Antologia de textos com cães dentro.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

MANHÃ

Um copo de névoa ao pequeno-almoço;
um rumor de vento com o pão;
um muro por detrás do ladrar do cão.


Nuno Júdice
O movimento do mundo
1996

Oferecido por Rui Almeida.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

sábado, 12 de janeiro de 2008

O UIVADOR

Tinham-me dito p'ra não passar pelo carreiro de Brigg's Hill,
Que em tempos tinha sido a estrada até Zoar,
Uma vez que Goody Watkins, enforcado em mil setecentos e quatro,
Deixara por ali certo vestígio monstruoso.

Mas quando desobedeci e tive à vista
A casa envolta em hera ao pé da grande escarpa,
Não pensei nem em olmos nem em cordas de cânhamo,
Antes me perguntei porque parecia ela inda tão nova.

Parara um pouco a contemplar o declinar do dia
E ouvia uns débeis uivos vindos de um quarto no alto,
Quando através das vidraças cobertas de trepadeiras
Um raio do pôr do sol colheu de surpresa o uivador.

Vislumbrei-o e freneticamente fugi daquele lugar
- e da coisa a quatro patas com uma face de homem.

H. P. Lovecraft
Os Fungos de Yuggoth
Trad. Nicolau Saião
Black Sun Editores
2002

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O que acontece no inverno na aldeia quando passam os cães do gado

I.

Aqui não há frio nem prados
nem o frio dos prados
vê-se simplesmente o buraco do arvoredo
por entre as falhas da lua
e os cães do gado afastam-se lentamente

dirigindo-se também eles ao sítio
onde uma luz crua ilumina duma vez o Inverno.

É assim o campo à noite
ninguém sabe se é campo, ninguém sabe se é noite

Porque nada se faz com a facilidade que pensamos
e as coisas aqui demoram como a pedra
e o sono dos lacraus.

Vê-se, isso sim, simplesmente o buraco do arvoredo
por entre as falhas da lua
e a luz primeira que veio por estes sítios

Se os cães do gado, mansos
e sabendo perfeitamente da pouca utilidade de dias assim tão
compridos
na eminência dos lobos,
se os cães do gado, dizia, assim se afastam
não é porque haja direcção
mas porque conhecem perfeitamente o movimento de rotação da
terra


II.

Afastam-se lentamente
pisando as folhas do Inverno anterior

E há falhas no arvoredo, prova inequívoca de que o céu existe.

Não há perdizes por aqui
já morreram da espera.
Impossibilitadas de cair de um tiro
despenharam-se elas mesmas conforme sabiam
indo cair exactamente aos pés das diversas falhas na folhagem.

Essa, a que deixa por entre si vir a lua.

É assim o inverno aqui
no lugar onde os cães se afastam por profissão

Não se sabe quando poderão parar
já que seguem através de uma marcha exterior ao que são.
Avançam lentamente
tendo talvez na ideia a ideia de um rebanho por ali.

E arrastam uma enorme cabeça de boi manso,
arrastam a cor e o cheiro
e pisam as folhas do inverno anterior.

Ainda persistirão,
parecem saber que têm de sair dali
embora, deslocando-se, não saiam do mesmo lugar.

É esse o abismo do tempo na aldeia


João Habitualmente, Os Animais Antigos, 2006.


Oferecido por manuel a. domingos.
O sol, como uma víbora
de fogo pelo ar
enrosca-se nas pedras,
sobre a casa, as vides, os caminhos,
e a terra morde-o
com os seus dentes cariados
como um cão raivoso.
E cega a saliva,
e exacerba as mortes,
e rouba suor terno
do corpo das crianças.
E cinge
com uma fita louca a metade
dos dias, o seu líquido
extermínio.
Sob a sombra
das figueiras passa
a brasa dos insectos. E até a água
toca o cio bestial das abelhas
e mosquitos gigantes
moribundos e loucos.
É verão e é julho, e na sua noite
por um poço desce a frescura da lua.
Por um poço de cigarras debilitadas,
afogada já a sua febre, devorada
a sua luxúria na sesta.

Juana Castro
Trad. Amadeu Baptista
Cadernos de Poesia Hífen N.º9

Os Cães do Tempo

O tempo tem mastins que erguem as vozes
hostis contra o rodar da carruagem,
o passo acomodando à abordagem,
por igual insolentes e ferozes.

Cerra ouvidos, podendo, por que gozes
dos solavancos a breve vantagem,
que muito cedo verás a viagem
tolhida de fracturas, anciloses.

E à tenaz, intrépida matilha
podes, querendo (ingénua armadilha),
lançar acaso um osso do farnel.

Deter-se-ão talvez; mas o antigo
olfacto lhes dirá que o inimigo
segue a bordo – e retomam o tropel.

A.M. Pires Cabral, Os Cavalos da Noite, 1982.

Oferecido por manuel a. domingos.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

HISTÓRIAS DE CÃES 2

O funeral da velha decorreu sem problemas
de maior, ou sobressaltos de última hora. Vivia
na solidão dos últimos resistentes, encerrando
uma anónima genealogia e por isso no rosto
dos vizinhos só um pesar de circunstância,
a caminho do cemitério. O leve trejeito de luto
como quem cumpre um dever sem gosto
nem zelo. Atrás de um parente remoto, encerrando
o féretro, só a velha cadela parecia sangrar
dos olhos, farejando, não o rastro da morte,
mas o quotidiano caldo perdido.

Fernando de Castro Branco
Plantas Hidropónicas

Oferecido por Alberto Silva.

HISTÓRIAS DE CÃES 4

Regresso aos velhos lugares. Quantas vezes
já repeti este verso? Persiste a decomposição
das casas. A resistência das pedras é menor
que a dureza dos olhos. Um cão vadio agasalha-se
dentro da noite. Treme. Dorme à superfície
do frio. Abre uma fissura nos olhos para me
recolher em sua intimidade, num instinto
fraternal de matilha. Entre um cão e um homem
há toda uma comunidade de gestos, troca-se
um mínimo necessário de calor para que o
frio permaneça suportável.

A noite é um lugar fértil, necessário a um cão
ou a um homem. Mesmo em tempos de crise,
haverá sempre restos que sobram.
De comida ou de amor.

Fernando de Castro Branco
Plantas Hidropónicas

Oferecido por Alberto Silva.

LAMENTO POR UM CÃO

No silêncio com que o mundo te envolve,
poderias sonhar com o tempo em que corrias,
mordendo a erva, dando voltas sobre ti próprio
como no dia em que nasceste. No entanto,
limitas-te a gemer; e ninguém sabe
a que mãos te entregas, nem que obscuro fim
adias com a tua ausência na vida.


Nuno Júdice
O movimento do mundo
1996


Oferecido por Rui Almeida.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

PRENDA DE NATAL #4


quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O CÃO DA TRIBO

E vieram as chuvas com as suas navalhas de
água,
onde perco a vida.
E,
da vida já distante, regresso à sua caudalosa
ruína, lambendo as feridas.
Seja pois, o cão da amaldiçoada tribo,
apagadas as fogueiras no sonho dos dançarinos.
Vagueio ao longo das tendas e é quase
inverno,
escasso o cereal.
Voltados para a iluminação,
os moribundos clamam pelas irmãs da
planície.
A minha cauda roça a constelação do meu
nome.
Aspiro um inconfundível odor.
O sangue tinge o rio lá em baixo, quando
te deitas sobre as dunas,
devagar,
cruelmente resignada.
A discórdia voltará aos lares.

José Agostinho Baptista
Paixão e Cinzas
1992

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

PRENDA DE NATAL #3


terça-feira, 11 de dezembro de 2007

AO MEU CÃO

Deixei-te só, à hora de morrer.
Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos
Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de aceitação
De tudo... e apesar disso, sem o pedir, tentando
Insinuar que eu ficasse perto,
Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão.

Não percebi a evidência de que ias morrer
E gostavas da minha companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado tudo à vida
E começavas a debater-te na maior angústia, a debater-te com a morte.
E deixei-te só, à beira da agonia, tão aflito, tão só e sossegado.

30-5-1966


Cristovam Pavia
O Tempo e o Modo
Outubro de 1966


Oferecido por Rui Almeida.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

PRENDA DE NATAL #2


domingo, 9 de dezembro de 2007

Mulher sem medo,
ela foi-se do degredo.
Lançou os cães atrás dela
o marido, que a cadela
há-de voltar queira ou não.
Já lhe ladra seu irmão,
abocanhando-lhe um pé,
uivam-lhe os pais pela fé
de quem governa este mundo:
que presa fique no fundo
do poço justo da lei,
ou enforcada no cume
do altar da grei.


Júlio Henriques
Modas & Bordados d'Alice Corinde
Fenda, 1995


Oferecido por Rui Almeida.

sábado, 8 de dezembro de 2007

PRENDA DE NATAL #1


sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Se me pedirem ponho-me de quatro
em duas, em uma
abano a cauda
dou voltas
faço de morta
salto por uma bolacha
lambo-te os pés.

Derreto-me toda quando me fazem festas na barriga.

Sou a cadela
que jamais alguém abandonou.


Miriam Reyes
Bela Adormecida
Tradução de Pedro sena-Lino
Cosmorama, 2006


Oferecido por Rui Almeida.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

UM CÃO LADROU NA NOITE

Um cão ladrou na noite. Uma lâmpada algures
brilhou no nevoeiro ou um comboio passava.
Todo esse ar, toda essa escuridão
encolerizada com o joio e os calmos canais.
E o que é que dói e que perdura?
Um comboio desventra as lonjuras negras,
ar frio, a nódoa de cinzas e de folhas
infecta a minha língua. Acordado antes de amanhecer.
Nem um rato. Nem um pássaro.
A noite passada dois violinos na rádio
como rios demais frios para os cisnes criarem.
Rios na Polónia e na Alemanha
deixaram odores no meu corpo e cabelo.
Perguntas: Haverá paz até ao Natal?
Seguimos viagem. O jardim
é incapaz de falar, capaz de falar.

Peter Levi
trad. Manuel de Seabra
Antologia da Poesia Britânica Contemporânea

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

PÁGINAS DE CASA

PORTUGAL VISITED - 1955 (excerto)

O dia foi simples. Dois amigos ingleses convidaram-nos a ir almoçar à Arrábida, tomar banho e passeio. Um deles era coronel reformado dos lanceiros da Índia, o outro era major do mesmo regimento, também reformado. O coronel passava férias em casa do major, tinha trazido o último modelo de uma máquina fotográfica, queria retratos dos aspectos mais pitorescos do nosso país.
Almoçámos no Gama, pai do querido Sebastião da Gama, que no Céu ainda deve poetizar com maior perfeição. Na Arrábida, o inglês coronel apenas tirou uma fotografia, ao grupo de nós quatro. Depois demos uma volta grande. Fizemos mais de 150 quilómetros adentro de um dia lindo para, ao fim e ao cabo, pararmos à porta de um canil de luxo onde uns setenta cães iguais e quase todos autênticos estavam amestrados pelo chicote de um outro inglês simpático e que não era coronel nem major.
O nosso coronel desabrochou, ficou doido com a canzoada toda, puxou a sua máquina fotográfica cheia de mimo e tirou o rolo a todos os cães e cadelas, isolados, sós, em grupos casais, divorciados, amantizados, cães amando outros cães, cães de cadela amando cadelas, fotografia de pormenores com teleobjectiva, com focinho, orelhas e rabo, panorâmica de todos estes matrimónios e bicharada, o coronel levava uma recordação curiosa, pitoresca, de Portugal. O nosso homem da Índia, lanceiro de outrora, reformado com pontualidade, tinha ganho o dia. Os cães estavam felizes, davam ao rabo, lambiam gemadas, caldos de burro, sentiam-se perfeitamente à vontade no refeitório do canil onde dois lacaios se esmeravam a prepararem bons petiscos para eles saborearem. O coronel tirou mais fotografias, agora interessava-o as paredes do refeitório, retratar minúcias que lhe tinham passado despercebidas na sua primeira tentativa de visão global. Depois, com as fêmeas para um lado, e os machos para outro, ele perfilou-se e fez continência de despedida. O major, dois passos atrás, olhava maravilhado para a cena, eu tentava assobiar quando fui repreendido, assustava a calma da canzoada. Em Salvaterra de Magos prestei meu tributo ao luxo de uns cães e à sensibilidade canina de dois reformados do exército de Sua Majestade Britânica.

Ruben A.
Páginas (VI)
1970

Oferecido por Rui Almeida.

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