Cão

Antologia de textos com cães dentro.

sexta-feira, 20 de abril de 2018




Basquiat
2000 (?) - 20/Abril/2018


Este weblog termina aqui.

sábado, 10 de março de 2018

CÃO RAIVOSO



sábado, 3 de março de 2018

O LADRAR DOS CÃES

   Não havia sinal da existência de pessoas na escuridão da noite, nem uma única respiração humana, mas apenas a do vento. Quando nos sentámos, pois a novidade da situação mantinha-nos acordados, ouvíamos de vez em quando raposas a andar sobre as folhas mortas e roçar as ervas húmidas de orvalho perto da tenda e, numa ocasião, um rato-almiscareiro a tentar chegar às batatas e aos melões no barco, mas quando acorremos à margem apenas vimos uma ondulação da água a agitar o disco de uma estrela. Por vezes, ouvíamos a serenata de um pardal a sonhar ou o grito abafado de uma coruja, mas, depois de cada som que a pouca distância quebrava a quietude da noite, de cada crepitar de galhos ou sussurrar das folhas, havia uma pausa súbita e fazia-se sentir um silêncio cada vez mais profundo, como se o intruso soubesse que nenhuma vida tinha o direito de andar por fora a essa hora. Nessa noite, devia haver um incêndio em Lowell, pois vimos o horizonte esbraseado e ouvimos as distantes sinetas de alarme, que pareciam uma ténue melodia metálica que tivesse chegado àqueles bosques. Mas o som mais constante e memorável de uma noite de Verão, que ouvimos em todas as noites subsequentes, embora nunca tão continuamente nem tão bem como agora, era o ladrar dos cães domésticos, desde o ladrar mais forte e rouco até à palpitação aérea mais ténue sob os beirais do céu, desde o mastim paciente, mas ansioso, até ao terriê tímido e alerta, ao princípio alto e brusco, e depois baixo e lento, que só se podia imitar num sussurro: au-au-au-au-a-a-u-u. Mesmo numa região distante e deserta como esta, havia uma profusão de sons nocturnos, mais fascinantes do que qualquer música. Ouvi a voz de um cão, imediatamente antes da aurora, quando as estrelas brilhavam, vinda de trás dos bosques e do rio, distante no horizonte, tão suave e melodiosa que mais parecia emitida por um instrumento musical. O ladrar de um cão em perseguição de uma raposa ou de outro animal no horizonte pode ter sugerido inicialmente as notas da corneta de caça que veio substituir e aliviar os pulmões do animal. Esta corneta natural ressoou durante muito tempo no mundo antigo antes de o instrumento ter sido inventado. Os próprios cães que, nestas noites, ladram tristemente à lua nos pátios das quintas incutem mais heroísmo nos nossos peitos do que todas as exortações civis ou sermões guerreiros da época. «Preferia ser cão e ladrar à lua» do que muitos romanos que conheço. A noite está igualmente em dívida para com o clarim do galo, com uma esperança insone desde o pôr-do-sol, anunciando prematuramente  madrugada. Todos estes sons, o cantar dos galos, o ladrar dos cães e o zumbido dos insectos ao meio-dia são indícios da saúde da natureza. É essa a infalível beleza e precisão da linguagem, a obra de arte mais perfeita do mundo, retocada por um cinzel milenar.

Henry David Thoreau, in Uma Semana nos Rios Concord e Merrimack, trad. Luís Leitão, Antígona, Janeiro de 2018, pp. 68-69.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

BUSCAS

   O Verão adormeceu, mas vem ainda um sopro do calor da terra, uma insinuação. As gaivotas assumem os areais onde antes as horas foram ruidosas, e etc. Está um vento revoltado. Os cães, as cadelas, têm nomes de gente: Simão, Margarita, Afonso, Marinho, Olinda. As nuvens fazem impressão nos olhos.
   O carpinteiro pega no robalo que dança dentro do balde com água e avança uns passos no final do pontão da praia em direcção ao além.
   — Marinho! — grita o homem.
   O rafeiro, com um nervoso miudinho, larga a correr no pontão e pára junto dos tornozelos do pescador.
   — Busca! — ordena o homem, atirando o robalo ao mar.
   Não fica a saber-se se Marinho pensou muito ou pouco, ou se chegou mesmo a pensar. Desceu pelas pedras do molhe e entrou no oceano com uma genica que concorreu com as fúrias do vento. Alguns latidos e logo mais nada. Muito depressa o Marinho ficou a confundir-se com espumas e algas. O carpinteiro pegou no balde e voltou para o lugar onde deixara a cana  de pesca. Ajeitou o isco no anzol. Horas depois, gritou
   — Olinda!
   Mal ouviu, a cadelita disparou para os tornozelos do pescador que mostrava na mão um sargo contorcionista.
   — Busca!


Abel Neves, in O Bibliófago e Mais Historietas Breves, Edições Adab, Abril de 2017, p. 18.

sábado, 21 de outubro de 2017

A VIAGEM DO ARROZ

   Em terras asiáticas, o arroz cultiva-se com muito cuidado. Quando chega a época das colheitas, cortam-se com suavidade os talos e juntam-se em cachos, para que os maus ventos não lhes levem a alma.
   Os chineses da comarca de Sichuan recordam a  mais espantosa das inundações havidas e por haver: ocorreu na antiguidade dos tempos e afundou o arroz, com alma e tudo.
   Só se salvou um cão.
   Quando por fim baixou a cheia, e muito lentamente se foi acalmando a fúria das águas, é que o cão pôde chegar à costa, nadando a muito custo.
   O cão trouxe uma semente de arroz colada à cauda.
   Nessa semente estava a alma.


Eduardo Galeano, in O Caçador de Histórias, trad. José Colaço Barreiros, Antígona, Setembro de 2017, p. 16.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

PARQUE DA CIDADE

o cão é uma extensão da floresta,
foi posto ali para compensar o nosso desprezo
por mapas e satélites que nos indicam sempre
uma saída. já não podemos perder-nos na floresta
com celulares no bolso, e seria tão bom que pudéssemos
amar-nos também assim, com o frio da noite a roer-nos os
ossos e a fome a disputar a atenção das nossas bocas, desalojados
definitivamente do mundo.

deixámos em casa os produtos da tecnologia. levámos apenas os nossos
corpos, sabendo que há dez mil anos que não os sujeitamos aos necessários
upgrades. os teus pés não doíam nos meus sapatos, e a minha impaciência
entretinha-se com o teu pescoço.

quando a trilha escureceu eu comecei a acreditar.
dissolvia-se a memória das casas no último verde tocado
pelo sol. um inocente segundo passo separava-nos da dignidade
do assombro. em breve estaríamos perdidos, amarrados a um
labirinto maior que todos os nossos sonhos. morreríamos abraçados, lindos,
e todos os amantes da História teriam inveja de nós.

Mas eu esquecera-me que neste país algumas pessoas constroem
casas no meio de florestas públicas como a floresta da Tijuca.
Privilégios herdados, que são o fruto de histórias feitas
com armas menos ingénuas do que as nossas, meu amor.
E os dentes do cão que corria para nós pareceram-me grandes como
as estratégias dos homens que me vencem na política.

Quer dizer, tive medo.
Toda a minha concentração foi usada na criação de um
semblante calmo, de um corpo estável, e quando tu te escondeste
atrás de mim e me agarraste as costas, eu nem sequer tremia.

Conclusão: não nos perdemos na floresta, como eu queria, mas também
não fomos devorados pelo rottweiller de olhos brilhantes.

A vida tem destas coisas. Tem muitas coisas destas.

Regressámos pela mesma trilha ao centro da cidade, jantámos,
tomámos um café, e só não morremos abraçados para sempre
porque às 8 horas em ponto da noite de domingo um ónibus te levaria,
com excessos de ar condicionado, da (nossa) eterna cidade do Rio de Janeiro.


Rui Costa, in Mike Tyson Para Principiantes, Assírio & Alvim, Setembro de 2017, pp. 60-61 (poema anteriormente publicado na revista de poesia Piolho, n.º 10, Setembro de 2012).

sábado, 9 de setembro de 2017

A MORTE DOS MEUS BICHOS



Morreu o Boneco. Às onze da noite pedi ao Dr. P. D. que viesse para o abater. Foi uma decisão rápida, depois de tomar consciência de que ele começava a sofrer sem poder ter mais repouso senão a morte.
   O Boneco era o cão mais desleal do mundo, excepto para mim. Foi vadio a valer, descuidado, poltrão e agressivo. Teve duas pneumonias graves, foi gravemente mordido por duas vezes a ponto de ficar com a garganta aberta. Teve uma otite e ficou surdo. Caiu duma escada e partiu o pescoço, e usou gesso como um cavaleiro que caísse da montada. Mordia toda a gente, se pudesse. Era velhíssimo e ainda prometia dentadas. Estava cego e ainda corria as visitas pela porta fora. Nunca saí de casa sem o levar na ideia como preocupação e saudade. Chamava-lhe Dulho. Ele corria pelas dunas de Esposende e rebolava-se na carcaça das gaivotas. Entrava na vasa do rio e voltava coberto de lodo. Às vezes desaparecia durante dois dias; prendiam-no para pedir resgate por ele. Era um caniche pêlo de arame, daí a má índole, asselvajada. Tinha um nariz redondo e farripas brancas, muito engraçado. Viveu dezassete anos. Está enterrado no jardim de baixo, ao lado do muro que tem a sebe amarela. O Sr. A. fez lá uma cova à luz duma lanterna de bolso e enterrou-o, embrulhado no resto daquela manta que eu trouxe de Aosta e que o Boneco tinha devorado pouco a pouco, por júbilo ou vingança. Ele tinha passado o Inverno com um casaco que tinha nas costas flores de pessegueiro pintadas. Um casaco de angorá que eu talhei e cosi. Eu gosto do Boneco, daí a escrever a respeito dele sem estilo nenhum. Não me inspira sentenças porque toma o lugar adiante da razão.

7 de Março de 1977

Agustina Bessa-Luís, in Caderno de Significados, Guimarães, Outubro de 2013, pp. 29-31.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

DA ESPÉCIE

   Os homens pertencem à mesma espécie que os cães, os gatos, as vacas, os cavalos, as ovelhas, os burros, os gansos, os porcos, os bois e as cabras. Na linguagem humana encontram-se muitas provas desta identidade: Cão que ladra não morde; andar à bulha com cães e gatos; morrer como um cão; fazer figura de urso; és um porco; és um burro; pegar o boi pelos cornos; sonhar com galos é traição; parece um galo de capoeira; não há paz onde cante a galinha e cale o galo; galinha de campo não quer capoeira; perdiz só é perdida quando quente não é comida; cantar como o rouxinol; a cabra maior engole a menor; quando a víbora pica, remédio na botica; a cavalo dado não se olha o dente; boi luzidio nunca tem fastio; pássaro do campo não quer gaiola; quem não tem cão caça com gato; não há ninguém sem o seu pé de pavão; roncar como um porco; burro contente vive eternamente; andar emburrado; ser uma azémola; chato como uma melga; quem vende sardinha, come galinha; das águias não nascem pombas; a cada ovelha a sua parelha; onde o galo canta aí janta; a cabra apregoa mele e vende azeitonas; quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele; pelo cão se respeita o patrão; prender o burro; raposa que dorme não apanha galinhas; raposo na toca cisma em paparoca; ao carneiro não lhe pesa a lã; asno que a Roma vá, asno vem de lá; etc.; etc.
   Não tenho tempo para estudar estas frases, mas fica claro que os homens, na confusão do primitivismo dos seus pensamentos, atingem, ainda que por carisma, uma certa noção das categorias.

Max Aub, in Manuscrito Corvo, tradução e prefácio de Júlio Henriques, Antígona, Junho de 2017, p. 76.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Num sequeiro sequer quente
acorre-me a memória do rio
que mima o mar
- cães vagueiam sozinhos na margem.

Curioso que os encaremos como
crianças abandonadas
- logo crianças,
adultos absolutos
dissolvidos pelo tempo e o outro -,
logo os cães,
descendentes do lobo.

Quando vi a minha primeira alforreca
interroguei-me como era possível semelhante abjecção.
Anos depois, encantou-me um aquário de medusas
azulmente eléctricas
- percebi que não percebia as coisas
e isso era bom.

Medusas, alforrecas e gente
conservariam o sabor metálico da morte eminente,
pois o meu tórax é a catacumba
onde se empilham os esqueletos
de todos os males e monstros
- quando praguejam em tosse seca,
a tua mão,
catedral universal da pequenância,
absolve-os com pancadinhas côncavas,
transforma-os em passarinhos
e eles voam.
Ofereço-te o espelho que me resta
para que o bebas.


Catarina Santiago Costa
Tártaro
Douda Correria
Maio de 2016

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O FARRUSCO


(...)

Tinha um rafeiro de perna curta (o Farrusco), caçador exímio. Vivo e esperto. Tão vivo e esperto que irritava a minha avó materna, mulher quezilenta e envinagrada. Um dia que lhe conseguiu roubar duas chouriças de dentro de um tacho de barro de uma prateleira alta, sem que até hoje alguém saiba como conseguiu não partir o tacho que encontraram no chão já, a mulher teria perdido as estribeiras; deitando mão a uma broca de pedra que o meu avô usava na pedreira, desferiu o golpe mortal ao cão. E errou, por sorte dele.
Para lhe proteger a vida, para não ter que se zangar a sério com a mãe, o meu pai pediu a um amigo que lhe arranjasse dono para o cão. Longe, o mais longe possível. E o outro arranjou. Em Maria Vinagre a quase trezentos quilómetros (por estrada) dali. Lá o levou, numa camioneta Krupp, de noite, até ao local onde ia carregar barris de resina. E os meses passaram, o meu pai resignado, a minha avó esquecida do caso…
Até ao dia em que um outro aluno da mesma aldeia subiu ao andar de cima da escola de condução e interrompeu a aula de código. « Ó Baleizo! desce cá abaixo que tens ali uma visita!». Aflito, cuidando tratar-se de notícia de tragédia, morte de familiar ou coisa do género, o meu pai desceu. E ali estava o Farrusco. Magro, contente de reencontrar o dono. Até hoje ninguém sabe o percurso que fez durante as semanas que lhe durou a viagem de volta ao dono e a casa. Que pontes atravessou, que estradas ou carreiros tomou rumo a norte. Como soube que caminho tomar se a viagem de ida foi às escuras dentro do Camião. Como em toda Santarém descobriu pelo faro o rasto do dono até à escola de condução.

(...)


História completa aqui.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

O LIVRO DA PEREGRINAÇÃO

20.

Guarda-nocturno é a loucura,
porque vigia.
A cada hora permanece parada a rir também,
e procura uma palavra para a noite sombria
e vai dizendo: sete, vinte e oito, dez, cem...

E na mão um triângulo segura,
e por tremer toca-o na orla obscura
da trompa, que não pode soprar, e canta
a canção que a todas as casas leva na garganta.

Têm uma boa noite as crianças
e ouvem a sonhar que a loucura vigia.
Mas os cães arrancam-se à argola fria
e dão grandes voltas dentro das casas como danças
e tremem depois dela se afastar,
e receiam o seu regressar.


Rainer Maria Rilke
O Livro de Horas
Trad. Maria Teresa Dias Furtado
Assírio & Alvim
Maio de 2009

quinta-feira, 12 de maio de 2016

À ESPERA DE GODOT

ACTO II
Dia seguinte. A mesma hora. O mesmo lugar.

No centro, junto à boca de cena, as botas de Estragon, tacões juntos, biqueiras afastadas. O chapéu de Lucky no mesmo sítio. A árvore tem quatro ou cinco folhas. Entra Vladimir, agitado. Pára e olha durante algum tempo para a árvore, começa então de repente a andar febrilmente pelo palco. Pára junto às botas, agarra numa, examina-a, cheira-a, exprime nojo, pousa-a cuidadosamente no mesmo sítio. Anda de um lado para o outro. Pára na direita e olha para longe protegendo os olhos com a mão encostada à testa. Anda de um lado para o outro. Pára na esquerda, faz o mesmo. Anda de um lado para o outro. Pára e começa a cantar alto.

VLADIMIR
Um cão entrou na —
Tendo começado num tom demasiado agudo, limpa a garganta e recomeça.

Um cão entrou na cozinha
E roubou um chourição.
Chega o chefe com o rolo
E fá-lo em massapão.

Logo os outros cães vieram
A enterrar o pobre cão —
Pára, medita, recomeça:

Logo os outros cães vieram
A enterrar o pobre cão.
E na pedra lhe escreveram
A seguinte inscrição:

Um cão entrou na cozinha
E roubou um chourição.
Chega o chefe com o rolo
E fá-lo em massapão.

Logo os outros cães vieram
A enterrar o pobre cão —
Pára, medita, recomeça:

Logo os outros cães vieram
A enterrar o pobre cão —
Pára, medita, Suavemente:

A enterrar o pobre cão...

Fica calado e quieto durante algum tempo, começa então a andar febrilmente pelo palco. Pára em frente à árvore, anda de um lado para o outro, pára em frente às botas, anda de um lado para o outro, pára na direita, olha para longe, pára na esquerda, olha para longe. Estragon entra pela direita, descalço, cabisbaixo, atravessa o palco lentamente. Vladimir volta-se e vê-o.


Samuel Beckett, in À Espera de Godot, trad. José Maria Vieira Mendes, Cotovia, 6.ª edição, Agosto de 2015, pp. 77-78.

quinta-feira, 14 de abril de 2016


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

era um galgo muito magro e retraído

É nojento apanhar caca do chão com a mão envolta
num plástico azul — A civilização não obriga a cão mas à lei e
à higiene que é a ciência da absoluta limpeza — No limite o planeta
composto apenas de ferro ou carbono ou dois elementos imiscíveis
dois géneros imiscíveis dois deuses homogéneos com universos opacos
A vida seria mais uniforme ou inexistente mas o ferro não enferrujaria
ao sorriso das estátuas não corresponderia desejo nem amor nem nada
do que conspurca o optimismo quando é calmo e hegemónico — Pensar
o sujo oposto ao limpo leva-nos a agarrar a caca do cão enquanto o cão
exerce sobre nós a tolerância doméstica das minorias protegidas — Sujo
é o que se desperdiçou e mistura no limpo — O cão que caga limpa-se
o dono com obstipação limpa-se — o poeta que pensa o limite do sujo
também limpa o universo que deverá preparar-se para a perfeição
Apanhar caca em troca da convivialidade de cão erudita e estável
bem separada do amor palavroso por quem caga no mesmo lugar
que nós — mas não pensa a poesia e o sujo com o nosso optimismo


Nuno Félix da Costa, in O Desfazer das Coisas e As Coisas já Desfeitas, Companhia das Ilhas, Novembro de 2015, p. 145.

CULPA


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

DOM ANTÓNIO

Amigos? Uns são mortos, outros longe,
Em procura da Terra-Prometida:
Restas-me tu, meu cão! Guardião d'um Monge:
Não me abandones! Deus, poupa-lhe a vida!

Chamo-te António, (deixa rir quem passa),
Acho-te digno do meu nome, sim!
Dando-te Dom, concedo-te uma graça,
Que El-Rei, teu Amo, não concede a mim...

Tens expressões de homens, olhar de gente,
Cheio de treva, como os subterrâneos!
Tens ar, toilette, e és mais inteligente
Que mais do que um dos meus contemporâneos.


António Nobre, revista Presença, II série, n.º 1, 1939.

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