Antologia de textos com cães dentro.

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terça-feira, 8 de julho de 2014

VIDERE LUCEM (um parágrafo)

E os versos? E a arte dos versos? É em tudo semelhante à luva de borracha que o pescador deixou cair na pedra do cais da Cantareira, quase à porta de Eugénio. Assim em abandono, caída sobre o rosa-borracha que lhe dá forma; e sem a vida que lhe deu a forma "mão"; e, sobretudo, sem o sangue que lhe deu o exacto pensamento de ter podido ser uma luva que calçou a palavra "mão". Assim perdida na pedra do cais, um cão de pelagem negra a abocanhou e levou para rasgar, rasgar. Ia um grande silêncio ao redor do cais. A luva talvez soubesse a fatias finas de salmão salgado.
 
João Miguel Fernandes Jorge, in No Verão é Melhor Um Conto Triste (2000)

sábado, 23 de junho de 2007

ESTUDO DE UM CÃO

Dentro do círculo do sofrimento
esfera de fezes
a língua, a míngua de sede
em chão castanho de terra. Na distância, o movimento de uma estrada.

Em torção do corpo,
apoiado no braço, o rosto desenhava-se na água que
restara ao sabor da lama: este é o impossível
silêncio das rãs. Tinham partido. Ficara o abandono. Um
homem pode destruir tudo dentro de si –
ódio, descrença, amor, a dúvida – enquanto se prende
à vida o abandono permanece

o cão ergue o olhar sobre a
terra, as vozes, a água. O lamento de
uma estrela incendeia na queda
o desejo, abandono ardente

tirou meio dia de folga
foi tomar banho no rio; os dedos desceram
sobre a lira de prata as cordas, a
tensão mais extrema, fio de vida. O cão, figura de proa
ancorada. Brilho de lápis
entre o Orontes e o Eufrates, na fértil planície de Antioquia.


João Miguel Fernandes Jorge
Invisíveis Correntes

2004

Oferecido por Rui Almeida.

sábado, 16 de junho de 2007

RETRATO DE D. SEBASTIÃO


Ruíram portas. Os velhos muros desmoronaram.
A lua de agosto, temível artesanato de um gnomo astuto
esperava a surpresa das vítimas. E a própria
palavra da língua fez ouvir gritos desentoados

vindos da noite dos tempos. O verão desse ano,
máscara disforme, envergonhada. E o rei,
um rapaz, o reino ameaçava como se faz às crianças
que não querem adormecer.

Os olhos azuis, pisados, desaguam em fantasias.
Sofriam, no severo conjuro adolescente, o juízo
que Platão verteu sobre os efeitos malignos da
arte, da ilusão que causa na alma humana. Havia

sonho, imagem e fazenda a destruir nos afilados dedos
que traziam morte, filme de gelo sobre o derradeiro
verão dos rios da cidade, ó castelos
e o lebréu, fiel, o mais fiel dos súbditos,

dispõe-se a recolher o afundamento
de corpos, barcas e pátria.
E do rapaz, de dezasseis anos ao tempo do retrato,
Areia de silêncio envolveu seus ossos. Inquietude,

Ânimo, valor ferido.

/Cristóvão de Moraes, c. 1572-74/

João Miguel Fernandes Jorge
Museu das Janelas Verdes
2002
Oferecido por Rui Almeida.

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