Antologia de textos com cães dentro.

sábado, 7 de junho de 2008

PÁGINAS



[…]
Em cães tenho corda para muito mais conversa do que sobre o tempo, apesar de ultimamente ir começando a conhecer melhor as tendências do Senhor Tempo e a defender-me das suas irregularidades. E de facto é difícil ser-se um amigo para toda a vida porque, vai não vai, está carrancudo de horizonte cerrado, sem eu saber porquê, qual o motivo da zanga e qual a razão de tanto refestelo.
Em cães já sou forte, mas em cadelas ainda me atrapalho pois elas são difíceis de se descobrir enquanto a conversa não se centraliza sobre a família, os amigos e até os desconhecidos.
Isto de genealogias, meu Deus, é um mar sem fim de snobismos de elegância de modas de ciúmes de intrigas de tratamentos de festas de alimentos que até me tem trazido afastado por não ter um cão.
No momento em que chamam Dear ou Darling aos cães eu fico logo desarmado – depois vem em procissão a lengalenga dos sweet para cima e sweet para baixo aparecendo estes mimos mais claros e íntimos do que todas as carícias temporais.
Os cães são mais bem tratados do que as filhas do dono da casa, têm mais carinhos do que as crianças e andam mais bem tosquiados do que os velhos – sobem para cima das cadeiras estofadas fazendo porcaria por toda a casa sem que os amos abram a porta para os ruar.
«Isn't he a dear? She is a darling! As the weather is so fine I am going to take them out for a walk in the park. They are lovely». As cadelas em inglês não são cadelas, são outra coisa e vá lá convencer qualquer indígena que o animal cão é uma cadela! Até o tempo ficava ofendido por tanta incompreensão.
Aqui há tempos um rapaz, um dos antigos rapazes da R. A. F., foi sair com o bom tempo. Pela tarde fora, no parque, pôs-se à vontade, começou-se a fazer fino. Até que as coisas foram às do cabo e veio uma abada enterítica que causou grandes dissabores. O bom tempo não era desses.
Às vezes, no meio duma conversa em sala cheia, ouço estas palavras: Isn't she so lovely e nunca percebo se é uma tipa boa que está à vista ou se estão a falar a propósito da cadela amiga que ficou em casa portando-se muito bem. Lá brincadeiras com Darlings e sweets eu não quero, vá lá estar um cão próximo e posso levar uma dentada.
Desconfio sempre com essa história dos Darlings – até mesmo me custa a responder. Aos Dears é mais fácil porque o uso está muito mais generalizado e como já é um hábito eu não me importo – mas sweet sweet ou darling darling é sinal para farejar primeiro.
Conheço várias raças de cães: uns que andam ao colo, outros de capa aos quadrados escoceses, outros que metem medo, uns que parecem chouriços ao atravessar uma rua –do lado de lá do passeio está a cabeça e do lado de cá ainda vai o rabo. E cada um deles com uma árvore genealógica que faz corar muitos reis da Europa. Campeões, pais laureados, filhos distintos, mães agradecidas – vê-se logo que isto é um país onde não há rafeiros e muito menos cães de viela. Havia um Fadista de Mafra, quando eu lá estava na tropa, que se descesse aqui punha as cadelas, ou elas todas no seu estado interessantíssimo –, a cadela do meu tio João – a Zazá – essa então dava que falar em sociedades formando rapidamente um saloon rival das boémias penachadas do Fadista.
Um pormenor interessante é ser convidado para passar o fim-de-semana no campo e, ao chegar lá, o cão – velho Lord ou caquética Lady – está deitado ao longo do sofá torneando um olhar para nós com um ar de desprezo maroto. Faz-se um sorriso bocando-se um duvidoso very nice, até mesmo continuamos em pé para não estragar aquela árvore zoológica a descansar de fadigas no sofá quentinho.
Quando o cão, ou ela, tem necessidade em ir lá fora, pára imediatamente a conversa, estabelece-se uma passagem para Sua Excelência que então, solene e majestática, dirige os seus passos – entre elas – para a árvore de botânicas regadas. Eu sorrateiramente sento-me no sofá, a espraiar-me um pouco, quando constato um sorriso amarelado escancarar-se nas trombas da dona da casa ao dizer-me: He, ou she, is charming! Basta.
Fica desde já assente que não tenho charme para cães.
[…]

Ruben A.
Páginas (III)
1956


Oferecido por Rui Almeida.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

UMA ELEGIA

É em manhãs assim que não sei como escrever
elegias, vou ao ágora do poema e só encontro
cães, e os cães estão sôfregos pelo que paira no ar,
a extensa litania que submerge a cidade e irrompe

do sentido para prevalecer. É uma manhã napolitana,
com fumarolas e lâmpadas a crescer pelas praças,
e os cães estão a céu aberto a marcar com as patas
o exíguo território a que se confinam os mortos,

os mortos amontoados nas ruas, como se fossem
uma barreira para o mar, uma barreira de coral
com pés e mãos, e bocas hiantes no sobressalto
do mundo. É em manhãs assim que alguma coisa pica

o sangue, e me lembro de ti um pouco antes de seres
definitivamente mulher, e és uma rapariga camponesa
a enumerar as ondas, a descer sobre os campos
onde todas as batalhas decorrem, todos os clarões.

És hoje esta elegia, mas não sei, ainda, como hei-de
escrever-te, permaneces no templo e guardas na luz
o teu contorno marítimo, onde há colinas nuas
e arbustos pequenos como os teus dentes miúdos.

Os cães aguardam, e uivam, e rosnam, e é esse o sinal
para o arrebatamento, vem um braço de vento tocar-te
o rosto e sou eu que toco os teus cabelos, numa carícia perfaço
um juramento em que estás presente, ainda que estejas

ausente, e só saibam os cães onde, e como, procurar-te.
Encontro-te, talvez, um pouco acima do céu, um pouco abaixo da terra,
encontro-te exactamente onde Nápoles se olha no escuro
e onde tenho a boca em fogo para pronunciar o teu nome,

ainda que em manhãs assim não saiba como escrever
elegias e a partida seja um rio intranquilo em que tudo
te lembra. Eu e os cães ouvimos vozes nocturnas, e, de repente,
apareces, e a manhã estremece, e vibra, muito branca,

sendo que os cães sabem tudo de ti e eu te choro
sob esta sombra, ainda que o sol brilhe sobre o mar,
ainda que a janela entreaberta enquadre a nitidez de uma silhueta
com o teu rosto, e eu não seja mais que um navio votivo, perdido a jusante.

Amadeu Baptista
Poemas de Caravaggio

quinta-feira, 5 de junho de 2008

AO MEU CÃO FIXE

Agora os crepúsculos são frios
E a brisa traz a humidade das folhas mortas...

Tu, meu cão, cerras os olhos e dormes...

Vem aí Dezembro...
Tenho saudades do teu silêncio,
Do teu focinho macio e quente,
Do teu olhar,
Meu amigo!

Oh! meu cão, para ti ainda sou o teu dono menino
E és o único que me acompanha nos passeios mágicos...

Depressa lá estarei contigo. Dezembro aproxima-se...
Agora os crepúsculos são frios...

Cristovam Pavia
Poesia
Moraes Editores, 1982

Oferecido por
Rui Almeida.

SOBRE A POESIA DE CRISTOVAM PAVIA

[excertos]

[...]
Ainda em 1950 encontramos nos poemas de Cristovam Pavia duas figuras que voltarão posteriormente: o cão e o próprio poeta como morto. O cão é em Cristovam Pavia um símbolo de total pureza e disponibilidade, continuação e espírito da terra onde vive, testemunho da integridade da infância perdida, da amizade, da presença que na sua mudez exprime o que de mais fundo possui, da fidelidade da sua planície. É de 1950 o poema Ao meu cão «Fixe», de que se fala mais adiante. E um dos poucos poemas que conhecemos dos últimos anos da sua vida e que sabemos ter sido escrito depois da publicação dos 35 Poemas é Ao meu cão, que é o único poema seu em que se reflecte o remorso. Para quem tinha uma tão profunda religiosidade, que o mesmo é dizer que se sentia religado a tudo o que conhecia, só um cão (porventura companheiro da adolescência, da solidão, de horas cuja angustia talvez ninguém conheça) de olhos / Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de aceitação / De tudo... lhe mereceu um pesado remorso por o ter deixado só, à hora de morrer, talvez por nele encontrar a grandeza que então não reconhecia aos homens. (Sublinhe-se que este poema é de 1966, quando o poeta já tinha vivido quase tudo o que tinha para viver.) Talvez a morte deste cão lhe tenha despertado a lembrança da morte dum outro cão, ocorrida na sua infância, que nunca esqueceu, a ponto de a lembrar muito depois num poema que é só esta nota profundamente ferida: Há-de haver sempre meninos a chorar ao pé do velho cão morto.

[...]

Um poema [...], Ao meu cão «Fixe», é o olhar saudoso do estudante de 17 anos, preso em Lisboa pelos seus afazeres escolares, que divisa o mundo da sua infância, onde espera ir, provavelmente nas ferias de Natal que se aproximam. (Vem aí Dezembro). Uma das razões por que deseja partir para essa paisagem amada é porque para o seu cão ainda sou o teu menino, isto é: para o mundo que o rodeia e lhe é hostil o poeta perdeu a infância, mas para o mundo animal, isento de julgamento porque inocente, ele continua a ser o menino que interiormente sente que é ou que deseja ser.
[...]

José Bento
Poesia [de Cristovam Pavia]
Moraes Editores, 1982
Oferecido por Rui Almeida.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

– Quem são estes?

Da tartaruga retirar a tartaruga,
deixá-la ser apenas a não tartaruga.
Chove. As gotas molhariam seu atraso.
Eis o primeiro ciclo, o da falta.
A chuva insiste, toca as telhas de amianto.
A casa está fechada e quem está lá dentro
é a continuação da chuva e do amianto.
Esse o segundo ciclo, o do gesto.
Junto da casa, um quintal. Ainda não.
Quem sabe quando a chuva parar de insistir
eu compreenda as regras da perspectiva.
O que se retirara retorna. Silêncio.
À tartaruga chega-se por paciência.
Terceiro ciclo, o das coisas repetidas.


O coração subentendido do elefante
desce por uma linha que vai dar ao lado
do que se repetiu sem ter sequer e ainda
acontecido uma só vez. Analogia.
Junto do verso acima, novamente a casa.
No quintal dois cachorros latem sem parar;
um deles nada sabe acerca do elefante
e de seu coração localizado às pressas.
Entro na casa até que a casa deixe o texto.
O elefante é do lado de fora. Por isso
o quintal, os cachorros, os ciclos, a linha.
Interrompem-se então tamanho e referência.
Talvez viesse pelas águas. Improvável.
Sobre a copa das árvores a ventania.


A casa está vazia não por mera ausência,
mas para o aprendizado da subtração.
E a chuva, porque cai desde o terceiro verso,
além de chuva é extensão desse elefante.
A casa está vazia para que se saiba
do desapego que há em insistir no mesmo.
Mesa e pausa. A chuva caindo talvez
e apenas como efeito de profundidade.
Depois um dos cachorros. Não, acho que só
seu deslocar-se repetido até a porta.
A metodologia seguida do gesto.
Alguns pássaros seguem para o noroeste.
Tudo começa no elefante. Lentamente
a bala dentro do tambor, as leis da física.


Os pássaros aos poucos pousam no que sobra;
o pouso repetindo-se até haver árvores.
Espécie de equilíbrio natural nos ciclos
que haja ainda e a partir de agora apenas árvores.
E por haver apenas árvores, chego ao
cuidado que se ganha em se perder tais pássaros.
Assim, em cada projeção, seu negativo;
no que algo se levanta, algo também cai.
Compensação e equivalência. Revoada.
Os pássaros e as árvores segundo os peixes
que ausentes marianne moore quis próximos ao jade.
Em outro lugar deixo um jornal sobre a mesa.
As coisas são somente por faltarem todas.
Substituição e excesso. Continua.


Imitação do esquecimento o fato
de a primeira pessoa não ter posto
jornal algum na mesa. Mas espera.
Olha como retorna a tartaruga.
De seus ciclos inúmeros e três,
a segunda pessoa esta terceira.
Alguém, não sei, talvez um homem que
chegasse em casa com o tal jornal.
Me pergunto se já não o conheço.
Ele se olha no espelho e vê o pai,
depois pensa na chuva e na mulher.
Entre os dias então escolhe um dia
– anulação do dia anterior.
Quem sai, sai de onde quando entra na casa?


Ao elefante nada disso importa;
seu coração inchado ainda desce
ao vir por uma linha que vai dar
ao lado das palavras de quem chega.
E toca o chão. E quando o toca está
tocando notas menos simultâneas
que repetidas. Por exemplo, pássaros,
jornal, cachorros, telhas de amianto,
árvores, mesa, peixes e quem sabe
até todo o catálogo das naus.
Depois, lembro, alguém se olha no espelho.
Ainda não. A paciência insiste.
Sete anos de pastor jacob servia.
Introdução. O tempo do elefante.


Pausa e peixes. Mover-se em relação
ao que se move permanece imóvel.
Muda o registro, árvores mais pássaros
igual talvez a casa menos chuva.
Muda outra vez: a mesma marianne moore
– que traduziu até algumas fábulas
de la fontaine – ao ler o verso abaixo:
where there is personal liking we go.
Sim, hoje marianne, amanhã jacob
e assim seguindo, sob a mesma chuva,
de nome em nome até tocar o chão,
i.e., até que cicatriz alguma
possa impedir que homônimos raquel,
lia e filhos estejam entre os seus.


Da tartaruga retirar o não
que antecedia a coisa repetida.
Não para confirmá-la, já que é de
confirmação que a tartaruga inteira é feita.
Mas para contrapô-la ao elefante
e a seu ainda inchado coração.
Por isso que o que fica no lugar
do gesto é seu reverso e também extensão.
Colocar sobre a mesa tanto o pôr
como o não pôr jornal nem coisa alguma.
Anulação seguida de recuo.
Chove. As gotas contra o amianto
das telhas descobertas molhariam
por três vezes o não da tartaruga.

Leonardo Gandolfi

terça-feira, 3 de junho de 2008

MAIS FÁBULAS FANTÁSTICAS

O CÃO DE FOCINHO NO RABO

Ao avistar um Caniche, um leão desatou a rir-se, a bandeiras despregadas, do ridículo espectáculo.
- Já se viu animal tão pequeno? – perguntou.
- É bem certo – replicou o Caniche, num tom de austera dignidade – eu ser pequeno, mas peço-lhe, meu senhor, que repare em que sou Cão de focinho no rabo.



DOIS CÃES

O Cão, ao ser criado, ficou com uma cauda rígida; mas, após séculos de existência sem alegria, vendo-se ignorado pelo Homem, que o forçava a trabalhar para merecer o pão quotidiano, solicitou ao Criador que lhe concedesse o dom de abanar o rabo. Uma vez o requerimento deferido, viu-se o Cão capaz de dissimular ressentimentos com um sinal de afecto, passando a terra, daí em diante, a pertencer-lhe, com toda a sua abundância. Ao reparar nisso, o Político (animal criado muito mais tarde) rogou ao Senhor que também o dotasse de movimento. Mas como não possuía apêndice caudal, foi-lhe dado mover os queixos, que, hoje em dia, agita com bastante proveito e satisfação, menos à hora das refeições.


DECEPÇÃO

Tinha-se um Cão cansado de tal maneira a correr atrás da própria cauda, que acabara por abandonar a perseguição, enrolando-se todo para descansar. Uma vez nesta posição, apercebeu-se de que tinha a cauda mesmo a jeito e ferrou-lhe os dentes com tal avidez que a largou logo a seguir, cheio de dores.
- Afinal de contas – concluiu – há mais prazer na perseguição do que na posse.


O CÃO E O MÉDICO

E perguntou o Cão ao Médico que tinha ido assistir ao funeral de um dos seus ricos clientes:
- Quando é que o senhor doutor tenciona desenterrá-lo?
- Mas porque é que o hei-de desenterrar? – perguntou o Médico.
- Eu, quando meto um osso debaixo do chão – declarou o animal – é com a ideia de, mais tarde, o tirar cá para fora, e meter-lhe o dente.
- pois é, mas os que eu enterro – explicou o Esculápio – já nada têm que roer.


O ESPELHO

Um «Epagneul», de sedosas orelhas, descendente em linha recta do rei Carlos II, olhou, um dia, por acaso, para um espelho preso à parede de uma sala do rés-do-chão da casa da dona. Ao ver a sua imagem, pensou que se tratava doutro cão, lá fora, e declarou:
- Eu sou muito capaz de, com duas dentadas, dar cabo daquele miserável animalejo, e é o que vou já fazer.
Mal disse isto, saiu a correr para os lados da casa onde lhe parecia que se encontrava o seu inimigo. Ora deu-se o caso de lá estar um Buldogue, de dentuça arreganhada ao sol. O «Epagneul» parou logo, tolhido por uma terrível consternação. A seguir, depois de, por momentos, ter examinado o Buldogue a distância respeitável, badalou-lhe umas coisas neste estilo:
- Não sei se o senhor cultiva as artes da paz ou se prefere desfraldar o estandarte das batalhas, prosseguindo pela via da guerra. Se é um civil, pode-se muito bem dizer que as janelas desta casa o lisonjeiam mais do que o faria um jornal; mas se é um soldado, pode afirmar-se que são muito injustas para consigo.
O Buldogue não percebeu patavina de tanto palavreado; limitou-se a sorrir, com toda a delicadeza, o que muito assustou o «Epagneul», que, logo ali, esticou o pernil.


O FACTOR ESQUECIDO

Um Homem tinha um belo Cão e, depois de, com todo o cuidado, lhe ter escolhido companheira, conseguiu criar um bom número de animais de inteligência quase angelical. Apaixonando-se, entretanto, pela sua lavadeira, o tal Homem casou-se com ela, e criou uma ninhada de cretinos.
- Ai de mim! – lamentou-se, contemplando tão deplorável resultado. – Se eu tivesse posto na escolha da minha, metade dos cuidados que dediquei à escolha de companheira para o meu cão, seria hoje um pai feliz e orgulhoso da sua prole.
- Não estou assim tão certo disso – comentou o Cão, que ouvira, por acaso, a palinódia. – É verdade haver uma grande diferença entre os seus filhos e os meus, mas lisonjeia-me o facto de a mesma não ser inteiramente devida às respectivas mães. Olhe que eu e o senhor também não somos nada parecidos.


Ambrose Bierce
Fábulas Fantásticas
tradução de João da Fonseca Amaral
Editorial Estampa, 1977

Oferecido por Rui Almeida.

segunda-feira, 2 de junho de 2008


O BANHO SURPREENDIDO

Os CÃES habitam quadros célebres, como elementos acessórios de composição, mas para quem gosta de animais eles constituem o próprio tema da obra de arte. E mesmo para simples observadores da vida.
Um pintor renascentista que escolheu como assunto o banho de Susana surpreendida pelos velhos, teve idéia de colocar um cão como guarda da pudicícia da banhista. O animal avança, irado, contra um dos anciãos indiscretos, que recua tomado de justo medo. Em face da determinação do cachorro e do susto do velho, a nudez de Susana torna-se secundária. O cão roubou a cena e seu significado bíblico. A mulher poderia até sair à rua assim como estava, sem que fosse notada, pois o interesse dos passantes havia de concentrar-se na perseguição do homem pelo cão, e em apostar quem levaria a melhor.
Requinte do artista, nem sempre observado pela crítica, é a decepção que se estampa no rosto de Susana. Ser vista na intimidade por olhos lúbricos não a afeta. O que a desaponta é ver o cão tornar-se mais importante que a sua nudez.


Carlos Drummond de Andrade
Contos Plausíveis
José Olympio Editora, 1981


Oferecido por Rui Almeida.

O ASSALTO

A CASA LUXUOSA no Leblon é guardada por um molosso de feia catadura, que dorme de olhos abertos, ou talvez nem durma, de tão vigilante. Por isso, a família vive tranquila, e nunca se teve notícia de assalto a residência tão bem protegida.
Até a semana passada. Na noite de quinta-feira, um homem conseguiu abrir o pesado portão de ferro e penetrar no jardim. Ia fazer o mesmo com a porta da casa, quando o cachorro, que muito de astúcia o deixara chegar até lá, para acender-lhe o clarão de esperança e depois arrancar-lhe toda ilusão, avançou contra ele, abocanhando-lhe a perna esquerda. O ladrão quis sacar do revólver, mas não teve tempo para isto. Caindo ao chão, sob as patas do inimigo, suplicou-lhe com os olhos que o deixasse viver, e com a boca prometeu que nunca mais tentaria assaltar aquela casa. Falou em voz baixa, para não despertar os moradores, temendo que se agravasse a situação.
O animal pareceu compreender a súplica do ladrão, e deixou-o sair em estado deplorável. No jardim ficou um pedaço de calça. No dia seguinte, a empregada não entendeu bem por que uma voz, pelo telefone, disse que era da Saúde Pública e indagou se o cão era vacinado. Nesse momento o cão estava junto da doméstica, e abanou o rabo, afirmativamente.

Carlos Drummond de Andrade
Contos Plausíveis
José Olympio Editora, 1981

Oferecido por Rui Almeida.

A MUDANÇA

O HOMEM voltou à terra natal e achou tudo mudado. Até a igreja mudara de lugar. Os moradores pareciam ter trocado de nacionalidade, falavam língua incompreensível. O clima também era diferente.
A custo, depois de percorrer avenidas estranhas, que se perdiam no horizonte, topou com um cachorro que também vagava, inquieto, em busca de alguma coisa. Era um velhíssimo animal sem trato, que parou à sua frente.
Os dois se reconheceram: o cão Piloto e seu dono. Ao deixar a cidade, o homem abandonara Piloto, dizendo que voltaria em breve, e nunca mais voltou. O animal inconformado procurava-o por toda parte. E conservava uma identidade que talvez só os cães consigam manter, na Terra mutante.
Piloto farejou longamente o homem, sem abanar o rabo. O homem não se animou a acariciá-lo. Depois, o cão virou as costas e saiu sem destino. O homem pensou em chamá-lo, mas desistiu. Afinal, reconheceu que ele próprio tinha mudado, ou que talvez só ele mudara, e a cidade era a mesma, vista por olhos que tinham esquecido a arte de ver.

Carlos Drummond de Andrade
Contos Plausíveis
José Olympio Editora, 1981

Oferecido por Rui Almeida.

domingo, 1 de junho de 2008

RESERVOIR DOGS

DOG DAY AFTERNOON


segunda-feira, 26 de maio de 2008

CÃO CÉRBERO

antolhos. cão cérbero guardião das portas do inferno. estrangulá-lo. hera. belamente leão de neméia. esmagar os pés de bronze do antropóide. acomodá-lo nas entranhas dilaceradas da corça. voar... dentro da cabeça da égua alada. um destino no bico da ave antropófaga. as larvas mentais. do caos os miolos da sombra. sugar o monstro antropocêntrico dum poeta. mas o touro lança a chama violeta pelas narinas num umbigo. lírico.

Adriana Zapparoli
Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio

INSÓNIA

Madrid é uma cidade de mais de um milhar de cadáveres (segundo as últimas estatísticas).
Às vezes na noite dou voltas e soergo-me neste buraco em que há quarenta e cinco anos apodreço,
e passo longas horas ouvindo gemer o furacão, ou ladrar os cães, ou fluir brandamente o luar.
E passo longas horas gemendo como o furacão, ladrando como o cão enfurecido, fluindo como o leite do úbere quente de uma enorme vaca amarela.
E passo longas horas perguntando a Deus, perguntando-lhe por que apodrece lentamente minha alma,
porquê apodrecem mais de um milhão de cadáveres nesta cidade de Madrid,
porquê milhões de cadáveres apodrecem no mundo.
Diz-me: que horto queres adubar com a nossa podridão?
Receias que sequem para ti as grandes roseiras do dia,
as tristes açucenas letais de tuas noites?

Dâmaso Alonso
in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
Tradução de José Bento
Assírio & Alvim, 1985


Oferecido por Rui Almeida.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

COMO ME TRANSFORMEI EM CÃO

É ainda assim completamente insuportável!
Estou rabugento como tudo.
A minha rabugice não é conforme poderia ser a vossa:
apanharia qual um cão o rosto de testa lisa
da lua
e cobrindo-a de latidos.

Deve ser dos nervos…
Vou sair,
dar uma volta.
Mas na rua ninguém consegue acalmar-me.
Uma mulher grita-me qualquer coisa a propósito de uma boa tarde.
Há que responder:
eu conheço-a.
Quero fazê-lo,
mas sinto
que é impossível à maneira dos homens.

Que escândalo!
Estarei a dormir?
Apalpo-me:
sou tal como era,
o rosto a que estou habituado.
Toco no lábio,
por baixo desponta
um canino.

Escondo rapidamente a cara, como para me assoar,
corri para casa dobrando o passo.
Contorno prudente a esquadra mas de repente um grito ensurdecedor:
«Ó da guarda!
Ele tem uma cauda!»

Passei a mão e fiquei hirto!
Isto era mais claro
que todos os caninos,
na minha pressa furiosa não tinha reparado
que sob o casaco
uma enorme cauda tinha estendido o seu leque
e abanava atrás de mim,
uma enorme cauda de cão.

Que irá acontecer?
Um pôs-se a berrar, amotinando a multidão,
ao segundo juntou-se um terceiro, depois um quarto.
Derrubaram uma pobre velha
que benzendo-se gritou qualquer coisa a propósito do diabo.
E quando, a cara eriçada pelas vassouras de enormes bigodes
a multidão se aproximou,
imensa,
maldosa,
eu pus-me a quatro patas
e ladrei:
Au! Au! Au!

Vladimir Maiakovski, in "33 Poesias" quasi, 2008
trad. Adolfo Luxúria Canibal

Via O Café dos Loucos

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Insónia

O homem vigia.
Dentro dele, estumados,
uivam os cães da memória.
Aquela noite, o luar
e o vento no cipó-prata e ele,
o medo a cavalo nele,
ele a cavalo em fuga
das folhas do cipó-prata.
A mãe no fogão cantando,
os zangões, a poeira, o ar anímico.
Ladra seu sonho insone,
em saudade, vinagre e doçura.

Adélia Prado
Bagagem
1976

Oferecido por Rui Almeida.

A VIDA É UMA FADA

há quem tenha
uma cadela
eu não tenho
uma gata.
a cadela
leva-me lá fora
a gata
anda lá fora.
a cadela
anda-se com ela.
por isso prefiro
não ter uma gata
a ter uma cadela.

embora na desgraça
esta gata é de raça.
se eu pudesse tinha-a
mas não pára em casa.
e se a tivesse passava
a vida como quem tem
uma cadela cinderela:
a gata, que é dela?
não era bom para mim
e era mau para ela.

antes da meia noite
já está com a cadela.
chamam-lhe borralheira
porque nunca mantém
em segredo a fada.
os cavalos são mesmo ratos
a varinha não é de marca
e a carruagem é uma abóbora.
apesar de tudo é uma gata
fala francês com a cadela
e não toca piano
mas escreve à máquina.

ora porque me inquieta
a gata que não é minha?
é que não quero saber da cadela da vizinha!
a borralheira, essa
comunista na miséria
comodista na fartura
é muito meiga e neutra.
à noite pousa a pata
no meu ombro e ladra
o estupor da gata.

Joaquim Castro Caldas
Convém Avisar os Ingleses
Quasi, 2002

Oferecido por
Rui Almeida.

Ladrar em vão

Uma manhã vazia, com certeza domingo.
Um cão a ladrar disparates
para casas estranhas, mas com certeza
não tão bem, tão caninamente como devia,
porque ninguém vem espreitar à janela,
ninguém lhe grita furioso: «Cala-te»

Judith Herzberg, O que resta do dia, 2008.

Oferecido por manuel a. domingos.

adeus

adeus Hemingway adeus Céline (morrestes no mesmo dia)
adeus Saroyan adeus meu bom Henry Miller adeusTennessee
Williams adeus cães mortos nas auto-estradas adeus todo o
amor que nunca foi adeus Ezra é triste é sempre triste quando
alguém dá e depois alguém tira eu compreendo
eu compreendo e dou-te o meu carro e o meu isqueiro
e o meu cálice de prata e o telhado que afasta
a maior parte da chuva adeus Hemigway adeus Céline adeus
Saroyan adeus meu bom Henry Miller adeus Camus adeus Gorky
adeus equilibrista que cais enquanto rostos sem expressão
olham para cima depois para baixo e depois afastam a cara
zanguem-se com o sol, disse Jeffers, adeus Jeffers, eu só posso pensar
que a morte de gente boa e de gente má é igualmente triste
adeus D.H. Lawrence adeus à raposa dos meus sonhos e
ao telefone
foi mais difícil do que esperava
adeus Two Ton Tony adeus Flying Circus
fizeram o suficiente adeus Tennessee minha bicha alcoólica
esta noite estou a beber uma garrafa a mais de vinho
à tua saúde.

Charles Bukowski, War All the Time, 1984.
versão de
manuel a. domingos

quinta-feira, 27 de março de 2008

XXXII

Um cão vadio vagabundeia.
Que há-de fazer um cão vadio?
Traz algum osso na ideia?
Rói-o o estômago vazio?
Onde irá ele achar um osso?
Do osso à ideia é um fio.
Da ideia ao osso há um fosso.

Armindo Rodrigues
Lisboa Próxima e Distante (in Obra Poética VI)
1972

Oferecido por
Rui Almeida.

CÃOLIMERO


quarta-feira, 26 de março de 2008

Cãozinho

Vi um pincher num parque
que não queria parar de tremelicar
ou talvez quisesse mas não pudesse
ou talvez pudesse mas não soubesse
que fazer senão tremelicar.

Judith Herzberg
O que resta do dia
2008

Oferecido por manuel a. domingos.

terça-feira, 25 de março de 2008

CLEMENT NÉMIROVSKY

Numa certa tarde de Inverno, encontrava-se em sua casa a beber chá, na mais doce e aprazível das salas de estar, sob a luz amigável de uma janela, comodamente sentado à lareira, na companhia do seu fiel perdigueiro, Clement Némirovsky. Encontrava-se o nosso bom homem, dizíamos, nestas benignas circunstâncias, quando sucedeu o mais infeliz, o mais inoportuno, o mais cruel, o mais despropositado e o mais desagradável dos acidentes.
De facto, o traiçoeiro destino não podia ter imaginado nada mais impertinente, mais aborrecido, mais indigesto e mais destrutivo da paz doméstica e do bom humor de Némirovsky. Num segundo apenas, o seu rosto foi passando de espavorido para atemorizado, de atemorizado para varado, de varado para embranquecido*, de embranquecido para outra coisa qualquer que não sou capaz de descrever, e dessa outra coisa qualquer para outra ainda mais espantosa.
O cão, vendo o dono em tal estado de sobressalto, pediu-lhe para que se acalmasse, invocando os efeitos negativos que a situação podia representar para a sua saúde. E não tendo obtido qualquer sinal de melhoria, sentiu-se na obrigação de aplicar duas fortes bofetadas na cara do dono, de maneira a despertá-lo daquele sufoco consternado em que se encontrava.
Ora, muito me agradaria poder dizer que o par de bofetadas surtiu o efeito desejado. Mas infelizmente a situação era de facto desesperada e o cão não só não foi bem sucedido, como ainda teve que levar a cabo outras tentativas, tais como despejar uma garrafa de rum pelas goelas do dono e dar-lhe trinta e três palmadinhas nas costas.
Bom, voltando ao início, e para não manter mais tempo a expectativa do leitor a respeito do acontecimento que deixou Némirovsky subitamente sem fala, branco, aterrado, amedrontado, horrorizado, varado, atónito, perplexo, assustado e, no mínimo, banzado, devo dizer que tanto por consideração pela sensibilidade do leitor como por se tratar de algo profundamente desagradável para a harmonia das coisas, prefiro não escrever mais nada.
* É preciso observar que o rosto de Clement Némirovsky era já de si dos mais pálidos.

Rui Manuel Amaral
Caravana
Angelus Novus
2008

quarta-feira, 19 de março de 2008

A famosa rã saltadora

(excerto)

Smiley também tinha um bull-dog, olhava-se para ele e parecia não valer meio tostão furado. Banalíssimo. Dir-se-ia só servir para andar por aí, à coca para roubar o que pudesse. Mas mal se apostava nele, o cão ficava logo outro. A queixada esticava como a proa de um navio, os dentes brilhavam como navalhas nuas. O outro cão poderia morder-lhe, desafiá-lo, persegui-lo, atirá-lo ao ar duas vezes ou três que Andrew Jackson – era o nome do animal – não se importava. Até ficava contente, como se não quisesse outra coisa. Na maior.
Então é que as apostas subiam em flecha, duplicavam, triplicavam, quadruplicavam.
E de repente o cão ia-se ao outro, filava-lhe uma pata traseira e não a largava nem por nada. Quer dizer, ele não dava dentadas, não senhor. Limitava-se a abocanhar o rival e ficaria assim um ano se fosse preciso, até o outro se dar por vencido.
Smiley nunca perdeu dinheiro com o Andrew, até ao dia em que lhe apareceu pela frente um cão sem patas de trás, tinham-lhas cortado com uma serra circular. Depois dos preparativos do costume e das apostas todas feitas, Andrew Jackson preparou-se para filar o seu naco favorito do adversário. Só então percebeu que o tinham aldrabado, que o outro cão se estava positivamente a rir dele. Ficou meio apalermado, de goela aberta, nem queria acreditar. Baixou, por assim dizer, os ombros. Desistiu de lutar. Limitava-se a olhar para o dono, como que a dizer-lhe ter ficado com o coração em fanicos e que a culpa era toda de Smiley por não haver topado que ao inimigo faltavam as patas traseiras, no fundo o melhor trunfo de Andrew Jackson em qualquer combate.
Ainda deu uns passos, a coxear, e depois deitou-se e morreu. Um bom cão, aquele cão. Se tem aguentado, acabaria por ser famoso. Tinha qualidades para isso. Há que reconhecer-lhe uma boa dose de génio e, embora traído pelas circunstâncias, é absurdo não admitir que um cão tem que ter um talento muito especial para brigar daquela maneira.
Sinto-me sempre triste quando penso nesse último combate e na forma como aquilo acabou.

Mark Twain
A famosa rã saltadora
Tradução de João Alfacinha da Silva
Fenda, 1999

Oferecido por Rui Almeida.

sexta-feira, 14 de março de 2008

CHABLIS

A minha mulher quer um cão. Ela já tem uma criança. A criança tem quase dois anos. A minha mulher diz que a criança quer um cão.
A minha mulher está há muito tempo à espera de um cão. Tive de ser eu a dizer-lhe que ela não o poderia ter. Mas agora a criança quer um cão, diz a minha mulher. Isto até pode ser verdade. A criança é muito chegada à minha mulher. Andam juntas o tempo todo, agarram-se, apertam-se com força. Eu pergunto à criança, que é uma rapariga, “És a menina de quem? És a menina do papá?” A Criança diz, “mamã”, e não se fica por aí, di-lo repetidamente, “mamã, mamã, mamã.” Eu não vejo por que razão hei-de comprar um cão de cem dólares para o raio daquela criança.
A raça de cão que a criança quer, diz a minha mulher, é um Cairn Terrier. Esta raça de cão, diz a minha mulher, é Presbiteriana tal como ela e a criança. No ano passado a criança era Baptista – ou seja, ela frequentou o programa inteiro para mães da Igreja Baptista, duas vezes por semana. Este ano é Presbiteriana porque os Presbiterianos têm mais baloiços e escorregões, e outras coisas assim. Eu acho isso uma enorme falta de vergonha e disse-lho. A minha mulher foi uma Presbiteriana legítima durante toda a vida e diz que isso a autoriza a agir assim; quando era uma criança ela costumava frequentar a Igreja Presbiteriana em Evannsville, Illinois. Eu não ia à igreja porque eu era uma ovelha negra. Havia cinco filhos na minha família e, entre nós homens, íamos fazendo girar o estatuto de ovelha negra, o mais velho seria a ovelha negra durante uns tempos, enquanto passava pelo seu período de embriaguez ou o que quer que fosse, e só depois, à medida que ia envelhecendo, e tendo talvez arranjando um emprego ou estando até cumprir serviço militar, tornava-se finalmente numa ovelha branca quando cassasse e tivesse um neto. A minha irmã nunca foi uma ovelha negra porque era uma rapariga.
A nossa criança é uma criança encantadora. Durante anos disse à minha mulher que ela jamais poderia ter uma criança porque isso seria muito caro. Mas elas derrotam-nos sempre por exaustão. Elas são bastante boas a derrotar-nos por exaustão, mesmo que isso possa demorar anos, como foi o caso. Agora ando com a criança ao colo e abraço-a sempre que posso. O nome dela é Joanna. Ela veste um macacão da Oshkosh e diz “não”, “biberão”, “fora” e “mamã”. Ela é a coisa mais adorável quando está molhada, quando acaba de tomar banho e o seu cabelo louro está encharcado, embrulhada numa toalha bege. Por vezes quando está a ver televisão ela esquece-se por completo que também estamos lá. Podemos ficar só a olhar para ela. Quando ela está a ver televisão parece muda. Gosto mais dela quando está molhada.
Esta coisa do cão está a transformar-se na grande questão. Eu disse à minha mulher, “Bom, já tiveste a criança, precisaremos também agora do diabo de um cão?”. O cão irá provavelmente morder alguém ou até perder-se. Já me estou a ver a percorrer o nosso bairro inteiro a perguntar às pessoas, “Por acaso viu este cão castanho?” “Como se chama o cão?”, irão todos perguntar, e eu fitá-los-ei com toda frieza e direi, “Michael” É assim que ela o quer chamar, Michael. É um nome estúpido para um cão e lá terei de procurar por esse cão, possivelmente raivoso, e perguntar às pessoas, “Por acaso viu este cão castanho? Michael?” É o suficiente para nos pormos a pensar em divórcio.
O que é que a criança poderá fazer com o cão que não o possa fazer comigo? Brincar livre e desenfreadamente? Eu consigo fazê-lo. Levei-a ao parque infantil da escola. Era domingo, o local estava deserto, e brincámos de uma forma livre e desenfreada. Eu corri, e ela cambaleou atrás de mim a um bom ritmo. Eu amparava-a sempre que deslizava no escorregão. Ela percorreu todo o caminho interior de um tubo de cimento que existia no parque. Ela apanhou uma pena e ficou horas a contemplá-la. Eu estava preocupado que aquela fosse uma pena contaminada mas ela não a meteu à boca. Depois corremos ainda mais pelo campo pelado e abrasivo de softball e através das arcadas que ligam as salas de aula de madeira temporárias, que estão a perder a sua pintura amarela, ao edifício principal. Num destes dias, a Joanna irá frequentar esta escola, e isto se eu permanecer no mesmo emprego.
Fui ver alguns cães no Pets-A-Plenty, que tem pássaros, roedores, répteis e cães, todos em óptima condição. Eles mostraram-me os Cairn Terriers. “Eles têm os seus livros de orações?”, perguntei. A funcionária não entendia o que é que eu estava para ali a dizer. Os Cairn Terriers poderiam rondar os 295 cada, com papéis. Eu comecei por perguntar se por acaso eles não teriam algum filho ilegítimo a preços mais baixos, mas pude ver que isso seria inútil, e cheguei mesmo à conclusão de que a mulher já não ia com a minha cara.
Mas, o que é que há de errado comigo? Porque é que eu não sou uma pessoa mais natural, tal como a minha mulher pretende que o seja? Eu permaneço acordado, desde manhã cedo, postado à minha secretária que está no segundo piso da casa. A secretária está de frente para a rua. Às cinco e meia da manhã, os corredores já estão lá fora, individualmente ou em pares, a correr por uma saúde de ferro. Eu estou a beberricar um copo de Chablis Gallo com uma pedra de gelo, a fumar, a preocupar-me. Preocupo-me com a possibilidade de a criança cravar uma faca de cozinha numa tomada eléctrica enquanto estiver molhada. Apliquei aquelas pequenas fichas de protecção de plástico em todas as tomadas, mas ela aprendeu a retirá-las. Já verifiquei os lápis de cera. Mas eles fizeram-nos de forma a tornar a sua ingestão inofensiva – eu telefonei para sede na Pennsylvania. Ela pode comer uma caixa inteira de lápis de cera que nada lhe acontece. Se eu não comprar os novos pneus para o meu carro, posso comprar o cão.
Lembro-me do tempo, há cerca de trinta anos, quando, na estrada de Beaumont, atirei com o Buick da mãe do Herman para um campo de milho. Havia outro carro que seguia na minha faixa, não bati nele e ele também não me bateu. Lembro-me de guinar o carro para a direita, seguindo para baixo para a valeta, atravessando a vedação, detendo-me apenas no campo de milho e saí do carro para acordar o Herman para ambos verificarmos como tinham ficado os felizes bêbados do outro carro, na valeta do outro lado da estrada. Isso aconteceu quando eu era uma ovelha negra, anos e anos atrás. Aquilo foi realizado com toda a destreza, penso eu. Levanto-me, felicito-me pela memória e vou lá dentro para dar uma espreitadela à criança.

Donald Bartheleme, Forty Stories, “Chablis”. New York: G.P. Putnam’s Sons, 1st edition, 1987, 256 pp. [tradução: AMC, Março/2008]
(Este conto foi originalmente publicado na revista The New Yorker, de 12 de Dezembro de 1983, p. 49 [Vol. 59 Issue 43])

Tradução de André Moura e Cunha.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O MANUAL DAS MÃOS (fragmento)

Deverei ter adormecido, deduzo, enquanto revisito, pelas janelas, o movimento da rua lá em baixo. Há gente que lembro sobre elas, velhas fotografias amarelecidas que vivem ordenadas na memória, e o sol, outra vez, riscando o soalho e acendendo o chão sobre o qual estou de pé e estático, ouvindo gargalhadas e choros de crianças que em algum lugar em mim as conheci. São os meus filhos brincando na nudez infantil da sua beleza, as harpas que as suas mãos vão soltando para que as toque ou cante a relva que de dentro da casa é verde e eu diviso.
Meu Deus, como é boa esta visão profunda e sentida, as cores com que a construo e respiro, o assobiar levitante dos pássaros rasando-me os pés como se me quisessem erguido acima do equilíbrio e da sóbria gravidade.
O cão que nunca tive, tenho-o agora e vem correndo ao meu encontro com a alegria canina balanceando-lhe a cauda. Nem nome tem para mim e ele próprio o desconhece. Também para que serve um nome se a gente ama e respeita, para que serve essa identificação se a amizade, aqui, tem a precisão olfactiva da lealdade?
Ergo-o para o colo, para uma ternura profunda a ladrar-me o coração e o cão agita-se em sua bondade, quase fala, quase grita, quase beija a compreensão que ele entende ver em minhas mãos afagando-o. Ponho-o sobre o chão e vejo-o partir como uma gazela soltando o perfume da mestria e da graciosidade.
Parte rumo às crianças ou, então, para a ideia que tenho delas. Por isso acendo-me nas luzes que ardo dentro, na clareza juvenil do sangue a trabalhar nas veias todas, no coração que o filtra, o purifica, o devolve à vida da respiração. E a música vem surpreender-me, sentado na mesa, alvo e puro como uma canção e entrando, definitivamente, pela casa dentro.
Eduardo White
O Manual das Mãos
Campo das Letras
2004
Oferecido por José Eduardo Lopes.

AGORA O VERÃO PASSADO (fragmento)

No passado verão agora tantamente tão passado
verão coisa que na verdade vocês verão
leitores meus autores que verdade verdadinha não existe
no passado verão se o estive estive aqui
Que não sabia então que a solidão
das plantas no Inverno a solidão
do cão de francis bacon foragido
a solidão do cão de francis bacon
num quadrado encerrado e mesmo até geometrizado
acossado talvez pela delimitada dimensão
dum quadro exposto no museu de arte moderna
em nova york e visto agora numa má reprodução
na casa sobre o mar do meu amigo joão miguel
a companhia só possível fora dessa implacável simetria da
pintura que na vida tem cruel caricatura
desse cão fustigado a farejar a fuga
desta diária saga que nos suga
cão de antemão sozinho e só senhor da solidão
que não sabia então que a solidão
que a chuva a solidão a solidão a chuva
cheia na uva mas vazia ou só cheia de vazio aqui
que o não sabia sei-o eu sentado aqui agora
sentado aqui aonde vi senti perto de mim
a jacqueline que distante agora mais queria aqui
que quando no verão cegávamos os olhos do limão
no fundo desses copos desse péssimo gin tónico
ó meu amigo cão mais só que as devastadas plantas
mais acossado mesmo que os cuidados cactos
limitados capados nos regados vasos
cão que tens por contorno a companhia
que tens precisamente fora quanto dentro tanta falta te fazia
ó meu amigo cão dás-me tu pelo menos
a mim que não sei bem como sair de tudo isto
melhor que coisa alguma a tua mão?

Ruy Belo
Toda a Terra
1976

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O INSTINTO

O homem velho, desenganado de tudo,
da soleira da porta, sob o sol cálido,
observa o cão e a cadela a satisfazerem o instinto.

Sobre a sua boca desdentada perseguem-se as moscas.
A sua mulher há muito que morreu. Também ela,
como todas as cadelas, não queria saber disso,
mas não lhe faltava o instinto. O homem velho cheirava o ar
- ainda tinha dentes -, a noite vinha,
metiam-se na cama. Era bonito o instinto.

O que agrada no cão é a grande liberdade.
De manhã à noite vagueia pela rua;
e ora come, ora dorme, ora monta as cadelas:
não espera sequer pela noite. Raciocina
com o faro, e os cheiros que sente são seus.

O homem velho recorda-se de uma vez
em que o fez como os cães, de dia, no meio duma seara.
Já não sabe com que cadela, mas lembra-se do grande sol
e do suor e da vontade de nunca mais acabar.
Era como numa cama. Se os anos voltassem,
gostaria de o fazer sempre no meio duma seara.

Desce a rua uma mulher e pára a olhar;
o padre passa e volta-se. Na praça pública
pode-se fazer tudo. E até a mulher,
que tem pudor em voltar-se para o homem, pára.
Só um rapaz não tolera o jogo
e faz chover pedras. O homem velho indigna-se.

Cesare Pavese
Trabalhar Cansa
Trad. Carlos Leite
Cotovia

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

THE POGUES


Here a Tower Shinning Bright

Once stood gleaming in the night
Where now there's just the rubble
In the hole here the paddies and the frogs
Came to gamble on the dogs
Came to gamble on the dogs not long ago

Oh the torn up ticket stubs
From a hundred thousand mugs
Now washed away with dead dreams in the rain
And the car-parks going up
And they're pulling down the pubs
And it's just another bloody rainy day

Oh sweet city of my dreams
Of speed and skill and schemes
Like atlantis you just disappeared from view
And the hare upon the wire
Has been burnt upon your pyre
Like the black dog that once raced
Out from trap two

sábado, 26 de janeiro de 2008


Rachel Howard, Black Dog

A FAMÍLIA QUE NUNCA EXISTIU (fragmento)

A Lady era uma cadela tão bonita. Nunca houve outra como a Lady. Nunca vi uma cadela como a Lady. Foi tão bonita até aos seus últimos três meses de vida, quando começou a cagar e a peidar-se pela casa toda. Tivemos de mandar fora os tapetes, alguma mobília, havia daquilo pela casa toda. Na verdade, cedemos-lhe mesmo a casa toda por gostarmos tanto dela. Não havia cão que protegesse a família como ela. Guardava as tampas do caixote do lixo. E que mãe! Nunca vi mãe melhor do que a Lady. Aquela cadela era melhor mãe do que a maior parte das mulheres.
Lembram-se quando a Lady teve cachorrinhos e eles nasceram todos mortos? Nunca conseguimos tirar-lhos porque ela era a Lady. Escondeu-os então pela casa - atrás do frigorífico, atrás do radiador, debaixo da alcatifa. Foi numa altura em que tivemos de ir de férias porque o Steve só tinha duas semanas de folga, e quando regressámos toda a casa cheirava a ANIMAIS MORTOS! Nós adorávamos aquela cadela. Adorávamos a cadela. Era a Lady. Era a Lady.

(...)

A minha cadela foi treinada para não ter medo da dor. O cancro avançou-lhe pelos intestinos até o traseiro ficar negro de sangue. Disse-me uma amiga que tinha sido eu a causar-lhe o cancro, que matara a minha própria cadela por não a amar o suficiente, por não a alimentar o suficiente, ou por deixá-la sozinha demasiado tempo. Não é para isto que servem os amigos? Para pensamentos amáveis podemos contar sempre com os nossos bem-amados.

Karen Finley
Tratamento de Choque
Trad. Jorge P. Pires
Frenesi, 2003

COMO UM CÃO

Ao canto da sala sentei-me
para esconder um desgosto.

Como um cão espancado pelo dono,
procurava a solidão.


João Camilo
Nunca Mais se Apagam as Imagens
Fenda, 1996

CÃO GRANDE E FUSCO

O gado desapareceu do monte. De noite, doninha de enigmas obscuros, vieram procurá-lo. Traziam varas de marmeleiro, lanternas, um cão grande e fusco. Ninguém avistara o gado. Malvadeza, as vacas tinham chocalho! Um dos homens segurava nas mãos um ouriço-cacheiro. Vale alguma coisa? Não, não presta. Ele pousou-o no chão, quando se previa outro desfecho: esborrachar o bicho contra o muro. Fomos ao posto da Guarda, ninguém nos atendeu. Estão a dormir, toquem na campainha. Assim foi: premiram o botão que acorda a autoridade. Que se passa? Não tendes relógio! Os homens contaram a história do gado desaparecido. Sim, malvadeza, senhor guarda. Um momento, disse o agente. Recolheu a cabeça, fechou a janela; desceu as escadas e, de chofre, mandou identificar o dono do cão grande e fusco. Multou-o. O bicho andava sem açaime. Os homens trocaram olhares, acenderam cigarros.

Francisco Duarte Mangas
O Homem do Saco de Cabedal
Campo das Letras, 2000

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

UM CÃO NA TERRA

Agora que tudo arde, o mundo todo
e as suas dúvidas, aí deitado entre cuidados
hospitalares e os sorrisos de quem te amou,
percebes que partir é transitivo, anónimo,
solitário, fica-se com alma de cão.

Não queres sofrer com quatro patas,
pedes que a viagem seja rápida, como
naquele verão em que
chegavas sempre mais cedo a todo o lado.

Não me lembro de muita coisa, agora
que te vejo entregue ao fim – nunca tiveste
um fim na vida, uma ideia, um relâmpago
que te lançasse no infinito.
Os relâmpagos sempre te caíram ao lado.

E vai. Talvez deixes muitas
saudades, coisa pouca, alegrias tristes,
o que deixa um miserável cão na terra –
um derradeiro latido de espanto.


Fernando Luís Sampaio
Falsa Partida
Assírio & Alvim, 2005

O CÃO

(El gos)

Talvez, sim, esteja velho,
velho e covarde
como um cão de casa rica.
Às vezes tenho pena de mim.
Quando vou pela cidade,
cheia de carros de tanta cor,
com gente jovem, alta e decidida
- as raparigas com os grandes penteados
e os olhos pintados -,
vejo-me tão pequeno e vacilante,
que tenho pena de mim
e dá-me para rir.

Não sei se lhes passa o mesmo.
A ti, que lês o jornal,
heróico e solitário,
não sei se te aconteceu
sentires-te tão covarde
como um cão abandonado
que mexe o rabo
porque tem medo
e quer causar compaixão.

Às vezes tenho pena de mim.
Quando vejo que lambo os pratos
e os ossos,
quando engraxo o cão potente,
quando sorrio à juventude
porque é juventude,
e aos velhos
porque são eles,
tenho pena de mim
e dá-me vontade de rir.


Joan Vergés
in Antologia da Novíssima Poesia Catalã
tradução de Manuel de Seabra
1974

Oferecido por Rui Almeida.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

XIX

Repugnam-me certos sons, mas o mais odioso
É para mim o ladrar dos cães, o seu ganir atormenta-me os ouvidos.
Só um cão oiço muitas vezes com feliz agrado
Ladrar e ganir, o cão que o vizinho criou.
Pois uma vez ladrou à minha rapariga, que à socapa
Veio ao meu encontro, e quase revelou o nosso segredo.
Agora, mal o oiço ladrar, logo penso que é ela que aí vem,
Ou recordo os tempos em que a esperada vinha.


Goethe
Erotica romana
tradução de Manuel Malzbender
Cavalo de Ferro, 2005

COMO SE FOSSE DIA

Um fingimento muito belo, fingir que nada sei
Que tudo é indiferente, coração de moer
Mágoa já muito morrinha
E outros tremeliques.

Tudo se resolve então desta maneira:
Duas lagartixas a deslizar pelos mistérios
Um cão a ladrar tão ao longe como se fosse dia.


Carlos Bessa
Em Trânsito
&etc, 2003

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Vi um cão todo nu
que olhando-me de esguelha
agarrou um osso da rua
e a correr foi-se meter
debaixo da escada


Miquel Bauçã
in Antologia da Novíssima Poesia Catalã
tradução de Manuel de Seabra
1974


Oferecido por Rui Almeida.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

atiçam os cães que
lhes rosnam dentro do
peito, os que lutam
alimentados nos poços da
alma numa
euforia velada e frustram, porque
aninhadas perante os
homens, violadas pela incapacidade
de rasgarem a carne com esses
focinhos e
tentam


valter hugo mãe
a cobrição das filhas
Quasi, 2002

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O REGRESSO

À meia-noite regressei de barco
De lá para cá.
Havia luar toda a terra
Jazia como no tempo da peste.

Em sonhos um cão vadio
Uivava ainda ao vento
E embora nada me preocupasse
Isso apertava-me o coração.

Sarah Kirsch
Trad. Maria Teresa Dias Furtado
Hífen, 7

OBRAS DE CARIDADE

vigiar os polícias
ensinar os professores
confessar os padres
burlar os juristas
abater os talhantes
sangrar os médicos
condenar os juízes
difamar os críticos
morder os cães
comprar as batatas aos lavradores

Alberto Pimenta
Hífen, 7

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

8.

Somente esse cão velho aquece
o corpo moribundo no cimento
e no arco do braço sem alento
faz a cama o animal que tece

na rua a imagem doutro fim.
Desolação exposta vem da face
e de quanto sinal informe trace
o quadro de tal termo; e assim

a noite é comum e é real.
Nem patas nem focinho estremecem
na carne que abeiram - quando dobra

a febre o seu trânsito fatal.
E as mãos alongadas já não descem
lívidas, pela cidade que sobra.

Diogo Alcoforado
Pobres
Afrontamento, 2004


Oferecido por Rui Almeida.

Os chamados disparates da Índia (excerto)

Achareis rafeiro velho,
Que se quer vender por galgo;
Diz que o dinheiro é fidalgo,
Que o sangue todo é vermelho.
Se ele mais alto o dissera,
Este pelote pusera:
Que seu eco lhe responda,
Que su padre era de Ronda,
Y su madre de Antequera
,
E «quer cobrir o céu com a joeira».

Luís de Camões
Fixação do texto de Hernâni Cidade


Oferecido por Rui Almeida.
Enquanto os cães ladravam um ladrar
ralo de sono
que não chegou para acordar os donos
na noite doutros sonhos sem luar
e sem retorno
também cruzei por mim sem me chamar.

Helder Macedo
Viagem de Inverno
Presença, 1994


Oferecido por Rui Almeida.

SINFONIA PARA UMA NOITE E ALGUNS CÃES

De noite, um cão começa a ladrar; e,
atrás dele, todos os cães da noite
se põem a ladrar. Depois, o primeiro
cão cala-se. Pouco a pouco, os outros
também se calam, até que o silêncio
se instala, como antes de o primeiro
cão ter ladrado. De noite, não é
possível saber por que é que um cão ladra,
se o não estamos a ver. Talvez porque
alguém tenha passado por trás de um
muro; talvez por causa de um gato (essas
sombras que se esgueiram pelas portas).
Não é preciso encontrar razões concretas
para justificar a noite de todos os
cães; mas é verdade que um cão, quando
ladra, e acorda os outros cães, acorda
a própria noite, os seus fantasmas, e
obriga-nos a olhar, pela janela, o que
não se pode ver, isto é, o centro da
noite, o negro motor do mundo.


Nuno Júdice
Teoria geral do sentimento
1999


Oferecido por Rui Almeida.

MANHÃ

Um copo de névoa ao pequeno-almoço;
um rumor de vento com o pão;
um muro por detrás do ladrar do cão.


Nuno Júdice
O movimento do mundo
1996

Oferecido por Rui Almeida.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

sábado, 12 de janeiro de 2008

O UIVADOR

Tinham-me dito p'ra não passar pelo carreiro de Brigg's Hill,
Que em tempos tinha sido a estrada até Zoar,
Uma vez que Goody Watkins, enforcado em mil setecentos e quatro,
Deixara por ali certo vestígio monstruoso.

Mas quando desobedeci e tive à vista
A casa envolta em hera ao pé da grande escarpa,
Não pensei nem em olmos nem em cordas de cânhamo,
Antes me perguntei porque parecia ela inda tão nova.

Parara um pouco a contemplar o declinar do dia
E ouvia uns débeis uivos vindos de um quarto no alto,
Quando através das vidraças cobertas de trepadeiras
Um raio do pôr do sol colheu de surpresa o uivador.

Vislumbrei-o e freneticamente fugi daquele lugar
- e da coisa a quatro patas com uma face de homem.

H. P. Lovecraft
Os Fungos de Yuggoth
Trad. Nicolau Saião
Black Sun Editores
2002

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O que acontece no inverno na aldeia quando passam os cães do gado

I.

Aqui não há frio nem prados
nem o frio dos prados
vê-se simplesmente o buraco do arvoredo
por entre as falhas da lua
e os cães do gado afastam-se lentamente

dirigindo-se também eles ao sítio
onde uma luz crua ilumina duma vez o Inverno.

É assim o campo à noite
ninguém sabe se é campo, ninguém sabe se é noite

Porque nada se faz com a facilidade que pensamos
e as coisas aqui demoram como a pedra
e o sono dos lacraus.

Vê-se, isso sim, simplesmente o buraco do arvoredo
por entre as falhas da lua
e a luz primeira que veio por estes sítios

Se os cães do gado, mansos
e sabendo perfeitamente da pouca utilidade de dias assim tão
compridos
na eminência dos lobos,
se os cães do gado, dizia, assim se afastam
não é porque haja direcção
mas porque conhecem perfeitamente o movimento de rotação da
terra


II.

Afastam-se lentamente
pisando as folhas do Inverno anterior

E há falhas no arvoredo, prova inequívoca de que o céu existe.

Não há perdizes por aqui
já morreram da espera.
Impossibilitadas de cair de um tiro
despenharam-se elas mesmas conforme sabiam
indo cair exactamente aos pés das diversas falhas na folhagem.

Essa, a que deixa por entre si vir a lua.

É assim o inverno aqui
no lugar onde os cães se afastam por profissão

Não se sabe quando poderão parar
já que seguem através de uma marcha exterior ao que são.
Avançam lentamente
tendo talvez na ideia a ideia de um rebanho por ali.

E arrastam uma enorme cabeça de boi manso,
arrastam a cor e o cheiro
e pisam as folhas do inverno anterior.

Ainda persistirão,
parecem saber que têm de sair dali
embora, deslocando-se, não saiam do mesmo lugar.

É esse o abismo do tempo na aldeia


João Habitualmente, Os Animais Antigos, 2006.


Oferecido por manuel a. domingos.
O sol, como uma víbora
de fogo pelo ar
enrosca-se nas pedras,
sobre a casa, as vides, os caminhos,
e a terra morde-o
com os seus dentes cariados
como um cão raivoso.
E cega a saliva,
e exacerba as mortes,
e rouba suor terno
do corpo das crianças.
E cinge
com uma fita louca a metade
dos dias, o seu líquido
extermínio.
Sob a sombra
das figueiras passa
a brasa dos insectos. E até a água
toca o cio bestial das abelhas
e mosquitos gigantes
moribundos e loucos.
É verão e é julho, e na sua noite
por um poço desce a frescura da lua.
Por um poço de cigarras debilitadas,
afogada já a sua febre, devorada
a sua luxúria na sesta.

Juana Castro
Trad. Amadeu Baptista
Cadernos de Poesia Hífen N.º9

Os Cães do Tempo

O tempo tem mastins que erguem as vozes
hostis contra o rodar da carruagem,
o passo acomodando à abordagem,
por igual insolentes e ferozes.

Cerra ouvidos, podendo, por que gozes
dos solavancos a breve vantagem,
que muito cedo verás a viagem
tolhida de fracturas, anciloses.

E à tenaz, intrépida matilha
podes, querendo (ingénua armadilha),
lançar acaso um osso do farnel.

Deter-se-ão talvez; mas o antigo
olfacto lhes dirá que o inimigo
segue a bordo – e retomam o tropel.

A.M. Pires Cabral, Os Cavalos da Noite, 1982.

Oferecido por manuel a. domingos.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

HISTÓRIAS DE CÃES 2

O funeral da velha decorreu sem problemas
de maior, ou sobressaltos de última hora. Vivia
na solidão dos últimos resistentes, encerrando
uma anónima genealogia e por isso no rosto
dos vizinhos só um pesar de circunstância,
a caminho do cemitério. O leve trejeito de luto
como quem cumpre um dever sem gosto
nem zelo. Atrás de um parente remoto, encerrando
o féretro, só a velha cadela parecia sangrar
dos olhos, farejando, não o rastro da morte,
mas o quotidiano caldo perdido.

Fernando de Castro Branco
Plantas Hidropónicas

Oferecido por Alberto Silva.

HISTÓRIAS DE CÃES 4

Regresso aos velhos lugares. Quantas vezes
já repeti este verso? Persiste a decomposição
das casas. A resistência das pedras é menor
que a dureza dos olhos. Um cão vadio agasalha-se
dentro da noite. Treme. Dorme à superfície
do frio. Abre uma fissura nos olhos para me
recolher em sua intimidade, num instinto
fraternal de matilha. Entre um cão e um homem
há toda uma comunidade de gestos, troca-se
um mínimo necessário de calor para que o
frio permaneça suportável.

A noite é um lugar fértil, necessário a um cão
ou a um homem. Mesmo em tempos de crise,
haverá sempre restos que sobram.
De comida ou de amor.

Fernando de Castro Branco
Plantas Hidropónicas

Oferecido por Alberto Silva.

LAMENTO POR UM CÃO

No silêncio com que o mundo te envolve,
poderias sonhar com o tempo em que corrias,
mordendo a erva, dando voltas sobre ti próprio
como no dia em que nasceste. No entanto,
limitas-te a gemer; e ninguém sabe
a que mãos te entregas, nem que obscuro fim
adias com a tua ausência na vida.


Nuno Júdice
O movimento do mundo
1996


Oferecido por Rui Almeida.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

PRENDA DE NATAL #4


quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O CÃO DA TRIBO

E vieram as chuvas com as suas navalhas de
água,
onde perco a vida.
E,
da vida já distante, regresso à sua caudalosa
ruína, lambendo as feridas.
Seja pois, o cão da amaldiçoada tribo,
apagadas as fogueiras no sonho dos dançarinos.
Vagueio ao longo das tendas e é quase
inverno,
escasso o cereal.
Voltados para a iluminação,
os moribundos clamam pelas irmãs da
planície.
A minha cauda roça a constelação do meu
nome.
Aspiro um inconfundível odor.
O sangue tinge o rio lá em baixo, quando
te deitas sobre as dunas,
devagar,
cruelmente resignada.
A discórdia voltará aos lares.

José Agostinho Baptista
Paixão e Cinzas
1992

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

PRENDA DE NATAL #3


terça-feira, 11 de dezembro de 2007

AO MEU CÃO

Deixei-te só, à hora de morrer.
Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos
Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de aceitação
De tudo... e apesar disso, sem o pedir, tentando
Insinuar que eu ficasse perto,
Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão.

Não percebi a evidência de que ias morrer
E gostavas da minha companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado tudo à vida
E começavas a debater-te na maior angústia, a debater-te com a morte.
E deixei-te só, à beira da agonia, tão aflito, tão só e sossegado.

30-5-1966


Cristovam Pavia
O Tempo e o Modo
Outubro de 1966


Oferecido por Rui Almeida.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

PRENDA DE NATAL #2


domingo, 9 de dezembro de 2007

Mulher sem medo,
ela foi-se do degredo.
Lançou os cães atrás dela
o marido, que a cadela
há-de voltar queira ou não.
Já lhe ladra seu irmão,
abocanhando-lhe um pé,
uivam-lhe os pais pela fé
de quem governa este mundo:
que presa fique no fundo
do poço justo da lei,
ou enforcada no cume
do altar da grei.


Júlio Henriques
Modas & Bordados d'Alice Corinde
Fenda, 1995


Oferecido por Rui Almeida.

sábado, 8 de dezembro de 2007

PRENDA DE NATAL #1


sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Se me pedirem ponho-me de quatro
em duas, em uma
abano a cauda
dou voltas
faço de morta
salto por uma bolacha
lambo-te os pés.

Derreto-me toda quando me fazem festas na barriga.

Sou a cadela
que jamais alguém abandonou.


Miriam Reyes
Bela Adormecida
Tradução de Pedro sena-Lino
Cosmorama, 2006


Oferecido por Rui Almeida.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

UM CÃO LADROU NA NOITE

Um cão ladrou na noite. Uma lâmpada algures
brilhou no nevoeiro ou um comboio passava.
Todo esse ar, toda essa escuridão
encolerizada com o joio e os calmos canais.
E o que é que dói e que perdura?
Um comboio desventra as lonjuras negras,
ar frio, a nódoa de cinzas e de folhas
infecta a minha língua. Acordado antes de amanhecer.
Nem um rato. Nem um pássaro.
A noite passada dois violinos na rádio
como rios demais frios para os cisnes criarem.
Rios na Polónia e na Alemanha
deixaram odores no meu corpo e cabelo.
Perguntas: Haverá paz até ao Natal?
Seguimos viagem. O jardim
é incapaz de falar, capaz de falar.

Peter Levi
trad. Manuel de Seabra
Antologia da Poesia Britânica Contemporânea

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

PÁGINAS DE CASA

PORTUGAL VISITED - 1955 (excerto)

O dia foi simples. Dois amigos ingleses convidaram-nos a ir almoçar à Arrábida, tomar banho e passeio. Um deles era coronel reformado dos lanceiros da Índia, o outro era major do mesmo regimento, também reformado. O coronel passava férias em casa do major, tinha trazido o último modelo de uma máquina fotográfica, queria retratos dos aspectos mais pitorescos do nosso país.
Almoçámos no Gama, pai do querido Sebastião da Gama, que no Céu ainda deve poetizar com maior perfeição. Na Arrábida, o inglês coronel apenas tirou uma fotografia, ao grupo de nós quatro. Depois demos uma volta grande. Fizemos mais de 150 quilómetros adentro de um dia lindo para, ao fim e ao cabo, pararmos à porta de um canil de luxo onde uns setenta cães iguais e quase todos autênticos estavam amestrados pelo chicote de um outro inglês simpático e que não era coronel nem major.
O nosso coronel desabrochou, ficou doido com a canzoada toda, puxou a sua máquina fotográfica cheia de mimo e tirou o rolo a todos os cães e cadelas, isolados, sós, em grupos casais, divorciados, amantizados, cães amando outros cães, cães de cadela amando cadelas, fotografia de pormenores com teleobjectiva, com focinho, orelhas e rabo, panorâmica de todos estes matrimónios e bicharada, o coronel levava uma recordação curiosa, pitoresca, de Portugal. O nosso homem da Índia, lanceiro de outrora, reformado com pontualidade, tinha ganho o dia. Os cães estavam felizes, davam ao rabo, lambiam gemadas, caldos de burro, sentiam-se perfeitamente à vontade no refeitório do canil onde dois lacaios se esmeravam a prepararem bons petiscos para eles saborearem. O coronel tirou mais fotografias, agora interessava-o as paredes do refeitório, retratar minúcias que lhe tinham passado despercebidas na sua primeira tentativa de visão global. Depois, com as fêmeas para um lado, e os machos para outro, ele perfilou-se e fez continência de despedida. O major, dois passos atrás, olhava maravilhado para a cena, eu tentava assobiar quando fui repreendido, assustava a calma da canzoada. Em Salvaterra de Magos prestei meu tributo ao luxo de uns cães e à sensibilidade canina de dois reformados do exército de Sua Majestade Britânica.

Ruben A.
Páginas (VI)
1970

Oferecido por Rui Almeida.

CÃO EMIGRANTE

Vens de regresso ao corpo
vadio cão de memórias já sofridas

Em teu latir
lembrado esquecimento
nitidamente negra a cor de fáceis mãos

É de ternura agora e sempre
meu sangue de verso e de silêncio
de animal e verso a boca soma 2

Ò cão de ausência longe a mãe postal lido
humano irmão num grito de viagem

Aqui danado cão me dói
nua
a palavra


Urbino de San-Payo
Colóquio / Letras
Janeiro de 1980


Oferecido por Rui Almeida.
os mercadores de unguentos atravessam as paredes
pergunto em que acredito que memórias salvamos
arrombam as moradas esgrimem a blandícia
ameaçam com o inferno excluem-me estrangeiro
às vezes dou por nós submersos como um rio
devorado por suas próprias margens quem me
interdita o mundo? ignoro a porta e desço
sobre um lasso piano um lençol todo branco
e a música que resta sou eu como um navio
apontando ao destino o mistério da proa
ou lançando as suas luzes pálidas sobre
a pólvora dos astros que o oceano duplica
por aqui o camarote é individual um banco
um beliche um espelho um íntimo cardume
e a poalha das verrugas caligráficas que
vou ferindo na doce criptoméria oh dúctil
e mais que as outras benévola matéria
e vendo como se apressa digo como se atrasa
o rastilho do tempo rasgado a fogo e osso;
que onde amor gradeava a palavra
de enxames inocentes
ruge agora a mandíbula que ladra
com imensos dentes
cão até setembro
tenta escrever e não podes saber como se pode
contra o postigo o que digo
o osso exposto tão montanhoso tão
latido e entalado alimento de cão


28-6-89


José Sebag
Cão até Setembro
Instituto Açoriano de Cultura e Câmara Municipal da Horta, 1991


Oferecido por Rui Almeida.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O MEDO

Um cão ladra a tua ausência,
acende o medo, morde
E vem de Maio o cheiro
E vem da morte...
A casa está ali entre ruínas
podem as tuas mãos erguê-la
podem teus olhos acender o fogo...

Mário Contumélias
O Ofício das Coisas
1986

NA RODA DA ETAPA

(na morte de Joaquim Agostinho)

Vestiste a amarela
e foste à vida
mas veio o cão
roer-te a roda da etapa.
Vestiste a amarela
e foste
(vê lá tu!)
à morte
que a amarela
era tua por direito,
já se colava ao corpo,
já era a pele, a outra.
O cão ladrou-te à roda
como se a tua cabeça
fosse a bicicleta
como se aqui
não fosse Portugal...
Por isso vestiste a amarela
e foste à morte
ganha a etapa última
com a gente, o povo
a vitoriar-te pelo caminho.
Difícil, campeão,
é entender porque havia tantos que choravam.

Mário Contumélias
O Ofício das Coisas
1986

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Os meus fantasmas

Uma caneta que não escreve
no momento que o poema
aperta

Cães a ladrar
para espantar a noite
que aperta contra
o poema que a caneta
não escreve

na noite
onde cães ladram
para espantar a caneta
que não escreve
o poema

que aperta
que me aperta

E a caneta que não escreve
e os cães a ladrar para espantar a noite
para espantar a caneta
que mesmo assim
não escreve o poema
que aperta

Os meus fantasmas?
Não são para aqui
chamados

Poema inédito de manuel a. domingos.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A RUA (excerto)


Três soldados e um cão atrás

De quem é a graça?
Do cão.
Em que reside?
No cão... familiar e subordinado,
dedicado.
Ou fantasista, repententista.
Quem o sabe?
Cão atrás de soldados.

Era do cão a graça?
Certamente era.
Um cão humano, ou quase,
voluntário e subordinado.
Mais vivo, até mais impressionante,
mais simpático sem o saber
que os seus donos desinteressados.
Guapos rapazes, em todo o caso.
De corpo para a frente,
um pouco desencontrados,
de espingarda ao ombro
conversando e avançando
como uns bonecos articulados.

Três só, à vontade.
E o cão, toca que toca
com as suas quatro patas precipitadas
num salto cadente...
Como uma coisa esquecida!
Humilde e alegre criado,
uma parte da vida
sem valor nem preço
daqueles simples rapazes.

Três... a andar, falando de quê?
Pode-se lá saber, sabe-se lá!
Três numa linha breve,
um traço móvel desta rua torta, matinal e ensoalhada.
Três, com o seu cão atrás.
Aquele bicho malhado
que precisava de os seguir,
de os acompanhar,
de lhes ser um ente familiar.
Aquele cão...
aquele cão, que só pintado!

Irene Lisboa
Seara Nova
1946



Oferecido por Rui Almeida.

A IRONIA

A ironia, essa graciosa coisa
que nos faz rir
do que dá vontade de chorar,
este cãozinho que salta
preso à trela, atrevido e reprimido,
a ironia... a minha ironia!
queria-a eu tão medida e inteligente,
tão rebuçada, tão independente
e tão seca, mesmo,
que mal fosse percebida.

Que no ligeiro riso vissem aquiescência,
na reserva simples dúvida,
na cortesia aceitação...

Que a minha ironia calada,
e quase séria, fosse o meu baluarte.
Adormeceu, diriam os sitiantes...
(Sitiantes, rica palavra!
Os que estão de fora
e comentam intenções, intimidades...)

Ó minha ironia, meu cãozinho!
a tua voz... é um latido
muito pouco musical e breve,
quase ríspido, de puro desenfado.
Ou se o não é,
por imperfeitamente educada,
queria que eu fosse!

Irene Lisboa
Seara Nova
1936


Oferecido por Rui Almeida.

cão

um cão
a andar sozinho pelo passeio num quente
verão
parece ter o poder
de dez mil deuses.

porquê?

Charles Bukowski
Love is a Dog from Hell
1977

versão de manuel a. domingos

terça-feira, 13 de novembro de 2007

À MESA DO AMOR

10.

A minha alegria tem mais de quatro sílabas
e o dia de hoje é feito com pedaços de um
cão: focinho, patas, cauda, orelhas, dentes, peito e flancos.
Esta alegria é afluente do cão incompleto,
dia pródigo, diferente de outros dias, bárbaro
em sua luz, no modo como caminha e se diz
vocábulo monossilábico - o dia: o cão.
Dia de cão, dia de estrela branca, rodando, perseguindo a cauda.
Cão nervoso, flexível, alto. Dia áspero,
maduro, transparente, dia animal,
cão de cristal ou lâmpada ou éter
que evapora na tarde, cão que arde, instável,
amável e doente. Cão de um dia, cão
da minha alegria. Irreparável. Inocente.

Joaquim Pessoa
À Mesa do Amor
Átrio
1994

AS CRIANÇAS FALAM (excertos)


“O cão foi a casa da mãe. Depois encontrou um lobo. Depois o lobo foi atrás da mãe. E depois o urso foi atrás do lobo. E depois o lobo foi para casa da mãe morder. Depois o lobo foi atrás do cão. E depois o cão mordeu a mãe. E o cão foi para casa.”
Acabou?
“Não, ainda falta muito.
E depois o cão foi para a piscina e depois o cão da piscina tinha o rabo molhado. Depois o cão disse à mãe para ir aos anos. Depois o cão foi atrás da mãe depois o cão mordeu a mãe. Depois o Dadá foi à minha casa. E foi ao Jardim Zoológico comigo.

Ainda não acabou...

Depois o cão estava à noite e chegou fora da varanda. Depois o cão foi atrás da mãe. E depois o cão tirou a carteira à mãe.”

Intervém o Carlinhos (6a. 4m.):

“A mãe é cão? Uma mãe que não é cão? Então é a dona. A Joana está a complicar as coisas.”

Continua a Joana (3a. 11m.):

“E depois a mãe deu uma carta ao cão. Depois o cão deu uma carta à mãe. Já acabou.”

– // –

“Quero dizer uma história!

Era uma vez um gato maltês. E era uma vez um cão maltês. E o cão maltês casou com o gato maltês. E depois apareceu um boi. E depois o boi rosnou. E depois o cão maltês e o gato maltês acharam que era muito barulho. E depois foram à janela ver e viram que era um boi e mandaram o boi embora.”

Miguel, 5a. 10m.

– // –

Pintando o Pimpão:

Guidinha, 5a. 2m. (comenta, sobre pintura do Filipe):
– “Um cão com quatro patas!”

Filipe, 6a. 1m. (imediato):
– “Ah! Então como é que tu querias? Um cão tem quatro pernas.”

depois, a rir, diz:
– “Se tivesse só duas era uma galinha.”

A Guidinha imita o andar de um cão, sem apoiar os braços no chão.
O Filipe tem a mesma atitude que nas frases e imita com braços e pernas no chão.

– // –

“Quer ouvir a cantiga do caracol?

O cão vai partir o caracol
mas ele não é capaz.
O cão vai pedir à menina
que parta o caracol
e a menina diz assim:
vou partir o caracol.
E depois já partiu
e o caracol vai para casa.”

Julieta, 3a. 4m.

– // –

C. – “Eu também “
F. – “Eu também quero dizer uma história.”
C. – “Uma vez era um menino...”
F. – “Eu também, sim?”
C. – “ Uma vez era um menino que estava em cima do telhado de uma casa e ele queria saltar de lá. Depois deu um salto para cima de um cavalo. Depois o homem disse: Ó menino olhe que o cavalo não é seu, é meu. E depois a mãe ia à compras e viu o filho em cima do cavalo e foi com ele às compras. E depois ele queria ir à escola e a mãe levou à escola. E depois a mãe levou para a escola e o menino fez pintura, foi almoçar e começou a brincar com os talheres. E depois tiraram os talheres. Depois puseram outra vez e ele comeu. Depois telefonou para a mãe e a mãe veio cá buscar e o menino foi para casa. Depois tinha um cão grande e o cão estava na casota lá fora e os patinhos estavam dentro de casa. Amanhã conto mais. Amanhã acabo.”

Carlinhos, 5a. 8m.
Francisco, 4a. 1m.

– // –

“Era uma vez um cão que quando as pessoas corriam atrás dele, o béu-béu corria atrás das pessoas.”

Pilar, 7a. 10m.
História manuscrita

Adriana Areal Calvet e Elsa Anahory (recolha e selecção)
Fernando Ribeiro de Mello / Edições Afrodite, 1973


Oferecido por Rui Almeida.

Lenda do Cão Maior e do Cão Menor

O Cão Maior e o Cão Menor eram os cães de caça de Orionte. O Cão Maior era tão veloz que podia apanhar qualquer animal. Por isso, tinha muito valor para Orionte.
Os Egípcios antigos viam a brilhante estrela Sírio como o deus Anúbis, o deus com corpo de homem e cabeça de chacal. Quando Sírio aparecia no horizonte antes do nascer do Sol, era a época das cheias do Nilo, que era de grande importância para os agricultores que viviam ao longo do rio, dado que as cheias traziam o lodo que tornava as terras mais férteis. Ficou conhecido como Estrela do Cão (Sírio) e os dias quentes de Verão, entre Julho e princípios de Setembro, foram designados por dias de canícula.

Milton D. Heifetz e Wil Tirion
Um Passeio pelos Céus – Um Guia de Estrelas, Constelações e Lendas
Tradução de Máximo Ferreira
Gradiva, 1998
Oferecido por Rui Almeida.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O UIVO

Quando um cão uiva é como se o fizesse do interior dos nossos ossos e os pusesse à mostra, os confundisse com aquilo que nos cerca, de algum modo então o nosso esqueleto integra o pátio, a roupa branca pendurada, a pilha de tijolos, há entre tudo isso e os nossos ossos uma afinidade a que somente o cão, como se o mar todo lhe pesasse na garganta, empresta nitidez.

Luís Miguel Nava
Rebentação
1984

OS OSSOS

Um dia, ao acordar, deu por ter deixado todos os seus ossos num dos sonhos, do qual, como dum espelho, a carne e a roupa juntas irrompiam. Nunca mais desde então os pôde espetar na realidade, coisa que antes tanto se orgulhava de fazer.
Talvez num cão fosse possível encontrar a necessária obstinação para os trazer de novo à superfície. Contudo, a tal profundidade os ossos estariam que, por muito que o animal escavasse, sob as suas patas haveriam de romper as águas de mil rios, pedras, folhas, a enxurrada do universo e, embravecido, o próprio mar, mais tudo aquilo ainda de que habitualmente os sonhos se compõem, antes que deles se deixasse adivinhar o mais breve vestígio.

Luís Miguel Nava
O Céu Sob as Entranhas
1989

O LUGRE (excerto)

TI JOÃO DAS ALMAS: O Albino não foi sempre como hoje é. Eu conheci-o em novo: primeira linha do lugre «Senhora do Mar»!
ZÉ ESPADA: Primeira linha?! (Gargalhada.) Nunca o foi, nunca!
TI JOÃO DAS ALMAS: Tão verdade, como haver Deus no céu: primeira linha, o melhor pescador daquele navio! Digo-te eu, Zé Espada: dobra a língua e não me desmintas!
TÓ VERDE: Pois agora nem pra moço serve... Primeira linha!?
TI JOÃO DAS ALMAS: (tristemente): Foi depois do naufrágio que ele ficou assim: o «Senhora do Mar» afundou-se, a navegar para a Gronelândia, com fogo a bordo. Alguns de vocês hão-de estar lembrados: tu, Zé Robalo, estvas a bordo... e tu, Cara Dura, levavas o teu irmão de contramestre nesse lugre... (Silêncio; evocando.) Onze dias e onze noites no mar: sem água, sem comer, sem roupa, sem nada! (Irado, para os novos.) Vocês... vocês sabem lá o que isto é? Nem tu, Zé Sol; nem tu, Tó Verde; nem tu, Zé Espada... não sabem, não sabem! Onze dias e onze noites! Eram trinta e dois homens e oito botes: quatro em cada dóri. Sabem quantos se salvaram? (Com força, levantando-se.) Sete. Sete, oiçam bem! Os outros morreram todos: muitos de fome e de sede, alguns levados pelas ondas, e uns cinco – ai! estes eram os mais medonhos, aqueles que uma criatura nunca mais pode esquecer, nem de dia, nem de noite! – de juizinho varrido, atiraram-se ao mar, aos gritos, com os olhos rebentados... Nem me quero lembrar! Que Deus me perdoe, mas quando penso naqueles dias, naquelas horas malvadas que nunca mais acabavam... dá-me vontade de cuspir prò céu! (Severo, indignado.) Que admira, que admira, digam-me cá, que o Albino, depois disto, não ficasse o mesmo homem?!...
ZÉ ESPADA: Esta agora! então não querem ver?! Naturalmente foi ele o único que naufragou... A gente sempre ouve cada brisada!
TI JOÃO DAS ALMAS: Assim, do mesmo modo que ele, poucos, raros em toda a frota, fiquem vocês sabendo! Onze dias e onze noites... Ah homens, olhem que no bote do Albino só escapou ele e mais ninguém! Para se aguentar, teve que matar o cão de bordo: e ele gostava do bicho, como se alma cristã fosse! Comeu-lhe a carne crua e bebeu-lhe o sangue ainda quente... É ou não verdade isto, ó Zé Robalo?

Bernardo Santareno
O Lugre – peça em seis actos
1959


Oferecido por Rui Almeida.

O CÃO


À noite ou no dia, ele
sempre acorreu.
Mas no fundo do olho

vigia ainda
uma surpresa, um quê
de indiferente aos chamados.

Quando corre em círculos
à nossa volta ou quando
dormita junto ao fogão,

o uivo antigo
espreita em seu hálito.
(Quem o tiraria de lá?)

Para cumprimentá-lo
seria preciso
ladrar.
Renato Suttana
Bichos
Oferecido por Nicolau Saião.

domingo, 28 de outubro de 2007

CÃO MORRE DE SEDE E DE FOME EM EXPOSIÇÃO

Cão exposto
Um artista da Costa Rica, Guillermo Habacuc Vargas, expôs um cão vadio faminto numa galeria de arte. Ninguém o alimentou ou lhe deu água, morreu durante a exposição. Guillermo Habacuc Vargas foi o artista escolhido para representar o seu país na "Bienal Centroamericana Honduras 2008". Existe uma petição onde é pedido que ele não receba este prémio. Por favor assinem preenchendo o Nome, email, Localidade e País.

Recebido no e-mail.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

NAS MARGENS DO DORDOGNE

Os cães uivam
chamam a noite. Com todo
o desespero dos animais.
O rio arrasta-se até
às estrelas. Nós pomos
as pedras no barco.

Hans-Ulrich Treichel
Como se fosse a minha vida
1994

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