sempre a vi soterrada
em malhas de lã à volta do pescoço
óculos de lentes pesadas
com olhos de horizontes distorcidos
uma vez experimentei-os aqueles escuros numa praia
e tudo me pareceu metido num filme
mudo a sépia com as pessoas
à velocidade da manivela
só mais tarde soube que (ela)
estava com a sombra
cada vez mais próxima. agora
tece tapetes de arraiolos
a um dedo de distância dos olhos
as mãos trabalham com a destreza
de quem pensa na vida que levou
faz viagens teve cinco filhos tem um marido
cheio de silêncios e a companhia
de um cão velho e uma cadela que substituiu
um outro rafeiro que morreu
baba-se com os netos mas chora muito
com os ataques epilépticos da cadela
por pouco era feliz
Fernando Machado Silva, in Primeira Viagem
Antologia de textos com cães dentro.
sábado, 14 de julho de 2012
A CASA O CÃO A CAMA OS COPOS
perdoa-me o enrolar da língua
mas a solidão tem destas coisas
e disparates seguem-se
uns aos outros
sobre o corpo abandonado
e a canção diz
é impossível ser feliz sozinho
e com o meu treino engano-te
preparando uma despedida
fácil. podes sair, levar
as tuas coisas, eu e o nosso cão
resolvemos tudo pelos cantos da casa
revelando-nos a nossa verdadeira cara
um ao outro e voltando
a escondê-la quando regressares
Fernando Machado Silva, in Primeira Viagem
mas a solidão tem destas coisas
e disparates seguem-se
uns aos outros
sobre o corpo abandonado
e a canção diz
é impossível ser feliz sozinho
e com o meu treino engano-te
preparando uma despedida
fácil. podes sair, levar
as tuas coisas, eu e o nosso cão
resolvemos tudo pelos cantos da casa
revelando-nos a nossa verdadeira cara
um ao outro e voltando
a escondê-la quando regressares
Fernando Machado Silva, in Primeira Viagem
terça-feira, 10 de julho de 2012
O CÃO QUE ME TINHA
Eu tive um cão ou era ele
que me tinha e me deixava à solta
guiada sem saber que ia.
Tomava as minhas feridas,
a tristeza que eu pudesse ter
e sofria dela como eu nem sofria.
Trocava de mal trocando-lhe as voltas.
Punha a coleira ao pescoço
e levava-me a passear
como se eu fosse o dono.
E à noite dormia no chão
ou então fingia. Eu acordava
com um servo aos pés da cama,
armava-me em amo
e era ele que me tinha.
Exímio no silêncio
e no uso das armas
com que me defendia
de todos e também de mim:
a linha veloz do pêlo luzidio,
o frémito da língua,
o focinho em arco para a escuta.
Era um cão que me tinha
e uma tarde de verão
atirei-lhe um osso gostoso
antes de o deixar no canil.
Rosa Alice Branco, in O Gado do Senhor
que me tinha e me deixava à solta
guiada sem saber que ia.
Tomava as minhas feridas,
a tristeza que eu pudesse ter
e sofria dela como eu nem sofria.
Trocava de mal trocando-lhe as voltas.
Punha a coleira ao pescoço
e levava-me a passear
como se eu fosse o dono.
E à noite dormia no chão
ou então fingia. Eu acordava
com um servo aos pés da cama,
armava-me em amo
e era ele que me tinha.
Exímio no silêncio
e no uso das armas
com que me defendia
de todos e também de mim:
a linha veloz do pêlo luzidio,
o frémito da língua,
o focinho em arco para a escuta.
Era um cão que me tinha
e uma tarde de verão
atirei-lhe um osso gostoso
antes de o deixar no canil.
Rosa Alice Branco, in O Gado do Senhor
sexta-feira, 6 de julho de 2012
VELHO CACHORRO
O mundo estava na infância.
O vento desenrolava
sua paciente fábula.
O vento velho cachorro
lambia o quadril do sono.
Pé de pilão nossa sombra
junto à sombra da palavra.
O mundo não é candeia
nem vaso de flor a alma.
Carlos Nejar, Um País O Coração
O vento desenrolava
sua paciente fábula.
O vento velho cachorro
lambia o quadril do sono.
Pé de pilão nossa sombra
junto à sombra da palavra.
O mundo não é candeia
nem vaso de flor a alma.
Carlos Nejar, Um País O Coração
CLARIDADE
O barulho de existir:
um cão
dentro de mim.
Atravesso
como a um pátio
o barulho de existir.
Carlos Nejar, Árvore do Mundo
um cão
dentro de mim.
Atravesso
como a um pátio
o barulho de existir.
Carlos Nejar, Árvore do Mundo
domingo, 27 de maio de 2012
quarta-feira, 18 de março de 2009
5 412971 117161
Tem cara de perder. Esta semana
voltou a não levar preservativos
e nunca mais comprou comida para o cão.
Se calhar divorciaram-se, e ficou ela
com o bicho. Só não percebo como é que
ele sozinho consegue beber tanto leite.
Perdeu também um pouco da arrogância
com que habitualmente me passava
o visa. Mas devia ser bonito, em novo.
Manuel de Freitas
Isilda ou a Nudez dos Códigos de Barras
Black Sun Editores
2001
voltou a não levar preservativos
e nunca mais comprou comida para o cão.
Se calhar divorciaram-se, e ficou ela
com o bicho. Só não percebo como é que
ele sozinho consegue beber tanto leite.
Perdeu também um pouco da arrogância
com que habitualmente me passava
o visa. Mas devia ser bonito, em novo.
Manuel de Freitas
Isilda ou a Nudez dos Códigos de Barras
Black Sun Editores
2001
quinta-feira, 5 de março de 2009
Disselama
Rato morto na valeta
acaricia o nevoeiro das sirenes.
Minha mão ensanguentada continha
a curte em sua calote moída. Cenas gold
de gravata & garrote. O mais difícil, o vigilante
securitas filtra a sebe até aos betos,
a piscina vedada a chungas, eram todos da mesma
turma, quem diria núpcias disse lama.
Nem sabias como íamos enlouquecendo,
deixavas sempre os cigarros a meio,
isso ainda era o menos. Nunca
deste pelo estado da tua cabeça.
Cadela que ladra morde o teu sonho
em seu sono no édredon. Detesta
vidros mortos pelos vidros. Juro
cacos, latões de fogo, errata do mundo,
meu, bué meu, a cortar-te as goelas
requinte que não t’amplie a trouxa
da vida toda fodida.
Rui Baião, Nuez, Lisboa: frenesi, 2003.
Oferecido pelo manuel a. domingos.
acaricia o nevoeiro das sirenes.
Minha mão ensanguentada continha
a curte em sua calote moída. Cenas gold
de gravata & garrote. O mais difícil, o vigilante
securitas filtra a sebe até aos betos,
a piscina vedada a chungas, eram todos da mesma
turma, quem diria núpcias disse lama.
Nem sabias como íamos enlouquecendo,
deixavas sempre os cigarros a meio,
isso ainda era o menos. Nunca
deste pelo estado da tua cabeça.
Cadela que ladra morde o teu sonho
em seu sono no édredon. Detesta
vidros mortos pelos vidros. Juro
cacos, latões de fogo, errata do mundo,
meu, bué meu, a cortar-te as goelas
requinte que não t’amplie a trouxa
da vida toda fodida.
Rui Baião, Nuez, Lisboa: frenesi, 2003.
Oferecido pelo manuel a. domingos.
Selecção natural
Flores de artifício, dois rabos,
corneta e orelha. É só pegar
o silêncio pelos cornos. Não percas
na largada, pamplona, o desassossego
do inimigo rente a nós, ideia do quanto
tudo é mais relativo.
Há bodes pelo telhado, rafeiros
roendo a sombra às concertinas, e tanta,
tanta lenha nova sem pegar.
Todos tão vivaços, invencíveis da vida,
viciados em triunfo, comezaina
e mulheres de companhia. Curral
duplex, o obscuro na faena em si.
Rui Baião, Nuez, Lisboa: frenesi, 2003.
Oferecido pelo manuel a. domingos.
corneta e orelha. É só pegar
o silêncio pelos cornos. Não percas
na largada, pamplona, o desassossego
do inimigo rente a nós, ideia do quanto
tudo é mais relativo.
Há bodes pelo telhado, rafeiros
roendo a sombra às concertinas, e tanta,
tanta lenha nova sem pegar.
Todos tão vivaços, invencíveis da vida,
viciados em triunfo, comezaina
e mulheres de companhia. Curral
duplex, o obscuro na faena em si.
Rui Baião, Nuez, Lisboa: frenesi, 2003.
Oferecido pelo manuel a. domingos.
quarta-feira, 4 de março de 2009
O CARNAVAL DOS ANIMAIS
CÃES - 1
Como o faria um amigo, ou um inimigo, ou um
estranho, olhamo-nos como olham os cães
CÃES - 2
Dormem uns em cima dos outros
no bom aconchego uns dos outros
Assim nem precisam de sonhar
CÃES - 3
Cães de guarda, cães de luta, caniches das estrelas
de Hollywood - parece que no vasto labirinto
das espécies alguma dignidade se perdeu
Rui Caeiro
O Carnaval dos Animais
Letra Livre
Outubro de 2008
Como o faria um amigo, ou um inimigo, ou um
estranho, olhamo-nos como olham os cães
CÃES - 2
Dormem uns em cima dos outros
no bom aconchego uns dos outros
Assim nem precisam de sonhar
CÃES - 3
Cães de guarda, cães de luta, caniches das estrelas
de Hollywood - parece que no vasto labirinto
das espécies alguma dignidade se perdeu
Rui Caeiro
O Carnaval dos Animais
Letra Livre
Outubro de 2008
12
Onde é que eu ia? Não ia, parece.
Embora tenha ficado um bocado perplexo quando levantei o lençol de água para ver o cão e, em vez dessa evocação clássica, se me deparou uma chusma de pintores chuchando-lhe a carcaça ensanguentada.
Depois encostaram uma escada para o lado, digamos, de fora da moldura, por onde desciam os mais satisfeitos.
Arrotando no espaço da tua distracção, prossegui.
Jorge Fallorca
Água Tatuada
&etc
Março 1999
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
ELUCIDÁRIO
Cachorro
Quente, é pão com salsicha; frio, novelo de pêlo a dormitar ao lume.
Cães de circo
Raça de canídeos com dois pezinhos.
Cão
Um rabo a sorrir.
Cão de Castro Laboreiro
Se deixarmos levar o que é nosso, não é por falta de guarda.
Galgo
Cão escanzelado, mas não de fome; é de feitio mesmo assim.
Ur e o dono
Vejo-os com frequência. Ur, marfim dos dentes a reluzir, trela tensa presa à coleira; na outra ponta o dono, ar de boneco de pau, cabeça aparafusada directamente no tronco. E a cara, meu Deus, máscara eternamente a rir, olhos azuis.
Noutro dia, os dois por dentro do passeio, eu na borda, passando. Sorrateira, pareceu-me, a tensão da trela aliviou. Sem um latido, o canídeo fez-se ao salto, dentes frenados num esticão rente ao meu braço. E sentou-se a olhar-me por detrás da dentuça frustrada, de viés eu a entrever o dono em ridentes ameaços de castigo. Por Ur ter tentado ou por ter falhado o golpe?
Zurros
De repente, surdiu um vento suão que ensandeceu os bichos. E as galinhas começaram aos coaxos. Sobressaltados, os cães desalmaram-se em relinchos, os porcos em ão ãos desesperados, rãs aos cacarejos, cavalos a grunhir.
- Está tudo doido! – disse de si para si o lavrador.
Tanto bastou para que o vento amainasse, a ordem se restabelecesse: cacarejantes as galinhas, os cavalos aos relinchos, os cães a ladrar, os patos a grasnar, os porcos a grunhir, as rãs aos coaxos.
Enorme banzé!
Incomodado, o lavrador foi-se sem dizer palavra, a mastigar chilreios, misto de rugidos e grugulejos, espécie de uns zurros.
Augusto Baptista
ElucidárioOblíquoDoReinoDosBichosParaCriançasDeTôdalasIdadesFábulasParlengasMofasEnsinançasLuminosasDeAaZComNoventaENoveDesenhosRecomendadoPelaLigaDeDefesaDasLínguasEmPerigoD'Extinção&SuasFaunas
Gatopardo, 2004
Oferecido por Rui Almeida.
Quente, é pão com salsicha; frio, novelo de pêlo a dormitar ao lume.
Cães de circo
Raça de canídeos com dois pezinhos.
Cão
Um rabo a sorrir.
Cão de Castro Laboreiro
Se deixarmos levar o que é nosso, não é por falta de guarda.
Galgo
Cão escanzelado, mas não de fome; é de feitio mesmo assim.
Ur e o dono
Vejo-os com frequência. Ur, marfim dos dentes a reluzir, trela tensa presa à coleira; na outra ponta o dono, ar de boneco de pau, cabeça aparafusada directamente no tronco. E a cara, meu Deus, máscara eternamente a rir, olhos azuis.
Noutro dia, os dois por dentro do passeio, eu na borda, passando. Sorrateira, pareceu-me, a tensão da trela aliviou. Sem um latido, o canídeo fez-se ao salto, dentes frenados num esticão rente ao meu braço. E sentou-se a olhar-me por detrás da dentuça frustrada, de viés eu a entrever o dono em ridentes ameaços de castigo. Por Ur ter tentado ou por ter falhado o golpe?
Zurros
De repente, surdiu um vento suão que ensandeceu os bichos. E as galinhas começaram aos coaxos. Sobressaltados, os cães desalmaram-se em relinchos, os porcos em ão ãos desesperados, rãs aos cacarejos, cavalos a grunhir.
- Está tudo doido! – disse de si para si o lavrador.
Tanto bastou para que o vento amainasse, a ordem se restabelecesse: cacarejantes as galinhas, os cavalos aos relinchos, os cães a ladrar, os patos a grasnar, os porcos a grunhir, as rãs aos coaxos.
Enorme banzé!
Incomodado, o lavrador foi-se sem dizer palavra, a mastigar chilreios, misto de rugidos e grugulejos, espécie de uns zurros.
Augusto Baptista
ElucidárioOblíquoDoReinoDosBichosParaCriançasDeTôdalasIdadesFábulasParlengasMofasEnsinançasLuminosasDeAaZComNoventaENoveDesenhosRecomendadoPelaLigaDeDefesaDasLínguasEmPerigoD'Extinção&SuasFaunas
Gatopardo, 2004
Oferecido por Rui Almeida.
XIII
INTERIOR DE UMA mansarda. O POETA, deitado no catre, medita de olhos semicerrados. Na única cadeira existente, o CÃO. Atrás da porta está pendurada uma gaiola e, dentro da gaiola, o canário enlanguesce. É absolutamente necessário que o pássaro não dê nem um trinado durante todo o tempo que dure este primeiro, único e brevíssimo acto, pelo que se recomenda a utilização de um canário embalsamado ou de pano.
CÃO – Ouve.
POETA – (Sem mudar de posição.) O que é?
CÃO – Tenho fome.
POETA – Eu também, mas não penso nisso.
CÃO – E os ossos de ontem?
POETA – Foram-se.
CÃO – Sozinhos?
POETA – Sozinhos.
CÃO – Como foi isso?
POETA – Foi esta manhã, quando estavas na rua. O miúdo da porteira pôs-se a tocar o seu tambor de folha. Então os ossos levantaram-se e foram-se embora a desfilar três a três.
CÃO – Seriam ossos de soldados.
POETA – Foi precisamente isso que pensei. Não há muito tempo, parece-me, houve uma guerra.
Silêncio. O CÃO volta a apoiar a cabeça entre as patas e o POETA suspira profundamente.
Javier Tomeo
Histórias mínimas
Tradução de Maria Dulce Teles de Menezes e Salvato Teles de Menezes
Livros Horizonte, 1992
Oferecido por Rui Almeida.
CÃO – Ouve.
POETA – (Sem mudar de posição.) O que é?
CÃO – Tenho fome.
POETA – Eu também, mas não penso nisso.
CÃO – E os ossos de ontem?
POETA – Foram-se.
CÃO – Sozinhos?
POETA – Sozinhos.
CÃO – Como foi isso?
POETA – Foi esta manhã, quando estavas na rua. O miúdo da porteira pôs-se a tocar o seu tambor de folha. Então os ossos levantaram-se e foram-se embora a desfilar três a três.
CÃO – Seriam ossos de soldados.
POETA – Foi precisamente isso que pensei. Não há muito tempo, parece-me, houve uma guerra.
Silêncio. O CÃO volta a apoiar a cabeça entre as patas e o POETA suspira profundamente.
Javier Tomeo
Histórias mínimas
Tradução de Maria Dulce Teles de Menezes e Salvato Teles de Menezes
Livros Horizonte, 1992
Oferecido por Rui Almeida.
UM GIRASSOL
Poli-Maluco era o meu cão alentejano. Que morreu ontem num dia lindo de sol, com as flores a sorrir das suas cabriolas, com os pássaros a fazerem voo picado sobre as suas orelhas-capacho.
Poli-Maluco era livre de mais para viver: trouxera-o lá do Alentejo, cão de caça, cão de guarda, cão de tudo, cão sem raça, feio e farrusco. Um proletário de cabelos aos arrepios. Para meus filhos: «Pói-Maúco». Para mim: «Pói-meus-filhos».
Tinha um ano de idade: era um cão-garoto, cão-brincalhão, cão-cambalhotas. À tardinha, quando eu voltava do emprego, Poli-Maluco ia esperar-me à camioneta e dava sempre um festival de gracinhas para dono ver: corria como um bólide depois fazia uma travagem brusca no cimento e ficava a patinar uma mão cheia de metros. A seguir voltava aos saltos até ficar pendurado no meu peito, agarrado à camisola. Deitava-se no chão, dois metros adiante de mim, de barriga para o ar, a bater as patinhas: a bater palminhas.
Poli-Maluco tinha tais ganas de ver tudo, de correr tudo, de saber tudo, que parecia adivinhar quanto o tempo da sua vida tinha sido condicionado: meu querido Pói-Maúco era alegre de mais para viver. Meu querido Pói-Maúco era livre de mais para viver: morreu ontem esmagado pelos degredados do cem à hora, pelos prisioneiros da vaidade cromada, numa florida estrada dos arredores de Sintra: Pói-Maúco estava lá do outro lado a brincar com as borboletas e pinga-azeites e de repente deve ter sentido desejos de me falar.
Ficou estendido a meio do caminho: - naquela clara nesga dum trajecto que vai duma borboleta à amizade.
Eduardo Olímpio
Um girassol chamado Beatriz
1975
Oferecido por Rui Almeida.
Poli-Maluco era livre de mais para viver: trouxera-o lá do Alentejo, cão de caça, cão de guarda, cão de tudo, cão sem raça, feio e farrusco. Um proletário de cabelos aos arrepios. Para meus filhos: «Pói-Maúco». Para mim: «Pói-meus-filhos».
Tinha um ano de idade: era um cão-garoto, cão-brincalhão, cão-cambalhotas. À tardinha, quando eu voltava do emprego, Poli-Maluco ia esperar-me à camioneta e dava sempre um festival de gracinhas para dono ver: corria como um bólide depois fazia uma travagem brusca no cimento e ficava a patinar uma mão cheia de metros. A seguir voltava aos saltos até ficar pendurado no meu peito, agarrado à camisola. Deitava-se no chão, dois metros adiante de mim, de barriga para o ar, a bater as patinhas: a bater palminhas.
Poli-Maluco tinha tais ganas de ver tudo, de correr tudo, de saber tudo, que parecia adivinhar quanto o tempo da sua vida tinha sido condicionado: meu querido Pói-Maúco era alegre de mais para viver. Meu querido Pói-Maúco era livre de mais para viver: morreu ontem esmagado pelos degredados do cem à hora, pelos prisioneiros da vaidade cromada, numa florida estrada dos arredores de Sintra: Pói-Maúco estava lá do outro lado a brincar com as borboletas e pinga-azeites e de repente deve ter sentido desejos de me falar.
Ficou estendido a meio do caminho: - naquela clara nesga dum trajecto que vai duma borboleta à amizade.
Eduardo Olímpio
Um girassol chamado Beatriz
1975
Oferecido por Rui Almeida.
(excerto de) Centauro
(…) Tem sede, muita sede, mas ali não há sinal de água. O homem olha para trás e vê que metade do céu está já coberto de nuvens. O sol ilumina o bordo nítido de um grande nimbo cinzento que avança.
É nesse momento que ouve ladrar um cão. O cavalo estremece de nervosismo. O centauro lança-se a galope entre duas colinas, mas o homem não perde o sentido: seguir na direcção do sul. O ladrar está mais perto, e ouve-se também um tilintar de campainhas e depois uma voz falando a gado. O centauro parou para se orientar, porém os ecos enganaram-no e, de súbito, num terreno baixo e húmido inesperado, aparece-lhe um rebanho de cabras e à frente dele um grande cão. O centauro estacou. Algumas das cicatrizes que lhe riscavam o corpo, devia-as aos cães. O pastor deu um grito espavorido e largou a fugir, como louco. Chamava em altos berros: devia haver uma povoação ali perto. O homem dominou o cavalo e avançou. Arrancou um ramo forte de um arbusto para afastar o cão, que se estrangulava a ladrar, de fúria e medo. Mas foi a fúria que prevaleceu: o cão ladeou rapidamente umas pedras e tentou apanhar o centauro de flanco, pelo ventre. O homem quis olhar para trás, ver donde vinha o perigo, mas o cavalo antecipou-se, e rodando veloz sobre as patas da frente, desferiu um violento coice que apanhou o cão no ar. O animal foi bater contra as pedras, morto. Não era a primeira vez que o centauro se defendia assim, mas de todas as vezes o homem se sentia humilhado. No seu próprio corpo batia a ressaca da vibração geral dos músculos, a vaga de energia que deflagrava, ouvia o bater surdo dos cascos, mas estava de costas voltadas para a batalha, não era parte nela, espectador quando muito.
(…)
José Saramago
Objecto Quase
1978
Oferecido por Rui Almeida.
É nesse momento que ouve ladrar um cão. O cavalo estremece de nervosismo. O centauro lança-se a galope entre duas colinas, mas o homem não perde o sentido: seguir na direcção do sul. O ladrar está mais perto, e ouve-se também um tilintar de campainhas e depois uma voz falando a gado. O centauro parou para se orientar, porém os ecos enganaram-no e, de súbito, num terreno baixo e húmido inesperado, aparece-lhe um rebanho de cabras e à frente dele um grande cão. O centauro estacou. Algumas das cicatrizes que lhe riscavam o corpo, devia-as aos cães. O pastor deu um grito espavorido e largou a fugir, como louco. Chamava em altos berros: devia haver uma povoação ali perto. O homem dominou o cavalo e avançou. Arrancou um ramo forte de um arbusto para afastar o cão, que se estrangulava a ladrar, de fúria e medo. Mas foi a fúria que prevaleceu: o cão ladeou rapidamente umas pedras e tentou apanhar o centauro de flanco, pelo ventre. O homem quis olhar para trás, ver donde vinha o perigo, mas o cavalo antecipou-se, e rodando veloz sobre as patas da frente, desferiu um violento coice que apanhou o cão no ar. O animal foi bater contra as pedras, morto. Não era a primeira vez que o centauro se defendia assim, mas de todas as vezes o homem se sentia humilhado. No seu próprio corpo batia a ressaca da vibração geral dos músculos, a vaga de energia que deflagrava, ouvia o bater surdo dos cascos, mas estava de costas voltadas para a batalha, não era parte nela, espectador quando muito.
(…)
José Saramago
Objecto Quase
1978
Oferecido por Rui Almeida.
domingo, 4 de janeiro de 2009
VAI-TE CÃO DAS NOITES
o mar retirou-se intacto do sangue dos grandes polvos que jazem nas areias
na paisagem desfeita e sempre a refazer procuro
lembranças da maré uma flor de água um rumor de furor
mas há demasiadas pistas confusas caravanas
demasiados sóis empalando nas árvores o seu rancor
demasiados portulanos mentirosos que se afundam
nas linhas de crista eternas divergentes
das formigas gigantes que vão pulindo os ossos
deste silêncio fogoso da boca desta areia
apenas surgirão os dentes cariados da mata ressequida
raiva de um solstício insólito ardente fulvo nas margens da barbárie de um mar tão vacilante
vai-te cão das noites vai-te
inesperado e magno em minhas têmporas
sangrando seguras entre os dentes
a carne que me é fácil de mais reconhecer
Aimé Césaire
Antologia Poética
Trad. Armando da Silva Carvalho
Dom Quixote
1970
na paisagem desfeita e sempre a refazer procuro
lembranças da maré uma flor de água um rumor de furor
mas há demasiadas pistas confusas caravanas
demasiados sóis empalando nas árvores o seu rancor
demasiados portulanos mentirosos que se afundam
nas linhas de crista eternas divergentes
das formigas gigantes que vão pulindo os ossos
deste silêncio fogoso da boca desta areia
apenas surgirão os dentes cariados da mata ressequida
raiva de um solstício insólito ardente fulvo nas margens da barbárie de um mar tão vacilante
vai-te cão das noites vai-te
inesperado e magno em minhas têmporas
sangrando seguras entre os dentes
a carne que me é fácil de mais reconhecer
Aimé Césaire
Antologia Poética
Trad. Armando da Silva Carvalho
Dom Quixote
1970
IDEIAS FEITAS
CÃO – Especialmente criado para salvar a vida do dono. O cão é o melhor amigo do homem.
DEDICAÇÃO – Lamentar-se de que não existe nos outros. «A este respeito, somos muito inferiores ao cão!»
FIEL – Inseparável de amigo e de cão. Não deixar de citar os dois versos: «Sim, pois que encontro um amigo tão fiel / A minha sorte…» etc.
Gustave Flaubert
Dicionário de ideias feitas
Tradução de João da Fonseca Amaral
Editorial Estampa, 1974
sábado, 20 de dezembro de 2008
A SIBERIANA
Tenho um favor para te pedir", disse Deus
O cão não disse nada mas cheirou a contentamento e Deus apercebeu-se que nos seus pensamentos, o animal O considerava "o Grande e Odorífico Pai de todas as Matilhas".
" Queres cumprir uma missão na Terra? Eu sei que não é agradável, mas há alguém que precisa de consolo na aflição, quem sabe se de um Anjo da Guarda?"
O cão abanou a cauda suavemente, havia nele curiosidade e um leve odor de receio. Depois levantou-se decidido, deu um pequena volta a guardar memórias das flores e das minúsculas árvores, bebeu um gole na cascata, abanou uma vez mais a cauda em frente ao monge budista e dirigiu-se para a porta onde se sentou à espera.
Deus transformou-o um pouco, deu-lhe a idade apropriada, uma forma indecisa, vagamente de perdigueiro, toco-lhe por um instante no focinho e acompanhou-o a uma das múltiplas portas para a Terra. Umas almas vinham a subir, Deus saudou-as, e encaminhou-as para Pedro que, nos primeiros momentos de eternidade os acompanhava.
Depois ficou a ver.
Maria da Luz ia pela rua abaixo, quase a entrar no carro
Deus aproveitou para dar uma endireitadela numa peça do Amarelinho que estava prestes a partir-se, fez recuar mais duas ou três no tempo para ficarem como novas
Um perdigueiro de olhos sábios mas alegres
"Terá dois meses"? ouviu-a interrogar-se, " de quem será?"
E uma vizinha a explicar do conforto da sua janela onde secava abundante roupa interior de chamativas cores:
"Deve andar perdido, já anda aí às voltas desde manhãzinha. Parece que gostou da menina, não deixou ninguém tocar-lhe... andaram aí uns miúdos que o queriam levar..."
E o rafeiro deu à cauda agitadamente, com o corpo todo a gingar à volta de Maria da Luz e dentadinhas amorosas nos sapatos, as unhas aceradas a furar malhas nas meias de lycra..
Quando a viu baixar-se,
Para afagar, um tanto desajeitada, havia que concordar, o pequeno pedaço de cachorro orelhudo, e dizer para a vizinha
"Se alguém perguntar por ele, se faz favor, diga que sou eu quem o tem..."
Depois, enfim, pegar no refeirito ao colo para entrar com ele no Amarelinho – que pegou primeira e já não fazia aquele ruído esquisito, estranhou Maria da Luz,
Deus suspirou.
Rui da Costa Lopes
A Siberiana
Cãmara Municipal de Sintra
(Prémio Ferreira de Castro 1997)
Oferecido por Ana Gomes Ferreira.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
SONETOS PARA OS AMIGOS MORTOS
III
Morreste como um cão foste abatido
Um dia frente aos olhos da tv
Que a polícia se fez co’o teu destino
Por um premeditado sei lá quê
Como um cão como um rato como um chino
Como um preto um judeu ganhão maltês
«Dispara dá-lhe cabo do cortiço»
Dizia a viril morte que te fez
Morrer completamente em todo o chão
Fez a morte de novo obra acabada
Matou duma só vez todo o teu não
E mais que tudo não te deixou nada
Pra levares contigo no caixão
Teu último pendão e barricada
Manuel Resende
O mundo clamoroso, ainda
Angelus Novus
2004
Morreste como um cão foste abatido
Um dia frente aos olhos da tv
Que a polícia se fez co’o teu destino
Por um premeditado sei lá quê
Como um cão como um rato como um chino
Como um preto um judeu ganhão maltês
«Dispara dá-lhe cabo do cortiço»
Dizia a viril morte que te fez
Morrer completamente em todo o chão
Fez a morte de novo obra acabada
Matou duma só vez todo o teu não
E mais que tudo não te deixou nada
Pra levares contigo no caixão
Teu último pendão e barricada
Manuel Resende
O mundo clamoroso, ainda
Angelus Novus
2004
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