Cão

Antologia de textos com cães dentro.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

"QUE CÃO TÃO BANAL!"

Foi pena não terem chegado a um acordo porque afinal do que se estava a falar era das paixões da alma, desses cães ávidos que devoraram Actéon quando ele queria ver Diana no banho.
   Os cães são muito impressionantes. A gente está sempre à espera que eles tirem a máscara de Anubis e se sentem à mesa com a gente encomendando uma cerveja bem gelada:
   - Fuma?
   - Não, obrigado, agora é muito mais original não ser fumador (a sinceridade dos animais é muito embaraçosa), mas comerei de bom grado um cachorro quente, com manteiga mas sem mostarda, faz-me espirrar, sabe, tenho um nariz muito fino (ri-se)... Está imenso calor, ainda não mudei de fato este ano, a minha dona ainda não me levou ao tosquiador, acha que ainda está frio e anda a gente aqui a suar e depois admiram-se que a gente tenha tanta sede - outra cerveja, faz favor, bem gelada - pois é, eu sou muito sequioso, também passo a vida a correr, a minha dona dá-me imenso trabalho, tem uma casa tão grande e tão constantemente ameaçada de assalto que eu não tenho um momento de descanso. Senão demitem-me e eu gosto da minha dona, compreende, afeiçoei-me a ela desde pequeno, foi ela quem me chamou a si, me agasalhou, me sustentou e agora que sou já muito maior do que ela sinto-me na obrigação de a proteger contra os intrusos, cães ou não cães. É uma questão de gratidão, de coerência, os cães fizeram-se para isso, ser cão é ser isso mesmo!
   - Que cão tão banal!
   - É um cão protótipo, um exemplar de estatística.
   - Mas então não era das paixões da alma que estavam a falar?
   - Era, mas também há paixões de alma banais.
   - Hoje em dia está tudo banalizado, não há dúvida.
 
 
Ana Hatherly, in O Mestre, 5.ª edição, Ulisseia, Novembro de 2010, pp. 147-148.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

ARQUESSÍTIO

tão para escaladas monte a eito
vira para nós o focinho ofegante o cão afável
espera que o bafejo nosso do bafejo seu
se aproxime

no Sol que declinou o azul ruboriza
e perto as pás das ventoinhas rodam vigorosas
deitam interrompidas sombras às veredas
postas que estão nestas alturas

Dezembro estende o frio desta hora
as aves sobressaltam no tumulto dos empenhos
erguemos os olhos vemo-las partirem para o lado
da estrada que contorna em baixo uma
aldeia-presépio e no horizonte os aviões riscam
fulvos de ocaso e longitude

é pesado imponente o artifício do planeta
na sua viagem sem destino escuridão adentro
e cismados com o fardo deste peso logo o xisto
se destapa no declive da laje que chapeia
à hora mágica

o cão pisa fareja alheado dos contornos
que há quantos mil anos alguém gravou aqui
brilhante do mesmo astro no mesmo
solo

círculos e espirais
linhas serpentiformes enfeitadas de líquen
sobre as quais nos deitamos
um momento

ainda o cão era um lobo nada brando
e já sinais destes brotavam da gaveta do fundo
colectiva

neves dilúvios fogos sismos não apagaram
a espiral da Idade do Bronze
menor persistência terá este poema martelado
agora mesmo na idade do tombo

Miguel-Manso, in Persianas, Edições Tinta-da-China, Abril de 2015, pp. 189-190.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

MINISTÓRIAS DE DALTON TREVISAN

Amor, o ingênuo menino que afaga uma cadela raivosa. Ai, não, é mordido. E condenado a viver babando, rangendo os dentes, ganindo para uma lua de sangue.

***

Um homem, ai dele, que sofre dos nervos. Mora com a mulher e o filho na sua chacrinha. Para diversão do piá compra a mais branca das cabritas. Sem sossego lida na pequena roça. Bondoso e manso, basta não o contrarie. Uma tarde discute com a mulher. Sai, batendo a porta. Alegrinho, o cão late e pula à sua volta. Manda que se cale e esse aí pulando e latindo. Apanha numa forquilha o chicote e malha com força. O cãozinho arrasta as pernas traseiras numa sombra molhada. E some ganindo no mato. O homem vai em frente. Ao vê-lo, faceira na sua fitinha encarnada, berra a cabrita aos saltos. Manda que se cale.

***

Esse mesmo cãozinho tonto aos saltos e latidos perseguindo a negra sombra de uma borboleta branca.

***

O cão olha para o menino: o sol que move a lua, os planetas - e o seu rabinho.


Dalton Trevisan, dos livros Ah, é? (3.ª edição, 2013) e 234 (3.ª edição, 2013), Editora Record.

quarta-feira, 25 de março de 2015

(passagem de modelos)

   — Passa a realidade na pessoa do cão das quatro patas que nunca se encontrarão no solo ao mesmo tempo, a menos que se não trate da realidade em movimento.
   Assim, a realidade é realmente bípede e virtualmente quadrúpede.
   — Passa a realidade na pessoa da trela que liga o cão ao elemento terceiro ainda impronunciável. É uma trela em movimento, porque a realidade na pessoa do cão também o é, e espera-se que o suposto terceiro elemento da realidade também o seja. A realidade trela assegura a liberdade real da realidade cão e a limitação virtual dessa liberdade. Esta virtual limitação assegura a coordenação dinâmica do primeiro exposto elemento da realidade, do segundo que se está a expor elemento da realidade e do a expor terceiro elemento da realidade.
   — Passa a realidade na pessoa de uma pessoa ligada à realidade na pessoa de uma trela ligada à realidade na pessoa de um cão. É a realidade pessoa em movimento. Tem dois pés que nunca estarão no solo ao mesmo tempo.
   Pelo que a realidade é realmente unípede e virtualmente bípede.
   Nenhuma destas realidades é a realidade, nem os três elementos juntos são a realidade. Apenas os três elementos passando assim constituem a realidade.
   Isto pode ser uma arte poética.
   Também pode ser uma ironia.


Herberto Helder, in Photomaton & Vox, 3.ª edição, Assírio & Alvim, Outubro de 1995, pp. 81-82.

segunda-feira, 9 de março de 2015

OS CÃES DA MEMÓRIA

Quando visto o casaco eles não me largam.
Querem que os leve a dar uma volta,
que lhes atire um pau para que o tragam de volta.
Os olhos deles seguem-me pelo quarto.
Quando pego num livro
baixam a cabeça envergonhados.
 
Levei-os aos subúrbios
e abri a porta do carro.
Quando cheguei a casa
estavam à minha espera à entrada.
Como é que me convenci
de que ia viver sem eles?
 
 
Hugo Williams, in Última Semana, selecção e tradução de Pedro Mexia, Tinta-da-China, Novembro de 2014, p. 105.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

ESTRANHO PARA O MUNDO OUSEI SENTIR
O rente chão das coisas, a crisálida
Manhã, o dilatar da tarde, a pálida
Viúva e o seu cortejo a reluzir.
Sentindo um sentimento pleno, fundo,
Só de ver uma aldeia que dormisse,
Um cão que ladrasse, um trem que partisse...
E eu se ficasse um pouco mais no mundo!...
E adeus, porém, às coisas, eis que parto,
Do mundo não sou, fui um ser de nada.
A aldeia, o cão, o trem só uma estrada
E tudo o que não tive aqui reparto.
Curioso como um monstro se afeiçoa
Ao mundo mau dos homens que o magoa...

Daniel Jonas, in , Assírio & Alvim, Abril de 2014, p. 56.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O SERVO

Tal como na morte de Eumeu,
servo de Ulisses,
nas margens de Ítaca, o silêncio
guardou o grito do velho servo,
aqui, nesta ilha de terra na terra,
também o cão vai reconhecer o espectro
do seu dono que, entre as áleas,
especula sobre o sentido do sonho.
Tudo passa e regressa. Somente
o servo se apagou como vela antes
das gerações vindouras o saudarem.
Pais, filhos e netos ouviram
o tinir dessa enxada entre pedras
e as benditas sementes no terreno.
Não os filhos dos netos o verão
quando nascerem como num regresso
ao mundo de toda a matéria.


Fiama Hasse Pais Brandão, in Cenas Vivas, Relógio d'Água, Abril de 2000, p. 79.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O amor livre é um cão que fugiu de casa e nunca mais encontrou o caminho de volta.
 
Dimíter Ánguelov, In Vano Veritas, Debout Sur L'Oeuf - edições surrealistas, Janeiro de 2014, p. 21. 

terça-feira, 8 de julho de 2014

VIDERE LUCEM (um parágrafo)

E os versos? E a arte dos versos? É em tudo semelhante à luva de borracha que o pescador deixou cair na pedra do cais da Cantareira, quase à porta de Eugénio. Assim em abandono, caída sobre o rosa-borracha que lhe dá forma; e sem a vida que lhe deu a forma "mão"; e, sobretudo, sem o sangue que lhe deu o exacto pensamento de ter podido ser uma luva que calçou a palavra "mão". Assim perdida na pedra do cais, um cão de pelagem negra a abocanhou e levou para rasgar, rasgar. Ia um grande silêncio ao redor do cais. A luva talvez soubesse a fatias finas de salmão salgado.
 
João Miguel Fernandes Jorge, in No Verão é Melhor Um Conto Triste (2000)

domingo, 6 de julho de 2014


sexta-feira, 7 de junho de 2013

os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora,
mas a gota de água treme e brilha,
não uses as unhas senão nas linhas mais puras,
e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia
e de fogo,
e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,
e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível
contra a turva sede da matilha,
com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, o ar cego:
e queres apenas
aquela gota viva entre as unhas,
enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros
à procura do ouro

Herberto Helder, Servidões, Assírio & Alvim, Maio de 2013, p. 68.

domingo, 7 de outubro de 2012

PARA UM CÃO

Estiveste connosco onze anos.
Uma noite voltámos:
estavas estendido frente ao portão,
o focinho no pó da estrada,
as patas já frias, o dorso
quente ainda.
Agora estás todo
nesta cova que te abrimos.
Mas os onze anos
da tua humilde vida,
o gemer
sempre que alguém partia,
o sofrer de alegria
sempre que alguém regressava
- e à noitinha
se alguém
por uma tristeza sua
chorava
tu lambias-lhe as mãos:
olhavas para ele
e lambias-lhe as mãos -
oh, esses onze anos
do teu mudo amor
está tudo aqui
sob esta terra
sob esta chuva
cruel?
Agonizavas
na gravilha húmida:
levantaste ainda
uma pata - que tremia.
Agora ninguém te protege
do frio.
Já não te podemos chamar.
Já não te podemos dar
nada.
Só as folhas mortas
caem neste recanto
do relvado.
Pensar que algo mais resta
de ti
é impossível:
e por isso a nossa absurda
dor aumenta.

Antonia Pozzi
este agora
eleva-se como fumo quente em ar frio
este sereno agora

o cão abandonou o seu latido
a lebre abandonou a sua angústia
a flauta abandonou a boca humana
e toca sozinha

neste pobre e belo agora que luta
........contra a armada dos segundos
e se afoga num redemoinho
embora me vá sobreviver

sábado, 11 de agosto de 2012

NOVELA CURTA

O meu amigo Moreira mandou uma vez construir, num quintal velho que tinha, uma casa elegante para um cão. Encarregou d'isso um mestre de obras, que, atraído pela estranheza do assunto e pela suposta loucura do criador do proposito, construiu uma espécie de chalet digno de ser pago, sem sobras, por alto preço.
Quando a casa para o cão estava pronta, o Moreira compareceu e aprovou. Elogiou o mestre de obras, e foi-se embora, meditando.
Dias depois, quando o mestre de obras apareceu com a conta, o Moreira pediu-lhe que o acompanhasse ao quintal velho. Chegados ali, disse-lhe com enternecimento, apontando para a casa do cão.
- Olhe, mestre, meta a conta ali dentro. Ela é que é o cão.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

sábado, 28 de julho de 2012

SEXTA, SÁBADO

Agora os rapazes com lanternas correm
pelo meio da rua, analisam-nos o rosto à
luz ofuscante; as feridas abrem
ligeiramente, uma bola cinzenta cai da janela
transida. Há poeira, glóbulos de lama no escuro patamar.

**

A cidade, músculo avariado. Pastores conduzem
mulheres, carrinhos e cestos de groselhas. Crianças tenras
volteiam na praça. Estou esfomeado e eles estão imóveis
(multiplicai-vos,
façam de mim súbito vosso).

**

Despreocupado, recostado na
rede. Cemitério judeu. Habitantes
do outeiro: cão, vaca e toupeira. Loiça (fonte de
alegria). A estrela conduz os rebanhos um a um.


Marcin Sendecki, in Parcelas

sábado, 14 de julho de 2012

D. MARIA MANUELA, SEU MARIDO E SEU CÃES

sempre a vi soterrada
em malhas de lã à volta do pescoço
óculos de lentes pesadas
com olhos de horizontes distorcidos
uma vez experimentei-os aqueles escuros numa praia
e tudo me pareceu metido num filme
mudo a sépia com as pessoas
à velocidade da manivela
só mais tarde soube que (ela)
estava com a sombra
cada vez mais próxima. agora

tece tapetes de arraiolos
a um dedo de distância dos olhos
as mãos trabalham com a destreza
de quem pensa na vida que levou
faz viagens teve cinco filhos tem um marido
cheio de silêncios e a companhia
de um cão velho e uma cadela que substituiu
um outro rafeiro que morreu
baba-se com os netos mas chora muito
com os ataques epilépticos da cadela
por pouco era feliz


Fernando Machado Silva, in Primeira Viagem

A CASA O CÃO A CAMA OS COPOS

perdoa-me o enrolar da língua
mas a solidão tem destas coisas
e disparates seguem-se
uns aos outros
sobre o corpo abandonado
e a canção diz
é impossível ser feliz sozinho
e com o meu treino engano-te
preparando uma despedida
fácil. podes sair, levar
as tuas coisas, eu e o nosso cão
resolvemos tudo pelos cantos da casa
revelando-nos a nossa verdadeira cara
um ao outro e voltando
a escondê-la quando regressares


Fernando Machado Silva, in Primeira Viagem

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