Flores de artifício, dois rabos,
corneta e orelha. É só pegar
o silêncio pelos cornos. Não percas
na largada, pamplona, o desassossego
do inimigo rente a nós, ideia do quanto
tudo é mais relativo.
Há bodes pelo telhado, rafeiros
roendo a sombra às concertinas, e tanta,
tanta lenha nova sem pegar.
Todos tão vivaços, invencíveis da vida,
viciados em triunfo, comezaina
e mulheres de companhia. Curral
duplex, o obscuro na faena em si.
Rui Baião, Nuez, Lisboa: frenesi, 2003.
Oferecido pelo manuel a. domingos.
Antologia de textos com cães dentro.
quinta-feira, 5 de março de 2009
quarta-feira, 4 de março de 2009
O CARNAVAL DOS ANIMAIS
CÃES - 1
Como o faria um amigo, ou um inimigo, ou um
estranho, olhamo-nos como olham os cães
CÃES - 2
Dormem uns em cima dos outros
no bom aconchego uns dos outros
Assim nem precisam de sonhar
CÃES - 3
Cães de guarda, cães de luta, caniches das estrelas
de Hollywood - parece que no vasto labirinto
das espécies alguma dignidade se perdeu
Rui Caeiro
O Carnaval dos Animais
Letra Livre
Outubro de 2008
Como o faria um amigo, ou um inimigo, ou um
estranho, olhamo-nos como olham os cães
CÃES - 2
Dormem uns em cima dos outros
no bom aconchego uns dos outros
Assim nem precisam de sonhar
CÃES - 3
Cães de guarda, cães de luta, caniches das estrelas
de Hollywood - parece que no vasto labirinto
das espécies alguma dignidade se perdeu
Rui Caeiro
O Carnaval dos Animais
Letra Livre
Outubro de 2008
12
Onde é que eu ia? Não ia, parece.
Embora tenha ficado um bocado perplexo quando levantei o lençol de água para ver o cão e, em vez dessa evocação clássica, se me deparou uma chusma de pintores chuchando-lhe a carcaça ensanguentada.
Depois encostaram uma escada para o lado, digamos, de fora da moldura, por onde desciam os mais satisfeitos.
Arrotando no espaço da tua distracção, prossegui.
Jorge Fallorca
Água Tatuada
&etc
Março 1999
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
ELUCIDÁRIO
Cachorro
Quente, é pão com salsicha; frio, novelo de pêlo a dormitar ao lume.
Cães de circo
Raça de canídeos com dois pezinhos.
Cão
Um rabo a sorrir.
Cão de Castro Laboreiro
Se deixarmos levar o que é nosso, não é por falta de guarda.
Galgo
Cão escanzelado, mas não de fome; é de feitio mesmo assim.
Ur e o dono
Vejo-os com frequência. Ur, marfim dos dentes a reluzir, trela tensa presa à coleira; na outra ponta o dono, ar de boneco de pau, cabeça aparafusada directamente no tronco. E a cara, meu Deus, máscara eternamente a rir, olhos azuis.
Noutro dia, os dois por dentro do passeio, eu na borda, passando. Sorrateira, pareceu-me, a tensão da trela aliviou. Sem um latido, o canídeo fez-se ao salto, dentes frenados num esticão rente ao meu braço. E sentou-se a olhar-me por detrás da dentuça frustrada, de viés eu a entrever o dono em ridentes ameaços de castigo. Por Ur ter tentado ou por ter falhado o golpe?
Zurros
De repente, surdiu um vento suão que ensandeceu os bichos. E as galinhas começaram aos coaxos. Sobressaltados, os cães desalmaram-se em relinchos, os porcos em ão ãos desesperados, rãs aos cacarejos, cavalos a grunhir.
- Está tudo doido! – disse de si para si o lavrador.
Tanto bastou para que o vento amainasse, a ordem se restabelecesse: cacarejantes as galinhas, os cavalos aos relinchos, os cães a ladrar, os patos a grasnar, os porcos a grunhir, as rãs aos coaxos.
Enorme banzé!
Incomodado, o lavrador foi-se sem dizer palavra, a mastigar chilreios, misto de rugidos e grugulejos, espécie de uns zurros.
Augusto Baptista
ElucidárioOblíquoDoReinoDosBichosParaCriançasDeTôdalasIdadesFábulasParlengasMofasEnsinançasLuminosasDeAaZComNoventaENoveDesenhosRecomendadoPelaLigaDeDefesaDasLínguasEmPerigoD'Extinção&SuasFaunas
Gatopardo, 2004
Oferecido por Rui Almeida.
Quente, é pão com salsicha; frio, novelo de pêlo a dormitar ao lume.
Cães de circo
Raça de canídeos com dois pezinhos.
Cão
Um rabo a sorrir.
Cão de Castro Laboreiro
Se deixarmos levar o que é nosso, não é por falta de guarda.
Galgo
Cão escanzelado, mas não de fome; é de feitio mesmo assim.
Ur e o dono
Vejo-os com frequência. Ur, marfim dos dentes a reluzir, trela tensa presa à coleira; na outra ponta o dono, ar de boneco de pau, cabeça aparafusada directamente no tronco. E a cara, meu Deus, máscara eternamente a rir, olhos azuis.
Noutro dia, os dois por dentro do passeio, eu na borda, passando. Sorrateira, pareceu-me, a tensão da trela aliviou. Sem um latido, o canídeo fez-se ao salto, dentes frenados num esticão rente ao meu braço. E sentou-se a olhar-me por detrás da dentuça frustrada, de viés eu a entrever o dono em ridentes ameaços de castigo. Por Ur ter tentado ou por ter falhado o golpe?
Zurros
De repente, surdiu um vento suão que ensandeceu os bichos. E as galinhas começaram aos coaxos. Sobressaltados, os cães desalmaram-se em relinchos, os porcos em ão ãos desesperados, rãs aos cacarejos, cavalos a grunhir.
- Está tudo doido! – disse de si para si o lavrador.
Tanto bastou para que o vento amainasse, a ordem se restabelecesse: cacarejantes as galinhas, os cavalos aos relinchos, os cães a ladrar, os patos a grasnar, os porcos a grunhir, as rãs aos coaxos.
Enorme banzé!
Incomodado, o lavrador foi-se sem dizer palavra, a mastigar chilreios, misto de rugidos e grugulejos, espécie de uns zurros.
Augusto Baptista
ElucidárioOblíquoDoReinoDosBichosParaCriançasDeTôdalasIdadesFábulasParlengasMofasEnsinançasLuminosasDeAaZComNoventaENoveDesenhosRecomendadoPelaLigaDeDefesaDasLínguasEmPerigoD'Extinção&SuasFaunas
Gatopardo, 2004
Oferecido por Rui Almeida.
XIII
INTERIOR DE UMA mansarda. O POETA, deitado no catre, medita de olhos semicerrados. Na única cadeira existente, o CÃO. Atrás da porta está pendurada uma gaiola e, dentro da gaiola, o canário enlanguesce. É absolutamente necessário que o pássaro não dê nem um trinado durante todo o tempo que dure este primeiro, único e brevíssimo acto, pelo que se recomenda a utilização de um canário embalsamado ou de pano.
CÃO – Ouve.
POETA – (Sem mudar de posição.) O que é?
CÃO – Tenho fome.
POETA – Eu também, mas não penso nisso.
CÃO – E os ossos de ontem?
POETA – Foram-se.
CÃO – Sozinhos?
POETA – Sozinhos.
CÃO – Como foi isso?
POETA – Foi esta manhã, quando estavas na rua. O miúdo da porteira pôs-se a tocar o seu tambor de folha. Então os ossos levantaram-se e foram-se embora a desfilar três a três.
CÃO – Seriam ossos de soldados.
POETA – Foi precisamente isso que pensei. Não há muito tempo, parece-me, houve uma guerra.
Silêncio. O CÃO volta a apoiar a cabeça entre as patas e o POETA suspira profundamente.
Javier Tomeo
Histórias mínimas
Tradução de Maria Dulce Teles de Menezes e Salvato Teles de Menezes
Livros Horizonte, 1992
Oferecido por Rui Almeida.
CÃO – Ouve.
POETA – (Sem mudar de posição.) O que é?
CÃO – Tenho fome.
POETA – Eu também, mas não penso nisso.
CÃO – E os ossos de ontem?
POETA – Foram-se.
CÃO – Sozinhos?
POETA – Sozinhos.
CÃO – Como foi isso?
POETA – Foi esta manhã, quando estavas na rua. O miúdo da porteira pôs-se a tocar o seu tambor de folha. Então os ossos levantaram-se e foram-se embora a desfilar três a três.
CÃO – Seriam ossos de soldados.
POETA – Foi precisamente isso que pensei. Não há muito tempo, parece-me, houve uma guerra.
Silêncio. O CÃO volta a apoiar a cabeça entre as patas e o POETA suspira profundamente.
Javier Tomeo
Histórias mínimas
Tradução de Maria Dulce Teles de Menezes e Salvato Teles de Menezes
Livros Horizonte, 1992
Oferecido por Rui Almeida.
UM GIRASSOL
Poli-Maluco era o meu cão alentejano. Que morreu ontem num dia lindo de sol, com as flores a sorrir das suas cabriolas, com os pássaros a fazerem voo picado sobre as suas orelhas-capacho.
Poli-Maluco era livre de mais para viver: trouxera-o lá do Alentejo, cão de caça, cão de guarda, cão de tudo, cão sem raça, feio e farrusco. Um proletário de cabelos aos arrepios. Para meus filhos: «Pói-Maúco». Para mim: «Pói-meus-filhos».
Tinha um ano de idade: era um cão-garoto, cão-brincalhão, cão-cambalhotas. À tardinha, quando eu voltava do emprego, Poli-Maluco ia esperar-me à camioneta e dava sempre um festival de gracinhas para dono ver: corria como um bólide depois fazia uma travagem brusca no cimento e ficava a patinar uma mão cheia de metros. A seguir voltava aos saltos até ficar pendurado no meu peito, agarrado à camisola. Deitava-se no chão, dois metros adiante de mim, de barriga para o ar, a bater as patinhas: a bater palminhas.
Poli-Maluco tinha tais ganas de ver tudo, de correr tudo, de saber tudo, que parecia adivinhar quanto o tempo da sua vida tinha sido condicionado: meu querido Pói-Maúco era alegre de mais para viver. Meu querido Pói-Maúco era livre de mais para viver: morreu ontem esmagado pelos degredados do cem à hora, pelos prisioneiros da vaidade cromada, numa florida estrada dos arredores de Sintra: Pói-Maúco estava lá do outro lado a brincar com as borboletas e pinga-azeites e de repente deve ter sentido desejos de me falar.
Ficou estendido a meio do caminho: - naquela clara nesga dum trajecto que vai duma borboleta à amizade.
Eduardo Olímpio
Um girassol chamado Beatriz
1975
Oferecido por Rui Almeida.
Poli-Maluco era livre de mais para viver: trouxera-o lá do Alentejo, cão de caça, cão de guarda, cão de tudo, cão sem raça, feio e farrusco. Um proletário de cabelos aos arrepios. Para meus filhos: «Pói-Maúco». Para mim: «Pói-meus-filhos».
Tinha um ano de idade: era um cão-garoto, cão-brincalhão, cão-cambalhotas. À tardinha, quando eu voltava do emprego, Poli-Maluco ia esperar-me à camioneta e dava sempre um festival de gracinhas para dono ver: corria como um bólide depois fazia uma travagem brusca no cimento e ficava a patinar uma mão cheia de metros. A seguir voltava aos saltos até ficar pendurado no meu peito, agarrado à camisola. Deitava-se no chão, dois metros adiante de mim, de barriga para o ar, a bater as patinhas: a bater palminhas.
Poli-Maluco tinha tais ganas de ver tudo, de correr tudo, de saber tudo, que parecia adivinhar quanto o tempo da sua vida tinha sido condicionado: meu querido Pói-Maúco era alegre de mais para viver. Meu querido Pói-Maúco era livre de mais para viver: morreu ontem esmagado pelos degredados do cem à hora, pelos prisioneiros da vaidade cromada, numa florida estrada dos arredores de Sintra: Pói-Maúco estava lá do outro lado a brincar com as borboletas e pinga-azeites e de repente deve ter sentido desejos de me falar.
Ficou estendido a meio do caminho: - naquela clara nesga dum trajecto que vai duma borboleta à amizade.
Eduardo Olímpio
Um girassol chamado Beatriz
1975
Oferecido por Rui Almeida.
(excerto de) Centauro
(…) Tem sede, muita sede, mas ali não há sinal de água. O homem olha para trás e vê que metade do céu está já coberto de nuvens. O sol ilumina o bordo nítido de um grande nimbo cinzento que avança.
É nesse momento que ouve ladrar um cão. O cavalo estremece de nervosismo. O centauro lança-se a galope entre duas colinas, mas o homem não perde o sentido: seguir na direcção do sul. O ladrar está mais perto, e ouve-se também um tilintar de campainhas e depois uma voz falando a gado. O centauro parou para se orientar, porém os ecos enganaram-no e, de súbito, num terreno baixo e húmido inesperado, aparece-lhe um rebanho de cabras e à frente dele um grande cão. O centauro estacou. Algumas das cicatrizes que lhe riscavam o corpo, devia-as aos cães. O pastor deu um grito espavorido e largou a fugir, como louco. Chamava em altos berros: devia haver uma povoação ali perto. O homem dominou o cavalo e avançou. Arrancou um ramo forte de um arbusto para afastar o cão, que se estrangulava a ladrar, de fúria e medo. Mas foi a fúria que prevaleceu: o cão ladeou rapidamente umas pedras e tentou apanhar o centauro de flanco, pelo ventre. O homem quis olhar para trás, ver donde vinha o perigo, mas o cavalo antecipou-se, e rodando veloz sobre as patas da frente, desferiu um violento coice que apanhou o cão no ar. O animal foi bater contra as pedras, morto. Não era a primeira vez que o centauro se defendia assim, mas de todas as vezes o homem se sentia humilhado. No seu próprio corpo batia a ressaca da vibração geral dos músculos, a vaga de energia que deflagrava, ouvia o bater surdo dos cascos, mas estava de costas voltadas para a batalha, não era parte nela, espectador quando muito.
(…)
José Saramago
Objecto Quase
1978
Oferecido por Rui Almeida.
É nesse momento que ouve ladrar um cão. O cavalo estremece de nervosismo. O centauro lança-se a galope entre duas colinas, mas o homem não perde o sentido: seguir na direcção do sul. O ladrar está mais perto, e ouve-se também um tilintar de campainhas e depois uma voz falando a gado. O centauro parou para se orientar, porém os ecos enganaram-no e, de súbito, num terreno baixo e húmido inesperado, aparece-lhe um rebanho de cabras e à frente dele um grande cão. O centauro estacou. Algumas das cicatrizes que lhe riscavam o corpo, devia-as aos cães. O pastor deu um grito espavorido e largou a fugir, como louco. Chamava em altos berros: devia haver uma povoação ali perto. O homem dominou o cavalo e avançou. Arrancou um ramo forte de um arbusto para afastar o cão, que se estrangulava a ladrar, de fúria e medo. Mas foi a fúria que prevaleceu: o cão ladeou rapidamente umas pedras e tentou apanhar o centauro de flanco, pelo ventre. O homem quis olhar para trás, ver donde vinha o perigo, mas o cavalo antecipou-se, e rodando veloz sobre as patas da frente, desferiu um violento coice que apanhou o cão no ar. O animal foi bater contra as pedras, morto. Não era a primeira vez que o centauro se defendia assim, mas de todas as vezes o homem se sentia humilhado. No seu próprio corpo batia a ressaca da vibração geral dos músculos, a vaga de energia que deflagrava, ouvia o bater surdo dos cascos, mas estava de costas voltadas para a batalha, não era parte nela, espectador quando muito.
(…)
José Saramago
Objecto Quase
1978
Oferecido por Rui Almeida.
domingo, 4 de janeiro de 2009
VAI-TE CÃO DAS NOITES
o mar retirou-se intacto do sangue dos grandes polvos que jazem nas areias
na paisagem desfeita e sempre a refazer procuro
lembranças da maré uma flor de água um rumor de furor
mas há demasiadas pistas confusas caravanas
demasiados sóis empalando nas árvores o seu rancor
demasiados portulanos mentirosos que se afundam
nas linhas de crista eternas divergentes
das formigas gigantes que vão pulindo os ossos
deste silêncio fogoso da boca desta areia
apenas surgirão os dentes cariados da mata ressequida
raiva de um solstício insólito ardente fulvo nas margens da barbárie de um mar tão vacilante
vai-te cão das noites vai-te
inesperado e magno em minhas têmporas
sangrando seguras entre os dentes
a carne que me é fácil de mais reconhecer
Aimé Césaire
Antologia Poética
Trad. Armando da Silva Carvalho
Dom Quixote
1970
na paisagem desfeita e sempre a refazer procuro
lembranças da maré uma flor de água um rumor de furor
mas há demasiadas pistas confusas caravanas
demasiados sóis empalando nas árvores o seu rancor
demasiados portulanos mentirosos que se afundam
nas linhas de crista eternas divergentes
das formigas gigantes que vão pulindo os ossos
deste silêncio fogoso da boca desta areia
apenas surgirão os dentes cariados da mata ressequida
raiva de um solstício insólito ardente fulvo nas margens da barbárie de um mar tão vacilante
vai-te cão das noites vai-te
inesperado e magno em minhas têmporas
sangrando seguras entre os dentes
a carne que me é fácil de mais reconhecer
Aimé Césaire
Antologia Poética
Trad. Armando da Silva Carvalho
Dom Quixote
1970
IDEIAS FEITAS
CÃO – Especialmente criado para salvar a vida do dono. O cão é o melhor amigo do homem.
DEDICAÇÃO – Lamentar-se de que não existe nos outros. «A este respeito, somos muito inferiores ao cão!»
FIEL – Inseparável de amigo e de cão. Não deixar de citar os dois versos: «Sim, pois que encontro um amigo tão fiel / A minha sorte…» etc.
Gustave Flaubert
Dicionário de ideias feitas
Tradução de João da Fonseca Amaral
Editorial Estampa, 1974
sábado, 20 de dezembro de 2008
A SIBERIANA
Tenho um favor para te pedir", disse Deus
O cão não disse nada mas cheirou a contentamento e Deus apercebeu-se que nos seus pensamentos, o animal O considerava "o Grande e Odorífico Pai de todas as Matilhas".
" Queres cumprir uma missão na Terra? Eu sei que não é agradável, mas há alguém que precisa de consolo na aflição, quem sabe se de um Anjo da Guarda?"
O cão abanou a cauda suavemente, havia nele curiosidade e um leve odor de receio. Depois levantou-se decidido, deu um pequena volta a guardar memórias das flores e das minúsculas árvores, bebeu um gole na cascata, abanou uma vez mais a cauda em frente ao monge budista e dirigiu-se para a porta onde se sentou à espera.
Deus transformou-o um pouco, deu-lhe a idade apropriada, uma forma indecisa, vagamente de perdigueiro, toco-lhe por um instante no focinho e acompanhou-o a uma das múltiplas portas para a Terra. Umas almas vinham a subir, Deus saudou-as, e encaminhou-as para Pedro que, nos primeiros momentos de eternidade os acompanhava.
Depois ficou a ver.
Maria da Luz ia pela rua abaixo, quase a entrar no carro
Deus aproveitou para dar uma endireitadela numa peça do Amarelinho que estava prestes a partir-se, fez recuar mais duas ou três no tempo para ficarem como novas
Um perdigueiro de olhos sábios mas alegres
"Terá dois meses"? ouviu-a interrogar-se, " de quem será?"
E uma vizinha a explicar do conforto da sua janela onde secava abundante roupa interior de chamativas cores:
"Deve andar perdido, já anda aí às voltas desde manhãzinha. Parece que gostou da menina, não deixou ninguém tocar-lhe... andaram aí uns miúdos que o queriam levar..."
E o rafeiro deu à cauda agitadamente, com o corpo todo a gingar à volta de Maria da Luz e dentadinhas amorosas nos sapatos, as unhas aceradas a furar malhas nas meias de lycra..
Quando a viu baixar-se,
Para afagar, um tanto desajeitada, havia que concordar, o pequeno pedaço de cachorro orelhudo, e dizer para a vizinha
"Se alguém perguntar por ele, se faz favor, diga que sou eu quem o tem..."
Depois, enfim, pegar no refeirito ao colo para entrar com ele no Amarelinho – que pegou primeira e já não fazia aquele ruído esquisito, estranhou Maria da Luz,
Deus suspirou.
Rui da Costa Lopes
A Siberiana
Cãmara Municipal de Sintra
(Prémio Ferreira de Castro 1997)
Oferecido por Ana Gomes Ferreira.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
SONETOS PARA OS AMIGOS MORTOS
III
Morreste como um cão foste abatido
Um dia frente aos olhos da tv
Que a polícia se fez co’o teu destino
Por um premeditado sei lá quê
Como um cão como um rato como um chino
Como um preto um judeu ganhão maltês
«Dispara dá-lhe cabo do cortiço»
Dizia a viril morte que te fez
Morrer completamente em todo o chão
Fez a morte de novo obra acabada
Matou duma só vez todo o teu não
E mais que tudo não te deixou nada
Pra levares contigo no caixão
Teu último pendão e barricada
Manuel Resende
O mundo clamoroso, ainda
Angelus Novus
2004
Morreste como um cão foste abatido
Um dia frente aos olhos da tv
Que a polícia se fez co’o teu destino
Por um premeditado sei lá quê
Como um cão como um rato como um chino
Como um preto um judeu ganhão maltês
«Dispara dá-lhe cabo do cortiço»
Dizia a viril morte que te fez
Morrer completamente em todo o chão
Fez a morte de novo obra acabada
Matou duma só vez todo o teu não
E mais que tudo não te deixou nada
Pra levares contigo no caixão
Teu último pendão e barricada
Manuel Resende
O mundo clamoroso, ainda
Angelus Novus
2004
domingo, 23 de novembro de 2008
DICIONÁRIO DO DIABO
APAZIGUAR, v. Chamar «cãozinho» a um buldogue quando este se encontra firmemente agarrado à nossa retaguarda.
CÃO, n. Uma espécie de Divindade subsidiária ou adicional, concebida para receber os excedentes da adoração mundial. Este Ser Divino, nalgumas das suas encarnações mais pequenas e macias, ocupa no coração da Mulher o lugar ao qual nenhum macho humano pode aspirar.
CÉRBERO, n. O cão de guarda do Hades, que tinha por dever proteger a sua entrada – não se percebendo claramente contra quê ou quem a guardava ele, pois toda a gente, mais cedo ou mais tarde, tinha de passar por ela, e também ninguém tinha vontade de forçar a entrada.
EFEITO, n. O segundo de dois fenómenos que ocorrem sempre juntos e na mesma ordem. Do primeiro, ao qual se chama Causa, diz-se que gera o segundo – o que é tão sensato como dizer-se que, por se ter visto um cão a perseguir um coelho, o coelho é a causa do cão.
MEDICAMENTO, n. Uma pedra atirada para o Cais do Sodré com o objectivo de matar um cão no Rossio.
RAFEIRO, n. O grau mais baixo na hierarquia dos cães.
REDUNDANTE, adj. Supérfluo; desnecessário; de trop.
Diz o sultão: «Há evidência abundante
De que este cão infiel é redundante.»
Responde o Grão-Vizir, com pose altiva:
«A sua cabeça, pelo menos, parece excessiva.»
Habeeb Suleiman
REVERÊNCIA, n. A atitude espiritual do homem perante Deus e do cão perante o homem.
ZEUS, n. O chefe dos deuses gregos, adorado pelos Romanos como Júpiter e pelos americanos modernos como Deus, Ouro, Populaça e Cão. Alguns exploradores que atingiram a costa da América, assim como um que garante ter percorrido uma distância considerável até ao interior, pensaram que estes quatro nomes designavam quatro divindades distintas; mas na sua obra monumental sobre Crenças Sobreviventes, Frumpp insiste na ideia de que os nativos são monoteístas, não tendo cada um deles qualquer outro deus que não ele próprio, o qual adora sob inúmeros nomes sagrados.
Ambrose Bierce
Dicionário do Diabo
Tradução de Rui Lopes
Tinta da China, 2006
CÃO, n. Uma espécie de Divindade subsidiária ou adicional, concebida para receber os excedentes da adoração mundial. Este Ser Divino, nalgumas das suas encarnações mais pequenas e macias, ocupa no coração da Mulher o lugar ao qual nenhum macho humano pode aspirar.
CÉRBERO, n. O cão de guarda do Hades, que tinha por dever proteger a sua entrada – não se percebendo claramente contra quê ou quem a guardava ele, pois toda a gente, mais cedo ou mais tarde, tinha de passar por ela, e também ninguém tinha vontade de forçar a entrada.
EFEITO, n. O segundo de dois fenómenos que ocorrem sempre juntos e na mesma ordem. Do primeiro, ao qual se chama Causa, diz-se que gera o segundo – o que é tão sensato como dizer-se que, por se ter visto um cão a perseguir um coelho, o coelho é a causa do cão.
MEDICAMENTO, n. Uma pedra atirada para o Cais do Sodré com o objectivo de matar um cão no Rossio.
RAFEIRO, n. O grau mais baixo na hierarquia dos cães.
REDUNDANTE, adj. Supérfluo; desnecessário; de trop.
Diz o sultão: «Há evidência abundante
De que este cão infiel é redundante.»
Responde o Grão-Vizir, com pose altiva:
«A sua cabeça, pelo menos, parece excessiva.»
Habeeb Suleiman
REVERÊNCIA, n. A atitude espiritual do homem perante Deus e do cão perante o homem.
ZEUS, n. O chefe dos deuses gregos, adorado pelos Romanos como Júpiter e pelos americanos modernos como Deus, Ouro, Populaça e Cão. Alguns exploradores que atingiram a costa da América, assim como um que garante ter percorrido uma distância considerável até ao interior, pensaram que estes quatro nomes designavam quatro divindades distintas; mas na sua obra monumental sobre Crenças Sobreviventes, Frumpp insiste na ideia de que os nativos são monoteístas, não tendo cada um deles qualquer outro deus que não ele próprio, o qual adora sob inúmeros nomes sagrados.
Ambrose Bierce
Dicionário do Diabo
Tradução de Rui Lopes
Tinta da China, 2006
Oferecido por Rui Almeida.
ALEGRIA BREVE
– Come!
Ele hesita, sem perceber: que faço eu ali na posição de tiro?
– Come, estupor! – berro alucinado.
Assusta-se, dá um pequeno salto de recuo. Então comovo-me, não por pena dele – pena por quem?
– Come, Médor! – repito com doçura.
Come em esperança o alimento da vida. Estamos fora do tempo e do mundo, na paragem breve ou longa para o balanço de um recomeço possível. Ninguém nos vê, tudo em nós é gratuito, separado de uma coordenação. O que se passa entre nós não tem leis que o classifiquem, um sinal que o distinga. É um acto absoluto e vazio – um acto de vida. Médor olha-me ainda, a interrogar. Olha de baixo, do fundo do seu medo e da sua estupefacção. Nesse instante-limite, tudo quanto lhe é da vida passada e futura vem à superfície aguada dos seus olhos. Quero que ele coma, não o posso matar em aflição. Espero que se decida, ponho a espingarda em descanso. O mundo espera comigo.
– Come, Médor!
Vergílio Ferreira, Alegria Breve (excerto), Lisboa: Bertrand, 7ª edição, 2004, p. 147
Ele hesita, sem perceber: que faço eu ali na posição de tiro?
– Come, estupor! – berro alucinado.
Assusta-se, dá um pequeno salto de recuo. Então comovo-me, não por pena dele – pena por quem?
– Come, Médor! – repito com doçura.
Come em esperança o alimento da vida. Estamos fora do tempo e do mundo, na paragem breve ou longa para o balanço de um recomeço possível. Ninguém nos vê, tudo em nós é gratuito, separado de uma coordenação. O que se passa entre nós não tem leis que o classifiquem, um sinal que o distinga. É um acto absoluto e vazio – um acto de vida. Médor olha-me ainda, a interrogar. Olha de baixo, do fundo do seu medo e da sua estupefacção. Nesse instante-limite, tudo quanto lhe é da vida passada e futura vem à superfície aguada dos seus olhos. Quero que ele coma, não o posso matar em aflição. Espero que se decida, ponho a espingarda em descanso. O mundo espera comigo.
– Come, Médor!
Vergílio Ferreira, Alegria Breve (excerto), Lisboa: Bertrand, 7ª edição, 2004, p. 147
Oferecido por manuel a. domingos
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Eis a casa nova a prisão
disfarçada de refúgio aqui
te prendem os fios tecidos por ti
agora não podes fugir
cão solitário sem destino não é possível
devolver-te à procedência
és uma carta sem paradeiro certo
estás morto ou és endereço errado
é neste lar prisão que deves ficar
é aqui o teu último destino certo
pelo menos ninguém aqui virá
reclamar-te por teres certo valor
não tens nem o sonho de o vir a ter
a ração é feita de sons e de sonhos
de cão a enxerga de palha molhada
quando vier calor seca-te ao sol
é assim mesmo a vida de cão
solitário talvez e sem dono ou voz
de comando longínquo e cego
talvez só daqui a alguns anos
a bengala não é para te açoitar
dá o som e a cadência certa
ao cão sem dono e sem destino
irremediavelmente prisioneiro
de uma coleira com trela deslizante.
Carlos Alberto Machado
A Realidade Inclinada
Averno, 2003
disfarçada de refúgio aqui
te prendem os fios tecidos por ti
agora não podes fugir
cão solitário sem destino não é possível
devolver-te à procedência
és uma carta sem paradeiro certo
estás morto ou és endereço errado
é neste lar prisão que deves ficar
é aqui o teu último destino certo
pelo menos ninguém aqui virá
reclamar-te por teres certo valor
não tens nem o sonho de o vir a ter
a ração é feita de sons e de sonhos
de cão a enxerga de palha molhada
quando vier calor seca-te ao sol
é assim mesmo a vida de cão
solitário talvez e sem dono ou voz
de comando longínquo e cego
talvez só daqui a alguns anos
a bengala não é para te açoitar
dá o som e a cadência certa
ao cão sem dono e sem destino
irremediavelmente prisioneiro
de uma coleira com trela deslizante.
Carlos Alberto Machado
A Realidade Inclinada
Averno, 2003
Diário das Açoteias
3.
Falou-nos dos cães.
Cães lindíssimos, de língua negra – contou. Tinha-os visto. A rasgarem; a despedaçarem as vestes daqueles homens vindos de outros planetas. São de outros planetas mas lindos, lindos, lindos! A Rússia é bonita. Lá existe o nazismo. Como na Hungria. Quem manda são os ditadores e é terrível terrível terrível! Todo o mundo obedece. Todo o mundo! Eu estive na Rússia. Muitos crimes! O meu marido veio da Rússia. Trazia planos da Hungria. As línguas dos cães do mar negro são negras negríssimas! Os homens cheiram a sangue, somos todos felizes, meu Deus!, acredito em Deus!, somos todos felizes! «O Senhor é português?» - Não! Pois claro que não! O senhor é russo. O senhor é lindo! Lindo! Muito lindo!
Não receies, Glöcker. É inofensiva. Vê como sorri. Deve ter sessenta mas parece quarenta. Como sorri não obstante; apesar de tudo. Como nos volta as costas. Nada lhe interessa. Não lhe interessa. E, contudo, eis que de novo se anima; resplandece. Lado a lado do rosto, duas orelhas crescem, crescem, crescem. Uma estrela escorre-lhe da baba.
Ladra.
Ciumento, arfante, hipnotizado, o cão… repara: «Já tinhas visto uma palavra de quatro patas a abanar a cauda?»
Eduarda Chiote
A Décima Terceira Ilha
Edições Afrontamento, 1983
Oferecido por Rui Almeida.
Falou-nos dos cães.
Cães lindíssimos, de língua negra – contou. Tinha-os visto. A rasgarem; a despedaçarem as vestes daqueles homens vindos de outros planetas. São de outros planetas mas lindos, lindos, lindos! A Rússia é bonita. Lá existe o nazismo. Como na Hungria. Quem manda são os ditadores e é terrível terrível terrível! Todo o mundo obedece. Todo o mundo! Eu estive na Rússia. Muitos crimes! O meu marido veio da Rússia. Trazia planos da Hungria. As línguas dos cães do mar negro são negras negríssimas! Os homens cheiram a sangue, somos todos felizes, meu Deus!, acredito em Deus!, somos todos felizes! «O Senhor é português?» - Não! Pois claro que não! O senhor é russo. O senhor é lindo! Lindo! Muito lindo!
Não receies, Glöcker. É inofensiva. Vê como sorri. Deve ter sessenta mas parece quarenta. Como sorri não obstante; apesar de tudo. Como nos volta as costas. Nada lhe interessa. Não lhe interessa. E, contudo, eis que de novo se anima; resplandece. Lado a lado do rosto, duas orelhas crescem, crescem, crescem. Uma estrela escorre-lhe da baba.
Ladra.
Ciumento, arfante, hipnotizado, o cão… repara: «Já tinhas visto uma palavra de quatro patas a abanar a cauda?»
Eduarda Chiote
A Décima Terceira Ilha
Edições Afrontamento, 1983
Oferecido por Rui Almeida.
sábado, 15 de novembro de 2008
COMPOSIÇÃO DE LUGAR
Cerra os teus olhos, eu conto.
De manhã cedo acordado,
Abraão subiu ao monte.
E sob um céu de fornalha
viu na planura queimada
lá da banda de Sodoma
um cão a chorar por todas
as cinzas que foram casas.
O cachorro tão apócrifo
acrescenta um contraponto
a esse fumo canónico
do velho bíblico conto.
José António Almeida
A Mãe de Todas as Histórias
Averno
De manhã cedo acordado,
Abraão subiu ao monte.
E sob um céu de fornalha
viu na planura queimada
lá da banda de Sodoma
um cão a chorar por todas
as cinzas que foram casas.
O cachorro tão apócrifo
acrescenta um contraponto
a esse fumo canónico
do velho bíblico conto.
José António Almeida
A Mãe de Todas as Histórias
Averno
(excerto de) Conheces Blaise Cendrars?
(…)
O largo estava deserto. As entradas baixas das cubatas eram grandes buracos negros. Onde não se via ninguém. Como se tivessem fugido todos os habitantes. Conrado olhou à volta. Franzindo a testa.
O silêncio só era quebrado pelos ruídos cadenciados de um pilão. Que vinham da outra banda. Da floresta. Olhou para lá, interrogativamente. Nguongo Ai seguiu-lhe o gesto.
«Pilão! Tapioca!»
Percorreram todo o terreiro. Vazio de gente. Um pequeno cão cinzento, magro e coberto de feridas, atado a um pau, ladrou fracamente quando se aproximaram. Um dos soldados fingiu que lhe dava um pontapé. O animal, acovardado, fugiu. Encolheu-se à sombra.
«Não te chegues muito», disse um. «Os cães destes macacos são como os donos. Fingem que têm medo, mas, se te distrais, ferram-te logo o dente!»
(…)
Manuel de Seabra
Conheces Blaise Cendrars?
Publicações Europa-América, 1988
Oferecido por Rui Almeida.
O largo estava deserto. As entradas baixas das cubatas eram grandes buracos negros. Onde não se via ninguém. Como se tivessem fugido todos os habitantes. Conrado olhou à volta. Franzindo a testa.
O silêncio só era quebrado pelos ruídos cadenciados de um pilão. Que vinham da outra banda. Da floresta. Olhou para lá, interrogativamente. Nguongo Ai seguiu-lhe o gesto.
«Pilão! Tapioca!»
Percorreram todo o terreiro. Vazio de gente. Um pequeno cão cinzento, magro e coberto de feridas, atado a um pau, ladrou fracamente quando se aproximaram. Um dos soldados fingiu que lhe dava um pontapé. O animal, acovardado, fugiu. Encolheu-se à sombra.
«Não te chegues muito», disse um. «Os cães destes macacos são como os donos. Fingem que têm medo, mas, se te distrais, ferram-te logo o dente!»
(…)
Manuel de Seabra
Conheces Blaise Cendrars?
Publicações Europa-América, 1988
sábado, 18 de outubro de 2008
Cão vadio
De que serve uma casa ao cão vadio? De que serve a promessa que lhe estendem, as vantagens que lhe oferecem? De que serve a esperança, vazia nas suas mãos vazias? De que serve o prato onde lhe querem dar de comer, o conforto que ignora, o gesto dedicado que recusa? De que serve o jardim com relva aparada e cães de trela que nunca terá para ele qualquer interesse? De que lhe serve companhia, ele que aprendeu o só por companheiro? De que serve a família que lhe emprestam, a posteridade que lhe acenam, ele que sabe não terá nenhuma? De que serve a felicidade de que falam, saciedade e segurança, explicam, ele talhado à forma áspera dos penhascos? De que servem fortuna, glória, aclamação nas tribunas e nos campeonatos, pêlo mais viçoso, dorso mais esbelto, inteligência, claro (jogos de frivolidade), talento, pois (jogos de eternidade). Seu é o grito das ruas sem fim, sua a morada desde sempre abolida, seu o destino de caminhar sem chegada, vizinha morte, tão cedo conhecida, a cada esquina dobrada. Era isto que esperava que lhe dessem (era isto que podia receber). Mas em vez disso dão-lhe uma casa, a promessa em que nunca coube, a esperança que as suas mãos não guardam. E ele segue e repete: cão vadio (segue e obstina: cão vadio). A mulher que o chamava do limiar da porta regressa ao interior da casa e pensa: mal agradecido. E tem razão, embora de outro modo que a razão que conhece. E é verdade, embora de outro modo que a verdade que é sua. Assim ficamos só eu e tu. E choro por ti a lágrima que a dor cegou. Choro por nós a lágrima que não sabemos. Rosto próximo, olhamo-nos nos olhos secos, boca parada na palavra por nascer. Olhamo-nos e seguimos caminho.
Jorge Roque
Broto Sofro
Averno
2008
sábado, 4 de outubro de 2008
Quero-te
como cão esfomeado
quer o osso
que só sonhando morde
pois sempre não está lá
se a mosca do destino
ao pobre impõe que acorde
Vasco Costa Marques
daqui
como cão esfomeado
quer o osso
que só sonhando morde
pois sempre não está lá
se a mosca do destino
ao pobre impõe que acorde
Vasco Costa Marques
daqui
terça-feira, 23 de setembro de 2008
ISSA
Issa é mais malandra que o pardal do Catulo.
Issa é mais pura que o beijinho de uma pomba.
Issa é mais fofinha que todas as miúdas.
Issa é mais preciosa que as gemas da Índia.
Issa é a cadelinha mais-que-tudo do Públio.
Se geme, cuidarias que fala.
Sente a tristeza e a alegria.
Deita-se tombada no seu pescoço e adormece,
de tal maneira que nem um suspiro lhe ouves.
E, obrigada pelas exigências do ventre,
gota nenhuma ofende os lençóis,
mas com branda patinha o acorda e lhe recomenda
que a tire da cama e pede que a levante.
Tanto pudor se acha na casta cadelinha!
Ignora Vénus, e não achamos
digno marido de tão terna menina.
Não lha leve por completo a morte derradeira,
pinta-a Públio num quadro,
no qual verás tão parecida Issa
que nem ela é tão parecida consigo mesma!
Põe, pois, Issa ao lado do quadro:
ou ambas julgarás verdadeiras,
ou ambas julgarás pintadas!
Marcial, I. 109
daqui
Issa é mais pura que o beijinho de uma pomba.
Issa é mais fofinha que todas as miúdas.
Issa é mais preciosa que as gemas da Índia.
Issa é a cadelinha mais-que-tudo do Públio.
Se geme, cuidarias que fala.
Sente a tristeza e a alegria.
Deita-se tombada no seu pescoço e adormece,
de tal maneira que nem um suspiro lhe ouves.
E, obrigada pelas exigências do ventre,
gota nenhuma ofende os lençóis,
mas com branda patinha o acorda e lhe recomenda
que a tire da cama e pede que a levante.
Tanto pudor se acha na casta cadelinha!
Ignora Vénus, e não achamos
digno marido de tão terna menina.
Não lha leve por completo a morte derradeira,
pinta-a Públio num quadro,
no qual verás tão parecida Issa
que nem ela é tão parecida consigo mesma!
Põe, pois, Issa ao lado do quadro:
ou ambas julgarás verdadeiras,
ou ambas julgarás pintadas!
Marcial, I. 109
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