Cão

Antologia de textos com cães dentro.

sexta-feira, 7 de Junho de 2013

os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora,
mas a gota de água treme e brilha,
não uses as unhas senão nas linhas mais puras,
e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia
e de fogo,
e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,
e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível
contra a turva sede da matilha,
com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, o ar cego:
e queres apenas
aquela gota viva entre as unhas,
enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros
à procura do ouro

Herberto Helder, Servidões, Assírio & Alvim, Maio de 2013, p. 68.

domingo, 7 de Outubro de 2012

PARA UM CÃO

Estiveste connosco onze anos.
Uma noite voltámos:
estavas estendido frente ao portão,
o focinho no pó da estrada,
as patas já frias, o dorso
quente ainda.
Agora estás todo
nesta cova que te abrimos.
Mas os onze anos
da tua humilde vida,
o gemer
sempre que alguém partia,
o sofrer de alegria
sempre que alguém regressava
- e à noitinha
se alguém
por uma tristeza sua
chorava
tu lambias-lhe as mãos:
olhavas para ele
e lambias-lhe as mãos -
oh, esses onze anos
do teu mudo amor
está tudo aqui
sob esta terra
sob esta chuva
cruel?
Agonizavas
na gravilha húmida:
levantaste ainda
uma pata - que tremia.
Agora ninguém te protege
do frio.
Já não te podemos chamar.
Já não te podemos dar
nada.
Só as folhas mortas
caem neste recanto
do relvado.
Pensar que algo mais resta
de ti
é impossível:
e por isso a nossa absurda
dor aumenta.

Antonia Pozzi
este agora
eleva-se como fumo quente em ar frio
este sereno agora

o cão abandonou o seu latido
a lebre abandonou a sua angústia
a flauta abandonou a boca humana
e toca sozinha

neste pobre e belo agora que luta
........contra a armada dos segundos
e se afoga num redemoinho
embora me vá sobreviver

sábado, 11 de Agosto de 2012

NOVELA CURTA

O meu amigo Moreira mandou uma vez construir, num quintal velho que tinha, uma casa elegante para um cão. Encarregou d'isso um mestre de obras, que, atraído pela estranheza do assunto e pela suposta loucura do criador do proposito, construiu uma espécie de chalet digno de ser pago, sem sobras, por alto preço.
Quando a casa para o cão estava pronta, o Moreira compareceu e aprovou. Elogiou o mestre de obras, e foi-se embora, meditando.
Dias depois, quando o mestre de obras apareceu com a conta, o Moreira pediu-lhe que o acompanhasse ao quintal velho. Chegados ali, disse-lhe com enternecimento, apontando para a casa do cão.
- Olhe, mestre, meta a conta ali dentro. Ela é que é o cão.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

sábado, 28 de Julho de 2012

SEXTA, SÁBADO

Agora os rapazes com lanternas correm
pelo meio da rua, analisam-nos o rosto à
luz ofuscante; as feridas abrem
ligeiramente, uma bola cinzenta cai da janela
transida. Há poeira, glóbulos de lama no escuro patamar.

**

A cidade, músculo avariado. Pastores conduzem
mulheres, carrinhos e cestos de groselhas. Crianças tenras
volteiam na praça. Estou esfomeado e eles estão imóveis
(multiplicai-vos,
façam de mim súbito vosso).

**

Despreocupado, recostado na
rede. Cemitério judeu. Habitantes
do outeiro: cão, vaca e toupeira. Loiça (fonte de
alegria). A estrela conduz os rebanhos um a um.


Marcin Sendecki, in Parcelas

sábado, 14 de Julho de 2012

D. MARIA MANUELA, SEU MARIDO E SEU CÃES

sempre a vi soterrada
em malhas de lã à volta do pescoço
óculos de lentes pesadas
com olhos de horizontes distorcidos
uma vez experimentei-os aqueles escuros numa praia
e tudo me pareceu metido num filme
mudo a sépia com as pessoas
à velocidade da manivela
só mais tarde soube que (ela)
estava com a sombra
cada vez mais próxima. agora

tece tapetes de arraiolos
a um dedo de distância dos olhos
as mãos trabalham com a destreza
de quem pensa na vida que levou
faz viagens teve cinco filhos tem um marido
cheio de silêncios e a companhia
de um cão velho e uma cadela que substituiu
um outro rafeiro que morreu
baba-se com os netos mas chora muito
com os ataques epilépticos da cadela
por pouco era feliz


Fernando Machado Silva, in Primeira Viagem

A CASA O CÃO A CAMA OS COPOS

perdoa-me o enrolar da língua
mas a solidão tem destas coisas
e disparates seguem-se
uns aos outros
sobre o corpo abandonado
e a canção diz
é impossível ser feliz sozinho
e com o meu treino engano-te
preparando uma despedida
fácil. podes sair, levar
as tuas coisas, eu e o nosso cão
resolvemos tudo pelos cantos da casa
revelando-nos a nossa verdadeira cara
um ao outro e voltando
a escondê-la quando regressares


Fernando Machado Silva, in Primeira Viagem

terça-feira, 10 de Julho de 2012

O CÃO QUE ME TINHA

Eu tive um cão ou era ele
que me tinha e me deixava à solta
guiada sem saber que ia.
Tomava as minhas feridas,
a tristeza que eu pudesse ter
e sofria dela como eu nem sofria.
Trocava de mal trocando-lhe as voltas.
Punha a coleira ao pescoço
e levava-me a passear
como se eu fosse o dono.
E à noite dormia no chão
ou então fingia. Eu acordava
com um servo aos pés da cama,
armava-me em amo
e era ele que me tinha.
Exímio no silêncio
e no uso das armas
com que me defendia
de todos e também de mim:
a linha veloz do pêlo luzidio,
o frémito da língua,
o focinho em arco para a escuta.
Era um cão que me tinha
e uma tarde de verão
atirei-lhe um osso gostoso
antes de o deixar no canil.


Rosa Alice Branco, in O Gado do Senhor

sexta-feira, 6 de Julho de 2012

VELHO CACHORRO

O mundo estava na infância.

O vento desenrolava
sua paciente fábula.

O vento velho cachorro
lambia o quadril do sono.

Pé de pilão nossa sombra
junto à sombra da palavra.

O mundo não é candeia
nem vaso de flor a alma.


Carlos Nejar, Um País O Coração

CLARIDADE

O barulho de existir:
um cão
dentro de mim.

Atravesso
como a um pátio
o barulho de existir.


Carlos Nejar, Árvore do Mundo

domingo, 27 de Maio de 2012

quinta-feira, 19 de Março de 2009

fim

quarta-feira, 18 de Março de 2009

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Tem cara de perder. Esta semana
voltou a não levar preservativos
e nunca mais comprou comida para o cão.
Se calhar divorciaram-se, e ficou ela
com o bicho. Só não percebo como é que
ele sozinho consegue beber tanto leite.
Perdeu também um pouco da arrogância
com que habitualmente me passava
o visa. Mas devia ser bonito, em novo.


Manuel de Freitas
Isilda ou a Nudez dos Códigos de Barras
Black Sun Editores
2001

quinta-feira, 5 de Março de 2009

Disselama

Rato morto na valeta
acaricia o nevoeiro das sirenes.
Minha mão ensanguentada continha
a curte em sua calote moída. Cenas gold
de gravata & garrote. O mais difícil, o vigilante
securitas filtra a sebe até aos betos,
a piscina vedada a chungas, eram todos da mesma
turma, quem diria núpcias disse lama.
Nem sabias como íamos enlouquecendo,
deixavas sempre os cigarros a meio,
isso ainda era o menos. Nunca
deste pelo estado da tua cabeça.
Cadela que ladra morde o teu sonho
em seu sono no édredon. Detesta
vidros mortos pelos vidros. Juro
cacos, latões de fogo, errata do mundo,
meu, bué meu, a cortar-te as goelas
requinte que não t’amplie a trouxa
da vida toda fodida.

Rui Baião, Nuez, Lisboa: frenesi, 2003.

Oferecido pelo manuel a. domingos.

Selecção natural

Flores de artifício, dois rabos,
corneta e orelha. É só pegar
o silêncio pelos cornos. Não percas
na largada, pamplona, o desassossego
do inimigo rente a nós, ideia do quanto
tudo é mais relativo.
Há bodes pelo telhado, rafeiros
roendo a sombra às concertinas, e tanta,
tanta lenha nova sem pegar.
Todos tão vivaços, invencíveis da vida,
viciados em triunfo, comezaina
e mulheres de companhia. Curral
duplex, o obscuro na faena em si.

Rui Baião, Nuez, Lisboa: frenesi, 2003.

Oferecido pelo manuel a. domingos.

quarta-feira, 4 de Março de 2009

O CARNAVAL DOS ANIMAIS

CÃES - 1

Como o faria um amigo, ou um inimigo, ou um
estranho, olhamo-nos como olham os cães

CÃES - 2

Dormem uns em cima dos outros
no bom aconchego uns dos outros
Assim nem precisam de sonhar

CÃES - 3

Cães de guarda, cães de luta, caniches das estrelas
de Hollywood - parece que no vasto labirinto
das espécies alguma dignidade se perdeu

Rui Caeiro
O Carnaval dos Animais
Letra Livre
Outubro de 2008

12

Onde é que eu ia? Não ia, parece.
Embora tenha ficado um bocado perplexo quando levantei o lençol de água para ver o cão e, em vez dessa evocação clássica, se me deparou uma chusma de pintores chuchando-lhe a carcaça ensanguentada.
Depois encostaram uma escada para o lado, digamos, de fora da moldura, por onde desciam os mais satisfeitos.
Arrotando no espaço da tua distracção, prossegui.

Jorge Fallorca
Água Tatuada
&etc
Março 1999

quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

ELUCIDÁRIO

Cachorro
Quente, é pão com salsicha; frio, novelo de pêlo a dormitar ao lume.

Cães de circo
Raça de canídeos com dois pezinhos.

Cão
Um rabo a sorrir.

Cão de Castro Laboreiro
Se deixarmos levar o que é nosso, não é por falta de guarda.

Galgo
Cão escanzelado, mas não de fome; é de feitio mesmo assim.

Ur e o dono
Vejo-os com frequência. Ur, marfim dos dentes a reluzir, trela tensa presa à coleira; na outra ponta o dono, ar de boneco de pau, cabeça aparafusada directamente no tronco. E a cara, meu Deus, máscara eternamente a rir, olhos azuis.
Noutro dia, os dois por dentro do passeio, eu na borda, passando. Sorrateira, pareceu-me, a tensão da trela aliviou. Sem um latido, o canídeo fez-se ao salto, dentes frenados num esticão rente ao meu braço. E sentou-se a olhar-me por detrás da dentuça frustrada, de viés eu a entrever o dono em ridentes ameaços de castigo. Por Ur ter tentado ou por ter falhado o golpe?

Zurros
De repente, surdiu um vento suão que ensandeceu os bichos. E as galinhas começaram aos coaxos. Sobressaltados, os cães desalmaram-se em relinchos, os porcos em ão ãos desesperados, rãs aos cacarejos, cavalos a grunhir.
- Está tudo doido! – disse de si para si o lavrador.
Tanto bastou para que o vento amainasse, a ordem se restabelecesse: cacarejantes as galinhas, os cavalos aos relinchos, os cães a ladrar, os patos a grasnar, os porcos a grunhir, as rãs aos coaxos.
Enorme banzé!
Incomodado, o lavrador foi-se sem dizer palavra, a mastigar chilreios, misto de rugidos e grugulejos, espécie de uns zurros.

Augusto Baptista
ElucidárioOblíquoDoReinoDosBichosParaCriançasDeTôdalasIdadesFábulasParlengasMofasEnsinançasLuminosasDeAaZComNoventaENoveDesenhosRecomendadoPelaLigaDeDefesaDasLínguasEmPerigoD'Extinção&SuasFaunas
Gatopardo, 2004

Oferecido por
Rui Almeida.

XIII

INTERIOR DE UMA mansarda. O POETA, deitado no catre, medita de olhos semicerrados. Na única cadeira existente, o CÃO. Atrás da porta está pendurada uma gaiola e, dentro da gaiola, o canário enlanguesce. É absolutamente necessário que o pássaro não dê nem um trinado durante todo o tempo que dure este primeiro, único e brevíssimo acto, pelo que se recomenda a utilização de um canário embalsamado ou de pano.

CÃO – Ouve.
POETA – (Sem mudar de posição.) O que é?
CÃO – Tenho fome.
POETA – Eu também, mas não penso nisso.
CÃO – E os ossos de ontem?
POETA – Foram-se.
CÃO – Sozinhos?
POETA – Sozinhos.
CÃO – Como foi isso?
POETA – Foi esta manhã, quando estavas na rua. O miúdo da porteira pôs-se a tocar o seu tambor de folha. Então os ossos levantaram-se e foram-se embora a desfilar três a três.
CÃO – Seriam ossos de soldados.
POETA – Foi precisamente isso que pensei. Não há muito tempo, parece-me, houve uma guerra.

Silêncio. O CÃO volta a apoiar a cabeça entre as patas e o POETA suspira profundamente.

Javier Tomeo
Histórias mínimas
Tradução de Maria Dulce Teles de Menezes e Salvato Teles de Menezes
Livros Horizonte, 1992

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Rui Almeida.

UM GIRASSOL

Poli-Maluco era o meu cão alentejano. Que morreu ontem num dia lindo de sol, com as flores a sorrir das suas cabriolas, com os pássaros a fazerem voo picado sobre as suas orelhas-capacho.
Poli-Maluco era livre de mais para viver: trouxera-o lá do Alentejo, cão de caça, cão de guarda, cão de tudo, cão sem raça, feio e farrusco. Um proletário de cabelos aos arrepios. Para meus filhos: «Pói-Maúco». Para mim: «Pói-meus-filhos».
Tinha um ano de idade: era um cão-garoto, cão-brincalhão, cão-cambalhotas. À tardinha, quando eu voltava do emprego, Poli-Maluco ia esperar-me à camioneta e dava sempre um festival de gracinhas para dono ver: corria como um bólide depois fazia uma travagem brusca no cimento e ficava a patinar uma mão cheia de metros. A seguir voltava aos saltos até ficar pendurado no meu peito, agarrado à camisola. Deitava-se no chão, dois metros adiante de mim, de barriga para o ar, a bater as patinhas: a bater palminhas.
Poli-Maluco tinha tais ganas de ver tudo, de correr tudo, de saber tudo, que parecia adivinhar quanto o tempo da sua vida tinha sido condicionado: meu querido Pói-Maúco era alegre de mais para viver. Meu querido Pói-Maúco era livre de mais para viver: morreu ontem esmagado pelos degredados do cem à hora, pelos prisioneiros da vaidade cromada, numa florida estrada dos arredores de Sintra: Pói-Maúco estava lá do outro lado a brincar com as borboletas e pinga-azeites e de repente deve ter sentido desejos de me falar.
Ficou estendido a meio do caminho: - naquela clara nesga dum trajecto que vai duma borboleta à amizade.

Eduardo Olímpio
Um girassol chamado Beatriz
1975

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Rui Almeida.

(excerto de) Centauro

(…) Tem sede, muita sede, mas ali não há sinal de água. O homem olha para trás e vê que metade do céu está já coberto de nuvens. O sol ilumina o bordo nítido de um grande nimbo cinzento que avança.
É nesse momento que ouve ladrar um cão. O cavalo estremece de nervosismo. O centauro lança-se a galope entre duas colinas, mas o homem não perde o sentido: seguir na direcção do sul. O ladrar está mais perto, e ouve-se também um tilintar de campainhas e depois uma voz falando a gado. O centauro parou para se orientar, porém os ecos enganaram-no e, de súbito, num terreno baixo e húmido inesperado, aparece-lhe um rebanho de cabras e à frente dele um grande cão. O centauro estacou. Algumas das cicatrizes que lhe riscavam o corpo, devia-as aos cães. O pastor deu um grito espavorido e largou a fugir, como louco. Chamava em altos berros: devia haver uma povoação ali perto. O homem dominou o cavalo e avançou. Arrancou um ramo forte de um arbusto para afastar o cão, que se estrangulava a ladrar, de fúria e medo. Mas foi a fúria que prevaleceu: o cão ladeou rapidamente umas pedras e tentou apanhar o centauro de flanco, pelo ventre. O homem quis olhar para trás, ver donde vinha o perigo, mas o cavalo antecipou-se, e rodando veloz sobre as patas da frente, desferiu um violento coice que apanhou o cão no ar. O animal foi bater contra as pedras, morto. Não era a primeira vez que o centauro se defendia assim, mas de todas as vezes o homem se sentia humilhado. No seu próprio corpo batia a ressaca da vibração geral dos músculos, a vaga de energia que deflagrava, ouvia o bater surdo dos cascos, mas estava de costas voltadas para a batalha, não era parte nela, espectador quando muito.
(…)

José Saramago
Objecto Quase
1978

Oferecido por
Rui Almeida.

domingo, 4 de Janeiro de 2009

VAI-TE CÃO DAS NOITES

o mar retirou-se intacto do sangue dos grandes polvos que jazem nas areias
na paisagem desfeita e sempre a refazer procuro
lembranças da maré uma flor de água um rumor de furor
mas há demasiadas pistas confusas caravanas
demasiados sóis empalando nas árvores o seu rancor
demasiados portulanos mentirosos que se afundam
nas linhas de crista eternas divergentes
das formigas gigantes que vão pulindo os ossos
deste silêncio fogoso da boca desta areia
apenas surgirão os dentes cariados da mata ressequida

raiva de um solstício insólito ardente fulvo nas margens da barbárie de um mar tão vacilante
vai-te cão das noites vai-te
inesperado e magno em minhas têmporas
sangrando seguras entre os dentes
a carne que me é fácil de mais reconhecer

Aimé Césaire
Antologia Poética
Trad. Armando da Silva Carvalho
Dom Quixote
1970

IDEIAS FEITAS


CÃO – Especialmente criado para salvar a vida do dono. O cão é o melhor amigo do homem.

DEDICAÇÃO – Lamentar-se de que não existe nos outros. «A este respeito, somos muito inferiores ao cão!»

FIEL – Inseparável de amigo e de cão. Não deixar de citar os dois versos: «Sim, pois que encontro um amigo tão fiel / A minha sorte…» etc.

Gustave Flaubert
Dicionário de ideias feitas
Tradução de João da Fonseca Amaral
Editorial Estampa, 1974
Oferecido por Rui Almeida.

sábado, 20 de Dezembro de 2008

A SIBERIANA


Tenho um favor para te pedir", disse Deus
O cão não disse nada mas cheirou a contentamento e Deus apercebeu-se que nos seus pensamentos, o animal O considerava "o Grande e Odorífico Pai de todas as Matilhas".
" Queres cumprir uma missão na Terra? Eu sei que não é agradável, mas há alguém que precisa de consolo na aflição, quem sabe se de um Anjo da Guarda?"
O cão abanou a cauda suavemente, havia nele curiosidade e um leve odor de receio. Depois levantou-se decidido, deu um pequena volta a guardar memórias das flores e das minúsculas árvores, bebeu um gole na cascata, abanou uma vez mais a cauda em frente ao monge budista e dirigiu-se para a porta onde se sentou à espera.
Deus transformou-o um pouco, deu-lhe a idade apropriada, uma forma indecisa, vagamente de perdigueiro, toco-lhe por um instante no focinho e acompanhou-o a uma das múltiplas portas para a Terra. Umas almas vinham a subir, Deus saudou-as, e encaminhou-as para Pedro que, nos primeiros momentos de eternidade os acompanhava.
Depois ficou a ver.
Maria da Luz ia pela rua abaixo, quase a entrar no carro
Deus aproveitou para dar uma endireitadela numa peça do Amarelinho que estava prestes a partir-se, fez recuar mais duas ou três no tempo para ficarem como novas
Um perdigueiro de olhos sábios mas alegres
"Terá dois meses"? ouviu-a interrogar-se, " de quem será?"
E uma vizinha a explicar do conforto da sua janela onde secava abundante roupa interior de chamativas cores:
"Deve andar perdido, já anda aí às voltas desde manhãzinha. Parece que gostou da menina, não deixou ninguém tocar-lhe... andaram aí uns miúdos que o queriam levar..."
E o rafeiro deu à cauda agitadamente, com o corpo todo a gingar à volta de Maria da Luz e dentadinhas amorosas nos sapatos, as unhas aceradas a furar malhas nas meias de lycra..
Quando a viu baixar-se,
Para afagar, um tanto desajeitada, havia que concordar, o pequeno pedaço de cachorro orelhudo, e dizer para a vizinha
"Se alguém perguntar por ele, se faz favor, diga que sou eu quem o tem..."
Depois, enfim, pegar no refeirito ao colo para entrar com ele no Amarelinho – que pegou primeira e já não fazia aquele ruído esquisito, estranhou Maria da Luz,
Deus suspirou.

Rui da Costa Lopes
A Siberiana
Cãmara Municipal de Sintra
(Prémio Ferreira de Castro 1997)

Oferecido por Ana Gomes Ferreira.

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