,
apenas sombras sobre o quadro surdo.
a mão toca na luz atrás da porta,
apaga os rostos que sufoca o tédio,
mostra o avesso, almas à espera temendo
o assédio dessas figuras agora hostis.
Carlos Marques Queirós
Os Passos Reencontrados
2002
Oferecido por Rui Almeida.
pousa a cabeça no lodo. nenhum olha,
o olhar parado está voltado para quem os vê,
apenas sombras sobre o quadro surdo.
a mão toca na luz atrás da porta,
apaga os rostos que sufoca o tédio,
mostra o avesso, almas à espera temendo
o assédio dessas figuras agora hostis.
Carlos Marques Queirós
Os Passos Reencontrados
2002
Oferecido por Rui Almeida.
ESTUDO DE UM CÃO
Dentro do círculo do sofrimento
esfera de fezes
a língua, a míngua de sede
em chão castanho de terra. Na distância, o movimento de uma estrada.
Em torção do corpo,
apoiado no braço, o rosto desenhava-se na água que
restara ao sabor da lama: este é o impossível
silêncio das rãs. Tinham partido. Ficara o abandono. Um
homem pode destruir tudo dentro de si –
ódio, descrença, amor, a dúvida – enquanto se prende
à vida o abandono permanece
o cão ergue o olhar sobre a
terra, as vozes, a água. O lamento de
uma estrela incendeia na queda
o desejo, abandono ardente
tirou meio dia de folga
foi tomar banho no rio; os dedos desceram
sobre a lira de prata as cordas, a
tensão mais extrema, fio de vida. O cão, figura de proa
ancorada. Brilho de lápis
entre o Orontes e o Eufrates, na fértil planície de Antioquia.
João Miguel Fernandes Jorge
Invisíveis Correntes
2004
Oferecido por Rui Almeida.
esfera de fezes
a língua, a míngua de sede
em chão castanho de terra. Na distância, o movimento de uma estrada.
Em torção do corpo,
apoiado no braço, o rosto desenhava-se na água que
restara ao sabor da lama: este é o impossível
silêncio das rãs. Tinham partido. Ficara o abandono. Um
homem pode destruir tudo dentro de si –
ódio, descrença, amor, a dúvida – enquanto se prende
à vida o abandono permanece
o cão ergue o olhar sobre a
terra, as vozes, a água. O lamento de
uma estrela incendeia na queda
o desejo, abandono ardente
tirou meio dia de folga
foi tomar banho no rio; os dedos desceram
sobre a lira de prata as cordas, a
tensão mais extrema, fio de vida. O cão, figura de proa
ancorada. Brilho de lápis
entre o Orontes e o Eufrates, na fértil planície de Antioquia.
João Miguel Fernandes Jorge
Invisíveis Correntes
2004
Oferecido por Rui Almeida.
quarta-feira, 20 de junho de 2007
Somos o bafo dois cães
olhas o espelho
e eu transpiro a ciência
de Camões a masturbar
as mágoas.
Mais um verso atravessaste tu
gato barbieri ao longe
ali nada perdido
nos labirintos com o Minotauro.
Eu digo amor como digo
broca
e os anciãos de cu e boca
batem-me à porta
querem explodir na noite.
Nesta areia precária
morrem crianças
em histórias movediças
tu consegues a luz
nessa fenda inundada
por lembranças.
Nenhum dos dois consegue
erguer mais alto
o pão testicular
que se agarrou aos dedos.
Os cães aquecem
(recomeçar de novo?)
sobre a baba das rendas
resplandeces.
Armando Silva Carvalho
Eu Era de Areia
1977
olhas o espelho
e eu transpiro a ciência
de Camões a masturbar
as mágoas.
Mais um verso atravessaste tu
gato barbieri ao longe
ali nada perdido
nos labirintos com o Minotauro.
Eu digo amor como digo
broca
e os anciãos de cu e boca
batem-me à porta
querem explodir na noite.
Nesta areia precária
morrem crianças
em histórias movediças
tu consegues a luz
nessa fenda inundada
por lembranças.
Nenhum dos dois consegue
erguer mais alto
o pão testicular
que se agarrou aos dedos.
Os cães aquecem
(recomeçar de novo?)
sobre a baba das rendas
resplandeces.
Armando Silva Carvalho
Eu Era de Areia
1977
sábado, 16 de junho de 2007
RETRATO DE D. SEBASTIÃO

Ruíram portas. Os velhos muros desmoronaram.
A lua de agosto, temível artesanato de um gnomo astuto
esperava a surpresa das vítimas. E a própria
palavra da língua fez ouvir gritos desentoados
vindos da noite dos tempos. O verão desse ano,
máscara disforme, envergonhada. E o rei,
um rapaz, o reino ameaçava como se faz às crianças
que não querem adormecer.
Os olhos azuis, pisados, desaguam em fantasias.
Sofriam, no severo conjuro adolescente, o juízo
que Platão verteu sobre os efeitos malignos da
arte, da ilusão que causa na alma humana. Havia
sonho, imagem e fazenda a destruir nos afilados dedos
que traziam morte, filme de gelo sobre o derradeiro
verão dos rios da cidade, ó castelos
e o lebréu, fiel, o mais fiel dos súbditos,
dispõe-se a recolher o afundamento
de corpos, barcas e pátria.
E do rapaz, de dezasseis anos ao tempo do retrato,
Areia de silêncio envolveu seus ossos. Inquietude,
Ânimo, valor ferido.
A lua de agosto, temível artesanato de um gnomo astuto
esperava a surpresa das vítimas. E a própria
palavra da língua fez ouvir gritos desentoados
vindos da noite dos tempos. O verão desse ano,
máscara disforme, envergonhada. E o rei,
um rapaz, o reino ameaçava como se faz às crianças
que não querem adormecer.
Os olhos azuis, pisados, desaguam em fantasias.
Sofriam, no severo conjuro adolescente, o juízo
que Platão verteu sobre os efeitos malignos da
arte, da ilusão que causa na alma humana. Havia
sonho, imagem e fazenda a destruir nos afilados dedos
que traziam morte, filme de gelo sobre o derradeiro
verão dos rios da cidade, ó castelos
e o lebréu, fiel, o mais fiel dos súbditos,
dispõe-se a recolher o afundamento
de corpos, barcas e pátria.
E do rapaz, de dezasseis anos ao tempo do retrato,
Areia de silêncio envolveu seus ossos. Inquietude,
Ânimo, valor ferido.
/Cristóvão de Moraes, c. 1572-74/
João Miguel Fernandes Jorge
Museu das Janelas Verdes
2002
Oferecido por Rui Almeida.
CÃES
Passou um rapaz e disse: «então, está aí, melancólico, a escrever um poema?»
K. podia responder-lhe que a poesia nunca fechara os olhos para a crueldade do mundo, antes pelo contrário; que a poesia nunca o impediu de entender a luta que travam entre si os princípios e as ambições, os ideais e a capacidade de fazer o mal; e que a ironia não vinha nada a propósito.
Para alimentar o mito da sua ligeireza e superficialidade, podia confidenciar que estava à espera de uma rapariga de olhos azuis, pequenas tranças.
Calou-se, porém. Que tinham os cães raivosos que ladrar-lhe quando, na solidão do café, ele começava a entrever o destino de outra perspectiva? Que tinham os amigos falsos que simular a simpatia do interesse quando ele, calado e quieto, já se esquecera de que costumam caluniar-nos quando viramos as costas?
João Camilo
A Ambição Sublime
2001
K. podia responder-lhe que a poesia nunca fechara os olhos para a crueldade do mundo, antes pelo contrário; que a poesia nunca o impediu de entender a luta que travam entre si os princípios e as ambições, os ideais e a capacidade de fazer o mal; e que a ironia não vinha nada a propósito.
Para alimentar o mito da sua ligeireza e superficialidade, podia confidenciar que estava à espera de uma rapariga de olhos azuis, pequenas tranças.
Calou-se, porém. Que tinham os cães raivosos que ladrar-lhe quando, na solidão do café, ele começava a entrever o destino de outra perspectiva? Que tinham os amigos falsos que simular a simpatia do interesse quando ele, calado e quieto, já se esquecera de que costumam caluniar-nos quando viramos as costas?
João Camilo
A Ambição Sublime
2001
Oferecido por Rui Almeida.
VILA VERDE
Cadeia de Vila Verde,
Com teus ferros, tuas pedras,
Arrasada sejas tu!
Com os teus ferros sem alma;
Tuas pedras de olhar cru.
Vila Verde! Vila Verde!
Ai! Cadeias como a tua
Nem mesmo a fogueira as lava!
Eu bem vi em Vila Verde
Loucos, cegos… E, à mistura,
Dois presos. Ambos tão jovens!
Um sorria; outro chorava…
Fora em Maio.
Havia rosas
Cá fora.
E, ao sol, na estrada,
Bailavam os namorados!
Mocidade não tem crimes.
O que tem é coração!
Os dois presos eram jovens,
Estendi-lhes pelas grades,
A palma da minha mão…
Cuidado, Cristãos! Cuidado!
Quanta vez a caridade
Dói tanto ou mais que o desprezo!
Quem falou em mocidade?
Quem falou em coração?
Ao ver-me, aqueles dois presos
Abraçaram-se um ao outro,
E ambos me disseram:
– Cão!
Pedro Homem de Mello
Bodas Vermelhas
1947
Oferecido por Rui Almeida.
Com teus ferros, tuas pedras,
Arrasada sejas tu!
Com os teus ferros sem alma;
Tuas pedras de olhar cru.
Vila Verde! Vila Verde!
Ai! Cadeias como a tua
Nem mesmo a fogueira as lava!
Eu bem vi em Vila Verde
Loucos, cegos… E, à mistura,
Dois presos. Ambos tão jovens!
Um sorria; outro chorava…
Fora em Maio.
Havia rosas
Cá fora.
E, ao sol, na estrada,
Bailavam os namorados!
Mocidade não tem crimes.
O que tem é coração!
Os dois presos eram jovens,
Estendi-lhes pelas grades,
A palma da minha mão…
Cuidado, Cristãos! Cuidado!
Quanta vez a caridade
Dói tanto ou mais que o desprezo!
Quem falou em mocidade?
Quem falou em coração?
Ao ver-me, aqueles dois presos
Abraçaram-se um ao outro,
E ambos me disseram:
– Cão!
Pedro Homem de Mello
Bodas Vermelhas
1947
Oferecido por Rui Almeida.
sexta-feira, 15 de junho de 2007
EU E OS CÃES
Soam os cães. Eu ponho as mãos na noite
e considero os velhos temas do amor.
Eu e os cães puxamos pela noite
com longas franjas batendo-me na testa.
Mas tudo, tudo
é tão exterior:
as franjas dessa colcha descomposta
mas sensível, os eternos lençóis
da solidão.
Como se visse os cães comendo a noite.
Tão intranquilos. Com dente em ruína
a baba em fio
caindo pelas casotas solitárias.
Eu ouço os cães nesta cidade enorme
com crostas de ruídos onde bóiam
os táxis com seu farol astuto
sempre prostituído.
Mas já para os cães vai existir o sono
filho da noite, amigo de animais.
Quase o conheço trazendo
o corpo mole
e sobre o qual
eu morro desistido.
Armando Silva Carvalho
O Comércio dos Nervos
1968
e considero os velhos temas do amor.
Eu e os cães puxamos pela noite
com longas franjas batendo-me na testa.
Mas tudo, tudo
é tão exterior:
as franjas dessa colcha descomposta
mas sensível, os eternos lençóis
da solidão.
Como se visse os cães comendo a noite.
Tão intranquilos. Com dente em ruína
a baba em fio
caindo pelas casotas solitárias.
Eu ouço os cães nesta cidade enorme
com crostas de ruídos onde bóiam
os táxis com seu farol astuto
sempre prostituído.
Mas já para os cães vai existir o sono
filho da noite, amigo de animais.
Quase o conheço trazendo
o corpo mole
e sobre o qual
eu morro desistido.
Armando Silva Carvalho
O Comércio dos Nervos
1968
quinta-feira, 14 de junho de 2007
ÓLEO DE CÃO
O meu nome é Boffer Bings. Nasci de pais honestos, qualquer deles de bastante humilde profissão: meu pai fabricante de óleo de cão; minha mãe proprietária de uma pequena oficina à sombra da igreja, onde eram decepadas crianças indesejáveis. Desde a infância me incutiram hábitos de trabalho assíduo, não só ajudando o meu pai a encontrar cães para os seus caldeirões, como por solicitar a minha mãe com frequência que me encarregasse de dar sumiço aos restos do seu labor. No cumprimento desta tarefa sentia eu necessidade de me apoiar com frequência em todos os recursos da minha inteligência natural, porque os polícias da vizinhança contrariavam a actividade da minha mãe. Não que eles tivessem sido escolhidos pelo partido da oposição ou alguma vez tivessem feito do caso questão política: a coisa era assim mesmo, acabou-se. A profissão do meu pai naturalmente menos impopular, ainda que os donos dos cães desaparecidos sentissem contra ele certas dúvidas que recaíam, de algum modo, sobre mim. O meu pai tinha como sócios-mudos todos os médicos da cidade e bem rara era a receita que não comportasse aquilo que lhes aprazava chamar Olcan, na verdade o mais precioso remédio até hoje descoberto. A maior parte das pessoas recusava-se porém a consentir sacrifícios pessoais para benefício dos necessitados. Como é de esperar, muitos dos mais gordos cães foram proibidos de brincar comigo, o que feriu de modo bem doloroso a minha sensibilidade de jovem e me impeliu, em dado momento, a embarcar como pirata.
Causando indirectamente a morte dos meus bem-amados pais, a referir os dias felizes do passado não posso as mais das vezes deixar de lamentar as desgraças que desencadeei e haveriam de exercer profunda influência sobre o meu futuro.
Certa noite passava eu à frente da olearia do meu pai com o cadáver de uma criança perdida que provinha da oficina da minha mãe, quando vi um polícia a fixar com a maior atenção os meus movimentos. Bem cedo aprendi que os actos de um polícia, seja qual for o seu aspecto, são inspirados pelos motivos, mais repreensíveis. Evitei assim o representante da ordem, esquivando-me para dentro da olearia por uma porta lateral entreaberta. Dei a volta à chave e fiquei a sós com o pequeno morto. O meu pai já estava deitado. Só havia a claridade do forno e a nódoa sanguínea que ele punha debaixo do caldeirão, os reflexos vermelhos projectados de encontro à parede. O óleo ainda fervente fazia girar no caldeirão as suas bolhas preguiçosas, trazia um ou outro pedaço de cão à superfície. Sentei-me, à espera que o polícia afastasse, mantendo nos joelhos o corpo nu da criança perdida, acariciando-lhe meigamente os cabelos curtos e sedosos. Ah! que linda criança! Já naquela idade eu sentia uma verdadeira paixão pelas crianças, e ao contemplar o anjo via nascer dentro de mim o desejo vago de que a pequena ferida vermelha do seu peito (obra da minha mãe) não tivesse tido um resultado mortal. Adquirira o hábito de atirar as crianças àquele rio que a providencial natureza concebera expressamente para o uso que eu lhe destinava. Sucedia, porém, que eu não ousava naquela noite abandonar a olearia, com medo do agente da polícia. «Ao cabo e ao resto – dizia a mim mesmo – enfiar a criança no caldeirão não será coisa de maior importância. O meu pai não saberá distinguir estes ossos dos ossos de um cão pequeno, e o insucesso que pode resultar do emprego de outro óleo diferente do incomparável Olcan nada pesará junto de uma população que não deixa tão facilmente de ter fé». Não tardou que eu desse o meu primeiro passo em direcção ao crime, fazendo cair o pequeno cadáver no caldeirão e reservando a mim próprio incalculáveis aborrecimentos.
Com surpresa minha, no dia seguinte o meu pai esfregava as mãos de contente e declarava, a mim e a minha mãe, que obtivera um óleo de qualidade excepcional (assim rezava o juízo dos médicos a quem tinha patenteado algumas amostras). Afirmou a sua ignorância a respeito de tais resultados, já que eram de raça bastante ordinária os cães utilizados e tudo fora tratado como era seu hábito. Julguei meu dever explicar o que se passara... ter-se-ia no entanto paralisado a minha língua, a prever as consequências da revelação. Lamentando a cegueira que até à data fizera ignoradas as vantagens da fusão das suas indústrias, os meus pais tomaram medidas rápidas para reparar o erro. A minha mãe instalou-se num recanto da olearia e eu fui desobrigado das minhas anteriores ocupações. Deixaram de pedir-me para dar sumiço aos cadáveres das crianças supérfluas, e já de mim não precisavam par atrair os cães ao seu destino porque o meu pai decidira não mais utilizá-los, embora lhes conservasse o honroso lugar no nome do óleo. Mercê da ociosidade súbita, seria talvez de esperar que eu me tivesse feito um debochado de péssimos costumes. Nada disso aconteceu. A santa influência da minha bem-amada mãe não deixou de proteger-me das tentações que assaltam a mocidade, além disso o meu pai era diácono da igreja... E dizer, ai de mim!, que por culpa minha culpa bem triste fim conheceram duas pessoas bem respeitáveis!
Descobrindo dupla vantagem em seu mister, minha mãe dedicou-se-lhe com reforçado zelo. Não contente em decepar por encomenda crianças indesejáveis e supérfluas, começou a calcorrear caminhos afastados e estradas desertas de onde trazia crianças de mais idade, por vezes adultos que lograva persuadir de forma a ser acompanhada àquela olearia. Por outro lado o meu pai, apaixonado pela superior qualidade do óleo produzido, alimentava os seus caldeirões com a maior das diligências. Transformar os vizinhos em óleo de cão, não tardou que fosse o seu único amor. Apoderou-se-lhes da alma uma actividade absorvente e tirânica que substituiu a esperança que alimentavam no ganho do Céu (por quem eram de igual modo inspirados).
Tão empreendedores acabaram por mostrar-se, que os seus concidadãos organizaram uma reunião pública no decurso da qual foram objecto de várias moções de censura. O presidente da assembleia declarou que todo e qualquer novo ataque à gente do lugar seria retribuído em tom hostil. Meus pobres pais saíram da reunião de coração partido, presas do maior desespero e – disso estou convencido – diminuídos na razão. De qualquer forma, julguei prudente não entrar com eles na olearia e deitar-me numa estrebaria.
Sob o efeito de não sei que misterioso impulso, levantei-me por volta da meia-noite e fui olhar à janela da sala do forno onde o meu pai ultimamente se deitava. As chamas brilhavam claras, como se a colheita do próximo dia se anunciasse abundante. Um dos grandes caldeirões fervia docemente, manifestava uma misteriosa discrição, ao que parece na ânsia do instante em que pudesse dar livre curso a toda a sua energia. O meu pai não se encontrava na cama, estava em camisa de noite, de pé, e agarrava numa corda sólida que ia preparando em forma de nó corredio. Os olhares que ele lançava à porta do quarto da minha mãe logo me fizeram compreender o fim que se propunha atingir. Eu sentia a língua e os membros paralisados de terror, não conseguia dar um só grito de alerta, ou fazer um movimento de intervenção. Abriu-se de repente a porta do quatro da minha mãe, sem ruído, e os dois esposos encontraram-se face a face, com grande surpresa aparente. A minha mãe também estava em camisa de noite e agarrava com a mão direita no utensílio da sua profissão, uma faca de lâmina delgada e longa.
Tal como o meu pai, não pudera conformar-se à renúncia do único ganho que lhe restava, cumpridas que fossem a minha ausência e a decisão hostil dos seus concidadãos. Olharam-se com flamejante fixidez e atiraram-se depois um ao outro num acesso de furor indescritível. Lutaram à volta da sala, o homem gritando pragas, a mulher lançando uivos inarticulados; ela tentando atingi-lo com a faca, ele esforçando-se por estrangulá-la nas suas mãos nuas. Não sei por quanto tempo sofri o infortúnio de contemplar tão desagradável quadro de infelicidade doméstica. Porém, ao cabo de um soco particularmente enérgico, os dois combatentes soltaram-se num movimento súbito.
O peito do meu pai e a faca da minha mãe revelavam as marcas sangrentas de um contacto funesto. Os dois esposos trocaram um olhar desprovido de amenidade e o meu pobre e ferido pai, que já sentia sobre si a mão da morte, arremessou-se para a frente sem atender à resistência do adversário. Estreitando em seus braços a minha bem-amada mãe, arrastou-a para muito perto do caldeirão fervente, reunindo débeis forças, projectou-se com ela dentro dele! Desapareceram ambos num instante, juntando o seu óleo ao óleo da embaixada dos cidadãos que tinham vindo na véspera convidá-los a comparecer na citada reunião pública. Convencido de que os bem deploráveis acontecimentos haveriam de fechar-me toda e qualquer carreira respeitável na minha cidade natal, instalei-me na célebre Otumwee onde redijo estas memórias com alma cheia de remorsos pela lembrança do acto estouvado que desencadeou tão deplorável desastre comercial.
Ambrose Bierce
Tradução de Aníbal Fernandes
Antologia do Conto Abominável
1969
Oferecido por Ricardo Jorge.
segunda-feira, 11 de junho de 2007
A CAÇA, A IMENSA CAÇA
A caça, a imensa caça
que alguns dos aguazis
movem a esta carcaça
quase imóvel já e lassa,
incapaz de mais ardis!
Os cães, os húmidos cães,
do meu rasto sabedores,
às vozes dos capitães,
cujo comando deténs,
erguem morras e clamores.
A rês, a lírica rês
que habitou este precinto
terás submissa e cortês,
antes de extinto de vez
o seu bafo nunca extinto.
A. M. Pires Cabral
Os Cavalos da Noite
1982
Oferecido por manuel a. domingos.
que alguns dos aguazis
movem a esta carcaça
quase imóvel já e lassa,
incapaz de mais ardis!
Os cães, os húmidos cães,
do meu rasto sabedores,
às vozes dos capitães,
cujo comando deténs,
erguem morras e clamores.
A rês, a lírica rês
que habitou este precinto
terás submissa e cortês,
antes de extinto de vez
o seu bafo nunca extinto.
A. M. Pires Cabral
Os Cavalos da Noite
1982
Oferecido por manuel a. domingos.
SAUDADE
As saudades da pátria, que ilusão
Há longos anos já abandonada!
Que me importa a mim em que rincão
Esteja isolada
Ou por que estreitas pedras de calçada
Vou com o saco de compras à ilharga
A caminho de uma estranha casa
Que é como uma caserna ou hospital.
Que me importam os rostos entre os quais
Possa viver como um leão rugindo,
E de que povo me possam expulsar,
Que me importa, certamente,
Para dentro de mim.
Como um urso da Kamtchatka sem gelo,
Para mim é sempre igual
O lugar de vida e humilhação.
Não me seduz já o apelo lácteo
Da minha bela língua natal,
Que me importa a língua
Em que não sou compreendida!
O voraz leitor de jornais
E munjidor de intrigas
É do século vinte
E eu de todos os séculos!
Perplexa como um tronco
Sou o que resta duma alameda,
Que me importa tudo, que me importam todos,
E que me importa acima de tudo
A pátria antiga.
Todos os sinais, todas as marcas,
Todas as datas, tudo passou:
Só resta a alma, nascida em qualquer parte.
O meu país não me soube guardar
E não há arguto cão-polícia
Que em toda a minha alma possa achar
Qualquer marca de nascença!
Toda a casa me é alheia, todo o templo me é vazio,
E que me importa tudo se é igual!
Mas os arbustos que avisto pela estrada
São como os da minha terra natal...
Tradução de Manuel de Seabra.
Marina Tsvetayeva
1934
Antologia da Poesia Soviética
1973
Há longos anos já abandonada!
Que me importa a mim em que rincão
Esteja isolada
Ou por que estreitas pedras de calçada
Vou com o saco de compras à ilharga
A caminho de uma estranha casa
Que é como uma caserna ou hospital.
Que me importam os rostos entre os quais
Possa viver como um leão rugindo,
E de que povo me possam expulsar,
Que me importa, certamente,
Para dentro de mim.
Como um urso da Kamtchatka sem gelo,
Para mim é sempre igual
O lugar de vida e humilhação.
Não me seduz já o apelo lácteo
Da minha bela língua natal,
Que me importa a língua
Em que não sou compreendida!
O voraz leitor de jornais
E munjidor de intrigas
É do século vinte
E eu de todos os séculos!
Perplexa como um tronco
Sou o que resta duma alameda,
Que me importa tudo, que me importam todos,
E que me importa acima de tudo
A pátria antiga.
Todos os sinais, todas as marcas,
Todas as datas, tudo passou:
Só resta a alma, nascida em qualquer parte.
O meu país não me soube guardar
E não há arguto cão-polícia
Que em toda a minha alma possa achar
Qualquer marca de nascença!
Toda a casa me é alheia, todo o templo me é vazio,
E que me importa tudo se é igual!
Mas os arbustos que avisto pela estrada
São como os da minha terra natal...
Tradução de Manuel de Seabra.
Marina Tsvetayeva
1934
Antologia da Poesia Soviética
1973
domingo, 10 de junho de 2007
O VELHO CÃO
Soltava ontem já tarde um velho cão felpudo
Uns doloridos ais,
Em frente dum palácio altivo, belo e mudo,
Cerrado aos vendavais.
Fazia pena ouvi-lo, o mísero molosso
Em seu triste chorar!
Era quase uma sombra: apenas pele e osso
E um vago, um doce olhar!..
Eis a sorte cruel do pobre que não come,
Dos míseros sem pão!
Em paga ainda em cima os vai tragando a Fome,
A negra aparição!
Latia o cão faminto. O frio era mordente,
Feroz, quase voraz!
E o pobre não sabia, enfim, que há muita gente
Que adora a santa paz.
Ora perto vivia uma galante rosa,
Etérea, virginal,
Que tinha um lindo colo, amava, era nervosa
E a quem faziam mal,
Aquele uivar sinistro; a ponto de desmaios
Pender a fronte ao chão!
Saíram pois à rua impávidos lacaios
E foram dar no cão.
- Há no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado,
- O Povo sofredor,
Que às vezes vai ganir, com fome, o seu bocado
Às portas dum senhor.
O resto é velha história: ocioso é já dizer-vos
O fim que ela há-de ter.
A Ordem, só de ouvi-lo, alteram-se-lhe os nervos
E manda-lhe bater!
Guilherme de Azevedo
A Alma Nova
1874
Oferecido por Rui Almeida.
Uns doloridos ais,
Em frente dum palácio altivo, belo e mudo,
Cerrado aos vendavais.
Fazia pena ouvi-lo, o mísero molosso
Em seu triste chorar!
Era quase uma sombra: apenas pele e osso
E um vago, um doce olhar!..
Eis a sorte cruel do pobre que não come,
Dos míseros sem pão!
Em paga ainda em cima os vai tragando a Fome,
A negra aparição!
Latia o cão faminto. O frio era mordente,
Feroz, quase voraz!
E o pobre não sabia, enfim, que há muita gente
Que adora a santa paz.
Ora perto vivia uma galante rosa,
Etérea, virginal,
Que tinha um lindo colo, amava, era nervosa
E a quem faziam mal,
Aquele uivar sinistro; a ponto de desmaios
Pender a fronte ao chão!
Saíram pois à rua impávidos lacaios
E foram dar no cão.
- Há no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado,
- O Povo sofredor,
Que às vezes vai ganir, com fome, o seu bocado
Às portas dum senhor.
O resto é velha história: ocioso é já dizer-vos
O fim que ela há-de ter.
A Ordem, só de ouvi-lo, alteram-se-lhe os nervos
E manda-lhe bater!
Guilherme de Azevedo
A Alma Nova
1874
Oferecido por Rui Almeida.
CÃO E PRESA
Um cão apanha um coelho
À margem de uma ribeira;
Mas vendo-o n’aquelle espelho,
Larga-o, salta a ribanceira…
E assim perde o que levava,
E mais o que ambicionava!
Abençoada prudência
(E é esta a moralidade!)
Quantos pela aparência
Perdem a realidade!
João de Deus
Campo de Flores
1893
Oferecido por Rui Almeida.
À margem de uma ribeira;
Mas vendo-o n’aquelle espelho,
Larga-o, salta a ribanceira…
E assim perde o que levava,
E mais o que ambicionava!
Abençoada prudência
(E é esta a moralidade!)
Quantos pela aparência
Perdem a realidade!
João de Deus
Campo de Flores
1893
Oferecido por Rui Almeida.
sexta-feira, 8 de junho de 2007
LIRICACÃO/ÇÃO
Parte da lírica
afago-a com as unhas
focinho
do poema.
Os óculos perseguem as pálidas palavras.
Mesmo as mãos
farejam o discurso
enquanto firo um toiro
num alfabeto loiro
num velho mecanismo.
(Um lápis diz para mim:
enxota a solidão)
Parte da lírica
agora é como um cão.
Armando Silva Carvalho
Lírica Consumível
1965
afago-a com as unhas
focinho
do poema.
Os óculos perseguem as pálidas palavras.
Mesmo as mãos
farejam o discurso
enquanto firo um toiro
num alfabeto loiro
num velho mecanismo.
(Um lápis diz para mim:
enxota a solidão)
Parte da lírica
agora é como um cão.
Armando Silva Carvalho
Lírica Consumível
1965
ESTOU CANSADO DE VIVER NA MINHA TERRA NATAL
Estou cansado de viver na minha terra natal,
Pensativo nas vastidões de trigo negro,
A minha cabana vou abandonar
E partirei como vagabundo e ladrão.
Seguirei o dia de caracóis brancos
A procurar miserável abrigo.
E o meu melhor amigo afiará
Em mim a navalha tirada da bota.
A estrada atravessa o prado
Amarela de sol e Primavera,
E aquela de quem guardo o nome
Em mim, correr-me-á da sua porta.
E voltarei então à casa paterna,
Com a alegria de outro me consolarei,
E com a manga, uma noite verde,
Da janela me enforcarei.
Os salgueiros cinzentos na cerca
Inclinarão mais ternamente a cabeça.
E enterrar-me-ão sem me lavarem
Ao som dos cães a ladrar.
E a lua há-de vaguear e vaguear,
Deixando cair ramos nos lagos,
E a Rússia como dantes viverá
A dançar e a chorar na cerca.
Tradução de Manuel de Seabra.
Sergei Yesenin
1915
Antologia da Poesia Soviética
1973
Pensativo nas vastidões de trigo negro,
A minha cabana vou abandonar
E partirei como vagabundo e ladrão.
Seguirei o dia de caracóis brancos
A procurar miserável abrigo.
E o meu melhor amigo afiará
Em mim a navalha tirada da bota.
A estrada atravessa o prado
Amarela de sol e Primavera,
E aquela de quem guardo o nome
Em mim, correr-me-á da sua porta.
E voltarei então à casa paterna,
Com a alegria de outro me consolarei,
E com a manga, uma noite verde,
Da janela me enforcarei.
Os salgueiros cinzentos na cerca
Inclinarão mais ternamente a cabeça.
E enterrar-me-ão sem me lavarem
Ao som dos cães a ladrar.
E a lua há-de vaguear e vaguear,
Deixando cair ramos nos lagos,
E a Rússia como dantes viverá
A dançar e a chorar na cerca.
Tradução de Manuel de Seabra.
Sergei Yesenin
1915
Antologia da Poesia Soviética
1973
quarta-feira, 6 de junho de 2007
segunda-feira, 4 de junho de 2007
CHESTER
Tenho quatro minutos e alguns segundos para te escrever,
o mesmo tempo das saudades-de-ti.
Tenho um piano para tocar e um cão chamado chester,
tenho tempo e uma toda vida,
uma paixão preta por uma mulher branca.
Aos poucos ficámos a gostar de ti.
Tudo muda, menos tu,
tudo muda, menos o que vou tendo.
Devias viajar mais
sem ligares ao mapa das ruas que esperam que te percas,
como eu,
debaixo da luz daquele candeeiro igual aos outros.
O que são sete anos?
Tenho pelo menos seis para te escrever.
Tudo muda, menos tu.
Devias respirar o ar,
devias fazer parte de um genérico
ou de um agradecimento especial.
Estás mais perto de onde já estás.
Tenho um suor que devias aproveitar melhor.
O teu, lembras-te, apenas me guia.
Devias ir mais ao circo e sentir falta da rede.
Aos poucos, ficámos a amar-te,
aos poucos percebemos os que dormem dontigo,
os que te chateiam, os que tu amas.
Tenho pouco tempo e um piano para tocar,
devias rir mais,
tenho uma cama vazia e tu uma cheia.
Devias olhar menos para o tempo,
não tenho criada mas quero te rum sonho escuro.
Há cidades que não nos ligam,
há um homem que te cola a um ensaio que tu sabes ganhar,
mesmo quando não queres, pedes um beijo e uma boa-noite,
esperas uma gravação e uma carícia para mais tarde.
Tu é que sabes, tem calma,
é isso que queres ouvir, tem calma.
Como é que se luta contra um prazer?
Com outro, vezes e vezes.
Devias cantar mais no duche,
de manhã, quando a força te vem.
Estás mais perto de estares calada,
mas só o vais perceber quando tiveres pouca certeza.
Tenho um suor que devias provar,
se quiseres eu troco.
Os artistas esperam um público,
descalços ainda nos ferimos.
Devias reconhecer o sangue e dançar.
Devias dançar de manhã,
eu não me importo, tenho o sono pesado
e um piano para tocar.
Aind anão sabes as notas, pois não?
Nem eu, graças a deus.
Devias cantar mais, ir à guerra
- é isso não é, é preciso ser teu inimigo.
Tenho um piano para tocar,
talvez não aguente as tuas manhãs,
mas posso tentar adormecer-te com um dó.
Sem grande pena.
Devias dar aulas aos que não te ligam,
devias ir mais com as outras,
tenho um vinho para te acompanhar.
Já notaste como te brindo?
Devias passar uma faca nas minhas mãos
e dizer tão finas.
Tenho um piano para tocar,
devias cantar mais pela manhã.
Tenho pouco mais que quatro anos e alguns dias,
graças a deus,
vou ter um cão melhor que o teu.
Nuno Moura
Soluções do problema anterior
1996
o mesmo tempo das saudades-de-ti.
Tenho um piano para tocar e um cão chamado chester,
tenho tempo e uma toda vida,
uma paixão preta por uma mulher branca.
Aos poucos ficámos a gostar de ti.
Tudo muda, menos tu,
tudo muda, menos o que vou tendo.
Devias viajar mais
sem ligares ao mapa das ruas que esperam que te percas,
como eu,
debaixo da luz daquele candeeiro igual aos outros.
O que são sete anos?
Tenho pelo menos seis para te escrever.
Tudo muda, menos tu.
Devias respirar o ar,
devias fazer parte de um genérico
ou de um agradecimento especial.
Estás mais perto de onde já estás.
Tenho um suor que devias aproveitar melhor.
O teu, lembras-te, apenas me guia.
Devias ir mais ao circo e sentir falta da rede.
Aos poucos, ficámos a amar-te,
aos poucos percebemos os que dormem dontigo,
os que te chateiam, os que tu amas.
Tenho pouco tempo e um piano para tocar,
devias rir mais,
tenho uma cama vazia e tu uma cheia.
Devias olhar menos para o tempo,
não tenho criada mas quero te rum sonho escuro.
Há cidades que não nos ligam,
há um homem que te cola a um ensaio que tu sabes ganhar,
mesmo quando não queres, pedes um beijo e uma boa-noite,
esperas uma gravação e uma carícia para mais tarde.
Tu é que sabes, tem calma,
é isso que queres ouvir, tem calma.
Como é que se luta contra um prazer?
Com outro, vezes e vezes.
Devias cantar mais no duche,
de manhã, quando a força te vem.
Estás mais perto de estares calada,
mas só o vais perceber quando tiveres pouca certeza.
Tenho um suor que devias provar,
se quiseres eu troco.
Os artistas esperam um público,
descalços ainda nos ferimos.
Devias reconhecer o sangue e dançar.
Devias dançar de manhã,
eu não me importo, tenho o sono pesado
e um piano para tocar.
Aind anão sabes as notas, pois não?
Nem eu, graças a deus.
Devias cantar mais, ir à guerra
- é isso não é, é preciso ser teu inimigo.
Tenho um piano para tocar,
talvez não aguente as tuas manhãs,
mas posso tentar adormecer-te com um dó.
Sem grande pena.
Devias dar aulas aos que não te ligam,
devias ir mais com as outras,
tenho um vinho para te acompanhar.
Já notaste como te brindo?
Devias passar uma faca nas minhas mãos
e dizer tão finas.
Tenho um piano para tocar,
devias cantar mais pela manhã.
Tenho pouco mais que quatro anos e alguns dias,
graças a deus,
vou ter um cão melhor que o teu.
Nuno Moura
Soluções do problema anterior
1996
sábado, 2 de junho de 2007
UM BLUES A DOIS

Fingimos muito bem.
Tu enrugas tua face filosófica
e pareces questionar a existência do mundo.
E eu sorrio e converso contigo.
A tristeza não é um espetáculo público,
pertence à nossa intimidade
e nela nos entendemos.
Posso então falar-te à vontade
e choro e te preocupas. Eu sei,
mesmo que nada digas,
afora lamberes-me as mãos
e me olhares com o teu olhar canino
agudamente.
Ambos sabemos o que nos entristece,
o que te preocupas por mim.
Ambos sabemos da tristeza mútua
e nos olhamos com respeito,
Mesmo que eu às vezes insista :
- Diga algo!
E tu me olhes perplexo,
porque querias tanto fazê-lo.
E amas-me e sabes que te amo.
O que não sabemos é que é a nossa questão.
E nós pensamos muito.
A cidade amanhece e estamos insones.
Um blues ia bem,
um dia aprenderás.
Silvia Chueire
(inédito)
sexta-feira, 1 de junho de 2007
HOJE, AS CIDADES
hoje, as cidades
ficaram um pouco mais longe
e eu não sei porquê
só sei que ficaram mais longe
as cidades
à beira-mar, havendo por todo o globo
as duas vidas:
eleanor damortis animada de festas e de estios
ou a rapariga que vive
a mil e quinhentos paus por mês
não sabendo no armário
outros sítios de ser festa ou esperar.
(do outro lado da ribeira o velho cão
guarda o corpo como algas
e compotas de frio às seis da tarde...)
a rapariga do armário
mata-se na cidade
do outro lado de ser diferente o mesmo tempo.
R. Lino
Atlas Paralelo
1984
ficaram um pouco mais longe
e eu não sei porquê
só sei que ficaram mais longe
as cidades
à beira-mar, havendo por todo o globo
as duas vidas:
eleanor damortis animada de festas e de estios
ou a rapariga que vive
a mil e quinhentos paus por mês
não sabendo no armário
outros sítios de ser festa ou esperar.
(do outro lado da ribeira o velho cão
guarda o corpo como algas
e compotas de frio às seis da tarde...)
a rapariga do armário
mata-se na cidade
do outro lado de ser diferente o mesmo tempo.
R. Lino
Atlas Paralelo
1984
terça-feira, 29 de maio de 2007
fastio
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um cão dá-lhe pão caga o cão
revende o cão compra pão caga o pão
compra um pão come pão caga o pão
não compra não come não caga morre
Alberto Pimenta
Os Entes e os Contraentes
1971
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um cão dá-lhe pão caga o cão
revende o cão compra pão caga o pão
compra um pão come pão caga o pão
não compra não come não caga morre
Alberto Pimenta
Os Entes e os Contraentes
1971
NEGRUME
3.
vi os homens no carro celular, os cães fodidos.
por cima de mim estava o ramo,
havia céu, estrelas. mas os cães
ladravam à minha passagem, acossados.
no tempo em que me interrogava,
no tempo em que tinha uma ânfora, azeite e cereal,
fixava a atenção na iridescência. a cristaleira
à minha frente era um espelho.
mas sou agora um homem só. os cães fodidos
ladram na distância, ladram, ladram desabridamente.
e o brilho, assim translúcido,
é agora a minha maior pena, o meu maior desgosto.
vi os homens no carro celular, a neblina cinzenta.
às vezes Deus esmaga-nos o peito, reclama-nos.
o que gela é escuro como uma torrente de gritos.
meu amor, tremo de frio, a noite é vasta.
os cães fodidos. o barco, a viagem. nada espera.
de novo o carro celular volta ao lugar
em que a semente estiola e a boca arde.
não sei de ti, de mim, da nossa sombra.
noutros lugares o aceno é o sinal
da transposição do limite. a nuvem abre-se
ao sulco tracejante, ocre ou grená.
e é possível ver fazer chover.
aqui, assim, na barra da ausência,
só é possível ver as torres altas, os guardas
que vigiam, a arrogância
dos que nos servem o vinho e a abundância.
são desabridos os nossos sentimentos.
o desejo é um cão. os mortos
visitam-me ao crepúsculo. estou em fogo.
vi o carro celular. os cães fodidos.
hei-de dizer às crianças: foi assim
que em golpes de sangue o meu amor morreu.
não sei já para que serve a verdade.
Deus existe, não existe, reclama-nos.
Amadeu Baptista
Negrume
2006
vi os homens no carro celular, os cães fodidos.
por cima de mim estava o ramo,
havia céu, estrelas. mas os cães
ladravam à minha passagem, acossados.
no tempo em que me interrogava,
no tempo em que tinha uma ânfora, azeite e cereal,
fixava a atenção na iridescência. a cristaleira
à minha frente era um espelho.
mas sou agora um homem só. os cães fodidos
ladram na distância, ladram, ladram desabridamente.
e o brilho, assim translúcido,
é agora a minha maior pena, o meu maior desgosto.
vi os homens no carro celular, a neblina cinzenta.
às vezes Deus esmaga-nos o peito, reclama-nos.
o que gela é escuro como uma torrente de gritos.
meu amor, tremo de frio, a noite é vasta.
os cães fodidos. o barco, a viagem. nada espera.
de novo o carro celular volta ao lugar
em que a semente estiola e a boca arde.
não sei de ti, de mim, da nossa sombra.
noutros lugares o aceno é o sinal
da transposição do limite. a nuvem abre-se
ao sulco tracejante, ocre ou grená.
e é possível ver fazer chover.
aqui, assim, na barra da ausência,
só é possível ver as torres altas, os guardas
que vigiam, a arrogância
dos que nos servem o vinho e a abundância.
são desabridos os nossos sentimentos.
o desejo é um cão. os mortos
visitam-me ao crepúsculo. estou em fogo.
vi o carro celular. os cães fodidos.
hei-de dizer às crianças: foi assim
que em golpes de sangue o meu amor morreu.
não sei já para que serve a verdade.
Deus existe, não existe, reclama-nos.
Amadeu Baptista
Negrume
2006
OS BICHOS
Parece o movimento
de uma serpente,
este caminho que percorro
todos os dias
ao encontro do cansaço.
E nas bermas
gatos esventrados.
E no centro,
bem no centro,
alguns cães pisados.
Bichos que sem culpa
prefiro pensar adormecidos.
Henrique Manuel Bento Fialho
Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe
2000
de uma serpente,
este caminho que percorro
todos os dias
ao encontro do cansaço.
E nas bermas
gatos esventrados.
E no centro,
bem no centro,
alguns cães pisados.
Bichos que sem culpa
prefiro pensar adormecidos.
Henrique Manuel Bento Fialho
Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe
2000
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