Antologia de textos com cães dentro.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

SOBRE A POESIA DE CRISTOVAM PAVIA

[excertos]

[...]
Ainda em 1950 encontramos nos poemas de Cristovam Pavia duas figuras que voltarão posteriormente: o cão e o próprio poeta como morto. O cão é em Cristovam Pavia um símbolo de total pureza e disponibilidade, continuação e espírito da terra onde vive, testemunho da integridade da infância perdida, da amizade, da presença que na sua mudez exprime o que de mais fundo possui, da fidelidade da sua planície. É de 1950 o poema Ao meu cão «Fixe», de que se fala mais adiante. E um dos poucos poemas que conhecemos dos últimos anos da sua vida e que sabemos ter sido escrito depois da publicação dos 35 Poemas é Ao meu cão, que é o único poema seu em que se reflecte o remorso. Para quem tinha uma tão profunda religiosidade, que o mesmo é dizer que se sentia religado a tudo o que conhecia, só um cão (porventura companheiro da adolescência, da solidão, de horas cuja angustia talvez ninguém conheça) de olhos / Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de aceitação / De tudo... lhe mereceu um pesado remorso por o ter deixado só, à hora de morrer, talvez por nele encontrar a grandeza que então não reconhecia aos homens. (Sublinhe-se que este poema é de 1966, quando o poeta já tinha vivido quase tudo o que tinha para viver.) Talvez a morte deste cão lhe tenha despertado a lembrança da morte dum outro cão, ocorrida na sua infância, que nunca esqueceu, a ponto de a lembrar muito depois num poema que é só esta nota profundamente ferida: Há-de haver sempre meninos a chorar ao pé do velho cão morto.

[...]

Um poema [...], Ao meu cão «Fixe», é o olhar saudoso do estudante de 17 anos, preso em Lisboa pelos seus afazeres escolares, que divisa o mundo da sua infância, onde espera ir, provavelmente nas ferias de Natal que se aproximam. (Vem aí Dezembro). Uma das razões por que deseja partir para essa paisagem amada é porque para o seu cão ainda sou o teu menino, isto é: para o mundo que o rodeia e lhe é hostil o poeta perdeu a infância, mas para o mundo animal, isento de julgamento porque inocente, ele continua a ser o menino que interiormente sente que é ou que deseja ser.
[...]

José Bento
Poesia [de Cristovam Pavia]
Moraes Editores, 1982
Oferecido por Rui Almeida.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

– Quem são estes?

Da tartaruga retirar a tartaruga,
deixá-la ser apenas a não tartaruga.
Chove. As gotas molhariam seu atraso.
Eis o primeiro ciclo, o da falta.
A chuva insiste, toca as telhas de amianto.
A casa está fechada e quem está lá dentro
é a continuação da chuva e do amianto.
Esse o segundo ciclo, o do gesto.
Junto da casa, um quintal. Ainda não.
Quem sabe quando a chuva parar de insistir
eu compreenda as regras da perspectiva.
O que se retirara retorna. Silêncio.
À tartaruga chega-se por paciência.
Terceiro ciclo, o das coisas repetidas.


O coração subentendido do elefante
desce por uma linha que vai dar ao lado
do que se repetiu sem ter sequer e ainda
acontecido uma só vez. Analogia.
Junto do verso acima, novamente a casa.
No quintal dois cachorros latem sem parar;
um deles nada sabe acerca do elefante
e de seu coração localizado às pressas.
Entro na casa até que a casa deixe o texto.
O elefante é do lado de fora. Por isso
o quintal, os cachorros, os ciclos, a linha.
Interrompem-se então tamanho e referência.
Talvez viesse pelas águas. Improvável.
Sobre a copa das árvores a ventania.


A casa está vazia não por mera ausência,
mas para o aprendizado da subtração.
E a chuva, porque cai desde o terceiro verso,
além de chuva é extensão desse elefante.
A casa está vazia para que se saiba
do desapego que há em insistir no mesmo.
Mesa e pausa. A chuva caindo talvez
e apenas como efeito de profundidade.
Depois um dos cachorros. Não, acho que só
seu deslocar-se repetido até a porta.
A metodologia seguida do gesto.
Alguns pássaros seguem para o noroeste.
Tudo começa no elefante. Lentamente
a bala dentro do tambor, as leis da física.


Os pássaros aos poucos pousam no que sobra;
o pouso repetindo-se até haver árvores.
Espécie de equilíbrio natural nos ciclos
que haja ainda e a partir de agora apenas árvores.
E por haver apenas árvores, chego ao
cuidado que se ganha em se perder tais pássaros.
Assim, em cada projeção, seu negativo;
no que algo se levanta, algo também cai.
Compensação e equivalência. Revoada.
Os pássaros e as árvores segundo os peixes
que ausentes marianne moore quis próximos ao jade.
Em outro lugar deixo um jornal sobre a mesa.
As coisas são somente por faltarem todas.
Substituição e excesso. Continua.


Imitação do esquecimento o fato
de a primeira pessoa não ter posto
jornal algum na mesa. Mas espera.
Olha como retorna a tartaruga.
De seus ciclos inúmeros e três,
a segunda pessoa esta terceira.
Alguém, não sei, talvez um homem que
chegasse em casa com o tal jornal.
Me pergunto se já não o conheço.
Ele se olha no espelho e vê o pai,
depois pensa na chuva e na mulher.
Entre os dias então escolhe um dia
– anulação do dia anterior.
Quem sai, sai de onde quando entra na casa?


Ao elefante nada disso importa;
seu coração inchado ainda desce
ao vir por uma linha que vai dar
ao lado das palavras de quem chega.
E toca o chão. E quando o toca está
tocando notas menos simultâneas
que repetidas. Por exemplo, pássaros,
jornal, cachorros, telhas de amianto,
árvores, mesa, peixes e quem sabe
até todo o catálogo das naus.
Depois, lembro, alguém se olha no espelho.
Ainda não. A paciência insiste.
Sete anos de pastor jacob servia.
Introdução. O tempo do elefante.


Pausa e peixes. Mover-se em relação
ao que se move permanece imóvel.
Muda o registro, árvores mais pássaros
igual talvez a casa menos chuva.
Muda outra vez: a mesma marianne moore
– que traduziu até algumas fábulas
de la fontaine – ao ler o verso abaixo:
where there is personal liking we go.
Sim, hoje marianne, amanhã jacob
e assim seguindo, sob a mesma chuva,
de nome em nome até tocar o chão,
i.e., até que cicatriz alguma
possa impedir que homônimos raquel,
lia e filhos estejam entre os seus.


Da tartaruga retirar o não
que antecedia a coisa repetida.
Não para confirmá-la, já que é de
confirmação que a tartaruga inteira é feita.
Mas para contrapô-la ao elefante
e a seu ainda inchado coração.
Por isso que o que fica no lugar
do gesto é seu reverso e também extensão.
Colocar sobre a mesa tanto o pôr
como o não pôr jornal nem coisa alguma.
Anulação seguida de recuo.
Chove. As gotas contra o amianto
das telhas descobertas molhariam
por três vezes o não da tartaruga.

Leonardo Gandolfi

terça-feira, 3 de junho de 2008

MAIS FÁBULAS FANTÁSTICAS

O CÃO DE FOCINHO NO RABO

Ao avistar um Caniche, um leão desatou a rir-se, a bandeiras despregadas, do ridículo espectáculo.
- Já se viu animal tão pequeno? – perguntou.
- É bem certo – replicou o Caniche, num tom de austera dignidade – eu ser pequeno, mas peço-lhe, meu senhor, que repare em que sou Cão de focinho no rabo.



DOIS CÃES

O Cão, ao ser criado, ficou com uma cauda rígida; mas, após séculos de existência sem alegria, vendo-se ignorado pelo Homem, que o forçava a trabalhar para merecer o pão quotidiano, solicitou ao Criador que lhe concedesse o dom de abanar o rabo. Uma vez o requerimento deferido, viu-se o Cão capaz de dissimular ressentimentos com um sinal de afecto, passando a terra, daí em diante, a pertencer-lhe, com toda a sua abundância. Ao reparar nisso, o Político (animal criado muito mais tarde) rogou ao Senhor que também o dotasse de movimento. Mas como não possuía apêndice caudal, foi-lhe dado mover os queixos, que, hoje em dia, agita com bastante proveito e satisfação, menos à hora das refeições.


DECEPÇÃO

Tinha-se um Cão cansado de tal maneira a correr atrás da própria cauda, que acabara por abandonar a perseguição, enrolando-se todo para descansar. Uma vez nesta posição, apercebeu-se de que tinha a cauda mesmo a jeito e ferrou-lhe os dentes com tal avidez que a largou logo a seguir, cheio de dores.
- Afinal de contas – concluiu – há mais prazer na perseguição do que na posse.


O CÃO E O MÉDICO

E perguntou o Cão ao Médico que tinha ido assistir ao funeral de um dos seus ricos clientes:
- Quando é que o senhor doutor tenciona desenterrá-lo?
- Mas porque é que o hei-de desenterrar? – perguntou o Médico.
- Eu, quando meto um osso debaixo do chão – declarou o animal – é com a ideia de, mais tarde, o tirar cá para fora, e meter-lhe o dente.
- pois é, mas os que eu enterro – explicou o Esculápio – já nada têm que roer.


O ESPELHO

Um «Epagneul», de sedosas orelhas, descendente em linha recta do rei Carlos II, olhou, um dia, por acaso, para um espelho preso à parede de uma sala do rés-do-chão da casa da dona. Ao ver a sua imagem, pensou que se tratava doutro cão, lá fora, e declarou:
- Eu sou muito capaz de, com duas dentadas, dar cabo daquele miserável animalejo, e é o que vou já fazer.
Mal disse isto, saiu a correr para os lados da casa onde lhe parecia que se encontrava o seu inimigo. Ora deu-se o caso de lá estar um Buldogue, de dentuça arreganhada ao sol. O «Epagneul» parou logo, tolhido por uma terrível consternação. A seguir, depois de, por momentos, ter examinado o Buldogue a distância respeitável, badalou-lhe umas coisas neste estilo:
- Não sei se o senhor cultiva as artes da paz ou se prefere desfraldar o estandarte das batalhas, prosseguindo pela via da guerra. Se é um civil, pode-se muito bem dizer que as janelas desta casa o lisonjeiam mais do que o faria um jornal; mas se é um soldado, pode afirmar-se que são muito injustas para consigo.
O Buldogue não percebeu patavina de tanto palavreado; limitou-se a sorrir, com toda a delicadeza, o que muito assustou o «Epagneul», que, logo ali, esticou o pernil.


O FACTOR ESQUECIDO

Um Homem tinha um belo Cão e, depois de, com todo o cuidado, lhe ter escolhido companheira, conseguiu criar um bom número de animais de inteligência quase angelical. Apaixonando-se, entretanto, pela sua lavadeira, o tal Homem casou-se com ela, e criou uma ninhada de cretinos.
- Ai de mim! – lamentou-se, contemplando tão deplorável resultado. – Se eu tivesse posto na escolha da minha, metade dos cuidados que dediquei à escolha de companheira para o meu cão, seria hoje um pai feliz e orgulhoso da sua prole.
- Não estou assim tão certo disso – comentou o Cão, que ouvira, por acaso, a palinódia. – É verdade haver uma grande diferença entre os seus filhos e os meus, mas lisonjeia-me o facto de a mesma não ser inteiramente devida às respectivas mães. Olhe que eu e o senhor também não somos nada parecidos.


Ambrose Bierce
Fábulas Fantásticas
tradução de João da Fonseca Amaral
Editorial Estampa, 1977

Oferecido por Rui Almeida.

segunda-feira, 2 de junho de 2008


O BANHO SURPREENDIDO

Os CÃES habitam quadros célebres, como elementos acessórios de composição, mas para quem gosta de animais eles constituem o próprio tema da obra de arte. E mesmo para simples observadores da vida.
Um pintor renascentista que escolheu como assunto o banho de Susana surpreendida pelos velhos, teve idéia de colocar um cão como guarda da pudicícia da banhista. O animal avança, irado, contra um dos anciãos indiscretos, que recua tomado de justo medo. Em face da determinação do cachorro e do susto do velho, a nudez de Susana torna-se secundária. O cão roubou a cena e seu significado bíblico. A mulher poderia até sair à rua assim como estava, sem que fosse notada, pois o interesse dos passantes havia de concentrar-se na perseguição do homem pelo cão, e em apostar quem levaria a melhor.
Requinte do artista, nem sempre observado pela crítica, é a decepção que se estampa no rosto de Susana. Ser vista na intimidade por olhos lúbricos não a afeta. O que a desaponta é ver o cão tornar-se mais importante que a sua nudez.


Carlos Drummond de Andrade
Contos Plausíveis
José Olympio Editora, 1981


Oferecido por Rui Almeida.

O ASSALTO

A CASA LUXUOSA no Leblon é guardada por um molosso de feia catadura, que dorme de olhos abertos, ou talvez nem durma, de tão vigilante. Por isso, a família vive tranquila, e nunca se teve notícia de assalto a residência tão bem protegida.
Até a semana passada. Na noite de quinta-feira, um homem conseguiu abrir o pesado portão de ferro e penetrar no jardim. Ia fazer o mesmo com a porta da casa, quando o cachorro, que muito de astúcia o deixara chegar até lá, para acender-lhe o clarão de esperança e depois arrancar-lhe toda ilusão, avançou contra ele, abocanhando-lhe a perna esquerda. O ladrão quis sacar do revólver, mas não teve tempo para isto. Caindo ao chão, sob as patas do inimigo, suplicou-lhe com os olhos que o deixasse viver, e com a boca prometeu que nunca mais tentaria assaltar aquela casa. Falou em voz baixa, para não despertar os moradores, temendo que se agravasse a situação.
O animal pareceu compreender a súplica do ladrão, e deixou-o sair em estado deplorável. No jardim ficou um pedaço de calça. No dia seguinte, a empregada não entendeu bem por que uma voz, pelo telefone, disse que era da Saúde Pública e indagou se o cão era vacinado. Nesse momento o cão estava junto da doméstica, e abanou o rabo, afirmativamente.

Carlos Drummond de Andrade
Contos Plausíveis
José Olympio Editora, 1981

Oferecido por Rui Almeida.

A MUDANÇA

O HOMEM voltou à terra natal e achou tudo mudado. Até a igreja mudara de lugar. Os moradores pareciam ter trocado de nacionalidade, falavam língua incompreensível. O clima também era diferente.
A custo, depois de percorrer avenidas estranhas, que se perdiam no horizonte, topou com um cachorro que também vagava, inquieto, em busca de alguma coisa. Era um velhíssimo animal sem trato, que parou à sua frente.
Os dois se reconheceram: o cão Piloto e seu dono. Ao deixar a cidade, o homem abandonara Piloto, dizendo que voltaria em breve, e nunca mais voltou. O animal inconformado procurava-o por toda parte. E conservava uma identidade que talvez só os cães consigam manter, na Terra mutante.
Piloto farejou longamente o homem, sem abanar o rabo. O homem não se animou a acariciá-lo. Depois, o cão virou as costas e saiu sem destino. O homem pensou em chamá-lo, mas desistiu. Afinal, reconheceu que ele próprio tinha mudado, ou que talvez só ele mudara, e a cidade era a mesma, vista por olhos que tinham esquecido a arte de ver.

Carlos Drummond de Andrade
Contos Plausíveis
José Olympio Editora, 1981

Oferecido por Rui Almeida.

domingo, 1 de junho de 2008

RESERVOIR DOGS

DOG DAY AFTERNOON


segunda-feira, 26 de maio de 2008

CÃO CÉRBERO

antolhos. cão cérbero guardião das portas do inferno. estrangulá-lo. hera. belamente leão de neméia. esmagar os pés de bronze do antropóide. acomodá-lo nas entranhas dilaceradas da corça. voar... dentro da cabeça da égua alada. um destino no bico da ave antropófaga. as larvas mentais. do caos os miolos da sombra. sugar o monstro antropocêntrico dum poeta. mas o touro lança a chama violeta pelas narinas num umbigo. lírico.

Adriana Zapparoli
Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio

INSÓNIA

Madrid é uma cidade de mais de um milhar de cadáveres (segundo as últimas estatísticas).
Às vezes na noite dou voltas e soergo-me neste buraco em que há quarenta e cinco anos apodreço,
e passo longas horas ouvindo gemer o furacão, ou ladrar os cães, ou fluir brandamente o luar.
E passo longas horas gemendo como o furacão, ladrando como o cão enfurecido, fluindo como o leite do úbere quente de uma enorme vaca amarela.
E passo longas horas perguntando a Deus, perguntando-lhe por que apodrece lentamente minha alma,
porquê apodrecem mais de um milhão de cadáveres nesta cidade de Madrid,
porquê milhões de cadáveres apodrecem no mundo.
Diz-me: que horto queres adubar com a nossa podridão?
Receias que sequem para ti as grandes roseiras do dia,
as tristes açucenas letais de tuas noites?

Dâmaso Alonso
in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
Tradução de José Bento
Assírio & Alvim, 1985


Oferecido por Rui Almeida.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

COMO ME TRANSFORMEI EM CÃO

É ainda assim completamente insuportável!
Estou rabugento como tudo.
A minha rabugice não é conforme poderia ser a vossa:
apanharia qual um cão o rosto de testa lisa
da lua
e cobrindo-a de latidos.

Deve ser dos nervos…
Vou sair,
dar uma volta.
Mas na rua ninguém consegue acalmar-me.
Uma mulher grita-me qualquer coisa a propósito de uma boa tarde.
Há que responder:
eu conheço-a.
Quero fazê-lo,
mas sinto
que é impossível à maneira dos homens.

Que escândalo!
Estarei a dormir?
Apalpo-me:
sou tal como era,
o rosto a que estou habituado.
Toco no lábio,
por baixo desponta
um canino.

Escondo rapidamente a cara, como para me assoar,
corri para casa dobrando o passo.
Contorno prudente a esquadra mas de repente um grito ensurdecedor:
«Ó da guarda!
Ele tem uma cauda!»

Passei a mão e fiquei hirto!
Isto era mais claro
que todos os caninos,
na minha pressa furiosa não tinha reparado
que sob o casaco
uma enorme cauda tinha estendido o seu leque
e abanava atrás de mim,
uma enorme cauda de cão.

Que irá acontecer?
Um pôs-se a berrar, amotinando a multidão,
ao segundo juntou-se um terceiro, depois um quarto.
Derrubaram uma pobre velha
que benzendo-se gritou qualquer coisa a propósito do diabo.
E quando, a cara eriçada pelas vassouras de enormes bigodes
a multidão se aproximou,
imensa,
maldosa,
eu pus-me a quatro patas
e ladrei:
Au! Au! Au!

Vladimir Maiakovski, in "33 Poesias" quasi, 2008
trad. Adolfo Luxúria Canibal

Via O Café dos Loucos

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Insónia

O homem vigia.
Dentro dele, estumados,
uivam os cães da memória.
Aquela noite, o luar
e o vento no cipó-prata e ele,
o medo a cavalo nele,
ele a cavalo em fuga
das folhas do cipó-prata.
A mãe no fogão cantando,
os zangões, a poeira, o ar anímico.
Ladra seu sonho insone,
em saudade, vinagre e doçura.

Adélia Prado
Bagagem
1976

Oferecido por Rui Almeida.

A VIDA É UMA FADA

há quem tenha
uma cadela
eu não tenho
uma gata.
a cadela
leva-me lá fora
a gata
anda lá fora.
a cadela
anda-se com ela.
por isso prefiro
não ter uma gata
a ter uma cadela.

embora na desgraça
esta gata é de raça.
se eu pudesse tinha-a
mas não pára em casa.
e se a tivesse passava
a vida como quem tem
uma cadela cinderela:
a gata, que é dela?
não era bom para mim
e era mau para ela.

antes da meia noite
já está com a cadela.
chamam-lhe borralheira
porque nunca mantém
em segredo a fada.
os cavalos são mesmo ratos
a varinha não é de marca
e a carruagem é uma abóbora.
apesar de tudo é uma gata
fala francês com a cadela
e não toca piano
mas escreve à máquina.

ora porque me inquieta
a gata que não é minha?
é que não quero saber da cadela da vizinha!
a borralheira, essa
comunista na miséria
comodista na fartura
é muito meiga e neutra.
à noite pousa a pata
no meu ombro e ladra
o estupor da gata.

Joaquim Castro Caldas
Convém Avisar os Ingleses
Quasi, 2002

Oferecido por
Rui Almeida.

Ladrar em vão

Uma manhã vazia, com certeza domingo.
Um cão a ladrar disparates
para casas estranhas, mas com certeza
não tão bem, tão caninamente como devia,
porque ninguém vem espreitar à janela,
ninguém lhe grita furioso: «Cala-te»

Judith Herzberg, O que resta do dia, 2008.

Oferecido por manuel a. domingos.

adeus

adeus Hemingway adeus Céline (morrestes no mesmo dia)
adeus Saroyan adeus meu bom Henry Miller adeusTennessee
Williams adeus cães mortos nas auto-estradas adeus todo o
amor que nunca foi adeus Ezra é triste é sempre triste quando
alguém dá e depois alguém tira eu compreendo
eu compreendo e dou-te o meu carro e o meu isqueiro
e o meu cálice de prata e o telhado que afasta
a maior parte da chuva adeus Hemigway adeus Céline adeus
Saroyan adeus meu bom Henry Miller adeus Camus adeus Gorky
adeus equilibrista que cais enquanto rostos sem expressão
olham para cima depois para baixo e depois afastam a cara
zanguem-se com o sol, disse Jeffers, adeus Jeffers, eu só posso pensar
que a morte de gente boa e de gente má é igualmente triste
adeus D.H. Lawrence adeus à raposa dos meus sonhos e
ao telefone
foi mais difícil do que esperava
adeus Two Ton Tony adeus Flying Circus
fizeram o suficiente adeus Tennessee minha bicha alcoólica
esta noite estou a beber uma garrafa a mais de vinho
à tua saúde.

Charles Bukowski, War All the Time, 1984.
versão de
manuel a. domingos

quinta-feira, 27 de março de 2008

XXXII

Um cão vadio vagabundeia.
Que há-de fazer um cão vadio?
Traz algum osso na ideia?
Rói-o o estômago vazio?
Onde irá ele achar um osso?
Do osso à ideia é um fio.
Da ideia ao osso há um fosso.

Armindo Rodrigues
Lisboa Próxima e Distante (in Obra Poética VI)
1972

Oferecido por
Rui Almeida.

CÃOLIMERO


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