Antologia de textos com cães dentro.

terça-feira, 25 de março de 2008

CLEMENT NÉMIROVSKY

Numa certa tarde de Inverno, encontrava-se em sua casa a beber chá, na mais doce e aprazível das salas de estar, sob a luz amigável de uma janela, comodamente sentado à lareira, na companhia do seu fiel perdigueiro, Clement Némirovsky. Encontrava-se o nosso bom homem, dizíamos, nestas benignas circunstâncias, quando sucedeu o mais infeliz, o mais inoportuno, o mais cruel, o mais despropositado e o mais desagradável dos acidentes.
De facto, o traiçoeiro destino não podia ter imaginado nada mais impertinente, mais aborrecido, mais indigesto e mais destrutivo da paz doméstica e do bom humor de Némirovsky. Num segundo apenas, o seu rosto foi passando de espavorido para atemorizado, de atemorizado para varado, de varado para embranquecido*, de embranquecido para outra coisa qualquer que não sou capaz de descrever, e dessa outra coisa qualquer para outra ainda mais espantosa.
O cão, vendo o dono em tal estado de sobressalto, pediu-lhe para que se acalmasse, invocando os efeitos negativos que a situação podia representar para a sua saúde. E não tendo obtido qualquer sinal de melhoria, sentiu-se na obrigação de aplicar duas fortes bofetadas na cara do dono, de maneira a despertá-lo daquele sufoco consternado em que se encontrava.
Ora, muito me agradaria poder dizer que o par de bofetadas surtiu o efeito desejado. Mas infelizmente a situação era de facto desesperada e o cão não só não foi bem sucedido, como ainda teve que levar a cabo outras tentativas, tais como despejar uma garrafa de rum pelas goelas do dono e dar-lhe trinta e três palmadinhas nas costas.
Bom, voltando ao início, e para não manter mais tempo a expectativa do leitor a respeito do acontecimento que deixou Némirovsky subitamente sem fala, branco, aterrado, amedrontado, horrorizado, varado, atónito, perplexo, assustado e, no mínimo, banzado, devo dizer que tanto por consideração pela sensibilidade do leitor como por se tratar de algo profundamente desagradável para a harmonia das coisas, prefiro não escrever mais nada.
* É preciso observar que o rosto de Clement Némirovsky era já de si dos mais pálidos.

Rui Manuel Amaral
Caravana
Angelus Novus
2008

quarta-feira, 19 de março de 2008

A famosa rã saltadora

(excerto)

Smiley também tinha um bull-dog, olhava-se para ele e parecia não valer meio tostão furado. Banalíssimo. Dir-se-ia só servir para andar por aí, à coca para roubar o que pudesse. Mas mal se apostava nele, o cão ficava logo outro. A queixada esticava como a proa de um navio, os dentes brilhavam como navalhas nuas. O outro cão poderia morder-lhe, desafiá-lo, persegui-lo, atirá-lo ao ar duas vezes ou três que Andrew Jackson – era o nome do animal – não se importava. Até ficava contente, como se não quisesse outra coisa. Na maior.
Então é que as apostas subiam em flecha, duplicavam, triplicavam, quadruplicavam.
E de repente o cão ia-se ao outro, filava-lhe uma pata traseira e não a largava nem por nada. Quer dizer, ele não dava dentadas, não senhor. Limitava-se a abocanhar o rival e ficaria assim um ano se fosse preciso, até o outro se dar por vencido.
Smiley nunca perdeu dinheiro com o Andrew, até ao dia em que lhe apareceu pela frente um cão sem patas de trás, tinham-lhas cortado com uma serra circular. Depois dos preparativos do costume e das apostas todas feitas, Andrew Jackson preparou-se para filar o seu naco favorito do adversário. Só então percebeu que o tinham aldrabado, que o outro cão se estava positivamente a rir dele. Ficou meio apalermado, de goela aberta, nem queria acreditar. Baixou, por assim dizer, os ombros. Desistiu de lutar. Limitava-se a olhar para o dono, como que a dizer-lhe ter ficado com o coração em fanicos e que a culpa era toda de Smiley por não haver topado que ao inimigo faltavam as patas traseiras, no fundo o melhor trunfo de Andrew Jackson em qualquer combate.
Ainda deu uns passos, a coxear, e depois deitou-se e morreu. Um bom cão, aquele cão. Se tem aguentado, acabaria por ser famoso. Tinha qualidades para isso. Há que reconhecer-lhe uma boa dose de génio e, embora traído pelas circunstâncias, é absurdo não admitir que um cão tem que ter um talento muito especial para brigar daquela maneira.
Sinto-me sempre triste quando penso nesse último combate e na forma como aquilo acabou.

Mark Twain
A famosa rã saltadora
Tradução de João Alfacinha da Silva
Fenda, 1999

Oferecido por Rui Almeida.

sexta-feira, 14 de março de 2008

CHABLIS

A minha mulher quer um cão. Ela já tem uma criança. A criança tem quase dois anos. A minha mulher diz que a criança quer um cão.
A minha mulher está há muito tempo à espera de um cão. Tive de ser eu a dizer-lhe que ela não o poderia ter. Mas agora a criança quer um cão, diz a minha mulher. Isto até pode ser verdade. A criança é muito chegada à minha mulher. Andam juntas o tempo todo, agarram-se, apertam-se com força. Eu pergunto à criança, que é uma rapariga, “És a menina de quem? És a menina do papá?” A Criança diz, “mamã”, e não se fica por aí, di-lo repetidamente, “mamã, mamã, mamã.” Eu não vejo por que razão hei-de comprar um cão de cem dólares para o raio daquela criança.
A raça de cão que a criança quer, diz a minha mulher, é um Cairn Terrier. Esta raça de cão, diz a minha mulher, é Presbiteriana tal como ela e a criança. No ano passado a criança era Baptista – ou seja, ela frequentou o programa inteiro para mães da Igreja Baptista, duas vezes por semana. Este ano é Presbiteriana porque os Presbiterianos têm mais baloiços e escorregões, e outras coisas assim. Eu acho isso uma enorme falta de vergonha e disse-lho. A minha mulher foi uma Presbiteriana legítima durante toda a vida e diz que isso a autoriza a agir assim; quando era uma criança ela costumava frequentar a Igreja Presbiteriana em Evannsville, Illinois. Eu não ia à igreja porque eu era uma ovelha negra. Havia cinco filhos na minha família e, entre nós homens, íamos fazendo girar o estatuto de ovelha negra, o mais velho seria a ovelha negra durante uns tempos, enquanto passava pelo seu período de embriaguez ou o que quer que fosse, e só depois, à medida que ia envelhecendo, e tendo talvez arranjando um emprego ou estando até cumprir serviço militar, tornava-se finalmente numa ovelha branca quando cassasse e tivesse um neto. A minha irmã nunca foi uma ovelha negra porque era uma rapariga.
A nossa criança é uma criança encantadora. Durante anos disse à minha mulher que ela jamais poderia ter uma criança porque isso seria muito caro. Mas elas derrotam-nos sempre por exaustão. Elas são bastante boas a derrotar-nos por exaustão, mesmo que isso possa demorar anos, como foi o caso. Agora ando com a criança ao colo e abraço-a sempre que posso. O nome dela é Joanna. Ela veste um macacão da Oshkosh e diz “não”, “biberão”, “fora” e “mamã”. Ela é a coisa mais adorável quando está molhada, quando acaba de tomar banho e o seu cabelo louro está encharcado, embrulhada numa toalha bege. Por vezes quando está a ver televisão ela esquece-se por completo que também estamos lá. Podemos ficar só a olhar para ela. Quando ela está a ver televisão parece muda. Gosto mais dela quando está molhada.
Esta coisa do cão está a transformar-se na grande questão. Eu disse à minha mulher, “Bom, já tiveste a criança, precisaremos também agora do diabo de um cão?”. O cão irá provavelmente morder alguém ou até perder-se. Já me estou a ver a percorrer o nosso bairro inteiro a perguntar às pessoas, “Por acaso viu este cão castanho?” “Como se chama o cão?”, irão todos perguntar, e eu fitá-los-ei com toda frieza e direi, “Michael” É assim que ela o quer chamar, Michael. É um nome estúpido para um cão e lá terei de procurar por esse cão, possivelmente raivoso, e perguntar às pessoas, “Por acaso viu este cão castanho? Michael?” É o suficiente para nos pormos a pensar em divórcio.
O que é que a criança poderá fazer com o cão que não o possa fazer comigo? Brincar livre e desenfreadamente? Eu consigo fazê-lo. Levei-a ao parque infantil da escola. Era domingo, o local estava deserto, e brincámos de uma forma livre e desenfreada. Eu corri, e ela cambaleou atrás de mim a um bom ritmo. Eu amparava-a sempre que deslizava no escorregão. Ela percorreu todo o caminho interior de um tubo de cimento que existia no parque. Ela apanhou uma pena e ficou horas a contemplá-la. Eu estava preocupado que aquela fosse uma pena contaminada mas ela não a meteu à boca. Depois corremos ainda mais pelo campo pelado e abrasivo de softball e através das arcadas que ligam as salas de aula de madeira temporárias, que estão a perder a sua pintura amarela, ao edifício principal. Num destes dias, a Joanna irá frequentar esta escola, e isto se eu permanecer no mesmo emprego.
Fui ver alguns cães no Pets-A-Plenty, que tem pássaros, roedores, répteis e cães, todos em óptima condição. Eles mostraram-me os Cairn Terriers. “Eles têm os seus livros de orações?”, perguntei. A funcionária não entendia o que é que eu estava para ali a dizer. Os Cairn Terriers poderiam rondar os 295 cada, com papéis. Eu comecei por perguntar se por acaso eles não teriam algum filho ilegítimo a preços mais baixos, mas pude ver que isso seria inútil, e cheguei mesmo à conclusão de que a mulher já não ia com a minha cara.
Mas, o que é que há de errado comigo? Porque é que eu não sou uma pessoa mais natural, tal como a minha mulher pretende que o seja? Eu permaneço acordado, desde manhã cedo, postado à minha secretária que está no segundo piso da casa. A secretária está de frente para a rua. Às cinco e meia da manhã, os corredores já estão lá fora, individualmente ou em pares, a correr por uma saúde de ferro. Eu estou a beberricar um copo de Chablis Gallo com uma pedra de gelo, a fumar, a preocupar-me. Preocupo-me com a possibilidade de a criança cravar uma faca de cozinha numa tomada eléctrica enquanto estiver molhada. Apliquei aquelas pequenas fichas de protecção de plástico em todas as tomadas, mas ela aprendeu a retirá-las. Já verifiquei os lápis de cera. Mas eles fizeram-nos de forma a tornar a sua ingestão inofensiva – eu telefonei para sede na Pennsylvania. Ela pode comer uma caixa inteira de lápis de cera que nada lhe acontece. Se eu não comprar os novos pneus para o meu carro, posso comprar o cão.
Lembro-me do tempo, há cerca de trinta anos, quando, na estrada de Beaumont, atirei com o Buick da mãe do Herman para um campo de milho. Havia outro carro que seguia na minha faixa, não bati nele e ele também não me bateu. Lembro-me de guinar o carro para a direita, seguindo para baixo para a valeta, atravessando a vedação, detendo-me apenas no campo de milho e saí do carro para acordar o Herman para ambos verificarmos como tinham ficado os felizes bêbados do outro carro, na valeta do outro lado da estrada. Isso aconteceu quando eu era uma ovelha negra, anos e anos atrás. Aquilo foi realizado com toda a destreza, penso eu. Levanto-me, felicito-me pela memória e vou lá dentro para dar uma espreitadela à criança.

Donald Bartheleme, Forty Stories, “Chablis”. New York: G.P. Putnam’s Sons, 1st edition, 1987, 256 pp. [tradução: AMC, Março/2008]
(Este conto foi originalmente publicado na revista The New Yorker, de 12 de Dezembro de 1983, p. 49 [Vol. 59 Issue 43])

Tradução de André Moura e Cunha.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O MANUAL DAS MÃOS (fragmento)

Deverei ter adormecido, deduzo, enquanto revisito, pelas janelas, o movimento da rua lá em baixo. Há gente que lembro sobre elas, velhas fotografias amarelecidas que vivem ordenadas na memória, e o sol, outra vez, riscando o soalho e acendendo o chão sobre o qual estou de pé e estático, ouvindo gargalhadas e choros de crianças que em algum lugar em mim as conheci. São os meus filhos brincando na nudez infantil da sua beleza, as harpas que as suas mãos vão soltando para que as toque ou cante a relva que de dentro da casa é verde e eu diviso.
Meu Deus, como é boa esta visão profunda e sentida, as cores com que a construo e respiro, o assobiar levitante dos pássaros rasando-me os pés como se me quisessem erguido acima do equilíbrio e da sóbria gravidade.
O cão que nunca tive, tenho-o agora e vem correndo ao meu encontro com a alegria canina balanceando-lhe a cauda. Nem nome tem para mim e ele próprio o desconhece. Também para que serve um nome se a gente ama e respeita, para que serve essa identificação se a amizade, aqui, tem a precisão olfactiva da lealdade?
Ergo-o para o colo, para uma ternura profunda a ladrar-me o coração e o cão agita-se em sua bondade, quase fala, quase grita, quase beija a compreensão que ele entende ver em minhas mãos afagando-o. Ponho-o sobre o chão e vejo-o partir como uma gazela soltando o perfume da mestria e da graciosidade.
Parte rumo às crianças ou, então, para a ideia que tenho delas. Por isso acendo-me nas luzes que ardo dentro, na clareza juvenil do sangue a trabalhar nas veias todas, no coração que o filtra, o purifica, o devolve à vida da respiração. E a música vem surpreender-me, sentado na mesa, alvo e puro como uma canção e entrando, definitivamente, pela casa dentro.
Eduardo White
O Manual das Mãos
Campo das Letras
2004
Oferecido por José Eduardo Lopes.

AGORA O VERÃO PASSADO (fragmento)

No passado verão agora tantamente tão passado
verão coisa que na verdade vocês verão
leitores meus autores que verdade verdadinha não existe
no passado verão se o estive estive aqui
Que não sabia então que a solidão
das plantas no Inverno a solidão
do cão de francis bacon foragido
a solidão do cão de francis bacon
num quadrado encerrado e mesmo até geometrizado
acossado talvez pela delimitada dimensão
dum quadro exposto no museu de arte moderna
em nova york e visto agora numa má reprodução
na casa sobre o mar do meu amigo joão miguel
a companhia só possível fora dessa implacável simetria da
pintura que na vida tem cruel caricatura
desse cão fustigado a farejar a fuga
desta diária saga que nos suga
cão de antemão sozinho e só senhor da solidão
que não sabia então que a solidão
que a chuva a solidão a solidão a chuva
cheia na uva mas vazia ou só cheia de vazio aqui
que o não sabia sei-o eu sentado aqui agora
sentado aqui aonde vi senti perto de mim
a jacqueline que distante agora mais queria aqui
que quando no verão cegávamos os olhos do limão
no fundo desses copos desse péssimo gin tónico
ó meu amigo cão mais só que as devastadas plantas
mais acossado mesmo que os cuidados cactos
limitados capados nos regados vasos
cão que tens por contorno a companhia
que tens precisamente fora quanto dentro tanta falta te fazia
ó meu amigo cão dás-me tu pelo menos
a mim que não sei bem como sair de tudo isto
melhor que coisa alguma a tua mão?

Ruy Belo
Toda a Terra
1976

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O INSTINTO

O homem velho, desenganado de tudo,
da soleira da porta, sob o sol cálido,
observa o cão e a cadela a satisfazerem o instinto.

Sobre a sua boca desdentada perseguem-se as moscas.
A sua mulher há muito que morreu. Também ela,
como todas as cadelas, não queria saber disso,
mas não lhe faltava o instinto. O homem velho cheirava o ar
- ainda tinha dentes -, a noite vinha,
metiam-se na cama. Era bonito o instinto.

O que agrada no cão é a grande liberdade.
De manhã à noite vagueia pela rua;
e ora come, ora dorme, ora monta as cadelas:
não espera sequer pela noite. Raciocina
com o faro, e os cheiros que sente são seus.

O homem velho recorda-se de uma vez
em que o fez como os cães, de dia, no meio duma seara.
Já não sabe com que cadela, mas lembra-se do grande sol
e do suor e da vontade de nunca mais acabar.
Era como numa cama. Se os anos voltassem,
gostaria de o fazer sempre no meio duma seara.

Desce a rua uma mulher e pára a olhar;
o padre passa e volta-se. Na praça pública
pode-se fazer tudo. E até a mulher,
que tem pudor em voltar-se para o homem, pára.
Só um rapaz não tolera o jogo
e faz chover pedras. O homem velho indigna-se.

Cesare Pavese
Trabalhar Cansa
Trad. Carlos Leite
Cotovia

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

THE POGUES


Here a Tower Shinning Bright

Once stood gleaming in the night
Where now there's just the rubble
In the hole here the paddies and the frogs
Came to gamble on the dogs
Came to gamble on the dogs not long ago

Oh the torn up ticket stubs
From a hundred thousand mugs
Now washed away with dead dreams in the rain
And the car-parks going up
And they're pulling down the pubs
And it's just another bloody rainy day

Oh sweet city of my dreams
Of speed and skill and schemes
Like atlantis you just disappeared from view
And the hare upon the wire
Has been burnt upon your pyre
Like the black dog that once raced
Out from trap two

sábado, 26 de janeiro de 2008


Rachel Howard, Black Dog

A FAMÍLIA QUE NUNCA EXISTIU (fragmento)

A Lady era uma cadela tão bonita. Nunca houve outra como a Lady. Nunca vi uma cadela como a Lady. Foi tão bonita até aos seus últimos três meses de vida, quando começou a cagar e a peidar-se pela casa toda. Tivemos de mandar fora os tapetes, alguma mobília, havia daquilo pela casa toda. Na verdade, cedemos-lhe mesmo a casa toda por gostarmos tanto dela. Não havia cão que protegesse a família como ela. Guardava as tampas do caixote do lixo. E que mãe! Nunca vi mãe melhor do que a Lady. Aquela cadela era melhor mãe do que a maior parte das mulheres.
Lembram-se quando a Lady teve cachorrinhos e eles nasceram todos mortos? Nunca conseguimos tirar-lhos porque ela era a Lady. Escondeu-os então pela casa - atrás do frigorífico, atrás do radiador, debaixo da alcatifa. Foi numa altura em que tivemos de ir de férias porque o Steve só tinha duas semanas de folga, e quando regressámos toda a casa cheirava a ANIMAIS MORTOS! Nós adorávamos aquela cadela. Adorávamos a cadela. Era a Lady. Era a Lady.

(...)

A minha cadela foi treinada para não ter medo da dor. O cancro avançou-lhe pelos intestinos até o traseiro ficar negro de sangue. Disse-me uma amiga que tinha sido eu a causar-lhe o cancro, que matara a minha própria cadela por não a amar o suficiente, por não a alimentar o suficiente, ou por deixá-la sozinha demasiado tempo. Não é para isto que servem os amigos? Para pensamentos amáveis podemos contar sempre com os nossos bem-amados.

Karen Finley
Tratamento de Choque
Trad. Jorge P. Pires
Frenesi, 2003

COMO UM CÃO

Ao canto da sala sentei-me
para esconder um desgosto.

Como um cão espancado pelo dono,
procurava a solidão.


João Camilo
Nunca Mais se Apagam as Imagens
Fenda, 1996

CÃO GRANDE E FUSCO

O gado desapareceu do monte. De noite, doninha de enigmas obscuros, vieram procurá-lo. Traziam varas de marmeleiro, lanternas, um cão grande e fusco. Ninguém avistara o gado. Malvadeza, as vacas tinham chocalho! Um dos homens segurava nas mãos um ouriço-cacheiro. Vale alguma coisa? Não, não presta. Ele pousou-o no chão, quando se previa outro desfecho: esborrachar o bicho contra o muro. Fomos ao posto da Guarda, ninguém nos atendeu. Estão a dormir, toquem na campainha. Assim foi: premiram o botão que acorda a autoridade. Que se passa? Não tendes relógio! Os homens contaram a história do gado desaparecido. Sim, malvadeza, senhor guarda. Um momento, disse o agente. Recolheu a cabeça, fechou a janela; desceu as escadas e, de chofre, mandou identificar o dono do cão grande e fusco. Multou-o. O bicho andava sem açaime. Os homens trocaram olhares, acenderam cigarros.

Francisco Duarte Mangas
O Homem do Saco de Cabedal
Campo das Letras, 2000

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

UM CÃO NA TERRA

Agora que tudo arde, o mundo todo
e as suas dúvidas, aí deitado entre cuidados
hospitalares e os sorrisos de quem te amou,
percebes que partir é transitivo, anónimo,
solitário, fica-se com alma de cão.

Não queres sofrer com quatro patas,
pedes que a viagem seja rápida, como
naquele verão em que
chegavas sempre mais cedo a todo o lado.

Não me lembro de muita coisa, agora
que te vejo entregue ao fim – nunca tiveste
um fim na vida, uma ideia, um relâmpago
que te lançasse no infinito.
Os relâmpagos sempre te caíram ao lado.

E vai. Talvez deixes muitas
saudades, coisa pouca, alegrias tristes,
o que deixa um miserável cão na terra –
um derradeiro latido de espanto.


Fernando Luís Sampaio
Falsa Partida
Assírio & Alvim, 2005

O CÃO

(El gos)

Talvez, sim, esteja velho,
velho e covarde
como um cão de casa rica.
Às vezes tenho pena de mim.
Quando vou pela cidade,
cheia de carros de tanta cor,
com gente jovem, alta e decidida
- as raparigas com os grandes penteados
e os olhos pintados -,
vejo-me tão pequeno e vacilante,
que tenho pena de mim
e dá-me para rir.

Não sei se lhes passa o mesmo.
A ti, que lês o jornal,
heróico e solitário,
não sei se te aconteceu
sentires-te tão covarde
como um cão abandonado
que mexe o rabo
porque tem medo
e quer causar compaixão.

Às vezes tenho pena de mim.
Quando vejo que lambo os pratos
e os ossos,
quando engraxo o cão potente,
quando sorrio à juventude
porque é juventude,
e aos velhos
porque são eles,
tenho pena de mim
e dá-me vontade de rir.


Joan Vergés
in Antologia da Novíssima Poesia Catalã
tradução de Manuel de Seabra
1974

Oferecido por Rui Almeida.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

XIX

Repugnam-me certos sons, mas o mais odioso
É para mim o ladrar dos cães, o seu ganir atormenta-me os ouvidos.
Só um cão oiço muitas vezes com feliz agrado
Ladrar e ganir, o cão que o vizinho criou.
Pois uma vez ladrou à minha rapariga, que à socapa
Veio ao meu encontro, e quase revelou o nosso segredo.
Agora, mal o oiço ladrar, logo penso que é ela que aí vem,
Ou recordo os tempos em que a esperada vinha.


Goethe
Erotica romana
tradução de Manuel Malzbender
Cavalo de Ferro, 2005

COMO SE FOSSE DIA

Um fingimento muito belo, fingir que nada sei
Que tudo é indiferente, coração de moer
Mágoa já muito morrinha
E outros tremeliques.

Tudo se resolve então desta maneira:
Duas lagartixas a deslizar pelos mistérios
Um cão a ladrar tão ao longe como se fosse dia.


Carlos Bessa
Em Trânsito
&etc, 2003

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Vi um cão todo nu
que olhando-me de esguelha
agarrou um osso da rua
e a correr foi-se meter
debaixo da escada


Miquel Bauçã
in Antologia da Novíssima Poesia Catalã
tradução de Manuel de Seabra
1974


Oferecido por Rui Almeida.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

atiçam os cães que
lhes rosnam dentro do
peito, os que lutam
alimentados nos poços da
alma numa
euforia velada e frustram, porque
aninhadas perante os
homens, violadas pela incapacidade
de rasgarem a carne com esses
focinhos e
tentam


valter hugo mãe
a cobrição das filhas
Quasi, 2002

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O REGRESSO

À meia-noite regressei de barco
De lá para cá.
Havia luar toda a terra
Jazia como no tempo da peste.

Em sonhos um cão vadio
Uivava ainda ao vento
E embora nada me preocupasse
Isso apertava-me o coração.

Sarah Kirsch
Trad. Maria Teresa Dias Furtado
Hífen, 7

OBRAS DE CARIDADE

vigiar os polícias
ensinar os professores
confessar os padres
burlar os juristas
abater os talhantes
sangrar os médicos
condenar os juízes
difamar os críticos
morder os cães
comprar as batatas aos lavradores

Alberto Pimenta
Hífen, 7

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

8.

Somente esse cão velho aquece
o corpo moribundo no cimento
e no arco do braço sem alento
faz a cama o animal que tece

na rua a imagem doutro fim.
Desolação exposta vem da face
e de quanto sinal informe trace
o quadro de tal termo; e assim

a noite é comum e é real.
Nem patas nem focinho estremecem
na carne que abeiram - quando dobra

a febre o seu trânsito fatal.
E as mãos alongadas já não descem
lívidas, pela cidade que sobra.

Diogo Alcoforado
Pobres
Afrontamento, 2004


Oferecido por Rui Almeida.

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