Cão

Antologia de textos com cães dentro.

domingo, 16 de maio de 2021

TESTEMUNHA

Guardei a camisola com os pêlos do
cão — testemunha ocular da tentativa.
Transportava lágrimas para as mãos
do dono e trazia carícias de volta.
Coração pequeno à espera de um tufo
de entendimento. Puxou pelo cotão
macio das palavras. Lambeu o rosto e
ofereceu a baba. Mais não tinha para dar.
Deu tudo o que os humanos não deram.

Tão simples o barómetro do amor —
uma cauda erguida. Olhos rasos de perdão.
Sem nada pedir. Sem nada esperar.
Apenas a caruma dos antigos passeios
e quatro mãos a guiá-lo. Give me five e um
cordão de lealdade. Assim os humanos
soubessem amar, transportando 
ao pescoço a única angústia.

Maria F. Roldão, in Pequeno Sangue, volta d'mar, Fevereiro de 2021, p. 15.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

AZINHAGA II

Uma insolência seria bastante
Para a conveniência de um regresso
Como este sol alçado
Que aguarda o seu fim;
Mas não é isto importante.

Como aquilo que não vemos,
O importante,
É o semelhante a tudo,
Surpresa sem destinatário,
Como a indiferente
Humidade quente que do mijo sobe
E ora cai sobre o silvado;

Direi o que importante pode ser:
O cão que passa e rosna
Tem para com a sua fome
A harmonia de um ódio
Igual ao meu;
O moscardo vaivém
Entre cadáver de rato
E flor de cardo,
Que pousa no meu beiço como se beijasse
Em pedante homenagem
De quem se despede;
Uma sombra vem
E com ela a importância de quem sou.

Nunes da Rocha, in Sabão Offenbach, &etc, Abril de 2015, pp. 49-50.

sábado, 20 de março de 2021

PREFIRO O INÁCIO,

 a quase todos os poetas que conheço.
Não sei se morreu ou se já não vive
— pois foi proibido de beber
e de fumar, e o Inácio era
essencialmente isso: um grande bêbedo
e um fumador diligente, que ensinara
o cão a ir junto da taberneira buscar-lhe
novo maço de tabaco. Quem viu, acredita.

Quem não viu, falhou o milagre.

Manuel de Freitas, in Ubi Sunt, Averno, Junho de 2014, p. 13.


segunda-feira, 1 de março de 2021

HOMENAGEM

Morreu enforcado com um colar de flores
e os cães saltam para lhe lamber os pés.
Morreu enforcado coberto de flores.
Erguidos sobre as patas traseiras
os cães lambem-lhe os pés.

Dizem que fôra poeta (o que é vulgar)
mas ocultam a luz que o revestia.
Deu um tiro na cabeça e simultaneamente
enforcou-se com um colar de flores.

A extravagância não é o facto, mas a cor.

Por isso fotografam o cadáver
já liso e sereno como um lago
pestífero, quieto e silencioso.

Novembro 1967

Manuel de Castro, in Bonsoir, Madame, Alexandria / Língua Morta, Dezembro de 2013, p. 235.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021



nesse dia verdadeiro
eu vi o céu próximo
jardins como este
mais tarde

no encosto do banco de pedra
escreves a tua contribuição à história do cãozinho

o cão interessava-me muito
   o seu tamanho
   as suas pontes
   sobre o Sena e sobre o Eure

o cão interessava-me muito
   mantém-te de esguelha
   na barca tu não tens
   só passareis uma vez

o cão interessava-me muito
   o seu tamanho
   para onde
   o arco vai

já é alguma coisa ser este cãozinho
   vermelho na frente
   e azul
   nas orelhas

Anne Portugal, in Sud-Express. Poesia Francesa de Hoje, trad. António Ramos Rosa, Relógio D'Água, 1993, p. 195.

domingo, 17 de janeiro de 2021

UM POEMA DE JOÃO PEDRO AZUL

 


XXII

          quando for grande
Quero ser cão
ladrar às camionetas
           que ao passar
fazem estremecer
          sem aviso
a pele de vidro que visto

          a minha rua
Não tem fim
Esta fome que trago nos ossos
          também não
Mas se fim houvesse
certo estaria do sal
a gretar-me a boca

          confundir o mar com o tempo
          quando não se sabe nadar
É névoa que anuncia a tragédia


João Pedro Azul, in Um Cavalo Sentado à Porta, Edição do autor, Outubro de 2020, p. 43.


DISFORME

Nobre rafeiro que me acompanhas
quando me deito também sou de quatro patas
a mexer com tal velocidade que o meu lombo
separa-se ondulando para fora 
como um tapete voador.
De regresso ouço embevecida
o compasso ternário do barulho 
que fazes a absorver água.
Uma valsa incompleta
embalando o biscoito de coelho
que retiro tão feliz do forno.
Olhas para mim
perscruto o reverso 
da minha paisagem 
submersa em dívidas
e então percebo logo
porque é que a vida
ainda corre de feição.

 

sábado, 9 de janeiro de 2021

NALA


 

sábado, 20 de abril de 2019

1 ANO


sexta-feira, 20 de abril de 2018




Basquiat
2000 (?) - 20/Abril/2018


Este weblog termina aqui.

sábado, 10 de março de 2018

CÃO RAIVOSO



sábado, 3 de março de 2018

O LADRAR DOS CÃES

   Não havia sinal da existência de pessoas na escuridão da noite, nem uma única respiração humana, mas apenas a do vento. Quando nos sentámos, pois a novidade da situação mantinha-nos acordados, ouvíamos de vez em quando raposas a andar sobre as folhas mortas e roçar as ervas húmidas de orvalho perto da tenda e, numa ocasião, um rato-almiscareiro a tentar chegar às batatas e aos melões no barco, mas quando acorremos à margem apenas vimos uma ondulação da água a agitar o disco de uma estrela. Por vezes, ouvíamos a serenata de um pardal a sonhar ou o grito abafado de uma coruja, mas, depois de cada som que a pouca distância quebrava a quietude da noite, de cada crepitar de galhos ou sussurrar das folhas, havia uma pausa súbita e fazia-se sentir um silêncio cada vez mais profundo, como se o intruso soubesse que nenhuma vida tinha o direito de andar por fora a essa hora. Nessa noite, devia haver um incêndio em Lowell, pois vimos o horizonte esbraseado e ouvimos as distantes sinetas de alarme, que pareciam uma ténue melodia metálica que tivesse chegado àqueles bosques. Mas o som mais constante e memorável de uma noite de Verão, que ouvimos em todas as noites subsequentes, embora nunca tão continuamente nem tão bem como agora, era o ladrar dos cães domésticos, desde o ladrar mais forte e rouco até à palpitação aérea mais ténue sob os beirais do céu, desde o mastim paciente, mas ansioso, até ao terriê tímido e alerta, ao princípio alto e brusco, e depois baixo e lento, que só se podia imitar num sussurro: au-au-au-au-a-a-u-u. Mesmo numa região distante e deserta como esta, havia uma profusão de sons nocturnos, mais fascinantes do que qualquer música. Ouvi a voz de um cão, imediatamente antes da aurora, quando as estrelas brilhavam, vinda de trás dos bosques e do rio, distante no horizonte, tão suave e melodiosa que mais parecia emitida por um instrumento musical. O ladrar de um cão em perseguição de uma raposa ou de outro animal no horizonte pode ter sugerido inicialmente as notas da corneta de caça que veio substituir e aliviar os pulmões do animal. Esta corneta natural ressoou durante muito tempo no mundo antigo antes de o instrumento ter sido inventado. Os próprios cães que, nestas noites, ladram tristemente à lua nos pátios das quintas incutem mais heroísmo nos nossos peitos do que todas as exortações civis ou sermões guerreiros da época. «Preferia ser cão e ladrar à lua» do que muitos romanos que conheço. A noite está igualmente em dívida para com o clarim do galo, com uma esperança insone desde o pôr-do-sol, anunciando prematuramente  madrugada. Todos estes sons, o cantar dos galos, o ladrar dos cães e o zumbido dos insectos ao meio-dia são indícios da saúde da natureza. É essa a infalível beleza e precisão da linguagem, a obra de arte mais perfeita do mundo, retocada por um cinzel milenar.

Henry David Thoreau, in Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack, trad. Luís Leitão, Antígona, Janeiro de 2018, pp. 68-69.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

BUSCAS

   O Verão adormeceu, mas vem ainda um sopro do calor da terra, uma insinuação. As gaivotas assumem os areais onde antes as horas foram ruidosas, e etc. Está um vento revoltado. Os cães, as cadelas, têm nomes de gente: Simão, Margarita, Afonso, Marinho, Olinda. As nuvens fazem impressão nos olhos.
   O carpinteiro pega no robalo que dança dentro do balde com água e avança uns passos no final do pontão da praia em direcção ao além.
   — Marinho! — grita o homem.
   O rafeiro, com um nervoso miudinho, larga a correr no pontão e pára junto dos tornozelos do pescador.
   — Busca! — ordena o homem, atirando o robalo ao mar.
   Não fica a saber-se se Marinho pensou muito ou pouco, ou se chegou mesmo a pensar. Desceu pelas pedras do molhe e entrou no oceano com uma genica que concorreu com as fúrias do vento. Alguns latidos e logo mais nada. Muito depressa o Marinho ficou a confundir-se com espumas e algas. O carpinteiro pegou no balde e voltou para o lugar onde deixara a cana  de pesca. Ajeitou o isco no anzol. Horas depois, gritou
   — Olinda!
   Mal ouviu, a cadelita disparou para os tornozelos do pescador que mostrava na mão um sargo contorcionista.
   — Busca!


Abel Neves, in O Bibliófago e Mais Historietas Breves, Edições Adab, Abril de 2017, p. 18.

sábado, 21 de outubro de 2017

A VIAGEM DO ARROZ

   Em terras asiáticas, o arroz cultiva-se com muito cuidado. Quando chega a época das colheitas, cortam-se com suavidade os talos e juntam-se em cachos, para que os maus ventos não lhes levem a alma.
   Os chineses da comarca de Sichuan recordam a  mais espantosa das inundações havidas e por haver: ocorreu na antiguidade dos tempos e afundou o arroz, com alma e tudo.
   Só se salvou um cão.
   Quando por fim baixou a cheia, e muito lentamente se foi acalmando a fúria das águas, é que o cão pôde chegar à costa, nadando a muito custo.
   O cão trouxe uma semente de arroz colada à cauda.
   Nessa semente estava a alma.


Eduardo Galeano, in O Caçador de Histórias, trad. José Colaço Barreiros, Antígona, Setembro de 2017, p. 16.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

PARQUE DA CIDADE

o cão é uma extensão da floresta,
foi posto ali para compensar o nosso desprezo
por mapas e satélites que nos indicam sempre
uma saída. já não podemos perder-nos na floresta
com celulares no bolso, e seria tão bom que pudéssemos
amar-nos também assim, com o frio da noite a roer-nos os
ossos e a fome a disputar a atenção das nossas bocas, desalojados
definitivamente do mundo.

deixámos em casa os produtos da tecnologia. levámos apenas os nossos
corpos, sabendo que há dez mil anos que não os sujeitamos aos necessários
upgrades. os teus pés não doíam nos meus sapatos, e a minha impaciência
entretinha-se com o teu pescoço.

quando a trilha escureceu eu comecei a acreditar.
dissolvia-se a memória das casas no último verde tocado
pelo sol. um inocente segundo passo separava-nos da dignidade
do assombro. em breve estaríamos perdidos, amarrados a um
labirinto maior que todos os nossos sonhos. morreríamos abraçados, lindos,
e todos os amantes da História teriam inveja de nós.

Mas eu esquecera-me que neste país algumas pessoas constroem
casas no meio de florestas públicas como a floresta da Tijuca.
Privilégios herdados, que são o fruto de histórias feitas
com armas menos ingénuas do que as nossas, meu amor.
E os dentes do cão que corria para nós pareceram-me grandes como
as estratégias dos homens que me vencem na política.

Quer dizer, tive medo.
Toda a minha concentração foi usada na criação de um
semblante calmo, de um corpo estável, e quando tu te escondeste
atrás de mim e me agarraste as costas, eu nem sequer tremia.

Conclusão: não nos perdemos na floresta, como eu queria, mas também
não fomos devorados pelo rottweiller de olhos brilhantes.

A vida tem destas coisas. Tem muitas coisas destas.

Regressámos pela mesma trilha ao centro da cidade, jantámos,
tomámos um café, e só não morremos abraçados para sempre
porque às 8 horas em ponto da noite de domingo um ónibus te levaria,
com excessos de ar condicionado, da (nossa) eterna cidade do Rio de Janeiro.


Rui Costa, in Mike Tyson Para Principiantes, Assírio & Alvim, Setembro de 2017, pp. 60-61 (poema anteriormente publicado na revista de poesia Piolho, n.º 10, Setembro de 2012).

sábado, 9 de setembro de 2017

A MORTE DOS MEUS BICHOS



Morreu o Boneco. Às onze da noite pedi ao Dr. P. D. que viesse para o abater. Foi uma decisão rápida, depois de tomar consciência de que ele começava a sofrer sem poder ter mais repouso senão a morte.
   O Boneco era o cão mais desleal do mundo, excepto para mim. Foi vadio a valer, descuidado, poltrão e agressivo. Teve duas pneumonias graves, foi gravemente mordido por duas vezes a ponto de ficar com a garganta aberta. Teve uma otite e ficou surdo. Caiu duma escada e partiu o pescoço, e usou gesso como um cavaleiro que caísse da montada. Mordia toda a gente, se pudesse. Era velhíssimo e ainda prometia dentadas. Estava cego e ainda corria as visitas pela porta fora. Nunca saí de casa sem o levar na ideia como preocupação e saudade. Chamava-lhe Dulho. Ele corria pelas dunas de Esposende e rebolava-se na carcaça das gaivotas. Entrava na vasa do rio e voltava coberto de lodo. Às vezes desaparecia durante dois dias; prendiam-no para pedir resgate por ele. Era um caniche pêlo de arame, daí a má índole, asselvajada. Tinha um nariz redondo e farripas brancas, muito engraçado. Viveu dezassete anos. Está enterrado no jardim de baixo, ao lado do muro que tem a sebe amarela. O Sr. A. fez lá uma cova à luz duma lanterna de bolso e enterrou-o, embrulhado no resto daquela manta que eu trouxe de Aosta e que o Boneco tinha devorado pouco a pouco, por júbilo ou vingança. Ele tinha passado o Inverno com um casaco que tinha nas costas flores de pessegueiro pintadas. Um casaco de angorá que eu talhei e cosi. Eu gosto do Boneco, daí a escrever a respeito dele sem estilo nenhum. Não me inspira sentenças porque toma o lugar adiante da razão.

7 de Março de 1977

Agustina Bessa-Luís, in Caderno de Significados, Guimarães, Outubro de 2013, pp. 29-31.

Etiquetas

Seguidores