Antologia de textos com cães dentro.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

(excerto de) Centauro

(…) Tem sede, muita sede, mas ali não há sinal de água. O homem olha para trás e vê que metade do céu está já coberto de nuvens. O sol ilumina o bordo nítido de um grande nimbo cinzento que avança.
É nesse momento que ouve ladrar um cão. O cavalo estremece de nervosismo. O centauro lança-se a galope entre duas colinas, mas o homem não perde o sentido: seguir na direcção do sul. O ladrar está mais perto, e ouve-se também um tilintar de campainhas e depois uma voz falando a gado. O centauro parou para se orientar, porém os ecos enganaram-no e, de súbito, num terreno baixo e húmido inesperado, aparece-lhe um rebanho de cabras e à frente dele um grande cão. O centauro estacou. Algumas das cicatrizes que lhe riscavam o corpo, devia-as aos cães. O pastor deu um grito espavorido e largou a fugir, como louco. Chamava em altos berros: devia haver uma povoação ali perto. O homem dominou o cavalo e avançou. Arrancou um ramo forte de um arbusto para afastar o cão, que se estrangulava a ladrar, de fúria e medo. Mas foi a fúria que prevaleceu: o cão ladeou rapidamente umas pedras e tentou apanhar o centauro de flanco, pelo ventre. O homem quis olhar para trás, ver donde vinha o perigo, mas o cavalo antecipou-se, e rodando veloz sobre as patas da frente, desferiu um violento coice que apanhou o cão no ar. O animal foi bater contra as pedras, morto. Não era a primeira vez que o centauro se defendia assim, mas de todas as vezes o homem se sentia humilhado. No seu próprio corpo batia a ressaca da vibração geral dos músculos, a vaga de energia que deflagrava, ouvia o bater surdo dos cascos, mas estava de costas voltadas para a batalha, não era parte nela, espectador quando muito.
(…)

José Saramago
Objecto Quase
1978

Oferecido por
Rui Almeida.

domingo, 4 de janeiro de 2009

VAI-TE CÃO DAS NOITES

o mar retirou-se intacto do sangue dos grandes polvos que jazem nas areias
na paisagem desfeita e sempre a refazer procuro
lembranças da maré uma flor de água um rumor de furor
mas há demasiadas pistas confusas caravanas
demasiados sóis empalando nas árvores o seu rancor
demasiados portulanos mentirosos que se afundam
nas linhas de crista eternas divergentes
das formigas gigantes que vão pulindo os ossos
deste silêncio fogoso da boca desta areia
apenas surgirão os dentes cariados da mata ressequida

raiva de um solstício insólito ardente fulvo nas margens da barbárie de um mar tão vacilante
vai-te cão das noites vai-te
inesperado e magno em minhas têmporas
sangrando seguras entre os dentes
a carne que me é fácil de mais reconhecer

Aimé Césaire
Antologia Poética
Trad. Armando da Silva Carvalho
Dom Quixote
1970

IDEIAS FEITAS


CÃO – Especialmente criado para salvar a vida do dono. O cão é o melhor amigo do homem.

DEDICAÇÃO – Lamentar-se de que não existe nos outros. «A este respeito, somos muito inferiores ao cão!»

FIEL – Inseparável de amigo e de cão. Não deixar de citar os dois versos: «Sim, pois que encontro um amigo tão fiel / A minha sorte…» etc.

Gustave Flaubert
Dicionário de ideias feitas
Tradução de João da Fonseca Amaral
Editorial Estampa, 1974
Oferecido por Rui Almeida.

sábado, 20 de dezembro de 2008

A SIBERIANA


Tenho um favor para te pedir", disse Deus
O cão não disse nada mas cheirou a contentamento e Deus apercebeu-se que nos seus pensamentos, o animal O considerava "o Grande e Odorífico Pai de todas as Matilhas".
" Queres cumprir uma missão na Terra? Eu sei que não é agradável, mas há alguém que precisa de consolo na aflição, quem sabe se de um Anjo da Guarda?"
O cão abanou a cauda suavemente, havia nele curiosidade e um leve odor de receio. Depois levantou-se decidido, deu um pequena volta a guardar memórias das flores e das minúsculas árvores, bebeu um gole na cascata, abanou uma vez mais a cauda em frente ao monge budista e dirigiu-se para a porta onde se sentou à espera.
Deus transformou-o um pouco, deu-lhe a idade apropriada, uma forma indecisa, vagamente de perdigueiro, toco-lhe por um instante no focinho e acompanhou-o a uma das múltiplas portas para a Terra. Umas almas vinham a subir, Deus saudou-as, e encaminhou-as para Pedro que, nos primeiros momentos de eternidade os acompanhava.
Depois ficou a ver.
Maria da Luz ia pela rua abaixo, quase a entrar no carro
Deus aproveitou para dar uma endireitadela numa peça do Amarelinho que estava prestes a partir-se, fez recuar mais duas ou três no tempo para ficarem como novas
Um perdigueiro de olhos sábios mas alegres
"Terá dois meses"? ouviu-a interrogar-se, " de quem será?"
E uma vizinha a explicar do conforto da sua janela onde secava abundante roupa interior de chamativas cores:
"Deve andar perdido, já anda aí às voltas desde manhãzinha. Parece que gostou da menina, não deixou ninguém tocar-lhe... andaram aí uns miúdos que o queriam levar..."
E o rafeiro deu à cauda agitadamente, com o corpo todo a gingar à volta de Maria da Luz e dentadinhas amorosas nos sapatos, as unhas aceradas a furar malhas nas meias de lycra..
Quando a viu baixar-se,
Para afagar, um tanto desajeitada, havia que concordar, o pequeno pedaço de cachorro orelhudo, e dizer para a vizinha
"Se alguém perguntar por ele, se faz favor, diga que sou eu quem o tem..."
Depois, enfim, pegar no refeirito ao colo para entrar com ele no Amarelinho – que pegou primeira e já não fazia aquele ruído esquisito, estranhou Maria da Luz,
Deus suspirou.

Rui da Costa Lopes
A Siberiana
Cãmara Municipal de Sintra
(Prémio Ferreira de Castro 1997)

Oferecido por Ana Gomes Ferreira.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

SONETOS PARA OS AMIGOS MORTOS

III

Morreste como um cão foste abatido
Um dia frente aos olhos da tv
Que a polícia se fez co’o teu destino
Por um premeditado sei lá quê

Como um cão como um rato como um chino
Como um preto um judeu ganhão maltês
«Dispara dá-lhe cabo do cortiço»
Dizia a viril morte que te fez

Morrer completamente em todo o chão
Fez a morte de novo obra acabada
Matou duma só vez todo o teu não

E mais que tudo não te deixou nada
Pra levares contigo no caixão
Teu último pendão e barricada

Manuel Resende
O mundo clamoroso, ainda
Angelus Novus
2004

domingo, 23 de novembro de 2008

DICIONÁRIO DO DIABO

APAZIGUAR, v. Chamar «cãozinho» a um buldogue quando este se encontra firmemente agarrado à nossa retaguarda.

CÃO, n. Uma espécie de Divindade subsidiária ou adicional, concebida para receber os excedentes da adoração mundial. Este Ser Divino, nalgumas das suas encarnações mais pequenas e macias, ocupa no coração da Mulher o lugar ao qual nenhum macho humano pode aspirar.

CÉRBERO, n. O cão de guarda do Hades, que tinha por dever proteger a sua entrada – não se percebendo claramente contra quê ou quem a guardava ele, pois toda a gente, mais cedo ou mais tarde, tinha de passar por ela, e também ninguém tinha vontade de forçar a entrada.

EFEITO, n. O segundo de dois fenómenos que ocorrem sempre juntos e na mesma ordem. Do primeiro, ao qual se chama Causa, diz-se que gera o segundo – o que é tão sensato como dizer-se que, por se ter visto um cão a perseguir um coelho, o coelho é a causa do cão.

MEDICAMENTO, n. Uma pedra atirada para o Cais do Sodré com o objectivo de matar um cão no Rossio.

RAFEIRO, n. O grau mais baixo na hierarquia dos cães.

REDUNDANTE, adj. Supérfluo; desnecessário; de trop.

Diz o sultão: «Há evidência abundante
De que este cão infiel é redundante.»
Responde o Grão-Vizir, com pose altiva:
«A sua cabeça, pelo menos, parece excessiva.»

Habeeb Suleiman

REVERÊNCIA, n. A atitude espiritual do homem perante Deus e do cão perante o homem.

ZEUS, n. O chefe dos deuses gregos, adorado pelos Romanos como Júpiter e pelos americanos modernos como Deus, Ouro, Populaça e Cão. Alguns exploradores que atingiram a costa da América, assim como um que garante ter percorrido uma distância considerável até ao interior, pensaram que estes quatro nomes designavam quatro divindades distintas; mas na sua obra monumental sobre Crenças Sobreviventes, Frumpp insiste na ideia de que os nativos são monoteístas, não tendo cada um deles qualquer outro deus que não ele próprio, o qual adora sob inúmeros nomes sagrados.

Ambrose Bierce
Dicionário do Diabo
Tradução de Rui Lopes
Tinta da China, 2006

Oferecido por Rui Almeida.

ALEGRIA BREVE

– Come!
Ele hesita, sem perceber: que faço eu ali na posição de tiro?
– Come, estupor! – berro alucinado.
Assusta-se, dá um pequeno salto de recuo. Então comovo-me, não por pena dele – pena por quem?
– Come, Médor! – repito com doçura.
Come em esperança o alimento da vida. Estamos fora do tempo e do mundo, na paragem breve ou longa para o balanço de um recomeço possível. Ninguém nos vê, tudo em nós é gratuito, separado de uma coordenação. O que se passa entre nós não tem leis que o classifiquem, um sinal que o distinga. É um acto absoluto e vazio – um acto de vida. Médor olha-me ainda, a interrogar. Olha de baixo, do fundo do seu medo e da sua estupefacção. Nesse instante-limite, tudo quanto lhe é da vida passada e futura vem à superfície aguada dos seus olhos. Quero que ele coma, não o posso matar em aflição. Espero que se decida, ponho a espingarda em descanso. O mundo espera comigo.
– Come, Médor!

Vergílio Ferreira, Alegria Breve (excerto), Lisboa: Bertrand, 7ª edição, 2004, p. 147

Oferecido por manuel a. domingos

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Eis a casa nova a prisão
disfarçada de refúgio aqui
te prendem os fios tecidos por ti
agora não podes fugir
cão solitário sem destino não é possível
devolver-te à procedência
és uma carta sem paradeiro certo
estás morto ou és endereço errado
é neste lar prisão que deves ficar
é aqui o teu último destino certo
pelo menos ninguém aqui virá
reclamar-te por teres certo valor
não tens nem o sonho de o vir a ter
a ração é feita de sons e de sonhos
de cão a enxerga de palha molhada
quando vier calor seca-te ao sol
é assim mesmo a vida de cão
solitário talvez e sem dono ou voz
de comando longínquo e cego
talvez só daqui a alguns anos
a bengala não é para te açoitar
dá o som e a cadência certa
ao cão sem dono e sem destino
irremediavelmente prisioneiro
de uma coleira com trela deslizante.

Carlos Alberto Machado
A Realidade Inclinada
Averno, 2003

Diário das Açoteias

3.

Falou-nos dos cães.
Cães lindíssimos, de língua negra – contou. Tinha-os visto. A rasgarem; a despedaçarem as vestes daqueles homens vindos de outros planetas. São de outros planetas mas lindos, lindos, lindos! A Rússia é bonita. Lá existe o nazismo. Como na Hungria. Quem manda são os ditadores e é terrível terrível terrível! Todo o mundo obedece. Todo o mundo! Eu estive na Rússia. Muitos crimes! O meu marido veio da Rússia. Trazia planos da Hungria. As línguas dos cães do mar negro são negras negríssimas! Os homens cheiram a sangue, somos todos felizes, meu Deus!, acredito em Deus!, somos todos felizes! «O Senhor é português?» - Não! Pois claro que não! O senhor é russo. O senhor é lindo! Lindo! Muito lindo!
Não receies, Glöcker. É inofensiva. Vê como sorri. Deve ter sessenta mas parece quarenta. Como sorri não obstante; apesar de tudo. Como nos volta as costas. Nada lhe interessa. Não lhe interessa. E, contudo, eis que de novo se anima; resplandece. Lado a lado do rosto, duas orelhas crescem, crescem, crescem. Uma estrela escorre-lhe da baba.
Ladra.
Ciumento, arfante, hipnotizado, o cão… repara: «Já tinhas visto uma palavra de quatro patas a abanar a cauda?»

Eduarda Chiote
A Décima Terceira Ilha
Edições Afrontamento, 1983

Oferecido por
Rui Almeida.

sábado, 15 de novembro de 2008

COMPOSIÇÃO DE LUGAR

Cerra os teus olhos, eu conto.
De manhã cedo acordado,
Abraão subiu ao monte.
E sob um céu de fornalha

viu na planura queimada
lá da banda de Sodoma
um cão a chorar por todas
as cinzas que foram casas.

O cachorro tão apócrifo
acrescenta um contraponto
a esse fumo canónico
do velho bíblico conto.

José António Almeida
A Mãe de Todas as Histórias
Averno

(excerto de) Conheces Blaise Cendrars?

(…)
O largo estava deserto. As entradas baixas das cubatas eram grandes buracos negros. Onde não se via ninguém. Como se tivessem fugido todos os habitantes. Conrado olhou à volta. Franzindo a testa.
O silêncio só era quebrado pelos ruídos cadenciados de um pilão. Que vinham da outra banda. Da floresta. Olhou para lá, interrogativamente. Nguongo Ai seguiu-lhe o gesto.
«Pilão! Tapioca!»
Percorreram todo o terreiro. Vazio de gente. Um pequeno cão cinzento, magro e coberto de feridas, atado a um pau, ladrou fracamente quando se aproximaram. Um dos soldados fingiu que lhe dava um pontapé. O animal, acovardado, fugiu. Encolheu-se à sombra.
«Não te chegues muito», disse um. «Os cães destes macacos são como os donos. Fingem que têm medo, mas, se te distrais, ferram-te logo o dente!»
(…)

Manuel de Seabra
Conheces Blaise Cendrars?
Publicações Europa-América, 1988
Oferecido por Rui Almeida.

sábado, 18 de outubro de 2008

Cão vadio

De que serve uma casa ao cão vadio? De que serve a promessa que lhe estendem, as vantagens que lhe oferecem? De que serve a esperança, vazia nas suas mãos vazias? De que serve o prato onde lhe querem dar de comer, o conforto que ignora, o gesto dedicado que recusa? De que serve o jardim com relva aparada e cães de trela que nunca terá para ele qualquer interesse? De que lhe serve companhia, ele que aprendeu o só por companheiro? De que serve a família que lhe emprestam, a posteridade que lhe acenam, ele que sabe não terá nenhuma? De que serve a felicidade de que falam, saciedade e segurança, explicam, ele talhado à forma áspera dos penhascos? De que servem fortuna, glória, aclamação nas tribunas e nos campeonatos, pêlo mais viçoso, dorso mais esbelto, inteligência, claro (jogos de frivolidade), talento, pois (jogos de eternidade). Seu é o grito das ruas sem fim, sua a morada desde sempre abolida, seu o destino de caminhar sem chegada, vizinha morte, tão cedo conhecida, a cada esquina dobrada. Era isto que esperava que lhe dessem (era isto que podia receber). Mas em vez disso dão-lhe uma casa, a promessa em que nunca coube, a esperança que as suas mãos não guardam. E ele segue e repete: cão vadio (segue e obstina: cão vadio). A mulher que o chamava do limiar da porta regressa ao interior da casa e pensa: mal agradecido. E tem razão, embora de outro modo que a razão que conhece. E é verdade, embora de outro modo que a verdade que é sua. Assim ficamos só eu e tu. E choro por ti a lágrima que a dor cegou. Choro por nós a lágrima que não sabemos. Rosto próximo, olhamo-nos nos olhos secos, boca parada na palavra por nascer. Olhamo-nos e seguimos caminho.

Jorge Roque
Broto Sofro
Averno
2008

sábado, 4 de outubro de 2008

Quero-te
como cão esfomeado
quer o osso
que só sonhando morde
pois sempre não está lá
se a mosca do destino
ao pobre impõe que acorde


Vasco Costa Marques
daqui

terça-feira, 23 de setembro de 2008

ISSA

Issa é mais malandra que o pardal do Catulo.
Issa é mais pura que o beijinho de uma pomba.
Issa é mais fofinha que todas as miúdas.
Issa é mais preciosa que as gemas da Índia.
Issa é a cadelinha mais-que-tudo do Públio.
Se geme, cuidarias que fala.
Sente a tristeza e a alegria.
Deita-se tombada no seu pescoço e adormece,
de tal maneira que nem um suspiro lhe ouves.
E, obrigada pelas exigências do ventre,
gota nenhuma ofende os lençóis,
mas com branda patinha o acorda e lhe recomenda
que a tire da cama e pede que a levante.
Tanto pudor se acha na casta cadelinha!
Ignora Vénus, e não achamos
digno marido de tão terna menina.
Não lha leve por completo a morte derradeira,
pinta-a Públio num quadro,
no qual verás tão parecida Issa
que nem ela é tão parecida consigo mesma!
Põe, pois, Issa ao lado do quadro:
ou ambas julgarás verdadeiras,
ou ambas julgarás pintadas!

Marcial, I. 109
daqui

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

JERRY, MOLLY E SAM

Na opinião de Al só havia uma solução. Tinha de se livrar da cadela sem que Betty e os miúdos dessem por isso. Durante a noite; teria de ser feito durante a noite. Apenas teria de levar Suzy no carro até... bem, até um sítio qualquer, mais tarde decidiria qual, abrir a porta do carro, empurrá-la para fora e continuar a conduzir. E quanto mais cedo melhor. Sentou-se aliviado por ter tomado aquela decisão. Qualquer decisão que tomasse seria melhor do que nenhuma, disso estava convencido.
Era domingo. Levantou-se da mesa da cozinha, onde estivera sozinho a tomar um pequeno-almoço tardio, e ficou de pé junto ao lava-loiças, com as mãos nos bolsos. Ultimamente, nada lhe corria bem. Tinha problemas mais do que suficientes para resolver sem ter que se preocupar com uma" cadela mal-cheirosa. Na Aerojet estavam a despedir pessoal, quando deviam estar a admiti-lo. Estava-se a meio do Verão, com contratos para a defesa pelo país inteiro, e a Aerojet falava em redução das despesas. De facto, estava a reduzir um pouco mais todos os dias. Ele não sentia mais segurança do que outro qualquer, apesar de estar a trabalhar lá quase há três anos. Sem dúvida que tinha boas relações com as pessoas influentes, mas nem antiguidade nem amizades serviam de nada nos tempos que corriam. Se chegasse a sua vez, pronto... não havia nada a fazer. Se decidissem despedir, despediam. Cinquenta, cem homens de cada vez.
Ninguém estava em segurança, desde os superintendentes, passando pelo capataz e acabando nos operários da linha de montagem. E há três meses, exactamente antes de começarem os despedimentos, Betty convencera-o a mudarem-se para uma casa mais cómoda, com uma renda de duzentos dólares por mês, com opção de compra. Trampa!
Al não tinha querido deixar a outra casa. Sentia-se lá suficientemente confortável. Mas quem podia adivinhar que duas semanas depois iriam começar os despedimentos? Quem é que podia adivinhar o que quer que fosse, hoje em dia? Havia o caso da Jill, por exemplo. Jill trabalhava na contabilidade da Weinstock's. Era uma garota simpática e dizia que amava Al. Sentia-se apenas sozinha, dissera-lhe na primeira noite. Nessa noite, dissera-lhe também que não tinha o hábito de se deixar engatar por homens casados. Conhecera Jill há cerca de três meses, quando andava a sentir-se deprimido e nervoso com toda aquela conversa acerca dos despedimentos. Conhecera-a no Town and Country, um bar que ficava relativamente perto da nova casa. Dançaram um pouco e depois levou-a a casa e ficaram um bocado na marmelada, no carro, em frente do apartamento dela. Nessa noite não tinha subido com ela, embora tivesse a certeza de que teria podido fazê-lo. Mas, na noite seguinte, subiu na companhia dela.
Estava agora de braços com uma ligação amorosa, Santo Deus!, e não sabia o que fazer. Não queria continuar, mas também não queria acabar com tudo: uma pessoa não atira tudo o que tem pela borda fora só porque está no meio de uma tempestade. Al sentia-se à deriva, sabia que estava à deriva, mas como tudo aquilo iria acabar era para ele uma incógnita. No entanto, começava a ter a sensação de estar a perder o controlo de tudo… das coisas. Recentemente, começara também a dar por si a pensar na velhice, depois de ter estado dias com prisão de ventre, uma situação que sempre associara com pessoas idosas. Além disso, havia a questão da pequena pelada e o facto de já ter começado a pentear-se de maneira diferente. O que é que ia fazer da sua vida?, gostaria ele de saber.
Tinha 31 anos.
Todos esses problemas a enfrentar, e ainda por cima Sandy, a irmã mais nova da mulher, ter oferecido há quatro meses aos miúdos, o Alex e a Mary, uma cadela rafeira. Desejava nunca ter posto os olhos numa cadela... ou mesmo em Sandy, para dizer a verdade. Aquela cabra! Aparecia sempre com uma merda qualquer que só acabava por lhe trazer despesas, uma bugiganga qualquer que apenas durava um dia ou dois e depois tinha de ser reparada, qualquer coisa que punha os miúdos aos berros, acabando à porrada um com o outro. Santo Deus! E depois, em troca, tentava cravar-lhe vinte e cinco ou cinquenta dólares, por intermédio de Betty. O simples pensamento de todos os cheques de vinte e cinco e cinquenta dólares e, ainda há pouco tempo, um de oitenta e cinco dólares, para a prestação do carro - do carro dela, Santo Deus!, quando ele não sabia se iria continuar a ter um tecto sobre a cabeça - dava-lhe ganas de matar o raio da cadela.
Sandy! Betty, Alex e Mary! Jill! E Suzy, a maldita da cadela!
Era esta a situação de Al.

Tinha de começar por uma ponta qualquer - pôr as coisas em ordem, fazer uma escolha radical. Era chegada a altura de fazer qualquer coisa, a altura de pensar seriamente numa mudança. E tencionava começar esta noite.
Iria aliciar a cadela para entrar no carro sem ninguém ver, e sob um pretexto qualquer, sair de casa. Contudo, não queria nem pensar na maneira como Betty iria baixar os olhos quando o visse mudar de roupa e, depois, quando estivesse mesmo a sair a porta, perguntando-lhe onde, quanto tempo, etc., numa voz resignada que o punha ainda pior. Não conseguia habituar-se a mentir. Para além disso, odiava a ideia de esgotar com Betty as poucas reservas que ainda lhe restavam, inventando uma mentira para um fim diferente daquele que ela suspeitava. Poder-se-ia dizer que era uma mentira desperdiçada. Mas não lhe podia contar a verdade: dizer-lhe que não ia para os copos, que não ia visitar ninguém e que, em vez disso, ia dar cabo da cadela e, desse modo, dar o primeiro passo no sentido de pôr a casa em ordem.
Passou a mão pelo rosto e, durante um minuto, tentou esquecer tudo. Tirou uma garrafa de cerveja Lucky do frigorífico e fez saltar a tampa de alumínio. A sua vida tinha-se tornado numa confusão, numa mentira por cima doutra, ao ponto de não ter a certeza de ser capaz de se desembaraçar delas quando fosse preciso.
- Maldita cadela! - disse ele em voz alta.
«Ela não tem o faro apurado», era o que Al costumava dizer. Além disso, era traiçoeira. Quando apanhava a porta das traseiras aberta e a casa sem ninguém, forçava a rede e atravessava a casa até à sala para urinar na alcatifa. Neste momento, havia pelo menos uma dúzia de nódoas em forma de mapa. Mas o seu sítio preferido era o quarto de arrumações, onde podia remexer na roupa suja, a um ponto tal que todas as cuecas e calcinhas tinham a parte da frente ou os fundilhos esfiapados. E roía os fios exteriores da antena de televisão. Uma ocasião em que Al entrava com o carro no acesso, encontrou-a deitada no pátio da frente com um dos seus sapatos Florsheims na boca.
«Ela é marada», costumava dizer, «e está a pôr-me marado a mim. Nem tenho tempo para substituir as coisas. Um dia destes dou cabo da filha da puta!»
Betty tolerava a cadela por períodos mais longos e, durante uns tempos, foi aceitando as coisas, aparentemente, sem se perturbar, mas, de repente, ia ter com ela, de punhos cerrados, chamava-lhe estupor, puta, e gritava com os miúdos para não a deixarem ir para o quarto de cama, para a sala, etc. Betty também era assim com os filhos. Aturava-os até um certo ponto, deixava-os abusar até um certo limite e, depois, voltava-se contra eles, selvaticamente, e esbofeteava-os, gritando: «Parem com isso! Parem com isso! Já não aguento mais!»
Mas, por outro lado, Betty dizia: «É o primeiro cão que eles têm. Deves lembrar-te como gostavas do teu primeiro cão.»
«O meu cão tinha miolos», respondia-lhe ele. «Era um setter irlandês.»

A tarde passou-se. Betty e os miúdos regressaram de qualquer lado e depois comeram todos sanduíches e batatas fritas na varanda. Ele adormeceu na relva e, quando acordou, era quase noite.
Tomou um duche, barbeou-se e vestiu umas calças e uma camisa lavadas. Sentiu-se relaxado, mas mole. Acabou de vestir-se e pensou na Jill. Pensou na Betty, no Alex, na Mary, na Sandy e na Suzy. Sentiu-se drogado.
- Vamos jantar não tarda muito - disse Betty, chegando à porta da casa de banho e olhando para ele.
- Não há pressa. Não tenho fome e está muito calor para comer - disse ele, brincando com o colarinho. - Sou capaz de me meter no carro e ir até ao Carl's jogar umas partidas de bilhar e beber umas cervejas.
Ela disse: - Estou a ver.
Ele disse: - Raios!
Ela disse: - Vai. Eu não me importo.
Ele disse: - Não me vou demorar.
Ela disse: - Já disse que não me importava. Vai lá.
Na garagem disse:
- Vão todos para o inferno! - E deu um pontapé no ancinho que foi parar ao outro lado do chão de cimento. Depois, acendeu um cigarro e tentou controlar-se. Pegou no ancinho e foi pô-lo no lugar habitual, resmungando para dentro «Ordem. Ordem», quando a cadela se aproximou da garagem, farejando junto à porta e olhando para dentro.
- Vem cá. Vem cá, Suzy! Aqui... menina bonita - chamou ele. A cadela deu ao rabo, mas não saiu do mesmo sítio.
Ele foi até à prateleira por cima da máquina de cortar relva e tirou uma, depois duas e por fim três latas de comida.
- Tudo o que quiseres, Suzy... velha amiga. Tudo o que quiseres comer - disse ele com voz aliciante, abrindo a primeira lata e deixando cair aquela porcaria dentro do prato da cadela.

Andou a dar voltas com o carro, durante quase uma hora, sem se decidir por um lugar. Se a soltasse na vizinhança e alguém chamasse a carroça dos cães, a cadela voltaria dentro de um dia ou dois. O canil distrital seria o primeiro sítio para onde Betty iria telefonar. Lembrava-se de ter lido histórias sobre cães que descobriam o caminho de casa a centenas de quilómetros de distância. Lembrava-se de programas sobre criminalidade em que um desconhecido tomava nota da matrícula do carro e esse pensamento fez-lhe saltar o coração. Apanhado com a boca na botija, seria uma vergonha ser visto a abandonar um cão, sem as pessoas terem conhecimento real dos factos. Tinha de descobrir o sítio certo.
Foi até perto do American River. De qualquer modo, a cadela precisava de sair mais vezes, sentir o vento bater-lhe nas costas, nadar e patinhar na água quando lhe apetecesse; era uma pena manter a cadela dentro de casa o tempo todo. Os campos perto do dique pareciam demasiado desolados, sem casas em redor. Afinal, ele pretendia que alguém a encontrasse e cuidasse dela. Uma velha casa de dois pisos era o que ele tinha em mente, com crianças felizes e bem comportadas e que precisassem de um cão, que precisassem desesperadamente de um cão. Mas não havia aqui nenhuma casa velha de dois pisos; nem uma.
Voltou para trás, até à auto-estrada. Não tinha sido capaz de olhar para a cadela, desde o momento em que conseguira metê-la dentro do carro. Neste momento, estava sentada, muito quieta, no banco traseiro, mas quando ele saiu da estrada e estacionou o carro, ela sentou-se muito direita e começou a ganir, olhando em volta.
Parou junto a um bar, mas, antes de entrar, abriu todas as janelas do carro. Demorou-se cerca de uma hora, a beber cerveja e a jogar shuffleboard. Não deixava de pensar se não devia também ter deixado as portas entreabertas. Quando saiu, Suzy sentou-se no banco e arreganhou os dentes.
Ele entrou e pôs-se novamente a caminho.

Então, veio-lhe à ideia o sítio ideal: o lugar onde tinham vivido anteriormente, cheio de crianças e mesmo do outro lado da linha divisória com o distrito de Yolo. Era o sítio ideal. Se a cadela fosse apanhada, levá-la-iam para o canil de Woodland e não para o de Sacramento. Não tinha mais do que levar o carro até uma das ruas do velho bairro, parar, atirar para o chão uma mão cheia da merda que a cadela comia, abrir a porta, dar uma ajudinha para empurrar e... rua com ela, enquanto se pirava. Livre! Ficaria livre.
Carregou a fundo no acelerador para sair dali para fora.
Enquanto conduzia, passou por alpendres iluminados e em três ou quatro casas viu homens e mulheres sentados nos degraus da frente. Conduzindo lentamente, passou pela sua antiga casa, afrouxando a marcha até quase parar, e olhou para a frontaria, para o alpendre e para as janelas iluminadas. Sentiu-se ainda mais irreal. Tinha vivido ali... quanto tempo? Um ano? Dezasseis meses? Antes, tinha sido em Chico, Red Bruff, Tacoma, Portland - onde conhecera Betty -, Yakima... Toppenisch, onde nascera e estudara. Parecia-lhe que, desde que fora criança, não sabia o que significava não ter graves preocupações. Lembrou-se dos verões em que pescava e acampava nas Cascades, nos Outonos em que costumava caçar faisões, seguindo as pisadas de Sam, o setter que com o seu pêlo vermelho parecia um farol no meio dos milheirais e dos campos de alfalfas, onde o rapaz que fora e o cão que tivera corriam como loucos. Esta noite sentia um enorme desejo de conduzir, de conduzir até Toppenish, de entrar na velha rua principal empedrada a tijolo, virar à esquerda, no primeiro semáforo, de novo à esquerda e parar quando chegasse à casa onde a mãe vivia e nunca mais, por motivo nenhum, voltar a sair.
Chegou ao fundo escuro da rua. Em frente havia um grande descampado e a rua virava à direita, contornando-o. Durante quase um quarteirão não havia casas do lado da rua junto ao descampado, e apenas uma casa mergulhada na escuridão total do outro lado. Parou o carro e, sem pensar duas vezes no que estava afazer, pegou numa mão cheia de comida de cão, inclinou-se no banco, abriu a porta traseira do lado do descampado, atirou aquela coisa para o chão e disse: - Apanha, Suzy! - Empurrou-a até ela saltar contrariada do banco. Inclinou-se ainda mais, fechou a porta com um puxão e, lentamente, começou a conduzir. Depois desatou a conduzir cada vez mais depressa.

Parou no Dupee's, o primeiro bar que encontrou no regresso a Sacramento. Estava agitado e a transpirar. Não se sentia exactamente desoprimido ou aliviado, como pensava que iria sentir-se. Mas continuou a assegurar a si próprio que fora um passo na direcção certa e que no dia seguinte começaria a sentir-se melhor. Era uma questão de esperar.
Depois de já ter bebido quatro cervejas, uma garota com uma camisola de gola alta e de sandálias, transportando uma mala de viagem, sentou-se ao seu lado. Colocou a mala entre os bancos. Parecia conhecer o empregado do bar, que lhe dizia sempre qualquer coisa quando passava, parando por pouco tempo, uma ou duas vezes, para dois dedos de conversa. Ela disse a Al que se chamava Molly, mas não o deixou pagar-lhe uma cerveja. Em vez disso, propôs-lhe que dividissem uma pizza a meias.
Ele sorriu-lhe e ela retribuiu o sorriso. Ele tirou os cigarros e o isqueiro do bolso e pô-los em cima do balcão.
- Vamos lá a essa pizza! - disse ele. Mais tarde, perguntou-lhe:
Posso levá-la de carro a qualquer lado?
- Não, obrigada. Estou à espera de alguém - disse ela.
Ele perguntou:
- Para onde é que vai?
Ela respondeu:
- Para lado nenhum. Oh! - disse ela rindo e tocando na mala com o dedo do pé - refere-se a isto? Eu vivo aqui, em West Saco. Não vou a lado nenhum. Isto é apenas o motor da máquina de lavar da minha mãe. Jerry, o empregado do bar, tem jeito para estas coisas. Disse que ia repará-la de graça.
Al levantou-se. Desequilibrou-se um pouco enquanto se inclinava para ela e disse:
- Bem, adeus amor. Até à próxima.
- Podes crer - disse ela. - E obrigada pela pizza. Ainda não tinha comido nada desde o almoço. Estou a tentar perder um pouco disto. Levantou a camisola e agarrou uma mão cheia de carne, à volta da cintura.
- Tens a certeza de que não queres uma boleia? – disse ele.
A rapariga sacudiu a cabeça.
De novo no carro, enquanto conduzia, ia pegar nos cigarros, só então se lembrou de que deixara tudo em cima do balcão. Que se lixasse - pensou -, ela que ficasse com tudo. Ela que metesse os cigarros e o isqueiro dentro da mala, juntamente com a máquina de lavar. Registou aquilo contra a cadela: mais uma despesa, mas a última, graças a Deus. Agora que as coisas estavam a ficar em ordem, sentiu-se zangado por a garota não ter sido mais amável com ele. Se estivesse noutro estado de espírito, podia tê-la engatado. Mas quando uma pessoa está deprimida está-lhe escrito na cara, até mesmo pela maneira como acende um cigarro.
Decidiu ir visitar Jill. Parou numa loja de bebidas, comprou uma garrafa de quartilho de uísque, subiu as escadas até ao apartamento dela, parou no patamar e passou a língua pelos dentes. Ainda sentia o gosto dos cogumelos da pizza na boca e tinha a garganta seca. Apercebeu-se de que aquilo que lhe apetecia fazer era ir direito à casa de banho de Jill e usar a escova de dentes dela.
Bateu à porta.
- Sou eu, Al - sussurrou. – Al - repetiu em voz mais alta.
Ouviu o barulho dos pés dela no chão. Ela abriu o fecho de segurança e tentou puxar a corrente, enquanto ele se apoiava pesadamente contra a porta.
- Só um momento, amor. Al, não empurres... não consigo abrir. Consegui - disse ela, abrindo a porta e estudando o rosto dele, enquanto lhe segurava a mão.
Abraçaram-se desajeitadamente e ele beijou-a na face.
- Senta-te, amor. Aqui. - Ela ligou o candeeiro e ajudou-o a sentar-se no sofá. Depois levou os dedos aos rolos do cabelo e disse: - Vou pôr um pouco de bâton. Entretanto, o que é que queres beber? Café? Sumo? Uma cerveja? Acho que tenho cerveja. O que é que trazes aí... uísque? O que é que te apetece, amor? - Ela acariciou-lhe o cabelo com a mão e inclinou-se para ele, olhando-o intensamente nos olhos. - Pobrezinho, o que é que te apetece? - perguntou, de novo.
- Só me apetece que me abraces - disse ele. - Senta-te aqui. Nada de bâton - disse ele, puxando-a para o colo. - Abraça-me. Estou a cair - disse ele.
Ela passou-lhe o braço pelos ombros e disse:
- Vem para a cama, querido. Vou-te dar aquilo que tu queres.
- Vou dizer-te uma coisa, Jill - disse ele -, é como patinar sobre uma fina camada de gelo. A qualquer momento vou parti-la... não sei. - Olhou para ela com uma expressão fixa, esbaforida, da qual tinha consciência mas que não era capaz de alterar. - Estou a falar a sério - disse ele.
- Não penses em nada, amor - disse ela, abanando a cabeça. - Relaxa-te - disse ela. Segurou-lhe no rosto e beijou-o na testa e depois nos lábios. Voltou-se levemente no colo dele. - Não, não te mexas, Al- disse ela, passando-lhe subitamente as duas mãos à volta da nuca e agarrando-lhe a cara ao mesmo tempo. Os olhos dele vaguearam um instante pela sala e depois tentaram fixar-se no que ela estava a fazer. Ela manteve-lhe a cabeça direita, segurando-a entre os dedos fortes. Com as unhas dos polegares estava a espremer um ponto negro ao lado do nariz dele.
- Não te mexas - disse ela.
- Não - disse ele. - Não. Pára com isso! Não estou com disposição para isso.
- Está quieto. Quieto, disse eu! Já está. Olha só! O que é que achas, disto? Não sabias que tinhas isto, pois não? Agora só mais um, amor; um enorme. É o último - disse ela.
- Casa de banho - disse ele, obrigando-a a levantar-se e a deixar-lhe o caminho livre.

Quando chegou a casa, eram só lágrimas, confusão. Mary correu para o carro, a chorar, ainda antes de ele ter parado.
- A Suzy desapareceu - soluçou ela. - A Suzy desapareceu… nunca mais vai voltar, papá. Ela foi-se, Tenho um pressentimento.
«Meu Deus, o que é que eu fui fazer?», pensou ele com o coração aos saltos.
- Não te aflijas, querida. Provavelmente ela foi dar um passeio, aqui perto. Vai voltar -disse ele.
- Não vai, papá, eu sei que não vai. A mamã disse que talvez tenhamos de arranjar outro cão.
- E isso não te agradava, querida? - perguntou ele.
…outro cão, se a Suzy não voltar? Vamos a uma loja de animais...
- Eu não quero outro cão! - gritou a criança, agarrada à perna dele.
- Podemos ter um macaco em vez dum cão, papá? – perguntou Alex. -Se formos à loja à procura dum cão, não podemos comprar um macaco em substituição?
- Não quero um macaco! -choramingou Mary. - Quero a Suzy.
- Vamos lá acabar com isto! Deixem o papá entrar em casa. O papá tem uma horrível, uma horrível dor de cabeça - disse ele.
Betty tirou um pirex de cima do fogão. Parecia cansada, irritável... mais velha. Não olhou para ele.
- Os miúdos contaram-te? Que a Suzy fugiu? Passei a zona a pente fino. Procurei por todo o lado, juro - disse ela.
- A cadela vai aparecer - disse ele. - Deve andar a passear por aí. A cadela vai aparecer -disse ele.
- Falando a sério - disse ela, voltando-se para ele com as mãos na cintura -, acho que aconteceu outra coisa qualquer. Acho que talvez tenha sido atropelada. Gostava que fosses dar uma volta de carro. Os miúdos chamaram-na a noite passada e nessa altura já tinha fugido. Nunca mais foi vista. Telefonei para o canil e dei-lhes a descrição, mas disseram-me que ainda faltavam chegar alguns camiões com cães. Fiquei de telefonar novamente amanhã de manhã.
Ele foi para a casa de banho e continuou ainda a ouvi-la a falar. Começou a encher o lavatório com água, perguntando a si mesmo, e sentindo uma coisa esquisita no estômago, até que ponto o seu erro tinha sido grave. Quando fechou as torneiras continuou a ouvir a voz dela. Não tirou os olhos do lavatório.
- Ouviste o que eu disse? - gritou ela. - Quero que vás procurá-la de carro, depois do jantar. Os miúdos podem ir contigo e ajudar a procurá-la... Al?
- Sim, sim - respondeu ele.
- O quê? - perguntou ela. - O que é que disseste?
- Disse que sim. Sim! Está bem. Como quiseres. Deixa-me lavar primeiro, está bem?
Ela olhou da cozinha.
- Afinal, que bicho te mordeu? Não te pedi que apanhasses uma bebedeira a noite passada, pois não? Estou farta, deixa-me dizer-te! Se queres saber, tive um dia infernal. O Alex acordou às cinco da manhã para se meter na cama comigo, a dizer que o papá estava a ressonar tão alto que... que o assustaste. Eu vi-te lá no quarto, a dormir com a roupa vestida e cheirando que tresandavas. Deixa que te diga, estou farta! - Olhou rapidamente à volta da cozinha, como se fosse agarrar em qualquer coisa.
Ele fechou a porta com um pontapé. Estava a ir tudo por água abaixo. Enquanto se barbeava, parou uma vez, agarrou na lâmina e olhou para a sua imagem ao espelho: o rosto embaciado, sem carácter... imoral, era a palavra certa. Pousou a lâmina de barbear. «Acho que cometi o pior erro da minha vida. Acho que cometi o pior erro de todos.» Levou a lâmina ao pescoço e acabou de se barbear.

Não tomou duche, nem mudou de roupa.
- Põe o meu jantar no formo. Ou no frigorífico. Já! - disse ele.
- Podes esperar até depois do jantar. Os miúdos podem ir contigo.
- Não. Que se lixe. Deixa os miúdos jantarem e, se quiserem, procurarem por aqui à volta. Não tenho fome e não tarda a escurecer.
- Estão todos a perder o juízo? - disse ela. - Não sei o que nos vai acontecer. Estou à beira duma depressão nervosa. Estou quase a dar em louca. O que é que vai acontecer às crianças se eu ficar louca? - Deixou-se cair sobre o escorredouro da loiça, o rosto enrugado e as lágrimas a correrem pela cara abaixo.
- De qualquer maneira, não gostas deles. Nunca gostaste! Não é a cadela que me preocupa... somos nós! Eu sei que já não me amas - raios te partam! - mas nem ao menos gostas das crianças.
- Betty, Betty! - disse ele. - Meu Deus! Vai correr tudo bem, prometo - disse ele. - Não te preocupes. Prometo-te que as coisas vão correr bem. Vou encontrar a cadela e as coisas vão correr bem - acrescentou ele.
Saiu disparado de casa e escondeu-se rapidamente por detrás dos arbustos, quando ouviu os miúdos aproximarem-se: a garota a chorar e a dizer «Suzy, Suzy» e o rapaz a dizer que talvez ela tivesse sido apanhada por um comboio. Quando voltaram a entrar em casa, ele correu para o carro.
Mostrou-se inquieto em todos os semáforos em que teve de parar, sentindo um ressentimento amargo quando parou para meter gasolina. O Sol estava baixo e pesado, mesmo por cima da atarracada cordilheira de colinas ao fundo do vale. Na melhor das hipóteses, tinha uma hora de luz.
Viu a sua vida, daqui em diante, como uma completa ruína. Mesmo que vivesse mais cinquenta anos, do que duvidava, nunca iria esquecer o facto de ter abandonado a cadela. Sentiu que, se não encontrasse a cadela, tinha chegado ao fim. Um homem que era capaz de se desfazer dum cão não prestava para nada. Esse tipo de homem era capaz de tudo, de não se controlar perante nada.
Remexeu-se no banco, não tirando os olhos da face inchada do Sol que se ia pondo por detrás das colinas. Sabia que a situação era agora irremediável, mas não podia fazer nada. Sabia que tinha de reaver a cadela a todo o custo, da mesma maneira que, na noite anterior, soubera que tinha de a abandonar.
«Eu é que estou a dar em louco», disse para consigo próprio, acenando com a cabeça num gesto de concordância.

Desta vez, entrou pelo lado oposto, junto ao campo onde a tinha largado, alerta a qualquer sinal de movimento.
- Deus queira que ainda aqui esteja - disse ele.
Parou o carro e começou a pesquisar o campo. Depois, lentamente, recomeçou a conduzir. No caminho de entrada para a casa solitária estava estacionada uma carrinha com o motor desligado, e ele viu uma mulher bem vestida, de saltos altos, sair pela porta da frente acompanhada por uma miudinha. Olharam quando ele passou. Mais adiante, virou à esquerda, os olhos a perscrutarem os quintais de ambos os lados, tão longe quanto a vista alcançava. Nada. A um quarteirão de distância estavam dois garotos com as bicicletas encostadas a um carro parado.
-Olá - disse ele para os rapazes, enquanto parava o carro mais à frente. - Vocês viram hoje qualquer coisa parecida com um cachorrinho branco por estes lados? Qualquer coisa parecida com um cão branco felpudo? É que eu perdi um assim.
Um dos rapazes limitou-se a olhar para ele. O outro disse:
- Eu vi uma quantidade de miúdos a brincarem com um cão hoje à tarde, ali adiante. Na rua ao lado desta. Não sei de que raça era o cão. Talvez fosse branco. Era uma quantidade de miúdos.
- Okay, certo. Obrigado - disse Al. - Muito e muito obrigado. Virou à direita, no fundo da rua. Concentrou-se na rua em frente.
O Sol já se tinha posto. Estava quase escuro. Casas lado a lado, árvores, relvados, cabinas telefónicas, carros estacionados... tudo aquilo lhe pareceu sereno, tranquilo. Ouviu uma voz de homem a chamar os filhos, viu uma mulher de avental aparecer à porta iluminada da casa.
Ainda terei alguma possibilidade? - disse Al. Sentiu lágrimas nos olhos. Estava espantado. Não pôde evitar um sorriso e abanou a cabeça, enquanto tirava um lenço do bolso. Depois, viu um grupo de crianças a descer a rua. Acenou com o braço para lhes chamar a atenção.
- Vocês viram um cachorrinho branco? - perguntou-lhes Al.
Oh, claro - disse um dos rapazes. - O cão é seu?
Al acenou a cabeça.
- Estivemos a brincar com ele há cerca dum minuto, ao fundo da rua. No quintal do Terry. - O rapaz apontou com o dedo. - Ao fundo da rua.
- O senhor tem filhos? - perguntou uma garota.
- Tenho - disse Al.
- O Terry diz que vai ficar com ele. Ele não tem cão - disse o rapaz.
- Olha que não sei - disse Al. - Acho que os meus filhos não iriam gostar. O cão é deles, só que se perdeu - disse Al.
Desceu a rua com o carro. Já estava escuro, era difícil ver e ele começou a entrar em pânico outra vez, praguejando silenciosamente. Amaldiçoou-se por ser um cata-vento, sempre a mudar de ideias; uma coisa neste momento, outra no seguinte.
Foi então que viu a cadela. Percebeu que já há algum tempo que estava a olhar para ela. A cadela movia-se lentamente, farejando a relva junto à vedação. Al saiu do carro, atravessou o relvado, inclinado para a frente, chamando: «Suzy, Suzy, Suzy.»
A cadela parou quando o viu. Levantou a cabeça. Ele baixou-se de cócoras e ficou à espera, de braço estendido. Olharam um para o outro. Ela deu ao rabo, em sinal de saudação. Estendeu-se ao comprido, com o focinho entre as patas. Ele ficou à espera. Ela levantou-se. Deu a volta à vedação e perdeu-se de vista.
Ele ficou ali sentado. Pensou que, bem vistas as coisas, não se sentia muito mal com a sua consciência. O mundo estava cheio de cães. Havia cães e havia cães. Com alguns cães não havia nada a fazer.


Raymond Carver
Queres Fazer o Favor de te Calares
trad. Carlos Santos
Teorema
2004

Bukowski

"É uma pena os cães não irem para o céu," disse o Frank.
"Porquê?"
"Tens que ser baptizado para ir para o céu."
"Devíamos baptizá-lo."
"Achas?"
"Ele merece uma hipótese de ir para o céu."
Peguei nele e entrámos na igreja. Levámo-lo à pia baptismal e peguei nele enquanto o Frank o borrifava na testa com água.
"Eu te baptizo," disse o Frank.
Levámo-lo para fora e colocámo-lo no chão outra vez.
"Até parece que está diferente", disse eu.

Charles Bukowski, Ham on Rye, Ecco: New York, 2002
versão de manuel a. domingos

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A TODOS O QUE É DE CÉSAR

João César Monteiro

terça-feira, 29 de julho de 2008

Que claro ser o desta pedra
que abandonada ao sol
nem sequer se revolta ou estremece.
Quando passo junto dela,
porém, escuto os seu latidos.

Sei que dentro dorme um cão,
um nardo, a vulva, o anjo.

Manuel Moya, Quarto Com Ilhas, Livrododia.
Tradução de Rui Costa


Oferecido por manuel a. domingos.

terça-feira, 8 de julho de 2008

ANTES - DEPOIS

Antes vã grandeza
de coroas ornada
depois a nudez
por ninguém tapada.

Antes em trovões,
em êxtase e fumo,
depois as razões:
podias mas como?

De ilusões inanes,
fim. Diz sem calor:
Domini canes -
cães do Senhor.

Gottfried Benn
50 Poemas
Trad. Vasco Graça Moura

segunda-feira, 7 de julho de 2008

CÃO

O facto de o cão ser fiel ao homem não quer dizer que ele aprove as acções do dono.

(Carlos Drummond de Andrade; citado em Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 2 – Julho/Setembro 1998)

Oferecido por Rui Almeida

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