10.
A minha alegria tem mais de quatro sílabas
e o dia de hoje é feito com pedaços de um
cão: focinho, patas, cauda, orelhas, dentes, peito e flancos.
Esta alegria é afluente do cão incompleto,
dia pródigo, diferente de outros dias, bárbaro
em sua luz, no modo como caminha e se diz
vocábulo monossilábico - o dia: o cão.
Dia de cão, dia de estrela branca, rodando, perseguindo a cauda.
Cão nervoso, flexível, alto. Dia áspero,
maduro, transparente, dia animal,
cão de cristal ou lâmpada ou éter
que evapora na tarde, cão que arde, instável,
amável e doente. Cão de um dia, cão
da minha alegria. Irreparável. Inocente.
Joaquim Pessoa
À Mesa do Amor
Átrio
1994
Antologia de textos com cães dentro.
terça-feira, 13 de novembro de 2007
AS CRIANÇAS FALAM (excertos)
“O cão foi a casa da mãe. Depois encontrou um lobo. Depois o lobo foi atrás da mãe. E depois o urso foi atrás do lobo. E depois o lobo foi para casa da mãe morder. Depois o lobo foi atrás do cão. E depois o cão mordeu a mãe. E o cão foi para casa.”
Acabou?
“Não, ainda falta muito.
E depois o cão foi para a piscina e depois o cão da piscina tinha o rabo molhado. Depois o cão disse à mãe para ir aos anos. Depois o cão foi atrás da mãe depois o cão mordeu a mãe. Depois o Dadá foi à minha casa. E foi ao Jardim Zoológico comigo.
Ainda não acabou...
Depois o cão estava à noite e chegou fora da varanda. Depois o cão foi atrás da mãe. E depois o cão tirou a carteira à mãe.”
Intervém o Carlinhos (6a. 4m.):
“A mãe é cão? Uma mãe que não é cão? Então é a dona. A Joana está a complicar as coisas.”
Continua a Joana (3a. 11m.):
“E depois a mãe deu uma carta ao cão. Depois o cão deu uma carta à mãe. Já acabou.”
– // –
“Quero dizer uma história!
Era uma vez um gato maltês. E era uma vez um cão maltês. E o cão maltês casou com o gato maltês. E depois apareceu um boi. E depois o boi rosnou. E depois o cão maltês e o gato maltês acharam que era muito barulho. E depois foram à janela ver e viram que era um boi e mandaram o boi embora.”
Miguel, 5a. 10m.
– // –
Pintando o Pimpão:
Guidinha, 5a. 2m. (comenta, sobre pintura do Filipe):
– “Um cão com quatro patas!”
Filipe, 6a. 1m. (imediato):
– “Ah! Então como é que tu querias? Um cão tem quatro pernas.”
depois, a rir, diz:
– “Se tivesse só duas era uma galinha.”
A Guidinha imita o andar de um cão, sem apoiar os braços no chão.
O Filipe tem a mesma atitude que nas frases e imita com braços e pernas no chão.
– // –
“Quer ouvir a cantiga do caracol?
O cão vai partir o caracol
mas ele não é capaz.
O cão vai pedir à menina
que parta o caracol
e a menina diz assim:
vou partir o caracol.
E depois já partiu
e o caracol vai para casa.”
Julieta, 3a. 4m.
– // –
C. – “Eu também “
F. – “Eu também quero dizer uma história.”
C. – “Uma vez era um menino...”
F. – “Eu também, sim?”
C. – “ Uma vez era um menino que estava em cima do telhado de uma casa e ele queria saltar de lá. Depois deu um salto para cima de um cavalo. Depois o homem disse: Ó menino olhe que o cavalo não é seu, é meu. E depois a mãe ia à compras e viu o filho em cima do cavalo e foi com ele às compras. E depois ele queria ir à escola e a mãe levou à escola. E depois a mãe levou para a escola e o menino fez pintura, foi almoçar e começou a brincar com os talheres. E depois tiraram os talheres. Depois puseram outra vez e ele comeu. Depois telefonou para a mãe e a mãe veio cá buscar e o menino foi para casa. Depois tinha um cão grande e o cão estava na casota lá fora e os patinhos estavam dentro de casa. Amanhã conto mais. Amanhã acabo.”
Carlinhos, 5a. 8m.
Francisco, 4a. 1m.
– // –
“Era uma vez um cão que quando as pessoas corriam atrás dele, o béu-béu corria atrás das pessoas.”
Pilar, 7a. 10m.
História manuscrita
Adriana Areal Calvet e Elsa Anahory (recolha e selecção)
Fernando Ribeiro de Mello / Edições Afrodite, 1973
Oferecido por Rui Almeida.
Lenda do Cão Maior e do Cão Menor
O Cão Maior e o Cão Menor eram os cães de caça de Orionte. O Cão Maior era tão veloz que podia apanhar qualquer animal. Por isso, tinha muito valor para Orionte.
Os Egípcios antigos viam a brilhante estrela Sírio como o deus Anúbis, o deus com corpo de homem e cabeça de chacal. Quando Sírio aparecia no horizonte antes do nascer do Sol, era a época das cheias do Nilo, que era de grande importância para os agricultores que viviam ao longo do rio, dado que as cheias traziam o lodo que tornava as terras mais férteis. Ficou conhecido como Estrela do Cão (Sírio) e os dias quentes de Verão, entre Julho e princípios de Setembro, foram designados por dias de canícula.
Milton D. Heifetz e Wil Tirion
Um Passeio pelos Céus – Um Guia de Estrelas, Constelações e Lendas
Tradução de Máximo Ferreira
Gradiva, 1998
Os Egípcios antigos viam a brilhante estrela Sírio como o deus Anúbis, o deus com corpo de homem e cabeça de chacal. Quando Sírio aparecia no horizonte antes do nascer do Sol, era a época das cheias do Nilo, que era de grande importância para os agricultores que viviam ao longo do rio, dado que as cheias traziam o lodo que tornava as terras mais férteis. Ficou conhecido como Estrela do Cão (Sírio) e os dias quentes de Verão, entre Julho e princípios de Setembro, foram designados por dias de canícula.
Milton D. Heifetz e Wil Tirion
Um Passeio pelos Céus – Um Guia de Estrelas, Constelações e Lendas
Tradução de Máximo Ferreira
Gradiva, 1998
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
O UIVO
Quando um cão uiva é como se o fizesse do interior dos nossos ossos e os pusesse à mostra, os confundisse com aquilo que nos cerca, de algum modo então o nosso esqueleto integra o pátio, a roupa branca pendurada, a pilha de tijolos, há entre tudo isso e os nossos ossos uma afinidade a que somente o cão, como se o mar todo lhe pesasse na garganta, empresta nitidez.
Luís Miguel Nava
Rebentação
1984
OS OSSOS
Um dia, ao acordar, deu por ter deixado todos os seus ossos num dos sonhos, do qual, como dum espelho, a carne e a roupa juntas irrompiam. Nunca mais desde então os pôde espetar na realidade, coisa que antes tanto se orgulhava de fazer.
Talvez num cão fosse possível encontrar a necessária obstinação para os trazer de novo à superfície. Contudo, a tal profundidade os ossos estariam que, por muito que o animal escavasse, sob as suas patas haveriam de romper as águas de mil rios, pedras, folhas, a enxurrada do universo e, embravecido, o próprio mar, mais tudo aquilo ainda de que habitualmente os sonhos se compõem, antes que deles se deixasse adivinhar o mais breve vestígio.
Luís Miguel Nava
O Céu Sob as Entranhas
1989
O LUGRE (excerto)
TI JOÃO DAS ALMAS: O Albino não foi sempre como hoje é. Eu conheci-o em novo: primeira linha do lugre «Senhora do Mar»!
ZÉ ESPADA: Primeira linha?! (Gargalhada.) Nunca o foi, nunca!
TI JOÃO DAS ALMAS: Tão verdade, como haver Deus no céu: primeira linha, o melhor pescador daquele navio! Digo-te eu, Zé Espada: dobra a língua e não me desmintas!
TÓ VERDE: Pois agora nem pra moço serve... Primeira linha!?
TI JOÃO DAS ALMAS: (tristemente): Foi depois do naufrágio que ele ficou assim: o «Senhora do Mar» afundou-se, a navegar para a Gronelândia, com fogo a bordo. Alguns de vocês hão-de estar lembrados: tu, Zé Robalo, estvas a bordo... e tu, Cara Dura, levavas o teu irmão de contramestre nesse lugre... (Silêncio; evocando.) Onze dias e onze noites no mar: sem água, sem comer, sem roupa, sem nada! (Irado, para os novos.) Vocês... vocês sabem lá o que isto é? Nem tu, Zé Sol; nem tu, Tó Verde; nem tu, Zé Espada... não sabem, não sabem! Onze dias e onze noites! Eram trinta e dois homens e oito botes: quatro em cada dóri. Sabem quantos se salvaram? (Com força, levantando-se.) Sete. Sete, oiçam bem! Os outros morreram todos: muitos de fome e de sede, alguns levados pelas ondas, e uns cinco – ai! estes eram os mais medonhos, aqueles que uma criatura nunca mais pode esquecer, nem de dia, nem de noite! – de juizinho varrido, atiraram-se ao mar, aos gritos, com os olhos rebentados... Nem me quero lembrar! Que Deus me perdoe, mas quando penso naqueles dias, naquelas horas malvadas que nunca mais acabavam... dá-me vontade de cuspir prò céu! (Severo, indignado.) Que admira, que admira, digam-me cá, que o Albino, depois disto, não ficasse o mesmo homem?!...
ZÉ ESPADA: Esta agora! então não querem ver?! Naturalmente foi ele o único que naufragou... A gente sempre ouve cada brisada!
TI JOÃO DAS ALMAS: Assim, do mesmo modo que ele, poucos, raros em toda a frota, fiquem vocês sabendo! Onze dias e onze noites... Ah homens, olhem que no bote do Albino só escapou ele e mais ninguém! Para se aguentar, teve que matar o cão de bordo: e ele gostava do bicho, como se alma cristã fosse! Comeu-lhe a carne crua e bebeu-lhe o sangue ainda quente... É ou não verdade isto, ó Zé Robalo?
Bernardo Santareno
O Lugre – peça em seis actos
1959
Oferecido por Rui Almeida.
ZÉ ESPADA: Primeira linha?! (Gargalhada.) Nunca o foi, nunca!
TI JOÃO DAS ALMAS: Tão verdade, como haver Deus no céu: primeira linha, o melhor pescador daquele navio! Digo-te eu, Zé Espada: dobra a língua e não me desmintas!
TÓ VERDE: Pois agora nem pra moço serve... Primeira linha!?
TI JOÃO DAS ALMAS: (tristemente): Foi depois do naufrágio que ele ficou assim: o «Senhora do Mar» afundou-se, a navegar para a Gronelândia, com fogo a bordo. Alguns de vocês hão-de estar lembrados: tu, Zé Robalo, estvas a bordo... e tu, Cara Dura, levavas o teu irmão de contramestre nesse lugre... (Silêncio; evocando.) Onze dias e onze noites no mar: sem água, sem comer, sem roupa, sem nada! (Irado, para os novos.) Vocês... vocês sabem lá o que isto é? Nem tu, Zé Sol; nem tu, Tó Verde; nem tu, Zé Espada... não sabem, não sabem! Onze dias e onze noites! Eram trinta e dois homens e oito botes: quatro em cada dóri. Sabem quantos se salvaram? (Com força, levantando-se.) Sete. Sete, oiçam bem! Os outros morreram todos: muitos de fome e de sede, alguns levados pelas ondas, e uns cinco – ai! estes eram os mais medonhos, aqueles que uma criatura nunca mais pode esquecer, nem de dia, nem de noite! – de juizinho varrido, atiraram-se ao mar, aos gritos, com os olhos rebentados... Nem me quero lembrar! Que Deus me perdoe, mas quando penso naqueles dias, naquelas horas malvadas que nunca mais acabavam... dá-me vontade de cuspir prò céu! (Severo, indignado.) Que admira, que admira, digam-me cá, que o Albino, depois disto, não ficasse o mesmo homem?!...
ZÉ ESPADA: Esta agora! então não querem ver?! Naturalmente foi ele o único que naufragou... A gente sempre ouve cada brisada!
TI JOÃO DAS ALMAS: Assim, do mesmo modo que ele, poucos, raros em toda a frota, fiquem vocês sabendo! Onze dias e onze noites... Ah homens, olhem que no bote do Albino só escapou ele e mais ninguém! Para se aguentar, teve que matar o cão de bordo: e ele gostava do bicho, como se alma cristã fosse! Comeu-lhe a carne crua e bebeu-lhe o sangue ainda quente... É ou não verdade isto, ó Zé Robalo?
Bernardo Santareno
O Lugre – peça em seis actos
1959
Oferecido por Rui Almeida.
O CÃO
À noite ou no dia, ele
sempre acorreu.
Mas no fundo do olho
vigia ainda
uma surpresa, um quê
de indiferente aos chamados.
Quando corre em círculos
à nossa volta ou quando
dormita junto ao fogão,
o uivo antigo
espreita em seu hálito.
(Quem o tiraria de lá?)
Para cumprimentá-lo
seria preciso
ladrar.
sempre acorreu.
Mas no fundo do olho
vigia ainda
uma surpresa, um quê
de indiferente aos chamados.
Quando corre em círculos
à nossa volta ou quando
dormita junto ao fogão,
o uivo antigo
espreita em seu hálito.
(Quem o tiraria de lá?)
Para cumprimentá-lo
seria preciso
ladrar.
Renato Suttana
Bichos
Oferecido por Nicolau Saião.
domingo, 28 de outubro de 2007
CÃO MORRE DE SEDE E DE FOME EM EXPOSIÇÃO
Um artista da Costa Rica, Guillermo Habacuc Vargas, expôs um cão vadio faminto numa galeria de arte. Ninguém o alimentou ou lhe deu água, morreu durante a exposição. Guillermo Habacuc Vargas foi o artista escolhido para representar o seu país na "Bienal Centroamericana Honduras 2008". Existe uma petição onde é pedido que ele não receba este prémio. Por favor assinem preenchendo o Nome, email, Localidade e País.
Recebido no e-mail.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
NAS MARGENS DO DORDOGNE
Os cães uivam
chamam a noite. Com todo
o desespero dos animais.
O rio arrasta-se até
às estrelas. Nós pomos
as pedras no barco.
Hans-Ulrich Treichel
Como se fosse a minha vida
1994
chamam a noite. Com todo
o desespero dos animais.
O rio arrasta-se até
às estrelas. Nós pomos
as pedras no barco.
Hans-Ulrich Treichel
Como se fosse a minha vida
1994
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
DIÁRIO DE UM LOUCO (fragmento)
Novembro, 11
Hoje estive no gabinete do nosso director, afiei para ele vinte e três penas e, para Sua - ai, ai! - Excelenciazinha, afiei quatro. O director adora ter imensas penas em cima da mesa. Uui! Deve ser uma grande cabeça! Sempre clalado, mas a cabeça, acho eu, sempre a reflectir muito. Gostaria muito de saber o que, preferencialmente, ele pensa, o que se trama naquela sua cabeça. Apetecia-me estar por dentro da vida desses senhores, ver de perto todos aqueles esmeros, equívocos, cortesanias, como é, o que eles fazem no seu círculo - era isso que eu gostaria de conhecer! Já pensei por várias vezes ter uma conversa com Sua Excelência, mas, cos diabos, a língua não me obedece: limito-me a dizer que está frio ou calor na rua, não conseguindo articular, definitivamente, mais nada. Gostaria de dar uma espreitadela pela sala de estar, de que apenas vislumbro às vezes a porta aberta, e por mais outra sala a seguir à de estar. Que rica decoração! Que espelhos e porcelanas! Gostaria de dar uma olhada por ali, por aquela parte da casa onde ela, Sua Excelência, vive - era isso que me apetecia! Ver-lhe o boudoir: como se espalham por lá aqueles frasquinhos, vidrinhos, flores, essas coisas que até faz medo respirar para cima delas; como paira lá o seu vestido, que mais se assemelha ao ar do que a um vestido. Gostaria de espiar o seu quarto de dormir... ali, penso eu, são só milagres, um paraíso que, penso eu, nem no céu existe. Que bom seria ver o banquinho onde ela, quando se levanta da cama, põe o pezinho, como calça no pezinho uma meia branca de neve... ai, ai, ai!, nada, nada, calo-me.
Hoje, entretanto, foi para mim como que uma iluminação: lembrei-me da conversa das duas cadelas que ouvira na Avenida Névski. «Ora bem - pensei -, agora vou saber tudo. é preciso interceptar a correspondência entre essas duas malditas cadelas. Hei-de tirar com certeza alguma coisa dessa correspondência.» Confesso que cheguei mesmo a chamar a Medji e a dizer-lhe: «Ouve, Medji, estamos aqui só os dois e, se quiseres, posso também fechar a porta e já ninguém nos vê... conta-me tudo o que sabes da menina. Como é ela? O que faz? Juro por Deus que não conto a ninguém.» Mas a manhosa meteu o rabo entre as pernas, encolheu-se toda e saiu devagarinho pela porta como se não tivesse ouvido nada. Suspeito desde há muito que o cão é bastante mais esperto do que o homem: sempre estive convencido, até, de que o cão sabe falar, só que tem um feitio teimoso. O cão é um político extraordinário: repara em tudo, em todos os passos do homem. Está decidido: custe o que custar, amanhã mesmo vou ao prédio de Zverkov, interrogo Fidèle e, se for possívl, intercepto todas as cartas que Medji lhe escreveu.
Nikolai Gógol
Contos de São Petersburgo
Trad. Nina Guerra, Filipe Guerra
Biblioteca Editores Independentes
UM CÃO LADRA
Um cão ladra, monótono, insistente:
dois latidos que se repetem, quando
a noite se apresenta e uma criança chora,
por perto. Uma persiana fecha-se.
O cão prossegue. Por vezes, apenas um latido,
como se estivesse cansado. Mas persiste.
A noite é esse latido. Não a vida,
monótona, insistente, que procura outra
metáfora. Por toda a noite, um cão ladra.
José Alberto Oliveira
Nada Tão Importante Que Não Possa Ser Dito
Assírio & Alvim, 2007
Oferecido por Rui Almeida.
dois latidos que se repetem, quando
a noite se apresenta e uma criança chora,
por perto. Uma persiana fecha-se.
O cão prossegue. Por vezes, apenas um latido,
como se estivesse cansado. Mas persiste.
A noite é esse latido. Não a vida,
monótona, insistente, que procura outra
metáfora. Por toda a noite, um cão ladra.
José Alberto Oliveira
Nada Tão Importante Que Não Possa Ser Dito
Assírio & Alvim, 2007
Oferecido por Rui Almeida.
BALADA PARA HILDA BLUM
À meia-noite, os cães de Islington, de grande rasto azul perseguido, quase se abrigam em ti, no soluçar das estátuas.
Há luzes que riscam teu supremo perfil de hetaira abandonada: uma frase repousa imóvel no tempo de Karlsbad, a cabeleira fosca de Colette alastra na noite.
East Pakistan could find itself with more funds available than it has now. Even more appealing...
Pitonisa do silêncio, águia poluída que és!
Nas esquinas de Novembro, vais caminhando – secreto sorriso que sabes de cor, hesitaçao à beira dos semáforos.
Mas logo que os teatros se esvaziam, é nos degraus do foyers que te sentas sempre, aconchegada em teu velho casaco de marta, fumando lentamente o cigarro amarelo, indagando de nós a loucura que trazes.
... What do you mean we took land away from the Arabs? Don’t forget that Jordan took East Jerusalem by force in 1948.
Eu não sei, Hilda Blum, quantas ruas tropeças, que terra de que parque se apega aos sapatos arrombados que tens.
Minúscula e bêbeda, guardas na pequena mala, entre folhas de plátano, comprimidos, lenços esburacados, o bilhete escrito de forma soletrada no centro do álcool.
... «I’m just getting sweeter and sweeter» ... «I’m not so objectionable any more» ... press conference at wish she ... still contains a liberal pinch of salt.
Retiras as meias, e falas esquecidamente: do sinistro olhar do escultor que te quis o busto, do jeito que tinha outrora André Willy dizendo um poema no boulevard.
Martelada até nunca, a velha maquina esgalgada de tua litania investe contra a madrugada do quarto.
Agora Karlsbad são as estátuas, os cães que se abrigam em torno de ti.
Yesterday, after a lengthy public session, the committee...
E bebes e repetes: os longos jardins, os bigodes tão loiros do jovem Kronprinz, a tarde de Verão na Grande Corniche no tempo de após chá.
Mil e uma vezes pedes desculpa. Por ti e por nós – por todos os cães.
Depois, amarrotado o jornal da véspera, escutado o world service, bebes ainda, ainda.
«... was not the Old Vic...». So I asked myself, «why not make pubs for them to take home with them?»
E quando as horas se escoam, e o Sol vem rasando os cais do Tamisa, só fica do teu rosto, da noite que o leva, um clarão que desfalece de pó-de-arroz e carmim.
Pitonisa, Pitonisa!
... And this was tonight’s news.
Mário Cláudio
Itinerários - Contos
1993
Há luzes que riscam teu supremo perfil de hetaira abandonada: uma frase repousa imóvel no tempo de Karlsbad, a cabeleira fosca de Colette alastra na noite.
East Pakistan could find itself with more funds available than it has now. Even more appealing...
Pitonisa do silêncio, águia poluída que és!
Nas esquinas de Novembro, vais caminhando – secreto sorriso que sabes de cor, hesitaçao à beira dos semáforos.
Mas logo que os teatros se esvaziam, é nos degraus do foyers que te sentas sempre, aconchegada em teu velho casaco de marta, fumando lentamente o cigarro amarelo, indagando de nós a loucura que trazes.
... What do you mean we took land away from the Arabs? Don’t forget that Jordan took East Jerusalem by force in 1948.
Eu não sei, Hilda Blum, quantas ruas tropeças, que terra de que parque se apega aos sapatos arrombados que tens.
Minúscula e bêbeda, guardas na pequena mala, entre folhas de plátano, comprimidos, lenços esburacados, o bilhete escrito de forma soletrada no centro do álcool.
... «I’m just getting sweeter and sweeter» ... «I’m not so objectionable any more» ... press conference at wish she ... still contains a liberal pinch of salt.
Retiras as meias, e falas esquecidamente: do sinistro olhar do escultor que te quis o busto, do jeito que tinha outrora André Willy dizendo um poema no boulevard.
Martelada até nunca, a velha maquina esgalgada de tua litania investe contra a madrugada do quarto.
Agora Karlsbad são as estátuas, os cães que se abrigam em torno de ti.
Yesterday, after a lengthy public session, the committee...
E bebes e repetes: os longos jardins, os bigodes tão loiros do jovem Kronprinz, a tarde de Verão na Grande Corniche no tempo de após chá.
Mil e uma vezes pedes desculpa. Por ti e por nós – por todos os cães.
Depois, amarrotado o jornal da véspera, escutado o world service, bebes ainda, ainda.
«... was not the Old Vic...». So I asked myself, «why not make pubs for them to take home with them?»
E quando as horas se escoam, e o Sol vem rasando os cais do Tamisa, só fica do teu rosto, da noite que o leva, um clarão que desfalece de pó-de-arroz e carmim.
Pitonisa, Pitonisa!
... And this was tonight’s news.
Mário Cláudio
Itinerários - Contos
1993
Oferecido por Rui Almeida.
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
MARINHA COM CACHORROS
Vi-os latirem para o mar,
treparem nas pedras que se empilham
no sopé do Mont Serrat
enquanto branquejavam murada
e bastiões do velho forte, feito museu.
Vi-os, cachorros, compondo seu balé de ferozes,
cheirando o quê, de meio à maresia,
era almíscar de fêmea, certeza de prole,
corneta indeclinável,
inodora para mim.
Vi-os maquinando a matilha
de focinhos de virilhas
e, de estéreis rochedos,
urdindo promíscua ilha.
Não os vi chegar. Mais cedo,
que eu, que transitava à toa,
teriam eles, cães, sido impelidos
a desertarem ruas, deveres de guarda,
ossos de aves. E gatos. E desertaram,
e o séquito
rumara colorido para a praia.
Ladravam para as ondas - vi-os. E as ondas
brigavam entre si, elas alheias:
Cães são navios. Eles, úmidos,
mantinham-se ali, caninos porém:
como salgando-se... Até
que desciam; mas subiam novamente
- eu sem entender. Às vezes,
um a outro abocanhava, mas irado,
não apenas por mostrar-se.
Era de tarde: trezentos e tantos da invasão holandesa.
Grato, mui grato,
o portentoso forte,
com seus fantasmas, com seus canhões apontados para o poente,
guarnecia o cio.
Wladimir Saldanha
Antologia 2007
Poetas na Surrealidade em Estremoz
Câmara Municipal de Estremoz
Abril de 2007
treparem nas pedras que se empilham
no sopé do Mont Serrat
enquanto branquejavam murada
e bastiões do velho forte, feito museu.
Vi-os, cachorros, compondo seu balé de ferozes,
cheirando o quê, de meio à maresia,
era almíscar de fêmea, certeza de prole,
corneta indeclinável,
inodora para mim.
Vi-os maquinando a matilha
de focinhos de virilhas
e, de estéreis rochedos,
urdindo promíscua ilha.
Não os vi chegar. Mais cedo,
que eu, que transitava à toa,
teriam eles, cães, sido impelidos
a desertarem ruas, deveres de guarda,
ossos de aves. E gatos. E desertaram,
e o séquito
rumara colorido para a praia.
Ladravam para as ondas - vi-os. E as ondas
brigavam entre si, elas alheias:
Cães são navios. Eles, úmidos,
mantinham-se ali, caninos porém:
como salgando-se... Até
que desciam; mas subiam novamente
- eu sem entender. Às vezes,
um a outro abocanhava, mas irado,
não apenas por mostrar-se.
Era de tarde: trezentos e tantos da invasão holandesa.
Grato, mui grato,
o portentoso forte,
com seus fantasmas, com seus canhões apontados para o poente,
guarnecia o cio.
Wladimir Saldanha
Antologia 2007
Poetas na Surrealidade em Estremoz
Câmara Municipal de Estremoz
Abril de 2007
CÃES
Vê como eles andam
pela noite fora, esfregando a sombra
dos seus idênticos corpos longos nos muros
ou farejando-as, inclinadas, nas calçadas.
Pobres, livres, solitários
na nostalgia dos canis abandonados,
amordaçados por açaimos rebeldes e presos
a coleiras marcadas com os números da morte.
Aquele procura talvez a zona dos canais
e acabará no suicídio antes que amanheça.
Este outro vai procurar amor,
eterno rapagão quadrúpede
sem um tostão no bolso:
e com prazer fareja pelos cantos
pr'a se sumir na esquina de uma rua
Paolo Buzzi
Antologia do Futurismo Italiano
(original de Versos Livres, 1913)
Tradução de José Mendes Ferreira
1979
Oferecido por Rui Almeida.
pela noite fora, esfregando a sombra
dos seus idênticos corpos longos nos muros
ou farejando-as, inclinadas, nas calçadas.
Pobres, livres, solitários
na nostalgia dos canis abandonados,
amordaçados por açaimos rebeldes e presos
a coleiras marcadas com os números da morte.
Aquele procura talvez a zona dos canais
e acabará no suicídio antes que amanheça.
Este outro vai procurar amor,
eterno rapagão quadrúpede
sem um tostão no bolso:
e com prazer fareja pelos cantos
pr'a se sumir na esquina de uma rua
Paolo Buzzi
Antologia do Futurismo Italiano
(original de Versos Livres, 1913)
Tradução de José Mendes Ferreira
1979
Oferecido por Rui Almeida.
O CÃO VIAJANTE
A notícia veio de São Paulo, trazida por Anhembi. Foi o caso que certo cavalheiro de posses – um grã-fino, diz a revista – regressou dos Estados Unidos em companhia de um cachorro de raça, lá adquirido. No aeroporto de Congonhas, diante dos funcionários da Alfândega, houve a abertura de malas, e verificou-se que quatro eram do cachorro: uma com roupas, outra com coleiras e focinheiras; uma terceira com vitaminas, e a última com alimentos especiais.
O comentarista fala na Revolução Francesa, que reagiu contra coisas dêsse gênero, e na Revolução Russa, que reuniu em museu as jóias oferecidas pelos aristocratas a seus cães e cavalos. Expus o caso a um cachorro de minhas relações, chamado Puck, e êle manteve comigo, por meio dos olhos e da cauda saltitante, êste diálogo quase maiêutico, embora às avessas.
– As malas eram quatro, diz você?
– Realmente, meu caro Puck.
– Com certeza eram malinhas à-toa...
– Não consta da notícia, mas presumo que fôssem malas consideráveis.
– E você quer insinuar com isso que cachorro em viagem não tem direito a mala?
– Não é bem assim. Pareceu-me que havia bagagem em excesso para viajante tão sóbrio de natureza, como – não é por estar em sua presença – eu considero o cão.
– E quantas malas tinha o grã-fino? Quarenta?
– A revista não diz, mas é de supor que trouxesse muitas.
– Você acha direito que um homem viaje com quarenta malas (por hipótese) e seu cão não tenha pelo menos quatro?
– Mas veja bem, Puck, o homem é um animal complicado e que se afastou da natureza. Vai a festas noturnas, que exigem equipamento especial; tem reuniões de negócio, de esporte, de amor, de guerra. Compra livros e até os lê. Precisa de tapetes, automóveis, discos, esmalte de unhas e tudo aquilo que vocês, mais felizes, não conhecem ainda, ou desprezam.
– Essas coisas são necessárias à vida?
– São, na medida em que a tornam mais agradável.
– E não seria tempo de estendê-las ao uso pessoal dos cachorros e de outros animais em condições de saboreá-las?
– Teòricamente, talvez. Não acha, porém, que seria caso de estendê-las antes a todos os homens?
– Elas chegam para todos?
– No estado atual da produção, é capaz de não chegarem.
– Então, que adiantaria?
– Pelo que vejo, você tomou partido francamente por sua espécie contra a minha, quando as duas se entendem há milênios.
– Engano, meu caro. O que você enxerga no gesto do grã-fino é a falta de sensibilidade diante da miséria alheia, quando eu enxergo precisamente um comêço tímido de sensibilidade, a abotoar-se como uma florzinha anêmica. Todo êsse cuidado com o cão, um simples cão (pois somos simples, e esta é nossa maior virtude), revela que o homem não está de todo perdido, e já começa a desconfiar da existência do próximo. Por enquanto tem os olhos baixos, e só repara em alguns de nós, de mais pedigree. Amanhã descobrirá as criancinhas, e dia virá em que...
– Êle se estimará a si mesmo, através dos outros?
– Não vou a tanto – resmungou Puck. – Também, você está exigindo demais de seus semelhantes.
Carlos Drummond de Andrade
Fala, amendoeira
1957
O comentarista fala na Revolução Francesa, que reagiu contra coisas dêsse gênero, e na Revolução Russa, que reuniu em museu as jóias oferecidas pelos aristocratas a seus cães e cavalos. Expus o caso a um cachorro de minhas relações, chamado Puck, e êle manteve comigo, por meio dos olhos e da cauda saltitante, êste diálogo quase maiêutico, embora às avessas.
– As malas eram quatro, diz você?
– Realmente, meu caro Puck.
– Com certeza eram malinhas à-toa...
– Não consta da notícia, mas presumo que fôssem malas consideráveis.
– E você quer insinuar com isso que cachorro em viagem não tem direito a mala?
– Não é bem assim. Pareceu-me que havia bagagem em excesso para viajante tão sóbrio de natureza, como – não é por estar em sua presença – eu considero o cão.
– E quantas malas tinha o grã-fino? Quarenta?
– A revista não diz, mas é de supor que trouxesse muitas.
– Você acha direito que um homem viaje com quarenta malas (por hipótese) e seu cão não tenha pelo menos quatro?
– Mas veja bem, Puck, o homem é um animal complicado e que se afastou da natureza. Vai a festas noturnas, que exigem equipamento especial; tem reuniões de negócio, de esporte, de amor, de guerra. Compra livros e até os lê. Precisa de tapetes, automóveis, discos, esmalte de unhas e tudo aquilo que vocês, mais felizes, não conhecem ainda, ou desprezam.
– Essas coisas são necessárias à vida?
– São, na medida em que a tornam mais agradável.
– E não seria tempo de estendê-las ao uso pessoal dos cachorros e de outros animais em condições de saboreá-las?
– Teòricamente, talvez. Não acha, porém, que seria caso de estendê-las antes a todos os homens?
– Elas chegam para todos?
– No estado atual da produção, é capaz de não chegarem.
– Então, que adiantaria?
– Pelo que vejo, você tomou partido francamente por sua espécie contra a minha, quando as duas se entendem há milênios.
– Engano, meu caro. O que você enxerga no gesto do grã-fino é a falta de sensibilidade diante da miséria alheia, quando eu enxergo precisamente um comêço tímido de sensibilidade, a abotoar-se como uma florzinha anêmica. Todo êsse cuidado com o cão, um simples cão (pois somos simples, e esta é nossa maior virtude), revela que o homem não está de todo perdido, e já começa a desconfiar da existência do próximo. Por enquanto tem os olhos baixos, e só repara em alguns de nós, de mais pedigree. Amanhã descobrirá as criancinhas, e dia virá em que...
– Êle se estimará a si mesmo, através dos outros?
– Não vou a tanto – resmungou Puck. – Também, você está exigindo demais de seus semelhantes.
Carlos Drummond de Andrade
Fala, amendoeira
1957
Oferecido por Rui Almeida.
DENIS-ANTOINE CHAUDET
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
EM MEMÓRIA DO MEU CÃO
Sobre o campo fresco
Entre camomilas bravas e serralha
Recordo-te a brincar como criança.
Arfas depois solene,
Vens a correr depois lamber-me as mãos
E bebes a longos haustos a tarde
Mansa como o teu dorso
Mansa como os teus olhos.
Breve companheiro:
Olhava-te entendias-me
E de mim só querias puro afecto.
E te perdi também.
Se és Maltês errante no Além dos cães
Ao Senhor que tudo pode em tais domínios
Pede me seja, um dia, consentido
Entrar
E afagar-te ainda uma outra vez.
1981
Adalberto Alves
O Gume e o Tempo
1982
Entre camomilas bravas e serralha
Recordo-te a brincar como criança.
Arfas depois solene,
Vens a correr depois lamber-me as mãos
E bebes a longos haustos a tarde
Mansa como o teu dorso
Mansa como os teus olhos.
Breve companheiro:
Olhava-te entendias-me
E de mim só querias puro afecto.
E te perdi também.
Se és Maltês errante no Além dos cães
Ao Senhor que tudo pode em tais domínios
Pede me seja, um dia, consentido
Entrar
E afagar-te ainda uma outra vez.
1981
Adalberto Alves
O Gume e o Tempo
1982
terça-feira, 9 de outubro de 2007
mamã
aqui estou
debaixo de terra
com a minha boca
aberta
e
incapaz de dizer
mãe,
e os cães passam a correr e param para mijar
na minha campa; tenho tudo
menos o sol
e o meu fato começa a ficar
estragado
e ontem
o que restava do meu braço
esquerdo desapareceu
resta pouco, como uma harpa
sem cordas.
ao menos um bêbado
na cama com um cigarro
pode ser a causa para 5 carros
dos bombeiros e
33 homens.
eu não
faço
quase
nada.
mas p.s. – Hector Richmond na campa ao
lado só pensa em Mozart e
gomas.
ele é
muito má
companhia.
Charles Bukowski, Crucifix in a Deathhand , 1965
versão de manuel a. domingos
debaixo de terra
com a minha boca
aberta
e
incapaz de dizer
mãe,
e os cães passam a correr e param para mijar
na minha campa; tenho tudo
menos o sol
e o meu fato começa a ficar
estragado
e ontem
o que restava do meu braço
esquerdo desapareceu
resta pouco, como uma harpa
sem cordas.
ao menos um bêbado
na cama com um cigarro
pode ser a causa para 5 carros
dos bombeiros e
33 homens.
eu não
faço
quase
nada.
mas p.s. – Hector Richmond na campa ao
lado só pensa em Mozart e
gomas.
ele é
muito má
companhia.
Charles Bukowski, Crucifix in a Deathhand , 1965
versão de manuel a. domingos
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