Estiveste connosco onze anos.
Uma noite voltámos:
estavas estendido frente ao portão,
o focinho no pó da estrada,
as patas já frias, o dorso
quente ainda.
Agora estás todo
nesta cova que te abrimos.
Mas os onze anos
da tua humilde vida,
o gemer
sempre que alguém partia,
o sofrer de alegria
sempre que alguém regressava
- e à noitinha
se alguém
por uma tristeza sua
chorava
tu lambias-lhe as mãos:
olhavas para ele
e lambias-lhe as mãos -
oh, esses onze anos
do teu mudo amor
está tudo aqui
sob esta terra
sob esta chuva
cruel?
Agonizavas
na gravilha húmida:
levantaste ainda
uma pata - que tremia.
Agora ninguém te protege
do frio.
Já não te podemos chamar.
Já não te podemos dar
nada.
Só as folhas mortas
caem neste recanto
do relvado.
Pensar que algo mais resta
de ti
é impossível:
e por isso a nossa absurda
dor aumenta.
Antonia Pozzi
Antologia de textos com cães dentro.
domingo, 7 de outubro de 2012
sábado, 11 de agosto de 2012
NOVELA CURTA
O meu amigo Moreira mandou uma vez construir, num quintal velho que tinha, uma casa elegante para um cão. Encarregou d'isso um mestre de obras, que, atraído pela estranheza do assunto e pela suposta loucura do criador do proposito, construiu uma espécie de chalet digno de ser pago, sem sobras, por alto preço.
Quando a casa para o cão estava pronta, o Moreira compareceu e aprovou. Elogiou o mestre de obras, e foi-se embora, meditando.
Dias depois, quando o mestre de obras apareceu com a conta, o Moreira pediu-lhe que o acompanhasse ao quintal velho. Chegados ali, disse-lhe com enternecimento, apontando para a casa do cão.
- Olhe, mestre, meta a conta ali dentro. Ela é que é o cão.
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
sábado, 28 de julho de 2012
SEXTA, SÁBADO
Agora os rapazes com lanternas correm
pelo meio da rua, analisam-nos o rosto à
luz ofuscante; as feridas abrem
ligeiramente, uma bola cinzenta cai da janela
transida. Há poeira, glóbulos de lama no escuro patamar.
**
A cidade, músculo avariado. Pastores conduzem
mulheres, carrinhos e cestos de groselhas. Crianças tenras
volteiam na praça. Estou esfomeado e eles estão imóveis
(multiplicai-vos,
façam de mim súbito vosso).
**
Despreocupado, recostado na
rede. Cemitério judeu. Habitantes
do outeiro: cão, vaca e toupeira. Loiça (fonte de
alegria). A estrela conduz os rebanhos um a um.
Marcin Sendecki, in Parcelas
pelo meio da rua, analisam-nos o rosto à
luz ofuscante; as feridas abrem
ligeiramente, uma bola cinzenta cai da janela
transida. Há poeira, glóbulos de lama no escuro patamar.
**
A cidade, músculo avariado. Pastores conduzem
mulheres, carrinhos e cestos de groselhas. Crianças tenras
volteiam na praça. Estou esfomeado e eles estão imóveis
(multiplicai-vos,
façam de mim súbito vosso).
**
Despreocupado, recostado na
rede. Cemitério judeu. Habitantes
do outeiro: cão, vaca e toupeira. Loiça (fonte de
alegria). A estrela conduz os rebanhos um a um.
Marcin Sendecki, in Parcelas
sábado, 14 de julho de 2012
D. MARIA MANUELA, SEU MARIDO E SEU CÃES
sempre a vi soterrada
em malhas de lã à volta do pescoço
óculos de lentes pesadas
com olhos de horizontes distorcidos
uma vez experimentei-os aqueles escuros numa praia
e tudo me pareceu metido num filme
mudo a sépia com as pessoas
à velocidade da manivela
só mais tarde soube que (ela)
estava com a sombra
cada vez mais próxima. agora
tece tapetes de arraiolos
a um dedo de distância dos olhos
as mãos trabalham com a destreza
de quem pensa na vida que levou
faz viagens teve cinco filhos tem um marido
cheio de silêncios e a companhia
de um cão velho e uma cadela que substituiu
um outro rafeiro que morreu
baba-se com os netos mas chora muito
com os ataques epilépticos da cadela
por pouco era feliz
Fernando Machado Silva, in Primeira Viagem
em malhas de lã à volta do pescoço
óculos de lentes pesadas
com olhos de horizontes distorcidos
uma vez experimentei-os aqueles escuros numa praia
e tudo me pareceu metido num filme
mudo a sépia com as pessoas
à velocidade da manivela
só mais tarde soube que (ela)
estava com a sombra
cada vez mais próxima. agora
tece tapetes de arraiolos
a um dedo de distância dos olhos
as mãos trabalham com a destreza
de quem pensa na vida que levou
faz viagens teve cinco filhos tem um marido
cheio de silêncios e a companhia
de um cão velho e uma cadela que substituiu
um outro rafeiro que morreu
baba-se com os netos mas chora muito
com os ataques epilépticos da cadela
por pouco era feliz
Fernando Machado Silva, in Primeira Viagem
A CASA O CÃO A CAMA OS COPOS
perdoa-me o enrolar da língua
mas a solidão tem destas coisas
e disparates seguem-se
uns aos outros
sobre o corpo abandonado
e a canção diz
é impossível ser feliz sozinho
e com o meu treino engano-te
preparando uma despedida
fácil. podes sair, levar
as tuas coisas, eu e o nosso cão
resolvemos tudo pelos cantos da casa
revelando-nos a nossa verdadeira cara
um ao outro e voltando
a escondê-la quando regressares
Fernando Machado Silva, in Primeira Viagem
mas a solidão tem destas coisas
e disparates seguem-se
uns aos outros
sobre o corpo abandonado
e a canção diz
é impossível ser feliz sozinho
e com o meu treino engano-te
preparando uma despedida
fácil. podes sair, levar
as tuas coisas, eu e o nosso cão
resolvemos tudo pelos cantos da casa
revelando-nos a nossa verdadeira cara
um ao outro e voltando
a escondê-la quando regressares
Fernando Machado Silva, in Primeira Viagem
terça-feira, 10 de julho de 2012
O CÃO QUE ME TINHA
Eu tive um cão ou era ele
que me tinha e me deixava à solta
guiada sem saber que ia.
Tomava as minhas feridas,
a tristeza que eu pudesse ter
e sofria dela como eu nem sofria.
Trocava de mal trocando-lhe as voltas.
Punha a coleira ao pescoço
e levava-me a passear
como se eu fosse o dono.
E à noite dormia no chão
ou então fingia. Eu acordava
com um servo aos pés da cama,
armava-me em amo
e era ele que me tinha.
Exímio no silêncio
e no uso das armas
com que me defendia
de todos e também de mim:
a linha veloz do pêlo luzidio,
o frémito da língua,
o focinho em arco para a escuta.
Era um cão que me tinha
e uma tarde de verão
atirei-lhe um osso gostoso
antes de o deixar no canil.
Rosa Alice Branco, in O Gado do Senhor
que me tinha e me deixava à solta
guiada sem saber que ia.
Tomava as minhas feridas,
a tristeza que eu pudesse ter
e sofria dela como eu nem sofria.
Trocava de mal trocando-lhe as voltas.
Punha a coleira ao pescoço
e levava-me a passear
como se eu fosse o dono.
E à noite dormia no chão
ou então fingia. Eu acordava
com um servo aos pés da cama,
armava-me em amo
e era ele que me tinha.
Exímio no silêncio
e no uso das armas
com que me defendia
de todos e também de mim:
a linha veloz do pêlo luzidio,
o frémito da língua,
o focinho em arco para a escuta.
Era um cão que me tinha
e uma tarde de verão
atirei-lhe um osso gostoso
antes de o deixar no canil.
Rosa Alice Branco, in O Gado do Senhor
sexta-feira, 6 de julho de 2012
VELHO CACHORRO
O mundo estava na infância.
O vento desenrolava
sua paciente fábula.
O vento velho cachorro
lambia o quadril do sono.
Pé de pilão nossa sombra
junto à sombra da palavra.
O mundo não é candeia
nem vaso de flor a alma.
Carlos Nejar, Um País O Coração
O vento desenrolava
sua paciente fábula.
O vento velho cachorro
lambia o quadril do sono.
Pé de pilão nossa sombra
junto à sombra da palavra.
O mundo não é candeia
nem vaso de flor a alma.
Carlos Nejar, Um País O Coração
CLARIDADE
O barulho de existir:
um cão
dentro de mim.
Atravesso
como a um pátio
o barulho de existir.
Carlos Nejar, Árvore do Mundo
um cão
dentro de mim.
Atravesso
como a um pátio
o barulho de existir.
Carlos Nejar, Árvore do Mundo
domingo, 27 de maio de 2012
quarta-feira, 18 de março de 2009
5 412971 117161
Tem cara de perder. Esta semana
voltou a não levar preservativos
e nunca mais comprou comida para o cão.
Se calhar divorciaram-se, e ficou ela
com o bicho. Só não percebo como é que
ele sozinho consegue beber tanto leite.
Perdeu também um pouco da arrogância
com que habitualmente me passava
o visa. Mas devia ser bonito, em novo.
Manuel de Freitas
Isilda ou a Nudez dos Códigos de Barras
Black Sun Editores
2001
voltou a não levar preservativos
e nunca mais comprou comida para o cão.
Se calhar divorciaram-se, e ficou ela
com o bicho. Só não percebo como é que
ele sozinho consegue beber tanto leite.
Perdeu também um pouco da arrogância
com que habitualmente me passava
o visa. Mas devia ser bonito, em novo.
Manuel de Freitas
Isilda ou a Nudez dos Códigos de Barras
Black Sun Editores
2001
quinta-feira, 5 de março de 2009
Disselama
Rato morto na valeta
acaricia o nevoeiro das sirenes.
Minha mão ensanguentada continha
a curte em sua calote moída. Cenas gold
de gravata & garrote. O mais difícil, o vigilante
securitas filtra a sebe até aos betos,
a piscina vedada a chungas, eram todos da mesma
turma, quem diria núpcias disse lama.
Nem sabias como íamos enlouquecendo,
deixavas sempre os cigarros a meio,
isso ainda era o menos. Nunca
deste pelo estado da tua cabeça.
Cadela que ladra morde o teu sonho
em seu sono no édredon. Detesta
vidros mortos pelos vidros. Juro
cacos, latões de fogo, errata do mundo,
meu, bué meu, a cortar-te as goelas
requinte que não t’amplie a trouxa
da vida toda fodida.
Rui Baião, Nuez, Lisboa: frenesi, 2003.
Oferecido pelo manuel a. domingos.
acaricia o nevoeiro das sirenes.
Minha mão ensanguentada continha
a curte em sua calote moída. Cenas gold
de gravata & garrote. O mais difícil, o vigilante
securitas filtra a sebe até aos betos,
a piscina vedada a chungas, eram todos da mesma
turma, quem diria núpcias disse lama.
Nem sabias como íamos enlouquecendo,
deixavas sempre os cigarros a meio,
isso ainda era o menos. Nunca
deste pelo estado da tua cabeça.
Cadela que ladra morde o teu sonho
em seu sono no édredon. Detesta
vidros mortos pelos vidros. Juro
cacos, latões de fogo, errata do mundo,
meu, bué meu, a cortar-te as goelas
requinte que não t’amplie a trouxa
da vida toda fodida.
Rui Baião, Nuez, Lisboa: frenesi, 2003.
Oferecido pelo manuel a. domingos.
Selecção natural
Flores de artifício, dois rabos,
corneta e orelha. É só pegar
o silêncio pelos cornos. Não percas
na largada, pamplona, o desassossego
do inimigo rente a nós, ideia do quanto
tudo é mais relativo.
Há bodes pelo telhado, rafeiros
roendo a sombra às concertinas, e tanta,
tanta lenha nova sem pegar.
Todos tão vivaços, invencíveis da vida,
viciados em triunfo, comezaina
e mulheres de companhia. Curral
duplex, o obscuro na faena em si.
Rui Baião, Nuez, Lisboa: frenesi, 2003.
Oferecido pelo manuel a. domingos.
corneta e orelha. É só pegar
o silêncio pelos cornos. Não percas
na largada, pamplona, o desassossego
do inimigo rente a nós, ideia do quanto
tudo é mais relativo.
Há bodes pelo telhado, rafeiros
roendo a sombra às concertinas, e tanta,
tanta lenha nova sem pegar.
Todos tão vivaços, invencíveis da vida,
viciados em triunfo, comezaina
e mulheres de companhia. Curral
duplex, o obscuro na faena em si.
Rui Baião, Nuez, Lisboa: frenesi, 2003.
Oferecido pelo manuel a. domingos.
quarta-feira, 4 de março de 2009
O CARNAVAL DOS ANIMAIS
CÃES - 1
Como o faria um amigo, ou um inimigo, ou um
estranho, olhamo-nos como olham os cães
CÃES - 2
Dormem uns em cima dos outros
no bom aconchego uns dos outros
Assim nem precisam de sonhar
CÃES - 3
Cães de guarda, cães de luta, caniches das estrelas
de Hollywood - parece que no vasto labirinto
das espécies alguma dignidade se perdeu
Rui Caeiro
O Carnaval dos Animais
Letra Livre
Outubro de 2008
Como o faria um amigo, ou um inimigo, ou um
estranho, olhamo-nos como olham os cães
CÃES - 2
Dormem uns em cima dos outros
no bom aconchego uns dos outros
Assim nem precisam de sonhar
CÃES - 3
Cães de guarda, cães de luta, caniches das estrelas
de Hollywood - parece que no vasto labirinto
das espécies alguma dignidade se perdeu
Rui Caeiro
O Carnaval dos Animais
Letra Livre
Outubro de 2008
12
Onde é que eu ia? Não ia, parece.
Embora tenha ficado um bocado perplexo quando levantei o lençol de água para ver o cão e, em vez dessa evocação clássica, se me deparou uma chusma de pintores chuchando-lhe a carcaça ensanguentada.
Depois encostaram uma escada para o lado, digamos, de fora da moldura, por onde desciam os mais satisfeitos.
Arrotando no espaço da tua distracção, prossegui.
Jorge Fallorca
Água Tatuada
&etc
Março 1999
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
ELUCIDÁRIO
Cachorro
Quente, é pão com salsicha; frio, novelo de pêlo a dormitar ao lume.
Cães de circo
Raça de canídeos com dois pezinhos.
Cão
Um rabo a sorrir.
Cão de Castro Laboreiro
Se deixarmos levar o que é nosso, não é por falta de guarda.
Galgo
Cão escanzelado, mas não de fome; é de feitio mesmo assim.
Ur e o dono
Vejo-os com frequência. Ur, marfim dos dentes a reluzir, trela tensa presa à coleira; na outra ponta o dono, ar de boneco de pau, cabeça aparafusada directamente no tronco. E a cara, meu Deus, máscara eternamente a rir, olhos azuis.
Noutro dia, os dois por dentro do passeio, eu na borda, passando. Sorrateira, pareceu-me, a tensão da trela aliviou. Sem um latido, o canídeo fez-se ao salto, dentes frenados num esticão rente ao meu braço. E sentou-se a olhar-me por detrás da dentuça frustrada, de viés eu a entrever o dono em ridentes ameaços de castigo. Por Ur ter tentado ou por ter falhado o golpe?
Zurros
De repente, surdiu um vento suão que ensandeceu os bichos. E as galinhas começaram aos coaxos. Sobressaltados, os cães desalmaram-se em relinchos, os porcos em ão ãos desesperados, rãs aos cacarejos, cavalos a grunhir.
- Está tudo doido! – disse de si para si o lavrador.
Tanto bastou para que o vento amainasse, a ordem se restabelecesse: cacarejantes as galinhas, os cavalos aos relinchos, os cães a ladrar, os patos a grasnar, os porcos a grunhir, as rãs aos coaxos.
Enorme banzé!
Incomodado, o lavrador foi-se sem dizer palavra, a mastigar chilreios, misto de rugidos e grugulejos, espécie de uns zurros.
Augusto Baptista
ElucidárioOblíquoDoReinoDosBichosParaCriançasDeTôdalasIdadesFábulasParlengasMofasEnsinançasLuminosasDeAaZComNoventaENoveDesenhosRecomendadoPelaLigaDeDefesaDasLínguasEmPerigoD'Extinção&SuasFaunas
Gatopardo, 2004
Oferecido por Rui Almeida.
Quente, é pão com salsicha; frio, novelo de pêlo a dormitar ao lume.
Cães de circo
Raça de canídeos com dois pezinhos.
Cão
Um rabo a sorrir.
Cão de Castro Laboreiro
Se deixarmos levar o que é nosso, não é por falta de guarda.
Galgo
Cão escanzelado, mas não de fome; é de feitio mesmo assim.
Ur e o dono
Vejo-os com frequência. Ur, marfim dos dentes a reluzir, trela tensa presa à coleira; na outra ponta o dono, ar de boneco de pau, cabeça aparafusada directamente no tronco. E a cara, meu Deus, máscara eternamente a rir, olhos azuis.
Noutro dia, os dois por dentro do passeio, eu na borda, passando. Sorrateira, pareceu-me, a tensão da trela aliviou. Sem um latido, o canídeo fez-se ao salto, dentes frenados num esticão rente ao meu braço. E sentou-se a olhar-me por detrás da dentuça frustrada, de viés eu a entrever o dono em ridentes ameaços de castigo. Por Ur ter tentado ou por ter falhado o golpe?
Zurros
De repente, surdiu um vento suão que ensandeceu os bichos. E as galinhas começaram aos coaxos. Sobressaltados, os cães desalmaram-se em relinchos, os porcos em ão ãos desesperados, rãs aos cacarejos, cavalos a grunhir.
- Está tudo doido! – disse de si para si o lavrador.
Tanto bastou para que o vento amainasse, a ordem se restabelecesse: cacarejantes as galinhas, os cavalos aos relinchos, os cães a ladrar, os patos a grasnar, os porcos a grunhir, as rãs aos coaxos.
Enorme banzé!
Incomodado, o lavrador foi-se sem dizer palavra, a mastigar chilreios, misto de rugidos e grugulejos, espécie de uns zurros.
Augusto Baptista
ElucidárioOblíquoDoReinoDosBichosParaCriançasDeTôdalasIdadesFábulasParlengasMofasEnsinançasLuminosasDeAaZComNoventaENoveDesenhosRecomendadoPelaLigaDeDefesaDasLínguasEmPerigoD'Extinção&SuasFaunas
Gatopardo, 2004
Oferecido por Rui Almeida.
XIII
INTERIOR DE UMA mansarda. O POETA, deitado no catre, medita de olhos semicerrados. Na única cadeira existente, o CÃO. Atrás da porta está pendurada uma gaiola e, dentro da gaiola, o canário enlanguesce. É absolutamente necessário que o pássaro não dê nem um trinado durante todo o tempo que dure este primeiro, único e brevíssimo acto, pelo que se recomenda a utilização de um canário embalsamado ou de pano.
CÃO – Ouve.
POETA – (Sem mudar de posição.) O que é?
CÃO – Tenho fome.
POETA – Eu também, mas não penso nisso.
CÃO – E os ossos de ontem?
POETA – Foram-se.
CÃO – Sozinhos?
POETA – Sozinhos.
CÃO – Como foi isso?
POETA – Foi esta manhã, quando estavas na rua. O miúdo da porteira pôs-se a tocar o seu tambor de folha. Então os ossos levantaram-se e foram-se embora a desfilar três a três.
CÃO – Seriam ossos de soldados.
POETA – Foi precisamente isso que pensei. Não há muito tempo, parece-me, houve uma guerra.
Silêncio. O CÃO volta a apoiar a cabeça entre as patas e o POETA suspira profundamente.
Javier Tomeo
Histórias mínimas
Tradução de Maria Dulce Teles de Menezes e Salvato Teles de Menezes
Livros Horizonte, 1992
Oferecido por Rui Almeida.
CÃO – Ouve.
POETA – (Sem mudar de posição.) O que é?
CÃO – Tenho fome.
POETA – Eu também, mas não penso nisso.
CÃO – E os ossos de ontem?
POETA – Foram-se.
CÃO – Sozinhos?
POETA – Sozinhos.
CÃO – Como foi isso?
POETA – Foi esta manhã, quando estavas na rua. O miúdo da porteira pôs-se a tocar o seu tambor de folha. Então os ossos levantaram-se e foram-se embora a desfilar três a três.
CÃO – Seriam ossos de soldados.
POETA – Foi precisamente isso que pensei. Não há muito tempo, parece-me, houve uma guerra.
Silêncio. O CÃO volta a apoiar a cabeça entre as patas e o POETA suspira profundamente.
Javier Tomeo
Histórias mínimas
Tradução de Maria Dulce Teles de Menezes e Salvato Teles de Menezes
Livros Horizonte, 1992
Oferecido por Rui Almeida.
UM GIRASSOL
Poli-Maluco era o meu cão alentejano. Que morreu ontem num dia lindo de sol, com as flores a sorrir das suas cabriolas, com os pássaros a fazerem voo picado sobre as suas orelhas-capacho.
Poli-Maluco era livre de mais para viver: trouxera-o lá do Alentejo, cão de caça, cão de guarda, cão de tudo, cão sem raça, feio e farrusco. Um proletário de cabelos aos arrepios. Para meus filhos: «Pói-Maúco». Para mim: «Pói-meus-filhos».
Tinha um ano de idade: era um cão-garoto, cão-brincalhão, cão-cambalhotas. À tardinha, quando eu voltava do emprego, Poli-Maluco ia esperar-me à camioneta e dava sempre um festival de gracinhas para dono ver: corria como um bólide depois fazia uma travagem brusca no cimento e ficava a patinar uma mão cheia de metros. A seguir voltava aos saltos até ficar pendurado no meu peito, agarrado à camisola. Deitava-se no chão, dois metros adiante de mim, de barriga para o ar, a bater as patinhas: a bater palminhas.
Poli-Maluco tinha tais ganas de ver tudo, de correr tudo, de saber tudo, que parecia adivinhar quanto o tempo da sua vida tinha sido condicionado: meu querido Pói-Maúco era alegre de mais para viver. Meu querido Pói-Maúco era livre de mais para viver: morreu ontem esmagado pelos degredados do cem à hora, pelos prisioneiros da vaidade cromada, numa florida estrada dos arredores de Sintra: Pói-Maúco estava lá do outro lado a brincar com as borboletas e pinga-azeites e de repente deve ter sentido desejos de me falar.
Ficou estendido a meio do caminho: - naquela clara nesga dum trajecto que vai duma borboleta à amizade.
Eduardo Olímpio
Um girassol chamado Beatriz
1975
Oferecido por Rui Almeida.
Poli-Maluco era livre de mais para viver: trouxera-o lá do Alentejo, cão de caça, cão de guarda, cão de tudo, cão sem raça, feio e farrusco. Um proletário de cabelos aos arrepios. Para meus filhos: «Pói-Maúco». Para mim: «Pói-meus-filhos».
Tinha um ano de idade: era um cão-garoto, cão-brincalhão, cão-cambalhotas. À tardinha, quando eu voltava do emprego, Poli-Maluco ia esperar-me à camioneta e dava sempre um festival de gracinhas para dono ver: corria como um bólide depois fazia uma travagem brusca no cimento e ficava a patinar uma mão cheia de metros. A seguir voltava aos saltos até ficar pendurado no meu peito, agarrado à camisola. Deitava-se no chão, dois metros adiante de mim, de barriga para o ar, a bater as patinhas: a bater palminhas.
Poli-Maluco tinha tais ganas de ver tudo, de correr tudo, de saber tudo, que parecia adivinhar quanto o tempo da sua vida tinha sido condicionado: meu querido Pói-Maúco era alegre de mais para viver. Meu querido Pói-Maúco era livre de mais para viver: morreu ontem esmagado pelos degredados do cem à hora, pelos prisioneiros da vaidade cromada, numa florida estrada dos arredores de Sintra: Pói-Maúco estava lá do outro lado a brincar com as borboletas e pinga-azeites e de repente deve ter sentido desejos de me falar.
Ficou estendido a meio do caminho: - naquela clara nesga dum trajecto que vai duma borboleta à amizade.
Eduardo Olímpio
Um girassol chamado Beatriz
1975
Oferecido por Rui Almeida.
(excerto de) Centauro
(…) Tem sede, muita sede, mas ali não há sinal de água. O homem olha para trás e vê que metade do céu está já coberto de nuvens. O sol ilumina o bordo nítido de um grande nimbo cinzento que avança.
É nesse momento que ouve ladrar um cão. O cavalo estremece de nervosismo. O centauro lança-se a galope entre duas colinas, mas o homem não perde o sentido: seguir na direcção do sul. O ladrar está mais perto, e ouve-se também um tilintar de campainhas e depois uma voz falando a gado. O centauro parou para se orientar, porém os ecos enganaram-no e, de súbito, num terreno baixo e húmido inesperado, aparece-lhe um rebanho de cabras e à frente dele um grande cão. O centauro estacou. Algumas das cicatrizes que lhe riscavam o corpo, devia-as aos cães. O pastor deu um grito espavorido e largou a fugir, como louco. Chamava em altos berros: devia haver uma povoação ali perto. O homem dominou o cavalo e avançou. Arrancou um ramo forte de um arbusto para afastar o cão, que se estrangulava a ladrar, de fúria e medo. Mas foi a fúria que prevaleceu: o cão ladeou rapidamente umas pedras e tentou apanhar o centauro de flanco, pelo ventre. O homem quis olhar para trás, ver donde vinha o perigo, mas o cavalo antecipou-se, e rodando veloz sobre as patas da frente, desferiu um violento coice que apanhou o cão no ar. O animal foi bater contra as pedras, morto. Não era a primeira vez que o centauro se defendia assim, mas de todas as vezes o homem se sentia humilhado. No seu próprio corpo batia a ressaca da vibração geral dos músculos, a vaga de energia que deflagrava, ouvia o bater surdo dos cascos, mas estava de costas voltadas para a batalha, não era parte nela, espectador quando muito.
(…)
José Saramago
Objecto Quase
1978
Oferecido por Rui Almeida.
É nesse momento que ouve ladrar um cão. O cavalo estremece de nervosismo. O centauro lança-se a galope entre duas colinas, mas o homem não perde o sentido: seguir na direcção do sul. O ladrar está mais perto, e ouve-se também um tilintar de campainhas e depois uma voz falando a gado. O centauro parou para se orientar, porém os ecos enganaram-no e, de súbito, num terreno baixo e húmido inesperado, aparece-lhe um rebanho de cabras e à frente dele um grande cão. O centauro estacou. Algumas das cicatrizes que lhe riscavam o corpo, devia-as aos cães. O pastor deu um grito espavorido e largou a fugir, como louco. Chamava em altos berros: devia haver uma povoação ali perto. O homem dominou o cavalo e avançou. Arrancou um ramo forte de um arbusto para afastar o cão, que se estrangulava a ladrar, de fúria e medo. Mas foi a fúria que prevaleceu: o cão ladeou rapidamente umas pedras e tentou apanhar o centauro de flanco, pelo ventre. O homem quis olhar para trás, ver donde vinha o perigo, mas o cavalo antecipou-se, e rodando veloz sobre as patas da frente, desferiu um violento coice que apanhou o cão no ar. O animal foi bater contra as pedras, morto. Não era a primeira vez que o centauro se defendia assim, mas de todas as vezes o homem se sentia humilhado. No seu próprio corpo batia a ressaca da vibração geral dos músculos, a vaga de energia que deflagrava, ouvia o bater surdo dos cascos, mas estava de costas voltadas para a batalha, não era parte nela, espectador quando muito.
(…)
José Saramago
Objecto Quase
1978
Oferecido por Rui Almeida.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Etiquetas
- A. M. Pires Cabral
- Abel Neves
- Adalberto Alves
- Adélia Prado
- Adília Lopes
- Adriana Areal Calvet
- Adriana Zapparoli
- Agustina Bessa-Luís
- Aimé Césaire
- Albert Camus
- Alberto Pimenta
- Alberto Soares
- Albino Forjaz de Sampaio
- Alexandre Bonafim
- Alexandre O'Neill
- Alface
- Álvaro de Campos
- Álvaro Fausto Taruma
- Amadeu Baptista
- Ambrose Bierce
- Ana Hatherly
- Anite
- Anna Swir
- Anne Perrier
- Anne Portugal
- Antonia Pozzi
- António Aleixo
- António Cabrita
- Antonio Gamoneda
- António Gedeão
- António José Forte
- António Manuel Couto Viana
- António Nobre
- António Osório
- Antonio Vivaldi
- Armando Silva Carvalho
- Armindo Rodrigues
- Augusto Baptista
- Azinhal Abelho
- Bernardo Santareno
- Bertolt Brecht
- Boris Vian
- Canção
- Carlos Alberto Machado
- Carlos Bessa
- Carlos de Oliveira
- Carlos Drummond de Andrade
- Carlos Leite
- Carlos Marques Queirós
- Carlos Nejar
- Catarina Santiago Costa
- CÉLINE
- Cesare Pavese
- Charles Baudelaire
- Charles Bukowski
- Charles Fourier
- Cristovam Pavia
- Dalton Trevisan
- Dâmaso Alonso
- Daniel Jonas
- Daniil Harms
- Décio Pignatari
- Dimíter Ánguelov
- Diogo Alcoforado
- Donald Bartheleme
- Eça de Queiroz
- Eduarda Chiote
- Eduardo Galeano
- Eduardo Olímpio
- Eduardo Pitta
- Eduardo White
- Elsa Anahory
- Ensaio
- Eugénio de Andrade
- Fabrício Carpinejar
- Fernando Alves dos Santos
- Fernando Assis Pacheco
- Fernando de Castro Branco
- Fernando Luís Sampaio
- Fernando Machado Silva
- Fernando Pessoa
- Ferreira Gullar
- Fiama Hasse Pais Brandão
- Filipe Guerra
- Francisco Bugalho
- Francisco Duarte Mangas
- Franz Kafka
- Gez Walsh
- Gil de Carvalho
- Goethe
- Gonçalo M. Tavares
- Gottfried Benn
- Guilherme de Azevedo
- Gustave Flaubert
- H. P. Lovecraft
- Hans-Ulrich Treichel
- Heitor Ferraz
- Helder Macedo
- Henrique Manuel Bento Fialho
- Henry David Thoreau
- Herberto Helder
- Hugo Claus
- Hugo Williams
- Imagem
- Inês Lourenço
- Irene Lisboa
- István Örkény
- Jacques Tati
- Javier Tomeo
- Jean Cocteau
- Jim Harrison
- Joan Vergés
- João Almeida
- João Camilo
- João de Deus
- João Habitualmente
- João Miguel Fernandes Jorge
- João Pedro Azul
- Joaquim Castro Caldas
- Joaquim Pessoa
- Jonathan Swift
- Jorge de Sena
- Jorge Fallorca
- Jorge Gomes Miranda
- Jorge Roque
- José Agostinho Baptista
- José Alberto Oliveira
- José Ángel Cilleruelo
- José António Almeida
- José Bento
- José Craveirinha
- José Pinto Carneiro
- José Régio
- José Ricardo Nunes
- José Santiago Naud
- José Saramago
- José Sebag
- Juana Castro
- Judith Herzberg
- Júlio Castañon Guimarães
- Júlio Henriques
- Karen Finley
- Karl Kraus
- Khalil Gibran
- Laís Chaffe
- León Felipe
- Leonardo Gandolfi
- Liberato
- Livros
- Luís de Camões
- Luís Miguel Nava
- Malcolm Lowry
- manuel a. domingos
- Manuel de Castro
- Manuel de Freitas
- Manuel de Seabra
- Manuel de Sousa
- Manuel Moya
- Manuel Resende
- Marcial
- Marcin Sendecki
- Marco Denevi
- Maria da Inquietação Fausto
- Maria F. Roldão
- Maria Gabriela Llansol
- Maria Velho da Costa
- Marina Tadeu
- Marina Tsvetayeva
- Mário Cesariny
- Mário Cláudio
- Mário Contumélias
- Mário-Henrique Leiria
- Mark Twain
- Max Aub
- Miguel Serras Pereira
- Miguel Torga
- Miguel-Manso
- Milton D. Heifetz
- Milton Torres
- Miquel Bauçã
- Miriam Reyes
- Narrativa Estrangeira
- Narrativa Portuguesa
- Natália Correia
- Neil Young
- Nicolau Saião
- Nikolai Gógol
- Nunes da Rocha
- Nuno Costa Santos
- Nuno Félix da Costa
- Nuno Júdice
- Nuno Moura
- Paolo Buzzi
- Paula Glenadel
- Pedro Homem de Mello
- Pedro Mexia
- Peter Levi
- Pierre Louÿs
- Poesia Estrangeira
- Poesia Portuguesa
- Provérbio
- R. Lino
- Rainer Maria Rilke
- Ramón Gómez de la Serna
- Raul Malaquias Marques
- Raymond Carver
- Rei David
- Renato Suttana
- Repórter X
- Roberto Juarroz
- Rogério Rôla
- Rosa Alice Branco
- Ruben A.
- Rui Baião
- Rui Caeiro
- Rui Carlos Souto
- Rui Costa
- Rui da Costa Lopes
- Rui Knopfli
- Rui Manuel Amaral
- Ruy Belo
- Samuel Beckett
- Sarah Kirsch
- Sergei Yesenin
- Sérgio Godinho
- Silvia Chueire
- Sítios
- Sophia de Mello Breyner Andresen
- Tomas Tranströmer
- Tymnes
- Urbino de San-Payo
- valter hugo mãe
- Vasco Costa Marques
- Vergílio Ferreira
- Vídeo
- Vinicius de Moraes
- Vitorino Nemésio
- Vladimir Maiakovski
- Wil Tirion
- Wladimir Saldanha
Arquivo do blogue
-
►
2021
(12)
- dezembro (1)
- setembro (1)
- julho (1)
- junho (1)
- maio (1)
- abril (1)
- março (2)
- fevereiro (1)
- janeiro (3)
-
►
2015
(10)
- dezembro (1)
- novembro (1)
- agosto (2)
- junho (1)
- abril (1)
- março (2)
- fevereiro (1)
- janeiro (1)
