Cão

Antologia de textos com cães dentro.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O amor livre é um cão que fugiu de casa e nunca mais encontrou o caminho de volta.
 
Dimíter Ánguelov, In Vano Veritas, Debout Sur L'Oeuf - edições surrealistas, Janeiro de 2014, p. 21. 

terça-feira, 8 de julho de 2014

VIDERE LUCEM (um parágrafo)

E os versos? E a arte dos versos? É em tudo semelhante à luva de borracha que o pescador deixou cair na pedra do cais da Cantareira, quase à porta de Eugénio. Assim em abandono, caída sobre o rosa-borracha que lhe dá forma; e sem a vida que lhe deu a forma "mão"; e, sobretudo, sem o sangue que lhe deu o exacto pensamento de ter podido ser uma luva que calçou a palavra "mão". Assim perdida na pedra do cais, um cão de pelagem negra a abocanhou e levou para rasgar, rasgar. Ia um grande silêncio ao redor do cais. A luva talvez soubesse a fatias finas de salmão salgado.
 
João Miguel Fernandes Jorge, in No Verão é Melhor Um Conto Triste (2000)

domingo, 6 de julho de 2014


sexta-feira, 7 de junho de 2013

os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora,
mas a gota de água treme e brilha,
não uses as unhas senão nas linhas mais puras,
e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia
e de fogo,
e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,
e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível
contra a turva sede da matilha,
com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, o ar cego:
e queres apenas
aquela gota viva entre as unhas,
enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros
à procura do ouro

Herberto Helder, Servidões, Assírio & Alvim, Maio de 2013, p. 68.

domingo, 7 de outubro de 2012

PARA UM CÃO

Estiveste connosco onze anos.
Uma noite voltámos:
estavas estendido frente ao portão,
o focinho no pó da estrada,
as patas já frias, o dorso
quente ainda.
Agora estás todo
nesta cova que te abrimos.
Mas os onze anos
da tua humilde vida,
o gemer
sempre que alguém partia,
o sofrer de alegria
sempre que alguém regressava
- e à noitinha
se alguém
por uma tristeza sua
chorava
tu lambias-lhe as mãos:
olhavas para ele
e lambias-lhe as mãos -
oh, esses onze anos
do teu mudo amor
está tudo aqui
sob esta terra
sob esta chuva
cruel?
Agonizavas
na gravilha húmida:
levantaste ainda
uma pata - que tremia.
Agora ninguém te protege
do frio.
Já não te podemos chamar.
Já não te podemos dar
nada.
Só as folhas mortas
caem neste recanto
do relvado.
Pensar que algo mais resta
de ti
é impossível:
e por isso a nossa absurda
dor aumenta.

Antonia Pozzi
este agora
eleva-se como fumo quente em ar frio
este sereno agora

o cão abandonou o seu latido
a lebre abandonou a sua angústia
a flauta abandonou a boca humana
e toca sozinha

neste pobre e belo agora que luta
........contra a armada dos segundos
e se afoga num redemoinho
embora me vá sobreviver

sábado, 11 de agosto de 2012

NOVELA CURTA

O meu amigo Moreira mandou uma vez construir, num quintal velho que tinha, uma casa elegante para um cão. Encarregou d'isso um mestre de obras, que, atraído pela estranheza do assunto e pela suposta loucura do criador do proposito, construiu uma espécie de chalet digno de ser pago, sem sobras, por alto preço.
Quando a casa para o cão estava pronta, o Moreira compareceu e aprovou. Elogiou o mestre de obras, e foi-se embora, meditando.
Dias depois, quando o mestre de obras apareceu com a conta, o Moreira pediu-lhe que o acompanhasse ao quintal velho. Chegados ali, disse-lhe com enternecimento, apontando para a casa do cão.
- Olhe, mestre, meta a conta ali dentro. Ela é que é o cão.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

sábado, 28 de julho de 2012

SEXTA, SÁBADO

Agora os rapazes com lanternas correm
pelo meio da rua, analisam-nos o rosto à
luz ofuscante; as feridas abrem
ligeiramente, uma bola cinzenta cai da janela
transida. Há poeira, glóbulos de lama no escuro patamar.

**

A cidade, músculo avariado. Pastores conduzem
mulheres, carrinhos e cestos de groselhas. Crianças tenras
volteiam na praça. Estou esfomeado e eles estão imóveis
(multiplicai-vos,
façam de mim súbito vosso).

**

Despreocupado, recostado na
rede. Cemitério judeu. Habitantes
do outeiro: cão, vaca e toupeira. Loiça (fonte de
alegria). A estrela conduz os rebanhos um a um.


Marcin Sendecki, in Parcelas

sábado, 14 de julho de 2012

D. MARIA MANUELA, SEU MARIDO E SEU CÃES

sempre a vi soterrada
em malhas de lã à volta do pescoço
óculos de lentes pesadas
com olhos de horizontes distorcidos
uma vez experimentei-os aqueles escuros numa praia
e tudo me pareceu metido num filme
mudo a sépia com as pessoas
à velocidade da manivela
só mais tarde soube que (ela)
estava com a sombra
cada vez mais próxima. agora

tece tapetes de arraiolos
a um dedo de distância dos olhos
as mãos trabalham com a destreza
de quem pensa na vida que levou
faz viagens teve cinco filhos tem um marido
cheio de silêncios e a companhia
de um cão velho e uma cadela que substituiu
um outro rafeiro que morreu
baba-se com os netos mas chora muito
com os ataques epilépticos da cadela
por pouco era feliz


Fernando Machado Silva, in Primeira Viagem

A CASA O CÃO A CAMA OS COPOS

perdoa-me o enrolar da língua
mas a solidão tem destas coisas
e disparates seguem-se
uns aos outros
sobre o corpo abandonado
e a canção diz
é impossível ser feliz sozinho
e com o meu treino engano-te
preparando uma despedida
fácil. podes sair, levar
as tuas coisas, eu e o nosso cão
resolvemos tudo pelos cantos da casa
revelando-nos a nossa verdadeira cara
um ao outro e voltando
a escondê-la quando regressares


Fernando Machado Silva, in Primeira Viagem

terça-feira, 10 de julho de 2012

O CÃO QUE ME TINHA

Eu tive um cão ou era ele
que me tinha e me deixava à solta
guiada sem saber que ia.
Tomava as minhas feridas,
a tristeza que eu pudesse ter
e sofria dela como eu nem sofria.
Trocava de mal trocando-lhe as voltas.
Punha a coleira ao pescoço
e levava-me a passear
como se eu fosse o dono.
E à noite dormia no chão
ou então fingia. Eu acordava
com um servo aos pés da cama,
armava-me em amo
e era ele que me tinha.
Exímio no silêncio
e no uso das armas
com que me defendia
de todos e também de mim:
a linha veloz do pêlo luzidio,
o frémito da língua,
o focinho em arco para a escuta.
Era um cão que me tinha
e uma tarde de verão
atirei-lhe um osso gostoso
antes de o deixar no canil.


Rosa Alice Branco, in O Gado do Senhor

sexta-feira, 6 de julho de 2012

VELHO CACHORRO

O mundo estava na infância.

O vento desenrolava
sua paciente fábula.

O vento velho cachorro
lambia o quadril do sono.

Pé de pilão nossa sombra
junto à sombra da palavra.

O mundo não é candeia
nem vaso de flor a alma.


Carlos Nejar, Um País O Coração

CLARIDADE

O barulho de existir:
um cão
dentro de mim.

Atravesso
como a um pátio
o barulho de existir.


Carlos Nejar, Árvore do Mundo

domingo, 27 de maio de 2012

quinta-feira, 19 de março de 2009

fim

quarta-feira, 18 de março de 2009

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Tem cara de perder. Esta semana
voltou a não levar preservativos
e nunca mais comprou comida para o cão.
Se calhar divorciaram-se, e ficou ela
com o bicho. Só não percebo como é que
ele sozinho consegue beber tanto leite.
Perdeu também um pouco da arrogância
com que habitualmente me passava
o visa. Mas devia ser bonito, em novo.


Manuel de Freitas
Isilda ou a Nudez dos Códigos de Barras
Black Sun Editores
2001

quinta-feira, 5 de março de 2009

Disselama

Rato morto na valeta
acaricia o nevoeiro das sirenes.
Minha mão ensanguentada continha
a curte em sua calote moída. Cenas gold
de gravata & garrote. O mais difícil, o vigilante
securitas filtra a sebe até aos betos,
a piscina vedada a chungas, eram todos da mesma
turma, quem diria núpcias disse lama.
Nem sabias como íamos enlouquecendo,
deixavas sempre os cigarros a meio,
isso ainda era o menos. Nunca
deste pelo estado da tua cabeça.
Cadela que ladra morde o teu sonho
em seu sono no édredon. Detesta
vidros mortos pelos vidros. Juro
cacos, latões de fogo, errata do mundo,
meu, bué meu, a cortar-te as goelas
requinte que não t’amplie a trouxa
da vida toda fodida.

Rui Baião, Nuez, Lisboa: frenesi, 2003.

Oferecido pelo manuel a. domingos.

Selecção natural

Flores de artifício, dois rabos,
corneta e orelha. É só pegar
o silêncio pelos cornos. Não percas
na largada, pamplona, o desassossego
do inimigo rente a nós, ideia do quanto
tudo é mais relativo.
Há bodes pelo telhado, rafeiros
roendo a sombra às concertinas, e tanta,
tanta lenha nova sem pegar.
Todos tão vivaços, invencíveis da vida,
viciados em triunfo, comezaina
e mulheres de companhia. Curral
duplex, o obscuro na faena em si.

Rui Baião, Nuez, Lisboa: frenesi, 2003.

Oferecido pelo manuel a. domingos.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O CARNAVAL DOS ANIMAIS

CÃES - 1

Como o faria um amigo, ou um inimigo, ou um
estranho, olhamo-nos como olham os cães

CÃES - 2

Dormem uns em cima dos outros
no bom aconchego uns dos outros
Assim nem precisam de sonhar

CÃES - 3

Cães de guarda, cães de luta, caniches das estrelas
de Hollywood - parece que no vasto labirinto
das espécies alguma dignidade se perdeu

Rui Caeiro
O Carnaval dos Animais
Letra Livre
Outubro de 2008

12

Onde é que eu ia? Não ia, parece.
Embora tenha ficado um bocado perplexo quando levantei o lençol de água para ver o cão e, em vez dessa evocação clássica, se me deparou uma chusma de pintores chuchando-lhe a carcaça ensanguentada.
Depois encostaram uma escada para o lado, digamos, de fora da moldura, por onde desciam os mais satisfeitos.
Arrotando no espaço da tua distracção, prossegui.

Jorge Fallorca
Água Tatuada
&etc
Março 1999

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