Antologia de textos com cães dentro.

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domingo, 4 de janeiro de 2009

VAI-TE CÃO DAS NOITES

o mar retirou-se intacto do sangue dos grandes polvos que jazem nas areias
na paisagem desfeita e sempre a refazer procuro
lembranças da maré uma flor de água um rumor de furor
mas há demasiadas pistas confusas caravanas
demasiados sóis empalando nas árvores o seu rancor
demasiados portulanos mentirosos que se afundam
nas linhas de crista eternas divergentes
das formigas gigantes que vão pulindo os ossos
deste silêncio fogoso da boca desta areia
apenas surgirão os dentes cariados da mata ressequida

raiva de um solstício insólito ardente fulvo nas margens da barbárie de um mar tão vacilante
vai-te cão das noites vai-te
inesperado e magno em minhas têmporas
sangrando seguras entre os dentes
a carne que me é fácil de mais reconhecer

Aimé Césaire
Antologia Poética
Trad. Armando da Silva Carvalho
Dom Quixote
1970

terça-feira, 23 de setembro de 2008

ISSA

Issa é mais malandra que o pardal do Catulo.
Issa é mais pura que o beijinho de uma pomba.
Issa é mais fofinha que todas as miúdas.
Issa é mais preciosa que as gemas da Índia.
Issa é a cadelinha mais-que-tudo do Públio.
Se geme, cuidarias que fala.
Sente a tristeza e a alegria.
Deita-se tombada no seu pescoço e adormece,
de tal maneira que nem um suspiro lhe ouves.
E, obrigada pelas exigências do ventre,
gota nenhuma ofende os lençóis,
mas com branda patinha o acorda e lhe recomenda
que a tire da cama e pede que a levante.
Tanto pudor se acha na casta cadelinha!
Ignora Vénus, e não achamos
digno marido de tão terna menina.
Não lha leve por completo a morte derradeira,
pinta-a Públio num quadro,
no qual verás tão parecida Issa
que nem ela é tão parecida consigo mesma!
Põe, pois, Issa ao lado do quadro:
ou ambas julgarás verdadeiras,
ou ambas julgarás pintadas!

Marcial, I. 109
daqui

terça-feira, 29 de julho de 2008

Que claro ser o desta pedra
que abandonada ao sol
nem sequer se revolta ou estremece.
Quando passo junto dela,
porém, escuto os seu latidos.

Sei que dentro dorme um cão,
um nardo, a vulva, o anjo.

Manuel Moya, Quarto Com Ilhas, Livrododia.
Tradução de Rui Costa


Oferecido por manuel a. domingos.

terça-feira, 8 de julho de 2008

ANTES - DEPOIS

Antes vã grandeza
de coroas ornada
depois a nudez
por ninguém tapada.

Antes em trovões,
em êxtase e fumo,
depois as razões:
podias mas como?

De ilusões inanes,
fim. Diz sem calor:
Domini canes -
cães do Senhor.

Gottfried Benn
50 Poemas
Trad. Vasco Graça Moura

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Não sei ladrar

Estou a lavar o chão da cozinha
como se tivesse quatro patas,
na posição de cão.
Alcanço
por um momento
o bom humorde cão.

É pena, só não consigo
ladrar.

Anna Swir
versão de LP
Talking to my body
tradução de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan
Copper Canyon Press
Washington, 1996, p. 117

sexta-feira, 27 de junho de 2008

A cachorrinha

Mas que amor de cachorrinha!
Mas que amor de cachorrinha!

Pode haver coisa no mundo
Mais branca, mais bonitinha
Do que a tua barriguinha
Crivada de mamiquinha?
Pode haver coisa no mundo
Mais travessa, mais tontinha
Que esse amor de cachorrinha
Quando vem fazer festinha
Remexendo a traseirinha?

Vinicius de Moraes

Oferecido por Renata Gonçalves.

terça-feira, 17 de junho de 2008

O LOBISOMEM

O amor é para mim um iroquês
De cor amarela e feroz catadura
Que vem sempre a galope, montado
Numa égua chamada Tristeza.
Ai, Tristeza tem cascos de ferro
E as esporas de estranho metal
Cor de vinho, de sangue e de morte,
Um metal parecido com ciúme.

(O iroquês sabe há muito o caminho e o lugar
Onde estou à mercê:
É uma estrada asfaltada, tão solitária quanto escura,
Passando por entre uns arvoredos colossais
Que abrem lá em cima suas enormes bocas de silêncio e solidão.)
Outro dia senti um ladrido
De concreto batendo nos cascos:
Era o meu Iroquês que chegava
No seu gesto de anti-Quixote.
Vinha grande, vestido de nada
Me empolgou corações e cabelos
Estreitou as artérias nas mãos
E arrancou minha pele sem sangue
E partiu encoberto com ela
Atirando-me os poros na cara.
E eu parti travestido de Dor,
Dor roubada da placa da rua
Ululando que o vento parasse
De açoitar minha pele de nervos.
Veio o frio com olhos de brasa
Jogou olhos em todo o meu corpo;
Encontrei uma moça na rua,
Implorei que me desse sua pele
E ela disse, chorando de mágoa,
Que era mãe, tinha seios repletos
E a filhinha não gosta de nervos;
Encontrei um mendigo na rua,
Moribundo de fome e de frio:
«Dá-me a pele, mendigo inocente,
Antes que Ela te venha buscar.»
Respondeu carregado por Ela:
«Me devolves no Juízo Final?»;
Encontrei um cachorro na rua:
«Ó cachorro, me cedes tua pele?»
E ele, ingénuo, deixando a cadela
Arrancou a epiderme com sangue
Toda quente de pêlos malhados
E se foi para os campos de lua
Desvestido da própria nudez
Implorando a epiderme da lua.
Fui então fantasiado a travésti
Arrojado na escala do mundo
E não houve lugar para mim.

Não sou cão, não sou gente – sou Eu.

Iroquês, Iroquês, que fizeste?


Décio Pignatari
Antologia de Poesia Brasileira do Século XX – Dos Modernistas à Actualidade

segunda-feira, 16 de junho de 2008

XOCHITEPEC

Esses animais que nos seguiam no sonho
São devorados pela aurora, mas onde estão os
Que nos caçam, que nos cheiram, que nos perseguem, tão
Perto da nossa vida, barriga para baixo, caçando os nossos projectos
De construção, as suas formas delirantes,
Os símbolos da morte, da heráldica, das sombras,
Ferozmente... Pouco antes de deixarmos Tlampam
Os nossos gatos jaziam a tremer debaixo do maguey;
Um sentido se escapara, já rígidos, sobre a ravina,
Onde entrámos agora, e cujo nome é inferno.
Mas a nossa última noite ainda contém o seu animal:
O cachorro, no cabaret, obsceno,
Às voltas e voltas, sujando o chão,
E atando-se a si próprio a esse horror
Da nossa última noite; enquanto no dia final
Quando me sentava curvado, congelado em mezcal,
Eles arrastaram duas muito jovens corças aos gritos pelo hotel
E aí as degolaram, atrás da porta do bar...

Malcolm Lowry
As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar
Tradução José Agostinho Baptista
Assírio & Alvim

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A MÃE

Eu não existo, não existo senão no teu chão.
Quando tu gritaste e a tua pele tremeu
Ganharam lume os meus ossos.

(Minha mãe, prisioneira na sua pele,
Muda ao sabor dos anos.

O seu olhar é límpido, escapa à deriva
Dos anos ao fixar-me e ao chamar-me
Seu ditoso filho.

Ela não era uma cama de pedra, uma febre animal,
As suas articulações eram jovens gatos,

Mas a minha pele mantém-se para ela imperdoável
E ficam imóveis as cigarras na minha voz.

«Cresceste, deixaste-me para trás», diz ela lavando
Com vagar os pés a meu pai, e fica calada
Como uma mulher sem boca.)

Quando a tua pele gritou, ganharam lume os meus ossos.
Tu pousaste-me, jamais poderei retransformar essa imagem,
Eu era o hóspede convidado mas que matava.

E hoje, mais tarde, fiz-me virilmente estranho a ti.
Tu vês-me aproximar, pensas contigo: «Ele é
O Verão, ele faz a minha carne e aguenta
Os cães em mim vivos.»

Enquanto tu todos os dias vais morrendo, não junto
Comigo, eu não existo senão no teu chão

Em mim desfaz-se rodopiando a tua vida, tu não
Voltarás para mim, de ti nunca me hei-de curar.

Hugo Claus
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Tradução de Fernando Venâncio
Assírio & Alvim, 2001

Oferecido por
Rui Almeida.

PRIMAVERA


Chegou a Primavera e radiantes
As aves a saúdam com seu canto
E com o zéfiro sopro as fontes
Murmuram docemente, entretanto.

Vêm cobrindo o ar de negro manto
Trovões e relâmpagos que a anunciam
E as aves, quando aqueles aliviam,
Regressam então ao canoro encanto.

E, assim, sobre o florido e ameno prado,
Ao pé do arvoredo sussurrante,
Dorme o cabreiro com o seu cão ao lado.

Com a flauta pastoril de som radiante
Pastor e Ninfas dançam sob o amado
Céu primaveril, que surge brilhante.

Antonio Vivaldi
Quatro Estações
Tradução de Rui Almeida


Oferecido por Rui Almeida.

domingo, 8 de junho de 2008

SALMO 21

Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?
Como estais longe da minha oração,
das palavras do meu lamento!
Meu Deus, clamo de dia e não me respondeis,
clamo de noite e não me prestais atenção.

Vós, porém, habitais no santuário,
sois a glória de Israel.
Em Vós confiaram nossos pais,
confiaram e Vós os libertastes.
A Vós clamaram e foram salvos,
confiaram em Vós e não foram confundidos.

Eu, porém, sou um verme e não um homem,
o opróbrio dos homens e o desprezo da plebe.
Todos os que me vêem, escarnecem de mim,
estendem os lábios e meneiam a cabeça:
«Confiou no Senhor, Ele que o livre,
Ele que o salve, se é seu amigo».

Fostes Vós que me tirastes do seio materno,
sois Vós o meu defensor desde o regaço de minha mãe.
A Vós fui entregue logo ao nascer,
desde o seio materno sois o meu Deus.

Não Vos afasteis de mim, porque estou atribulado,
e não há quem me ajude.

Manadas de touros me cercaram,
touros de Basã me rodeiam.
Abrem as fauces contra mim,
como leão que devora e ruge.

Sou como água derramada,
Desconjuntam-se todos os meus ossos.
O meu coração tornou-se como cera
e derreteu-se dentro do meu peito.
A minha garganta ficou seca como barro cozido
e a minha língua colou-se ao céu da boca.
Assim me reduzistes ao pó do túmulo.

Matilhas de cães me rodearam,
cercou-me um bando de malfeitores.
Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,
posso contar todos os meus ossos.
Eles, porém, contemplaram e observaram-me.
Repartiram entre si as minhas vestes
e deitaram sortes sobre a minha túnica.

Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim,
sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me.
Livrai a minha alma da espada
e das garras dos cães a minha vida.
Salvai-me das fauces do leão
e dos chifres dos búfalos livrai este infeliz.

Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos,
Hei-de louvar-Vos no meio da assembleia.

Vós que temeis o Senhor, louvai-O,
glorificai-O, Vós todos os filhos de Jacob,
reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.
Porque não desprezou nem repeliu a angústia do atribulado,
nem escondeu dele a sua face,
mas atendeu-o quando lhe pediu socorro.

Ele é o meu louvor na grande assembleia,
cumprirei a minha promessa na presença dos que O temem.
Os pobres hão-de comer e serão saciados,
louvarão o Senhor os que O procuram:
«Vivam para sempre os seus corações».

Hão-de lembrar-se do Senhor e converter-se a Ele
todos os confins da terra;
e diante d'Ele virão prostrar-se
todas as famílias das nações.

Ao Senhor pertence a realeza,
é Ele quem governa os povos.
Só a Ele hão-de adorar todos os grandes do mundo,
diante d'Ele se hão-de prostrar
todos os que descem ao pó da terra.

Para Ele viverá a minha alma,
há-de servi-l'O a minha descendência.
Falar-se-á do Senhor às gerações vindouras
e a sua justiça será revelada ao povo que há-de vir:
«Eis o que fez o Senhor».

atribuído ao Rei David
Livro dos Salmos
Conforme a Liturgia oficial da Igreja Católica


Oferecido por Rui Almeida.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

– Quem são estes?

Da tartaruga retirar a tartaruga,
deixá-la ser apenas a não tartaruga.
Chove. As gotas molhariam seu atraso.
Eis o primeiro ciclo, o da falta.
A chuva insiste, toca as telhas de amianto.
A casa está fechada e quem está lá dentro
é a continuação da chuva e do amianto.
Esse o segundo ciclo, o do gesto.
Junto da casa, um quintal. Ainda não.
Quem sabe quando a chuva parar de insistir
eu compreenda as regras da perspectiva.
O que se retirara retorna. Silêncio.
À tartaruga chega-se por paciência.
Terceiro ciclo, o das coisas repetidas.


O coração subentendido do elefante
desce por uma linha que vai dar ao lado
do que se repetiu sem ter sequer e ainda
acontecido uma só vez. Analogia.
Junto do verso acima, novamente a casa.
No quintal dois cachorros latem sem parar;
um deles nada sabe acerca do elefante
e de seu coração localizado às pressas.
Entro na casa até que a casa deixe o texto.
O elefante é do lado de fora. Por isso
o quintal, os cachorros, os ciclos, a linha.
Interrompem-se então tamanho e referência.
Talvez viesse pelas águas. Improvável.
Sobre a copa das árvores a ventania.


A casa está vazia não por mera ausência,
mas para o aprendizado da subtração.
E a chuva, porque cai desde o terceiro verso,
além de chuva é extensão desse elefante.
A casa está vazia para que se saiba
do desapego que há em insistir no mesmo.
Mesa e pausa. A chuva caindo talvez
e apenas como efeito de profundidade.
Depois um dos cachorros. Não, acho que só
seu deslocar-se repetido até a porta.
A metodologia seguida do gesto.
Alguns pássaros seguem para o noroeste.
Tudo começa no elefante. Lentamente
a bala dentro do tambor, as leis da física.


Os pássaros aos poucos pousam no que sobra;
o pouso repetindo-se até haver árvores.
Espécie de equilíbrio natural nos ciclos
que haja ainda e a partir de agora apenas árvores.
E por haver apenas árvores, chego ao
cuidado que se ganha em se perder tais pássaros.
Assim, em cada projeção, seu negativo;
no que algo se levanta, algo também cai.
Compensação e equivalência. Revoada.
Os pássaros e as árvores segundo os peixes
que ausentes marianne moore quis próximos ao jade.
Em outro lugar deixo um jornal sobre a mesa.
As coisas são somente por faltarem todas.
Substituição e excesso. Continua.


Imitação do esquecimento o fato
de a primeira pessoa não ter posto
jornal algum na mesa. Mas espera.
Olha como retorna a tartaruga.
De seus ciclos inúmeros e três,
a segunda pessoa esta terceira.
Alguém, não sei, talvez um homem que
chegasse em casa com o tal jornal.
Me pergunto se já não o conheço.
Ele se olha no espelho e vê o pai,
depois pensa na chuva e na mulher.
Entre os dias então escolhe um dia
– anulação do dia anterior.
Quem sai, sai de onde quando entra na casa?


Ao elefante nada disso importa;
seu coração inchado ainda desce
ao vir por uma linha que vai dar
ao lado das palavras de quem chega.
E toca o chão. E quando o toca está
tocando notas menos simultâneas
que repetidas. Por exemplo, pássaros,
jornal, cachorros, telhas de amianto,
árvores, mesa, peixes e quem sabe
até todo o catálogo das naus.
Depois, lembro, alguém se olha no espelho.
Ainda não. A paciência insiste.
Sete anos de pastor jacob servia.
Introdução. O tempo do elefante.


Pausa e peixes. Mover-se em relação
ao que se move permanece imóvel.
Muda o registro, árvores mais pássaros
igual talvez a casa menos chuva.
Muda outra vez: a mesma marianne moore
– que traduziu até algumas fábulas
de la fontaine – ao ler o verso abaixo:
where there is personal liking we go.
Sim, hoje marianne, amanhã jacob
e assim seguindo, sob a mesma chuva,
de nome em nome até tocar o chão,
i.e., até que cicatriz alguma
possa impedir que homônimos raquel,
lia e filhos estejam entre os seus.


Da tartaruga retirar o não
que antecedia a coisa repetida.
Não para confirmá-la, já que é de
confirmação que a tartaruga inteira é feita.
Mas para contrapô-la ao elefante
e a seu ainda inchado coração.
Por isso que o que fica no lugar
do gesto é seu reverso e também extensão.
Colocar sobre a mesa tanto o pôr
como o não pôr jornal nem coisa alguma.
Anulação seguida de recuo.
Chove. As gotas contra o amianto
das telhas descobertas molhariam
por três vezes o não da tartaruga.

Leonardo Gandolfi

segunda-feira, 26 de maio de 2008

CÃO CÉRBERO

antolhos. cão cérbero guardião das portas do inferno. estrangulá-lo. hera. belamente leão de neméia. esmagar os pés de bronze do antropóide. acomodá-lo nas entranhas dilaceradas da corça. voar... dentro da cabeça da égua alada. um destino no bico da ave antropófaga. as larvas mentais. do caos os miolos da sombra. sugar o monstro antropocêntrico dum poeta. mas o touro lança a chama violeta pelas narinas num umbigo. lírico.

Adriana Zapparoli
Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio

INSÓNIA

Madrid é uma cidade de mais de um milhar de cadáveres (segundo as últimas estatísticas).
Às vezes na noite dou voltas e soergo-me neste buraco em que há quarenta e cinco anos apodreço,
e passo longas horas ouvindo gemer o furacão, ou ladrar os cães, ou fluir brandamente o luar.
E passo longas horas gemendo como o furacão, ladrando como o cão enfurecido, fluindo como o leite do úbere quente de uma enorme vaca amarela.
E passo longas horas perguntando a Deus, perguntando-lhe por que apodrece lentamente minha alma,
porquê apodrecem mais de um milhão de cadáveres nesta cidade de Madrid,
porquê milhões de cadáveres apodrecem no mundo.
Diz-me: que horto queres adubar com a nossa podridão?
Receias que sequem para ti as grandes roseiras do dia,
as tristes açucenas letais de tuas noites?

Dâmaso Alonso
in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
Tradução de José Bento
Assírio & Alvim, 1985


Oferecido por Rui Almeida.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

COMO ME TRANSFORMEI EM CÃO

É ainda assim completamente insuportável!
Estou rabugento como tudo.
A minha rabugice não é conforme poderia ser a vossa:
apanharia qual um cão o rosto de testa lisa
da lua
e cobrindo-a de latidos.

Deve ser dos nervos…
Vou sair,
dar uma volta.
Mas na rua ninguém consegue acalmar-me.
Uma mulher grita-me qualquer coisa a propósito de uma boa tarde.
Há que responder:
eu conheço-a.
Quero fazê-lo,
mas sinto
que é impossível à maneira dos homens.

Que escândalo!
Estarei a dormir?
Apalpo-me:
sou tal como era,
o rosto a que estou habituado.
Toco no lábio,
por baixo desponta
um canino.

Escondo rapidamente a cara, como para me assoar,
corri para casa dobrando o passo.
Contorno prudente a esquadra mas de repente um grito ensurdecedor:
«Ó da guarda!
Ele tem uma cauda!»

Passei a mão e fiquei hirto!
Isto era mais claro
que todos os caninos,
na minha pressa furiosa não tinha reparado
que sob o casaco
uma enorme cauda tinha estendido o seu leque
e abanava atrás de mim,
uma enorme cauda de cão.

Que irá acontecer?
Um pôs-se a berrar, amotinando a multidão,
ao segundo juntou-se um terceiro, depois um quarto.
Derrubaram uma pobre velha
que benzendo-se gritou qualquer coisa a propósito do diabo.
E quando, a cara eriçada pelas vassouras de enormes bigodes
a multidão se aproximou,
imensa,
maldosa,
eu pus-me a quatro patas
e ladrei:
Au! Au! Au!

Vladimir Maiakovski, in "33 Poesias" quasi, 2008
trad. Adolfo Luxúria Canibal

Via O Café dos Loucos

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Insónia

O homem vigia.
Dentro dele, estumados,
uivam os cães da memória.
Aquela noite, o luar
e o vento no cipó-prata e ele,
o medo a cavalo nele,
ele a cavalo em fuga
das folhas do cipó-prata.
A mãe no fogão cantando,
os zangões, a poeira, o ar anímico.
Ladra seu sonho insone,
em saudade, vinagre e doçura.

Adélia Prado
Bagagem
1976

Oferecido por Rui Almeida.

Ladrar em vão

Uma manhã vazia, com certeza domingo.
Um cão a ladrar disparates
para casas estranhas, mas com certeza
não tão bem, tão caninamente como devia,
porque ninguém vem espreitar à janela,
ninguém lhe grita furioso: «Cala-te»

Judith Herzberg, O que resta do dia, 2008.

Oferecido por manuel a. domingos.

adeus

adeus Hemingway adeus Céline (morrestes no mesmo dia)
adeus Saroyan adeus meu bom Henry Miller adeusTennessee
Williams adeus cães mortos nas auto-estradas adeus todo o
amor que nunca foi adeus Ezra é triste é sempre triste quando
alguém dá e depois alguém tira eu compreendo
eu compreendo e dou-te o meu carro e o meu isqueiro
e o meu cálice de prata e o telhado que afasta
a maior parte da chuva adeus Hemigway adeus Céline adeus
Saroyan adeus meu bom Henry Miller adeus Camus adeus Gorky
adeus equilibrista que cais enquanto rostos sem expressão
olham para cima depois para baixo e depois afastam a cara
zanguem-se com o sol, disse Jeffers, adeus Jeffers, eu só posso pensar
que a morte de gente boa e de gente má é igualmente triste
adeus D.H. Lawrence adeus à raposa dos meus sonhos e
ao telefone
foi mais difícil do que esperava
adeus Two Ton Tony adeus Flying Circus
fizeram o suficiente adeus Tennessee minha bicha alcoólica
esta noite estou a beber uma garrafa a mais de vinho
à tua saúde.

Charles Bukowski, War All the Time, 1984.
versão de
manuel a. domingos

quarta-feira, 26 de março de 2008

Cãozinho

Vi um pincher num parque
que não queria parar de tremelicar
ou talvez quisesse mas não pudesse
ou talvez pudesse mas não soubesse
que fazer senão tremelicar.

Judith Herzberg
O que resta do dia
2008

Oferecido por manuel a. domingos.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O INSTINTO

O homem velho, desenganado de tudo,
da soleira da porta, sob o sol cálido,
observa o cão e a cadela a satisfazerem o instinto.

Sobre a sua boca desdentada perseguem-se as moscas.
A sua mulher há muito que morreu. Também ela,
como todas as cadelas, não queria saber disso,
mas não lhe faltava o instinto. O homem velho cheirava o ar
- ainda tinha dentes -, a noite vinha,
metiam-se na cama. Era bonito o instinto.

O que agrada no cão é a grande liberdade.
De manhã à noite vagueia pela rua;
e ora come, ora dorme, ora monta as cadelas:
não espera sequer pela noite. Raciocina
com o faro, e os cheiros que sente são seus.

O homem velho recorda-se de uma vez
em que o fez como os cães, de dia, no meio duma seara.
Já não sabe com que cadela, mas lembra-se do grande sol
e do suor e da vontade de nunca mais acabar.
Era como numa cama. Se os anos voltassem,
gostaria de o fazer sempre no meio duma seara.

Desce a rua uma mulher e pára a olhar;
o padre passa e volta-se. Na praça pública
pode-se fazer tudo. E até a mulher,
que tem pudor em voltar-se para o homem, pára.
Só um rapaz não tolera o jogo
e faz chover pedras. O homem velho indigna-se.

Cesare Pavese
Trabalhar Cansa
Trad. Carlos Leite
Cotovia

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