No passado verão agora tantamente tão passado
verão coisa que na verdade vocês verão
leitores meus autores que verdade verdadinha não existe
no passado verão se o estive estive aqui
Que não sabia então que a solidão
das plantas no Inverno a solidão
do cão de francis bacon foragido
a solidão do cão de francis bacon
num quadrado encerrado e mesmo até geometrizado
acossado talvez pela delimitada dimensão
dum quadro exposto no museu de arte moderna
em nova york e visto agora numa má reprodução
na casa sobre o mar do meu amigo joão miguel
a companhia só possível fora dessa implacável simetria da
pintura que na vida tem cruel caricatura
desse cão fustigado a farejar a fuga
desta diária saga que nos suga
cão de antemão sozinho e só senhor da solidão
que não sabia então que a solidão
que a chuva a solidão a solidão a chuva
cheia na uva mas vazia ou só cheia de vazio aqui
que o não sabia sei-o eu sentado aqui agora
sentado aqui aonde vi senti perto de mim
a jacqueline que distante agora mais queria aqui
que quando no verão cegávamos os olhos do limão
no fundo desses copos desse péssimo gin tónico
ó meu amigo cão mais só que as devastadas plantas
mais acossado mesmo que os cuidados cactos
limitados capados nos regados vasos
cão que tens por contorno a companhia
que tens precisamente fora quanto dentro tanta falta te fazia
ó meu amigo cão dás-me tu pelo menos
a mim que não sei bem como sair de tudo isto
melhor que coisa alguma a tua mão?
Ruy Belo
Toda a Terra
1976
Antologia de textos com cães dentro.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
O INSTINTO
O homem velho, desenganado de tudo,
da soleira da porta, sob o sol cálido,
observa o cão e a cadela a satisfazerem o instinto.
Sobre a sua boca desdentada perseguem-se as moscas.
A sua mulher há muito que morreu. Também ela,
como todas as cadelas, não queria saber disso,
mas não lhe faltava o instinto. O homem velho cheirava o ar
- ainda tinha dentes -, a noite vinha,
metiam-se na cama. Era bonito o instinto.
O que agrada no cão é a grande liberdade.
De manhã à noite vagueia pela rua;
e ora come, ora dorme, ora monta as cadelas:
não espera sequer pela noite. Raciocina
com o faro, e os cheiros que sente são seus.
O homem velho recorda-se de uma vez
em que o fez como os cães, de dia, no meio duma seara.
Já não sabe com que cadela, mas lembra-se do grande sol
e do suor e da vontade de nunca mais acabar.
Era como numa cama. Se os anos voltassem,
gostaria de o fazer sempre no meio duma seara.
Desce a rua uma mulher e pára a olhar;
o padre passa e volta-se. Na praça pública
pode-se fazer tudo. E até a mulher,
que tem pudor em voltar-se para o homem, pára.
Só um rapaz não tolera o jogo
e faz chover pedras. O homem velho indigna-se.
Cesare Pavese
Trabalhar Cansa
Trad. Carlos Leite
Cotovia
da soleira da porta, sob o sol cálido,
observa o cão e a cadela a satisfazerem o instinto.
Sobre a sua boca desdentada perseguem-se as moscas.
A sua mulher há muito que morreu. Também ela,
como todas as cadelas, não queria saber disso,
mas não lhe faltava o instinto. O homem velho cheirava o ar
- ainda tinha dentes -, a noite vinha,
metiam-se na cama. Era bonito o instinto.
O que agrada no cão é a grande liberdade.
De manhã à noite vagueia pela rua;
e ora come, ora dorme, ora monta as cadelas:
não espera sequer pela noite. Raciocina
com o faro, e os cheiros que sente são seus.
O homem velho recorda-se de uma vez
em que o fez como os cães, de dia, no meio duma seara.
Já não sabe com que cadela, mas lembra-se do grande sol
e do suor e da vontade de nunca mais acabar.
Era como numa cama. Se os anos voltassem,
gostaria de o fazer sempre no meio duma seara.
Desce a rua uma mulher e pára a olhar;
o padre passa e volta-se. Na praça pública
pode-se fazer tudo. E até a mulher,
que tem pudor em voltar-se para o homem, pára.
Só um rapaz não tolera o jogo
e faz chover pedras. O homem velho indigna-se.
Cesare Pavese
Trabalhar Cansa
Trad. Carlos Leite
Cotovia
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
THE POGUES
Here a Tower Shinning Bright
Once stood gleaming in the night
Where now there's just the rubble
In the hole here the paddies and the frogs
Came to gamble on the dogs
Came to gamble on the dogs not long ago
Oh the torn up ticket stubs
From a hundred thousand mugs
Now washed away with dead dreams in the rain
And the car-parks going up
And they're pulling down the pubs
And it's just another bloody rainy day
Oh sweet city of my dreams
Of speed and skill and schemes
Like atlantis you just disappeared from view
And the hare upon the wire
Has been burnt upon your pyre
Like the black dog that once raced
Out from trap two
sábado, 26 de janeiro de 2008
A FAMÍLIA QUE NUNCA EXISTIU (fragmento)
A Lady era uma cadela tão bonita. Nunca houve outra como a Lady. Nunca vi uma cadela como a Lady. Foi tão bonita até aos seus últimos três meses de vida, quando começou a cagar e a peidar-se pela casa toda. Tivemos de mandar fora os tapetes, alguma mobília, havia daquilo pela casa toda. Na verdade, cedemos-lhe mesmo a casa toda por gostarmos tanto dela. Não havia cão que protegesse a família como ela. Guardava as tampas do caixote do lixo. E que mãe! Nunca vi mãe melhor do que a Lady. Aquela cadela era melhor mãe do que a maior parte das mulheres.
Lembram-se quando a Lady teve cachorrinhos e eles nasceram todos mortos? Nunca conseguimos tirar-lhos porque ela era a Lady. Escondeu-os então pela casa - atrás do frigorífico, atrás do radiador, debaixo da alcatifa. Foi numa altura em que tivemos de ir de férias porque o Steve só tinha duas semanas de folga, e quando regressámos toda a casa cheirava a ANIMAIS MORTOS! Nós adorávamos aquela cadela. Adorávamos a cadela. Era a Lady. Era a Lady.
(...)
A minha cadela foi treinada para não ter medo da dor. O cancro avançou-lhe pelos intestinos até o traseiro ficar negro de sangue. Disse-me uma amiga que tinha sido eu a causar-lhe o cancro, que matara a minha própria cadela por não a amar o suficiente, por não a alimentar o suficiente, ou por deixá-la sozinha demasiado tempo. Não é para isto que servem os amigos? Para pensamentos amáveis podemos contar sempre com os nossos bem-amados.
Karen Finley
Tratamento de Choque
Trad. Jorge P. Pires
Frenesi, 2003
COMO UM CÃO
Ao canto da sala sentei-me
para esconder um desgosto.
Como um cão espancado pelo dono,
procurava a solidão.
João Camilo
Nunca Mais se Apagam as Imagens
Fenda, 1996
para esconder um desgosto.
Como um cão espancado pelo dono,
procurava a solidão.
João Camilo
Nunca Mais se Apagam as Imagens
Fenda, 1996
CÃO GRANDE E FUSCO
O gado desapareceu do monte. De noite, doninha de enigmas obscuros, vieram procurá-lo. Traziam varas de marmeleiro, lanternas, um cão grande e fusco. Ninguém avistara o gado. Malvadeza, as vacas tinham chocalho! Um dos homens segurava nas mãos um ouriço-cacheiro. Vale alguma coisa? Não, não presta. Ele pousou-o no chão, quando se previa outro desfecho: esborrachar o bicho contra o muro. Fomos ao posto da Guarda, ninguém nos atendeu. Estão a dormir, toquem na campainha. Assim foi: premiram o botão que acorda a autoridade. Que se passa? Não tendes relógio! Os homens contaram a história do gado desaparecido. Sim, malvadeza, senhor guarda. Um momento, disse o agente. Recolheu a cabeça, fechou a janela; desceu as escadas e, de chofre, mandou identificar o dono do cão grande e fusco. Multou-o. O bicho andava sem açaime. Os homens trocaram olhares, acenderam cigarros.
Francisco Duarte Mangas
O Homem do Saco de Cabedal
Campo das Letras, 2000
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
UM CÃO NA TERRA
Agora que tudo arde, o mundo todo
e as suas dúvidas, aí deitado entre cuidados
hospitalares e os sorrisos de quem te amou,
percebes que partir é transitivo, anónimo,
solitário, fica-se com alma de cão.
Não queres sofrer com quatro patas,
pedes que a viagem seja rápida, como
naquele verão em que
chegavas sempre mais cedo a todo o lado.
Não me lembro de muita coisa, agora
que te vejo entregue ao fim – nunca tiveste
um fim na vida, uma ideia, um relâmpago
que te lançasse no infinito.
Os relâmpagos sempre te caíram ao lado.
E vai. Talvez deixes muitas
saudades, coisa pouca, alegrias tristes,
o que deixa um miserável cão na terra –
um derradeiro latido de espanto.
Fernando Luís Sampaio
Falsa Partida
Assírio & Alvim, 2005
e as suas dúvidas, aí deitado entre cuidados
hospitalares e os sorrisos de quem te amou,
percebes que partir é transitivo, anónimo,
solitário, fica-se com alma de cão.
Não queres sofrer com quatro patas,
pedes que a viagem seja rápida, como
naquele verão em que
chegavas sempre mais cedo a todo o lado.
Não me lembro de muita coisa, agora
que te vejo entregue ao fim – nunca tiveste
um fim na vida, uma ideia, um relâmpago
que te lançasse no infinito.
Os relâmpagos sempre te caíram ao lado.
E vai. Talvez deixes muitas
saudades, coisa pouca, alegrias tristes,
o que deixa um miserável cão na terra –
um derradeiro latido de espanto.
Fernando Luís Sampaio
Falsa Partida
Assírio & Alvim, 2005
O CÃO
(El gos)
Talvez, sim, esteja velho,
velho e covarde
como um cão de casa rica.
Às vezes tenho pena de mim.
Quando vou pela cidade,
cheia de carros de tanta cor,
com gente jovem, alta e decidida
- as raparigas com os grandes penteados
e os olhos pintados -,
vejo-me tão pequeno e vacilante,
que tenho pena de mim
e dá-me para rir.
Não sei se lhes passa o mesmo.
A ti, que lês o jornal,
heróico e solitário,
não sei se te aconteceu
sentires-te tão covarde
como um cão abandonado
que mexe o rabo
porque tem medo
e quer causar compaixão.
Às vezes tenho pena de mim.
Quando vejo que lambo os pratos
e os ossos,
quando engraxo o cão potente,
quando sorrio à juventude
porque é juventude,
e aos velhos
porque são eles,
tenho pena de mim
e dá-me vontade de rir.
Joan Vergés
in Antologia da Novíssima Poesia Catalã
tradução de Manuel de Seabra
1974
Oferecido por Rui Almeida.
Talvez, sim, esteja velho,
velho e covarde
como um cão de casa rica.
Às vezes tenho pena de mim.
Quando vou pela cidade,
cheia de carros de tanta cor,
com gente jovem, alta e decidida
- as raparigas com os grandes penteados
e os olhos pintados -,
vejo-me tão pequeno e vacilante,
que tenho pena de mim
e dá-me para rir.
Não sei se lhes passa o mesmo.
A ti, que lês o jornal,
heróico e solitário,
não sei se te aconteceu
sentires-te tão covarde
como um cão abandonado
que mexe o rabo
porque tem medo
e quer causar compaixão.
Às vezes tenho pena de mim.
Quando vejo que lambo os pratos
e os ossos,
quando engraxo o cão potente,
quando sorrio à juventude
porque é juventude,
e aos velhos
porque são eles,
tenho pena de mim
e dá-me vontade de rir.
Joan Vergés
in Antologia da Novíssima Poesia Catalã
tradução de Manuel de Seabra
1974
Oferecido por Rui Almeida.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
XIX
Repugnam-me certos sons, mas o mais odioso
É para mim o ladrar dos cães, o seu ganir atormenta-me os ouvidos.
Só um cão oiço muitas vezes com feliz agrado
Ladrar e ganir, o cão que o vizinho criou.
Pois uma vez ladrou à minha rapariga, que à socapa
Veio ao meu encontro, e quase revelou o nosso segredo.
Agora, mal o oiço ladrar, logo penso que é ela que aí vem,
Ou recordo os tempos em que a esperada vinha.
Goethe
Erotica romana
tradução de Manuel Malzbender
Cavalo de Ferro, 2005
É para mim o ladrar dos cães, o seu ganir atormenta-me os ouvidos.
Só um cão oiço muitas vezes com feliz agrado
Ladrar e ganir, o cão que o vizinho criou.
Pois uma vez ladrou à minha rapariga, que à socapa
Veio ao meu encontro, e quase revelou o nosso segredo.
Agora, mal o oiço ladrar, logo penso que é ela que aí vem,
Ou recordo os tempos em que a esperada vinha.
Goethe
Erotica romana
tradução de Manuel Malzbender
Cavalo de Ferro, 2005
COMO SE FOSSE DIA
Um fingimento muito belo, fingir que nada sei
Que tudo é indiferente, coração de moer
Mágoa já muito morrinha
E outros tremeliques.
Tudo se resolve então desta maneira:
Duas lagartixas a deslizar pelos mistérios
Um cão a ladrar tão ao longe como se fosse dia.
Carlos Bessa
Em Trânsito
&etc, 2003
Que tudo é indiferente, coração de moer
Mágoa já muito morrinha
E outros tremeliques.
Tudo se resolve então desta maneira:
Duas lagartixas a deslizar pelos mistérios
Um cão a ladrar tão ao longe como se fosse dia.
Carlos Bessa
Em Trânsito
&etc, 2003
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Vi um cão todo nu
que olhando-me de esguelha
agarrou um osso da rua
e a correr foi-se meter
debaixo da escada
Miquel Bauçã
in Antologia da Novíssima Poesia Catalã
tradução de Manuel de Seabra
1974
Oferecido por Rui Almeida.
que olhando-me de esguelha
agarrou um osso da rua
e a correr foi-se meter
debaixo da escada
Miquel Bauçã
in Antologia da Novíssima Poesia Catalã
tradução de Manuel de Seabra
1974
Oferecido por Rui Almeida.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
O REGRESSO
À meia-noite regressei de barco
De lá para cá.
Havia luar toda a terra
Jazia como no tempo da peste.
Em sonhos um cão vadio
Uivava ainda ao vento
E embora nada me preocupasse
Isso apertava-me o coração.
Sarah Kirsch
Trad. Maria Teresa Dias Furtado
Hífen, 7
De lá para cá.
Havia luar toda a terra
Jazia como no tempo da peste.
Em sonhos um cão vadio
Uivava ainda ao vento
E embora nada me preocupasse
Isso apertava-me o coração.
Sarah Kirsch
Trad. Maria Teresa Dias Furtado
Hífen, 7
OBRAS DE CARIDADE
vigiar os polícias
ensinar os professores
confessar os padres
burlar os juristas
abater os talhantes
sangrar os médicos
condenar os juízes
difamar os críticos
morder os cães
comprar as batatas aos lavradores
Alberto Pimenta
Hífen, 7
ensinar os professores
confessar os padres
burlar os juristas
abater os talhantes
sangrar os médicos
condenar os juízes
difamar os críticos
morder os cães
comprar as batatas aos lavradores
Alberto Pimenta
Hífen, 7
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
8.
Somente esse cão velho aquece
o corpo moribundo no cimento
e no arco do braço sem alento
faz a cama o animal que tece
na rua a imagem doutro fim.
Desolação exposta vem da face
e de quanto sinal informe trace
o quadro de tal termo; e assim
a noite é comum e é real.
Nem patas nem focinho estremecem
na carne que abeiram - quando dobra
a febre o seu trânsito fatal.
E as mãos alongadas já não descem
lívidas, pela cidade que sobra.
Diogo Alcoforado
Pobres
Afrontamento, 2004
Oferecido por Rui Almeida.
o corpo moribundo no cimento
e no arco do braço sem alento
faz a cama o animal que tece
na rua a imagem doutro fim.
Desolação exposta vem da face
e de quanto sinal informe trace
o quadro de tal termo; e assim
a noite é comum e é real.
Nem patas nem focinho estremecem
na carne que abeiram - quando dobra
a febre o seu trânsito fatal.
E as mãos alongadas já não descem
lívidas, pela cidade que sobra.
Diogo Alcoforado
Pobres
Afrontamento, 2004
Oferecido por Rui Almeida.
Os chamados disparates da Índia (excerto)
Achareis rafeiro velho,
Que se quer vender por galgo;
Diz que o dinheiro é fidalgo,
Que o sangue todo é vermelho.
Se ele mais alto o dissera,
Este pelote pusera:
Que seu eco lhe responda,
Que su padre era de Ronda,
Y su madre de Antequera,
E «quer cobrir o céu com a joeira».
Luís de Camões
Fixação do texto de Hernâni Cidade
Oferecido por Rui Almeida.
Que se quer vender por galgo;
Diz que o dinheiro é fidalgo,
Que o sangue todo é vermelho.
Se ele mais alto o dissera,
Este pelote pusera:
Que seu eco lhe responda,
Que su padre era de Ronda,
Y su madre de Antequera,
E «quer cobrir o céu com a joeira».
Luís de Camões
Fixação do texto de Hernâni Cidade
Oferecido por Rui Almeida.
Enquanto os cães ladravam um ladrar
ralo de sono
que não chegou para acordar os donos
na noite doutros sonhos sem luar
e sem retorno
também cruzei por mim sem me chamar.
Helder Macedo
Viagem de Inverno
Presença, 1994
Oferecido por Rui Almeida.
ralo de sono
que não chegou para acordar os donos
na noite doutros sonhos sem luar
e sem retorno
também cruzei por mim sem me chamar.
Helder Macedo
Viagem de Inverno
Presença, 1994
Oferecido por Rui Almeida.
SINFONIA PARA UMA NOITE E ALGUNS CÃES
De noite, um cão começa a ladrar; e,
atrás dele, todos os cães da noite
se põem a ladrar. Depois, o primeiro
cão cala-se. Pouco a pouco, os outros
também se calam, até que o silêncio
se instala, como antes de o primeiro
cão ter ladrado. De noite, não é
possível saber por que é que um cão ladra,
se o não estamos a ver. Talvez porque
alguém tenha passado por trás de um
muro; talvez por causa de um gato (essas
sombras que se esgueiram pelas portas).
Não é preciso encontrar razões concretas
para justificar a noite de todos os
cães; mas é verdade que um cão, quando
ladra, e acorda os outros cães, acorda
a própria noite, os seus fantasmas, e
obriga-nos a olhar, pela janela, o que
não se pode ver, isto é, o centro da
noite, o negro motor do mundo.
Nuno Júdice
Teoria geral do sentimento
1999
Oferecido por Rui Almeida.
atrás dele, todos os cães da noite
se põem a ladrar. Depois, o primeiro
cão cala-se. Pouco a pouco, os outros
também se calam, até que o silêncio
se instala, como antes de o primeiro
cão ter ladrado. De noite, não é
possível saber por que é que um cão ladra,
se o não estamos a ver. Talvez porque
alguém tenha passado por trás de um
muro; talvez por causa de um gato (essas
sombras que se esgueiram pelas portas).
Não é preciso encontrar razões concretas
para justificar a noite de todos os
cães; mas é verdade que um cão, quando
ladra, e acorda os outros cães, acorda
a própria noite, os seus fantasmas, e
obriga-nos a olhar, pela janela, o que
não se pode ver, isto é, o centro da
noite, o negro motor do mundo.
Nuno Júdice
Teoria geral do sentimento
1999
Oferecido por Rui Almeida.
MANHÃ
Um copo de névoa ao pequeno-almoço;
um rumor de vento com o pão;
um muro por detrás do ladrar do cão.
Nuno Júdice
O movimento do mundo
1996
Oferecido por Rui Almeida.
um rumor de vento com o pão;
um muro por detrás do ladrar do cão.
Nuno Júdice
O movimento do mundo
1996
Oferecido por Rui Almeida.
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